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1945
- Rio de Janeiro |
Nasceu na Cidade
de Ibirité – MG. Admitido no serviço público
municipal, trabalhou na Prefeitura de Belo Horizonte - MG, em 1936.
Em 1940, ingressou na Companhia Quadros em Belo Horizonte, onde se
tornou reservista de 2ª categoria do Exército. Em Janeiro
de 1943, foi convocado para integrar a FEB, indo para um Grupo de
Combate da 3ª Companhia do I Batalhão do 11º RI.
Fez toda a guerra da Itália nesse Regimento. Após sua
desincorporação, em 1945, voltou à vida civil.
Em 1948, formou-se Técnico em Contabilidade. Em 1951, após
ter sido habilitado em concurso público do DASP, foi nomeado
Inspetor de Alunos do Ministério da Justiça, indo para
Viçosa. Dois anos após, habilitado em concurso público
também do DASP, foi nomeado Escriturário do Ministério
da Fazenda, com exercício em Niterói – RJ. Em
1959, ainda por concurso público promovido pelo DASP, habilitou-se
para o cargo de Oficial Administrativo, tendo permanecido em função
na mesma Delegacia Fiscal de Niterói. Em 1960, passou a ter
exercício na Alfândega de Santana do Livramento –RS,
sendo removido, em 1963, para o Rio de Janeiro. Em 1964, foi para
São Paulo e, depois, para Belo Horizonte, onde se aposentou,
em 1969, no cargo de Auditor Fiscal da Receita Federal, após
33 anos de serviço, dos quais 2 anos e 9 meses, incorporado
ao Exército Nacional. Com base na Lei no 4767/65, requereu
e obteve Carta Patente expedida pelo DGP, pela qual é considerado
1º Tenente do Exército da Arma de Infantaria. Em 1974,
espontânea e gratuitamente, passou a trabalhar na Associação
dos Ex-Combatentes do Brasil e na ANVFEB, ambas em Belo Horizonte.
Pela sua participação na guerra, recebeu a Medalha de
Campanha.
1º Ten Geraldo Campos Taitson*
*Soldado integrante de Grupo de Combate da 3ª Cia / I Btl / 11º
RIE entrevistado em 23 de novembro de 2000.
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| 2005
- Belo Horizonte |
No
ano de 1939 e no início da década de 1940, em relação
à Segunda Guerra Mundial, o ambiente, no Brasil, era de expectativa
e de incertezas, porque vivíamos sob a Presidência de Getúlio
Vargas, situação em que se tinha uma certa hostilidade
no tocante aos Aliados.
O Presidente Getúlio Vargas, que governava como ditador, não
era favorável e não só ele, mas também elementos
do seu próprio ministério, ao envio de uma força
expedicionária para lutar fora do País, pois não
viam conveniência em fazê-lo. Mas, no momento em que os
alemães se aproximaram das nossas costas, dos nossos muros e
vieram para o Atlântico Sul passando a torpedear os nossos navios,
o povo e as Forças Armadas se indignaram e obrigaram Getúlio
a tomar uma posição, porque, até então,
a atitude dele dava a entender que era mais favorável às
forças do Eixo do que a dos Aliados.
Esta
situação dúbia nos levou à neutralidade.
Isso até o momento em que o Brasil aderiu ao Tratado de Havana
que estabelecia