1º Ten Geraldo Campos Taitson
Ex-Combatente da 2ª Guerra Mundial

11º RI - Regimento Infantaria - Regimento Tiradentes
São João del-Rei - Minas Gerais

1945 - Rio de Janeiro

Nasceu na Cidade de Ibirité – MG. Admitido no serviço público municipal, trabalhou na Prefeitura de Belo Horizonte - MG, em 1936. Em 1940, ingressou na Companhia Quadros em Belo Horizonte, onde se tornou reservista de 2ª categoria do Exército. Em Janeiro de 1943, foi convocado para integrar a FEB, indo para um Grupo de Combate da 3ª Companhia do I Batalhão do 11º RI. Fez toda a guerra da Itália nesse Regimento. Após sua desincorporação, em 1945, voltou à vida civil. Em 1948, formou-se Técnico em Contabilidade. Em 1951, após ter sido habilitado em concurso público do DASP, foi nomeado Inspetor de Alunos do Ministério da Justiça, indo para Viçosa. Dois anos após, habilitado em concurso público também do DASP, foi nomeado Escriturário do Ministério da Fazenda, com exercício em Niterói – RJ. Em 1959, ainda por concurso público promovido pelo DASP, habilitou-se para o cargo de Oficial Administrativo, tendo permanecido em função na mesma Delegacia Fiscal de Niterói. Em 1960, passou a ter exercício na Alfândega de Santana do Livramento –RS, sendo removido, em 1963, para o Rio de Janeiro. Em 1964, foi para São Paulo e, depois, para Belo Horizonte, onde se aposentou, em 1969, no cargo de Auditor Fiscal da Receita Federal, após 33 anos de serviço, dos quais 2 anos e 9 meses, incorporado ao Exército Nacional. Com base na Lei no 4767/65, requereu e obteve Carta Patente expedida pelo DGP, pela qual é considerado 1º Tenente do Exército da Arma de Infantaria. Em 1974, espontânea e gratuitamente, passou a trabalhar na Associação dos Ex-Combatentes do Brasil e na ANVFEB, ambas em Belo Horizonte. Pela sua participação na guerra, recebeu a Medalha de Campanha.


1º Ten Geraldo Campos Taitson*

*Soldado integrante de Grupo de Combate da 3ª Cia / I Btl / 11º RIE entrevistado em 23 de novembro de 2000.

2005 - Belo Horizonte

No ano de 1939 e no início da década de 1940, em relação à Segunda Guerra Mundial, o ambiente, no Brasil, era de expectativa e de incertezas, porque vivíamos sob a Presidência de Getúlio Vargas, situação em que se tinha uma certa hostilidade no tocante aos Aliados.

O Presidente Getúlio Vargas, que governava como ditador, não era favorável e não só ele, mas também elementos do seu próprio ministério, ao envio de uma força expedicionária para lutar fora do País, pois não viam conveniência em fazê-lo. Mas, no momento em que os alemães se aproximaram das nossas costas, dos nossos muros e vieram para o Atlântico Sul passando a torpedear os nossos navios, o povo e as Forças Armadas se indignaram e obrigaram Getúlio a tomar uma posição, porque, até então, a atitude dele dava a entender que era mais favorável às forças do Eixo do que a dos Aliados.

Esta situação dúbia nos levou à neutralidade. Isso até o momento em que o Brasil aderiu ao Tratado de Havana que estabelecia, entre outras coisas, que quando um país da América fosse atacado, todos os países signatários daquele tratado iriam em socorro do país agredido. E foi exatamente isso que aconteceu: os japoneses atacaram a frota americana aportada em Pearl Harbor, no Havaí, e o Brasil deixou a sua neutralidade para trás, aderindo à campanha dos Aliados.

Na segunda fase, considerada a fase da beligerância, a Força Expedicionária Brasileira se organizou a partir de um movimento geral motivado pelo torpedeamento dos nossos navios. O povo saiu às ruas - naquela época eu tinha 19 anos - depredando estabelecimentos comerciais italianos e alemães. Em Belo Horizonte, eu vi a população invadir lojas e incendiá-las. Assim, Vargas foi pressionado a declarar guerra ao Eixo, não tinha outra solução.

Declarada a guerra, o Presidente da República resolveu por Decreto-Lei – como ditador, ele governava por Decreto-Lei – convocar a sua reserva militar, os reservistas, a integrarem a Força Expedicionária Brasileira. Isso ocorreu em 1943; até aí, nós já tínhamos perdido mais de trinta navios nas nossas costas. Os alemães próximos às nossas águas, às nossas praias torpedeavam os navios mercantes, desarmados, o que levava à morte a população civil, bem como aos integrantes de unidades do Exército que se deslocavam para o Nordeste, por via marítima.

A carga desses navios torpedeados ia para o fundo do mar, porque naquela ocasião nós não tínhamos essa malha rodoviária que temos hoje. O nosso transporte, ligação Norte, Nordeste e Sul, era feito por via marítima, por não existirem as rodovias 116 e 101. A nossa navegação fluvial era precaríssima, nós tínhamos as gaiolas que faziam o transporte de Pirapora para o Norte, mas estas encalhavam nos bancos de areia e só atendiam à população ribeirinha. O trajeto era feito pelo Rio São Francisco, saindo de Pirapora parando na corredeira de Sobradinho. Em razão dos bancos de areia e da incipiente estrutura fluvial, a comunicação Norte-Sul pelo interior do Brasil era extremamente difícil

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Podemos dizer que o Brasil, na verdade, era formado de ilhas sem comunicação. O Norte era uma região, o Nordeste, outra, e o Sul uma outra bem diferente. Isso levou à morte muita gente que precisou utilizar o transporte marítimo; assim, perdemos mais elementos no litoral do que na própria guerra. Ao todo, de 1942 a 1945, lamentamos a morte de, aproximadamente, mil e quinhentos homens, incluindo civis e militares. No mar, sobretudo, no Atlântico Sul, perdemos, aproximadamente, mil homens, mais do que o dobro de nossas mortes na Campanha da Itália, embora, no Teatro de Operações do Mediterrâneo, tivéssemos dois mil e oitocentos feridos, dentre os quais aqueles que ficaram mutilados ou inválidos.

A minha inserção na Força Expedicionária Brasileira ocorreu porque eu servia no 10º Regimento de Infantaria em Belo Horizonte. Embora o Regimento Expedicionário não fosse em Belo Horizonte, e sim em São João Del Rei, o meu Regimento se deslocou como um todo para São João Del Rei, ficando três meses neste local, seguindo depois, para o Rio de Janeiro, como parte do 11º Regimento de Infantaria, porque o efetivo de guerra de um Regimento era bem maior do que o de paz, exigindo, portanto, muito mais pessoal.

Assim, integrando o 11º Regimento de Infantaria, fomos para a Vila Militar onde armaram galpões de madeira e lá permanecemos de março a setembro de 1944, quando viajamos para a Itália. Neste local, nós recebemos instrução baseada numa nova tática, porque a nossa era francesa e, dali para frente, passamos a receber instrução com armas e doutrina americanas.

Na Vila Militar, também, fomos submetidos a exame de saúde por médicos americanos. O nosso exame de saúde inicial foi feito em Belo Horizonte, tratava-se de um rigoroso exame, mas quando nós chegamos à Vila Militar, as nossas condições de saúde foram verificadas pelos médicos norte-americanos, porque íamos ser incorporados ao V Exército americano. E, ali, passamos a ter instrução, com tiro real, nos campos de Gericinó.

Houve exercícios preparatórios visando à guerra que se avizinhava; eram exercícios práticos, utilizando o Campo de Instrução de Gericinó, onde recebíamos treinamento diversificado sempre com tiro real. Inclusive, houve exercício da Infantaria com a Artilharia, além de outros que tínhamos de rastejar debaixo de uma cerca de arame com a metralhadora atirando por cima, a fim de adaptar-nos a uma guerra que se aproximava. Este treinamento, inclusive, prosseguiu quando chegamos à Itália, conforme narrarei a seguir.

O transporte do 11º RI do Rio de Janeiro para a Itália foi feito no 3º escalão, no navio General Meighs, navio-transporte de tropa americano, que partiu junto com o navio General Mann, que levava o Regimento Sampaio, considerado 2º escalão. Ao todo, incluindo a tripulação, em cada navio, foram transportados cinco mil e quinhentos homens. O embarque se processou sem problema, inclusive por estarmos acostumados a fazer exercícios semelhantes, pois, de vez em quando, treinávamos, fazendo o percurso da Vila Militar até o Cais do Porto e voltávamos. Isso visava a dois objetivos: treinar o soldado para o embarque e, ao mesmo tempo, despistar a Quinta-Coluna que estava implantada no Brasil.

Tenho reportagens da época nas minhas pastas, onde guardo os meus alfarrábios, que certifica que a espionagem era muito atuante em nosso País; tínhamos espiões espalhados por todo o Brasil, sobretudo no Rio de Janeiro. Assim, era preciso realizar aquele treinamento que ia até o Cais do Porto e voltava, até que, no dia 22 de setembro de 1944, tomamos, realmente, o navio e fomos para a Itália.

Do Atlântico, entramos no Mar Mediterrâneo e descemos no Porto de Nápoles no dia 6 de outubro, ou seja, 14 dias após deixarmos o Rio de Janeiro. O navio que nos levou até Nápoles era de grande calado e não tinha condições de atracar e desembarcar a tropa no Porto de Livorno. O nosso destino era Pisa e o porto mais próximo, Livorno; então, o trajeto Nápoles-Livorno fizemos em barcaças de desembarque, as LCI.

Após passarmos uma noite terrível, mal acomodados dentro daquelas barcaças, descemos em Livorno, pegamos os caminhões americanos que já nos esperavam e fomos para Pisa, onde acampamos em Tenuta de San Rossore, local que fora campo de caça da família real.

Naquele local, recebemos o armamento e a munição. Os últimos treinamentos foram feitos um pouquinho mais ao norte, em Filetoli, onde se seguiram instruções que se prolongaram noite adentro. Tempo chuvoso, em outubro e novembro chove muito na Itália, e ali nós recebemos, além das armas e da munição, roupa para o frio. Assim, fomos para o front, para o combate.

Eu pertencia à 1a Companhia do 11º Regimento de Infantaria, portanto, não estive no Vale do Rio Serchio. Nesta região, operou o 6º Regimento que chegou com o 1º escalão, o 6º de Caçapava. O 11º foi direto para o front no Vale do Reno, depois de alguns dias reservados para recebermos o armamento. Devíamos realizar um dos ataques a Monte Castelo numa frente difícil. O 1º Regimento já o tinha atacado no dia 29 de novembro, sem sucesso. No primeiro dia em que o 1º Batalhão do 11º foi para a frente de combate, encontramos em Casa Guanella muitos cadáveres empilhados, todos de soldados brasileiros, que morreram no ataque do dia 29 de novembro.

Entramos no front em 1º de dezembro e, no dia seguinte, tivemos um insucesso. Fomos malsucedidos e não sei dizer, precisamente, a razão: dizem que foi uma precipitação do Comandante da 1ª Companhia – o Capitão Cotrim. O fato é que o meu Batalhão teve de recuar sob alegação de que estávamos diante de um golpe de mão alemão, realizado por patrulhas que haviam se infiltrado em nossas linhas. Então, as duas Companhias de 1o escalão do nosso Batalhão – 1ª e 2ª companhias – acabaram retraindo desordenadamente.

Diante disso, houve recomposição de dois dias numa cidade próxima, em um vilarejo, Granaglione. Lá, nos recompomos e voltamos em seguida para o ataque do dia 12 de dezembro ao Monte Castelo, que foi terrível. Na ocasião, o comando da minha Companhia, 3ª Companhia de Fuzileiros, continuava com o Capitão Hésio de Mello Alvim, enquanto que o Batalhão, era comandado pelo Major Jacy Guimarães. As suas 1ª e 2ª companhias tiveram os seus comandantes substituídos.

A 3ª Companhia, em Casa Guanella no dia 2 de dezembro, se saíra muito bem, conduzida, com a correção de sempre, pelo Capitão Hésio e foi muito sacrificada por isso. Em Casa Guanella, quando houve aquele recuo precipitado, a nossa Companhia não se perturbou, tudo se deu com disciplina e controle, sob a supervisão do Capitão Hésio, mas os outros dois comandantes, o Schleder e o Cotrim, se atrapalharam e foram substituídos pelos capitães Meira Mattos e Bueno, que assumiram os comandos das 2ª e 1ª companhias, respectivamente.

O Capitão Bueno, mato-grossense, foi um grande herói. Esteve ferido gravemente na terra de ninguém, ficando lá durante um dia e uma noite quando foi encontrado pelo seu ordenança que o procurou, incansavelmente, até achá-lo, trazendo-o lá da frente quase ao amanhecer, num momento em que a esperança de todos desaparecia. Desse modo, o comandante foi encontrado pela impressionante persistência daquele soldado e trazido de volta, mas em estado grave, em conseqüência dos tiros de metralhadora que recebera no pulmão.

Ele ficou em Belo Horizonte para recuperar-se, alguns colegas meus foram visitálo e viram que ele permanecia bem doente, com sua saúde muito abalada. Naquela época, as pessoas com problemas de pulmão tinham de estar num local com um bom clima. Não soube mais do Capitão Bueno, que foi o Capitão escolhido exatamente para substituir o Comandante da 1ª Companhia e o fez com extrema dignidade.

Assim como o Capitão Bueno substituiu o Cotrim, o Capitão Meira Mattos substituiu o Schleder. Foi preciso tirar esses oficiais de dentro do gabinete do Mascarenhas de Moraes; eram homens de confiança, conhecidos, porque se fazia necessário levantar o moral da tropa; então, tinham de ser capitães de grande confiança do General Mascarenhas de Moraes – o Capitão Bueno era Ajudante-de-Ordens do General Zenóbio da Costa e o Capitão Meira Mattos do próprio General Mascarenhas, ambos se portaram magnificamente. Podemos afirmar que, a partir dessas duas substituições, o I Batalhão se houve de modo admirável, porque as 1ª e 2ª Companhias passaram a atuar de modo semelhante à 3ª, cujo desempenho foi sempre elogiável.

Quanto ao meu batismo de fogo, é necessário lembrar que foi um pouco difícil. Naquela primeira noite, como eu já mencionei, nós tomamos posição em Casa Guanella, de frente para Monte Castelo e lá encontramos aquelas pilhas de cadáveres do ataque malsucedido do 1º RI, alguns dias antes. Mas quando caiu à noite, vivemos aquele quadro tétrico do golpe de mão. Cedo, o Subcomandante da minha Companhia, Tenente José Neves, que estava instalando o pessoal lá em Guanella, debaixo dos tiros de morteiros e das metralhadoras, teve um joelho dilacerado por um estilhaço de granada, daí ele foi para o hospital e não voltou mais ao front. Quem assumiu o Subcomando foi o Tenente Linhares, de Juiz de Fora. Então, ficaram o Comandante, Capitão Ézio, e o Subcomandante, Tenente Linhares.

A frente se estabilizou; foi o período em que veio a neve, cabendo-nos participar de patrulhas e de golpes de mão, atividade permanente, realizada na linha de frente para saber o efetivo da tropa que estava diante da nossa. Toda noite saíam duas ou três patrulhas na alta madrugada para trazer prisioneiros e para saber o que o inimigo vinha fazendo: se estava construindo trincheira, deslocando armas pesadas, tudo a gente procurava saber através das patrulhas. Até que a neve derreteu, aproximando-se a primavera.

Providências tiveram de ser tomadas pelo V Exército e pelo Comando da FEB, dentre as quais concatenar os ataques da 10a de Montanha e da FEB, inclusive, com o auxílio de tanques americanos, para tomar, antes, Belvedere, que ficava no flanco esquerdo do nosso ataque e impedia o nosso êxito contra Monte Castelo. Daquele flanco, representado por Belvedere, recebíamos tiros quase contínuos, pois Belvedere era um monte mais elevado do que Monte Castelo, era a cunha que entrava em nossas veias. Então, nós atacamos Monte Castelo depois da queda de Belvedere, pela ação da 10ª Divisão de Montanha americana. Isso facilitou o nosso avanço vitorioso sobre Castelo em 21 de fevereiro de 1945: com tanques, artilharia e aviação, todos colaboraram, podendo-se dizer que o Senta a Pua entrou rasante em Monte Castelo.

A batalha de Monte Castelo começou às seis horas da manhã e terminou às cinco e meia da tarde, quando o Major Uzeda, 1º RI, fincou a Bandeira do Brasil no local. A minha Companhia ficou em reserva na Ponte de Silla, que estava toda coberta com fumaça fabricada por uma Unidade aliada para proteger esse ponto, visado constantemente pela Artilharia alemã. Assim que a ponte era reconstruída, os alemães, imediatamente, destruíam-na com a sua Artilharia. Então, era preciso manter uma fábrica gerando fumaça o dia todo para cobri-la por sua extrema importância para a ligação entre Pistóia, Porreta-Terme e Bolonha, no Vale do Pó.

Não há dúvida de que o nosso soldado amadureceu na fase das patrulhas, tornando-se, verdadeiramente, profissional. Isso aconteceu nos golpes de mão, na busca do contato com o inimigo através da terra de ninguém, e mesmo nos ataques fracassados, onde o soldado precisa superar-se, precisa buscar novas forças. É, nessa hora, que o sistema psíquico de cada um se revela inferior ou superior.

O pracinha na linha de frente, depois que recebeu o batismo de fogo, fez as patrulhas, bateu e apanhou, tornando-se um verdadeiro soldado. Felizmente, adaptou-se muito bem à guerra, pois foi bem treinado, não só nos Campos de Gericinó, como também em Filetoli, próximo a Pisa. Esse trabalho preparatório, aliado às patrulhas, a verdadeira escola da guerra, possibilitou que o soldado amadurecesse, para enfrentar, com o máximo profissionalismo, o obstáculo representado por Monte Castelo, vencido em 21 de fevereiro de 1945, bem como a batalha decisiva de quatro dias em Montese, que se estendeu de 14 a 17 de abril, onde, com a derrocada alemã, conseguimos abrir o caminho na direção do Vale do Pó.

Em Monte Castelo, os alemães retraíram; antes, porém, ofereceram resistência em Castelnuovo de Vergato no dia 5 de março. Lá, a minha Companhia e o meu Batalhão, foram muito sacrificados porque lutamos para tomar Soprassasso e, em seguida, Castelnuovo de Vergato. Além da artilharia alemã que nos trucidava, existiam as minas colocadas por eles em toda a parte, o que significou para nós a perda de muitos companheiros. O soldado ia progredindo na direção do objetivo, daí a pouco a mina explodia, impedindo que o combatente continuasse sua ação. Quando não morriam, ficavam mutilados para a vida toda. O alemão espalhou naquela região minas pessoais que, muitas vezes, arrancavam o pé do soldado que precisava progredir em terreno desconhecido. Cada mina ativada significava menos um soldado na linha de frente.

Os alemães fugiram para a Região de Montese, que caiu em nossas mãos depois de muita luta, com um sabor especial para nós, mineiros, pois a mesma foi tomada pelo 11º Regimento de São João Del Rei, o querido Regimento Tiradentes, que realizou um ataque, surpreendente e decisivo, desde as primeiras horas.

O ataque foi iniciado no dia 14 de abril, quando a cidade foi tomada, mas os alemães resistiram não só em Montese, como também nas alturas de Serreto, Montebuffone e Montello, mais a direita e mais ao fundo, ocupadas quando perderam Montese. Nessa região, resistiram até o dia 17 de abril. Foi uma luta terrível. Depois desses três dias, desalojamos o inimigo, como o fizemos em Montese, que já estava livre. Os alemães não queriam deixar a região de alturas de Serreto, Montebuffone e Montello que eram as últimas posições que permitiam a defesa em boas condições. Contudo, acabamos por vencer essa tenaz resistência para iniciar o Aproveitamento do Êxito na busca de impedir a retirada do inimigo da Itália.

Os russos já estavam entrando na Alemanha, os americanos já tinham desembarcado na Normandia e já estavam no coração da França; então, tínhamos de andar rápido para tentar o cerco das tropas alemãs em território italiano.

Tomadas as alturas de Montebuffone e Montello, conseguimos o que queríamos: perseguir os alemães no Vale do Pó. Estávamos lutando, até aqui, em uma região montanhosa difícil, quando eles caíram no Vale do Pó, os nossos heróicos soldados da FEB foram atrás deles com a Infantaria transportada nas viaturas da Artilharia. Eles passavam por determinados vilarejos e perguntávamos há quanto tempo os alemães deixaram a área. Principalmente, os da 148ª Divisão contra a qual nós lutávamos desde o Vale do Serchio. Pelas informações dos camponeses, a defasagem entre as tropas alemãs e as nossas era de cerca de duas horas, e nós continuávamos a perseguição, cientes de que estávamos bem perto deles. Até que a Vanguarda da FEB os cercou na Região de Collecchio e Fornovo. Dessa operação, não participamos, porque no Vale do Rio Pó, o 6º RI se deslocou para a direita e o 11º RI seguiu para Noroeste, com o objetivo de ocupar as cidades de Alessandria e Turim.

Lá, em Collecchio e Fornovo, coube ao 6º RI e ao Esquadrão de Reconhecimento Mecanizado cercar e obter a rendição das tropas que lutavam contra nós, compostas de 14.799 soldados, mais de 800 oficiais e até dois generais. Enquanto isso, o nosso Regimento chegou às cidades de Alessandria e Turim e, após ocupá-las, deslocou elementos para Suza, na fronteira com a França. Embora o inimigo estivesse mais concentrado na Região Nordeste, tínhamos de nos espalhar pelo Noroeste da Itália, porque existia o perigo de focos de resistência dos alemães combinados com os fascistas, os camisas pretas. Outro objetivo era evitar que os partisans e comunistas, inimigos figadais dos fascistas, liquidassem, de maneira bárbara, o inimigo. Como a guerra já estava no final, não se justificava uma vingança atroz. Então, a presença do 11º RI nessas regiões evitou que houvesse atrocidades, inclusive, com a população civil indefesa. Por essas razões, deslocamo-nos para o Noroeste da Itália.

Os partisans foram cruéis, fuzilaram o Mussolini em Milão, depois de um julgamento sumário de quinze minutos. Reuniram, na praça principal da cidade, Mussolini, parte do seu Estado-Maior, alguns de seus ministros, todos que ali se encontravam, assim como sua amante, Clara Petracce e os fuzilaram.

Com referência a tomada de Montese, é relevante lembrar a figura do Tenente Iporan, pois sua atuação foi perfeita. Primeiro homem a entrar em Montese, realizou um trabalho espetacular. Lutou bravamente na tomada de Montese buscando, de rua em rua e de casa em casa, desalojar os alemães, porque existiam focos, ninhos de metralhadoras dentro das casas e prédios. O Capitão Divaldo Medrado, do nosso Regimento, por exemplo, foi ferido numa dessas situações, em Montese, por uma metralhadora assestada numa janela de um prédio. Então, era preciso desalojar os alemães. A luta foi duríssima, mas conseguimos sobrepujar o inimigo. Em Montese, enfrentamos o combate mais sangrento da campanha da FEB na Itália.

Vale lembrar que, além da determinação dos alemães de resistir, como se viu em Monte Castelo e Montese, tivemos, pela frente, um outro inimigo – o clima agressivo que se manteve de novembro a fevereiro. O final do ano de 1944 e os meses de janeiro e fevereiro 1945 foram marcados por uma temperatura fria, muito rigorosa: era o inverno que teve de ser enfrentado pela FEB. Numa temperatura de 18º C negativos, cada um se defendia como era possível. A minha Companhia, por exemplo, conseguiu valer-se de uma fazenda italiana. Chegamos lá, encontramos umas famílias, dividimos a casa: a família ficava no segundo andar e nós, no primeiro andar. Isso dava um certo conforto, mas lá não era possível alojar uma Companhia toda. Então, alguns pelotões tiveram de cavar trincheiras, abrigos individuais que foram forrados de feno adquirido dos italianos, que o forneciam para forrarmos o fundo das nossas tocas, das casamatas e dos abrigos para não ficarmos com o pé na lama, dia e noite. A vida era desse jeito: foi assim que conseguimos sobreviver no frio, na neve e na chuva.

Para uma campanha da natureza que esta foi, a nossa gente ainda precisava ter tido mais treinamento; mas, mesmo assim, a atuação dos nossos oficiais e graduados foi admirável. Noventa e nove por cento dos comandantes, dos tenentes e dos sargentos se portaram muitíssimo bem. Agora, sabemos que, numa guerra, se depende muito do sistema nervoso de cada um, alguns tiveram medo, o que os italianos chamam de paura, pavor, e tais elementos, por exemplo na minha Companhia, que eu posso falar com certeza, foram substituídos. O Capitão Ézio era um homem que entendia de Psicologia. Se ele percebesse que um indivíduo estava tomado pelo medo, o que é natural, ele o substituía imediatamente.

Houve uma situação dessas em que um Tenente foi substituído, não convém citar o nome, nem me lembro se ele era da ativa ou da reserva, pois não tivemos tempo para um maior contato, mas ele havia sido designado para uma patrulha de dia, em que íamos na direção de Monte Castelo; a patrulha diurna, como sabemos, é o que há de mais difícil. Então, para a mesma foram selecionados aqueles que tinham mais prática e este Tenente estava “meio verde” para a missão e a patrulha já estava experiente; talvez, tenha pesado a falta de um treinamento mais intenso, por isso o Capitão o substituiu. Nesse caso, a substituição não se relacionou com o medo e sim com a necessidade de maior experiência.

No Grupo de Combate, aconteceu de um sargento ser ferido e o Capitão Ézio, assim que o viu e constatou as suas condições, na mesma hora voltou e pediu a substituição. Esse tipo de substituição aconteceu com o sargento, com o cabo, com o soldado, principalmente quando o sistema nervoso do indivíduo dava sinais de não suportar aquele sofrimento de uma batalha, de uma patrulha, de um golpe de mão. Nesse caso, ele tem de ser substituído, para não atrapalhar os outros elementos, porque todos devem estar em condições de participar das ações na direção do objetivo fixado. Outra lembrança sobre isso é que, na minha Companhia, tivemos um soldado, meu colega, que via o alemão até nas estrelas; então, foi encaminhado para o hospital, não podia permanecer.

O nosso pracinha se agigantou nisso tudo; muitos soldados do meu Pelotão ficavam aborrecidos quando não eram designados para uma patrulha. Ficavam de cara amarrada e eu gostava daquilo. O soldado, depois que se familiariza com a guerra, gosta de sair nas patrulhas, de participar de um golpe de mão, ele não quer ficar parado, quer lutar. Isto é impressionante, por isto o brasileiro surpreendeu.

Outro ponto a salientar nestas lembranças é o relacionamento que mantínhamos com a população local. Não sei se a nossa origem latina ajudou, mas o fato é que em dois meses na Itália já falávamos, quase correntemente, o italiano. O povo se aproximava das nossas barracas e a gente dividia o chocolate, o cigarro, a sobra de comida com eles. O café, principalmente, que eles tanto gostavam e não dispunham.

Então a gente dividia com os italianos o que possuía e se relacionava muito bem. Desse modo, eles tornaram-se nossos amigos. Inclusive, em cada Companhia, havia um elemento local para sair com as patrulhas como guia, porque eles conheciam as trilhas, aquelas ravinas que nos aproximariam do inimigo.

Por muitas vezes, em nossas conversas com os italianos, ficávamos inteirados de casos em que alguns deles tinham parentes em São Paulo e queriam saber como era a vida no Brasil; isso nos aproximava ainda mais. Percebíamos que eram pessoas sofridas que estavam numa região terrível e que padeceram com os alemães durante a guerra.

As palavras que mais se ouviam na linha de frente eram as seguintes: tedesco portate via, quer dizer, o alemão levou embora o que nós tínhamos. Os alemães levavam tudo: a vaca, o carneiro e até os rapazes válidos para trabalhar nas fábricas na Alemanha. Numa das casas em que fui, havia um casal de velhos muito acima dos 70 anos e uma moça que se chamava Virgínia. Perguntei-lhe se ela era só. Ela me disse que tinha vários irmãos, mas tedescos portate via, isto é, eles foram levados para a Alemanha, para trabalharem nas fábricas e plantarem batata e beterraba, e ela havia ficado para cuidar daqueles dois velhos que lá estavam, dando-lhes apoio. Com isso, vemos que um povo que tem a sua terra invadida é um povo muito triste.

Naquela situação, o alemão já estava vivendo à custa dos italianos, pois eles não recebiam suprimentos da Alemanha, comiam o que encontravam na Itália, tomavam do italiano. No final, faltaram remédios e munição.

Tive a felicidade de não precisar do apoio hospitalar oferecido durante a guerra; sabe-se, no entanto, que foi um apoio de excelente qualidade. Colegas meus, que foram feridos e estiveram nos hospitais, ficaram surpresos com o ótimo tratamento recebido. Se o soldado conseguisse chegar com vida ao hospital, dificilmente morreria. Isso porque contavam com pessoal especializado de muito bom nível e todo o material necessário à atividade médica, inclusive com os mais modernos medicamentos existentes, não faltando, também, o plasma.

O americano dá um valor extraordinário ao homem, mas não dá ao material como, por exemplo, à metralhadora. Quanto ao homem, ele dizia: “Demora vinte anos para fazer um soldado, metralhadoras nós fazemos centenas por dia”. Os americanos tinham o homem como centro de tudo. Possuíamos armas à vontade. Caso se perdesse um fuzil, por qualquer motivo, ou este engasgasse, não funcionasse, jogava- se o mesmo fora e se pegava outro, o que evidenciava a perfeição do apoio logístico americano durante a Segunda Guerra Mundial.

Assim como a assistência médica era excelente nos hospitais, o apoio religioso também funcionava muito bem: os padres e os capelães que acompanharam a FEB foram muito eficientes, estavam sempre presentes. A prova disso foi a perda do nosso Frei Orlando, que morreu durante um deslocamento para dar apoio espiritual aos combatentes na frente de combate.

Há três anos, participei de uma excursão que a FEB fez à Itália. Lá pude constatar o reconhecimento do italiano ao empenho e à atuação dos brasileiros na Segunda Guerra, homenageando-nos com dois significativos monumentos: um ao pé de Monte Castelo e outro em Montese, agradecendo à Força Expedicionária Brasileira por ter libertado aquela região do nazi-fascismo. Há trezentos metros do local de onde o Frei Orlando morreu, não há um monumento, mas lá está uma placa fixada no granito com dizeres sobre o Frei, informando o dia, a hora e o local em que morrera. Não fomos ao local exato em que se deu a sua morte, porque é um local íngreme, de difícil acesso, mas tivemos a grande satisfação de vê-lo homenageado.

Diferentemente do apoio logístico prestado aos alemães, o nosso foi perfeito. Não faltou nada para os soldados. Quando podia, a comida ia quente da retaguarda para o homem que estava na frente; quando não, contentávamo-nos em comer a ração K e a ração C, que são caixinhas e latinhas, respectivamente, que têm de tudo.

A ração K, na caixinha de papelão, era mais para a hora do ataque, do movimento, e a latinha da ração C, por ser preciso esquentá-la, era usada numa situação mais parada. Essas embalagens tinham de tudo: queijo fundido, biscoito, suco, sopa, chocolate, cigarro etc. Era suprimento que dava para o sujeito passar o dia, porque havia três caixinhas para o dia e, fora isso, vinha a comida da retaguarda, a chamada ração quente.

Agora, há um detalhe: essa ração quente, que era levada para o soldado na linha de frente, só podia chegar lá antes do dia clarear ou depois que escurecesse, porque o alemão, lá dos Apeninos, bombardeava a tropa que ia levar comida para os que estavam na linha de frente. Assim, a ração passou a ser levada à noite ou de madrugada, buscando a segurança oferecida pela escuridão.

Certa vez, entre a ponte de Silla e Monte Castelo, uma tropa de italianos, usando aquela peninha no chapéu, levava comida para nós. Eles tiveram a sua tropa, tropa de três ou quatro muares, bombardeada, porque o alemão os procurava de binóculo e, assim, bombardeou-os. Esse acontecimento foi aproveitado pela região, pois os italianos das proximidades dirigiram-se até aquele local e levaram a carne dos muares, para se alimentar porque, na Europa, é comum comer carne de cavalo.

O desafio era fazer chegar a alimentação ao destino, naquele terreno acidentado, sujeito ao bombardeio alemão. Quanto ao mais, o que resolvia mesmo era a ração que cada soldado tinha dentro do seu bornal, para as horas difíceis, para as suas patrulhas e para os eventuais bombardeios da tropa que ia levar comida para a gente.

Da dir/esq: João de Jesus, José Leite Rios e Geraldo C. Taitson. Fotografia tirada no período que passou em Roma, de 27 a 31 de janeiro de 1945, Na Piazza dell' Esedra.

Quanto ao alemão, percebia-se que ele já estava cansado da guerra, que já não tinha omesmo poder de fogo, mas eram corajosos na batalha. No início, quando atacado, o alemão era uma fera; no final, depois de Montese, Montello e Montebuffone, exaustos da guerra, tendo oportunidade, os alemães se entregavam. Por várias vezes, eu vi soldados alemães com as mãos para cima, porque não tinham munição, assim como havia escassez de comida, conforme mencionei antes, faltando também medicamentos. E com fome ninguém agüenta lutar, como ferido e com sérias restrições do Serviço de Saúde. Então, premidos por tais circunstâncias, rendiam-se.

Gostaria de enfatizar o fato de a minha Companhia ter sido muito exigida, o que já mencionara, e o ótimo desempenho que obteve, graças à orientação do nosso Capitão Ézio, que era muito eficiente e ponderado. Ele não permitia um excesso sequer do soldado como, por exemplo, tomar vinho exageradamente. No Dia da Vitória – anunciada com a rendição da 148ª Divisão alemã – foi um momento de grande euforia para o soldado; afinal, o maior inimigo tinha, finalmente, se entregado. Mesmo assim, o Capitão manteve o controle, evitando exageros na comemoração.

Durante toda a campanha da FEB, o que me impressionou, profundamente, foi a organização do nosso Exército. Eu não sei se houve a influência estrangeira, mas o Exército Brasileiro ajustou-se perfeitamente a forma de atuação americana. Um ponto a ressaltar é o cumprimento de horário, pois quando se falava: a tropa vai deslocar-se às sete horas da manhã, dez minutos antes estavam os caminhões todos a postos. Caso houvesse problema com esse tipo de viatura, outro era colocado a disposição no momento previsto. A nossa Logística manteve, assim, um desempenho que se aproximou da perfeição, o que merece ser aqui registrado, mesmo considerando o fato de que a mesma se valesse de meios americanos. Cabe destacar, portanto, o emprego desses meios.

O Exército Brasileiro aprendeu muito com o americano, ao valorizar bastante o soldado, inclusive, na parte logística. Para este, não faltava nada: assistência hospitalar, religiosa, alimentícia, bélica etc. Os soldados alimentavam-se do que havia de melhor. O vestuário era adequado, receberam uniformes de frio, apesar de os sacos de dormir, durante a Campanha, por serem em número limitado, terem ficado para uso dos oficiais e sargentos; assim, o soldado, praticamente, não os utilizou.

Houve momentos na Campanha, é interessante destacar, em que se precisou confortar muitos companheiros. No momento em que o soldado se feria, por exemplo, ou demonstrava um pouco de medo, dávamos-lhes uma injeção de ânimo: dizíamos que éramos vitoriosos e que, por isso, iríamos continuar, não entregaríamos uma guerra já ganha. Com essas palavras de estímulo, conseguíamos melhorar o ânimo do soldado, principalmente, quando ferido.

O destaque a registrar na Companhia foi a solidariedade, sendo importante considerar isso. Quando era formada uma patrulha, como eu já disse, todos queriam ir, mas não havia possibilidade de aceitar o voluntariado plenamente; então, o comando designava, entre os voluntários, os soldados necessários, conforme a missão.

Um soldado, de Nova Lima, em Minas Gerais, Benedito Vitalino, sujeito extremamente corajoso, tomou parte em diversas patrulhas perigosas, ficando consagrado pela sua valentia em minha Subunidade. Ele era tão eficiente que o sargento Max Wolf o chamou para integrar-se ao conhecido pelotão suicida, o chamado “SS” brasileiro, respeitadíssimo pelo valor dos homens que o compunham, a começar pelo próprio Max Wolf. Um outro da minha Companhia também foi chamado para integrálo. Era um orgulho fazer parte deste pelotão, ao qual eram atribuídas todas as missões suicidas. Por isso, Max Wolf é, com toda justiça, considerado um dos maiores heróis da FEB.

Nesta guerra, a propaganda foi um meio utilizado com o objetivo de diminuir o moral do oponente. A propaganda inimiga era contra o americano. Os alemães jogavam-na de avião ou dentro de granadas que, ao explodirem, soltavam aqueles panfletos, na linha de frente e, nesses panfletos, os dizeres eram os seguintes: “Por que vocês estão lutando contra os alemães? Nós somos seus amigos, vocês deviam lutar contra os americanos, que exploram vocês, impedindo a exportação de seu café e a exploração do seu petróleo”.

Ainda havia a esfinge com o rosto do Presidente Roosevelt como se fosse uma águia, prendendo com suas garras o Brasil. Isso era comum lá, mas aquilo não tinha influência sobre nós. Absolutamente, nem ligávamos para aquilo. Continuava bem viva em nossas mentes a morte de tantos brasileiros inocentes em nosso litoral pelos covardes torpedeamentos dos mercantes nacionais! O que diziam, por conseguinte, não tinha a menor influência em nosso pessoal!

Outro aspecto que desejo destacar relaciona-se com a participação da Força Aérea Brasileira na Campanha da Itália. A nossa ELO e os aviões do Senta a Pua tiveram um desempenho extraordinário, nesta Campanha. Quando os alemães bombardeavam as nossas tropas, em Monte Castelo, Castelnuovo, Montese, imediatamente, pelo rádio – não o soldado lá na linha de frente – mas o Comandante, ao perceber o fato, ligava para ELO e pedia os aviões, que passavam tranqüilos, observando. Na mesma hora, cessava o bombardeio sobre as nossas linhas, porque eles tinham a possibilidade de localizar a Artilharia alemã. Era um refrigério para os soldados, pois, na mesma hora, cessava o bombardeio. O alemão não queria ver as suas posições de Artilharia identificadas. Então, paravam de atirar tão logo viam os aviões da ELO nos céus. Quando se localizava a Artilharia alemã, imediatamente, pedia-se do avião o tiro da nossa Artilharia para neutralizar aquela peça inimiga que estava nos ameaçando.

No que respeita ao Senta a Pua, seus corajosos pilotos consagraram-se no Teatro de Operações do Mediterrâneo, com uma participação muito importante no ataque vitorioso de Monte Castelo.

Quanto aos preparativos de volta ao Brasil, é necessário considerar que o soldado depois de uma guerra do porte da que nós enfrentamos, já estava com muita saudade do Brasil. Assim, dia e noite, vivia sonhando com o regresso para o qual estava preparado, porque o que ele tinha era uma arma, uma mochila e dois sacos de roupa; logo, estava sempre em condições de viajar. Afinal, a cabeça e o coração estavam sempre no Brasil!

Quando acabou a guerra, fomos para Alessandria e lá permanecemos poucos dias. Concentramo-nos ali e, depois, fomos para o Sul esperar o navio americano, porque os americanos estavam empenhados na guerra contra o Japão. Portanto, não pudemos vir imediatamente para o Brasil, tivemos de ficar a 80 quilômetros de Nápoles, numa cidadezinha, Francolise, acampados, aguardando que os navios americanos viessem nos apanhar para o retorno ao Brasil, que, agora, seria tranqüilo, pois não havia mais o perigo dos submarinos. O Atlântico Sul estava livre daquela ameaça.

No seu retorno, a FEB foi muito bem recebida pelo povo. Ao chegarmos ao Rio de Janeiro, foi decretado feriado municipal e o povo veio todo para a Avenida Rio Branco recepcionar os expedicionários e, ali, tivemos dificuldades em desfilar, porque a população queria se aproximar do soldado, da tropa para tirar o seu emblema, o seu escudo, filmando tudo que era possível. Então, tivemos dificuldades para desfilar, tal era o amor do carioca ao receber a FEB.

Gostaria de expressar-me, criticamente, quanto ao recebimento da FEB no seio do Exército, fazendo, inclusive, um retrospecto desta narrativa, culminando num desabafo. Ao sermos convocados para a guerra, fomos submetidos a rigorosos exames de saúde em Belo Horizonte, no meu caso, 10º RI e na Vila Militar, feitos por médicos americanos e brasileiros.

Era evidente que não podiam mandar para a guerra um elemento com problemas de saúde. Então, todos que iriam integrar a tropa foram submetidos a uma série de exames.

1976

Entretanto, na hora da baixa, retornamos à vida civil, após quase três anos no Exército, sem que nossos chefes tivessem o cuidado de submeter-nos a um novo exame médico, a fim de saber como estava a saúde física e mental dos ex-combatentes, o que é imperdoável. Simplesmente, liberaram a tropa no Rio de Janeiro, separaram as suas economias, deram uma passagem de volta para casa e nada mais. Os próprios febianos, vendo o sofrimento de muitos colegas, cuidaram de fundar em Belo Horizonte, no Rio de Janeiro e em várias partes do País a Associação dos Ex-combatentes, para dar assistência a seus colegas, que tiveram dificuldades para reintegração à vida civil.

Processou-se uma desmobilização precipitada, inconseqüente. Aliás, nós fomos desmobilizados na Itália, antes de chegar ao Brasil, não pertencíamos mais a FEB, pertencíamos parece que à 1ª Região Militar no Rio de Janeiro, e isso foi terrível. Penso que, para esse fato, entrou, também, a parte política, porque o Getúlio Vargas, como ditador, não podia admitir que uma força expedicionária, que se deslocara para ajudar a democratizar o mundo, resolvesse realizar o mesmo no Brasil.

Entendo que o Exército tenha aprendido muito na guerra, porque tivemos em contato com americanos, ingleses e com eles evoluímos bastante, além de enfrentar os alemães que muito sabiam sobre a arte da guerra. Nós demos um passo enorme para a frente, porque nos atualizamos na área militar, em termos de armamento e de doutrina, além de termos divulgado positivamente o nome do Brasil perante à comunidade internacional.

Depois da guerra, tivemos uma missão relacionada com a Alemanha, a missão do General Lira Tavares. Ele foi lá e permaneceu durante quatro anos com os Aliados, dentro da Europa, principalmente na Alemanha, porque esta teve de ser dividida em quatro partes; então, ele foi lá para participar das tratativas representando o nosso governo. Não houve um armistício, houve uma ocupação: dividiram uma parte para a Rússia, uma parte para a França, uma para a Inglaterra e outra para os Estados Unidos. O alemão teve de submeter-se e, lá, o Brasil esteve presente graças à FEB.

A minha participação na Segunda Guerra Mundial, como já mencionei, levoume a filiar-me à Associação dos Ex-combatentes do Brasil, assim como à Associação dos Veteranos da FEB, que eu ajudei a fundar. Por isso, é que estou freqüentemente nos colégios e lá no Museu da FEB, legando, na qualidade de Diretor de Cultura e Civismo da ANVFEB, os meus conhecimentos da campanha aos alunos, para esta juventude de 15 a 17 anos, que está fazendo o 2º grau. Procuro mostrar-lhes que o Brasil hoje, como ontem, deve permanecer atento à manutenção de sua soberania e da integridade de todo o patrimônio nacional.

Lembro-lhes que o nosso País, precisa conservar o que possui, porque percebo através dos jornais, das notícias de rádio e televisão que estrangeiros estão de olho na nossa Amazônia. Durante quinhentos anos, ela foi nossa; então, não podemos perdê-la, precisamos ocupá-la, inclusive deslocando tropas para manter a integridade dessa importante área do território. Como é que nós vamos permitir, se não somos covardes, que nossos filhos, netos ou bisnetos sejam despojados da Amazônia que é patrimônio nosso?

Outro aspecto fundamental que desejo ressaltar é que aqui não há questão racial. Deveríamos ter o Dia da Etnia, para louvar e homenagear o somatório de raças que contribuíram para constituir esse País imenso e imune a conflitos étnicos e religiosos.

O meu discurso é também transmitido ao homem do interior, através de elementos instruídos por nós, em Belo Horizonte, para fazer palestras quando aquele não pode deslocar-se. Então, o cidadão que esteve em Belo Horizonte dirige-se às diversas áreas do Estado de Minas Gerais, para, através de palestras, difundir os ideais dos febianos.

Se tivermos que nos empenhar em outra guerra, desejo que esta seja fora das nossas fronteiras, porque as privações e provações da população são terríveis. Um país em guerra dentro do seu território vê as suas famílias atingidas, moral e materialmente, como tivemos oportunidade de constatar na Itália, onde tudo foi destruído, com o atroz sofrimento do povo, convivendo com a fome e a desagregação familiar.

FONTE:
História Oral do Exército na Segunda Guerra Mundial

FOTOGRAFIAS:
Roberto R. Graciani

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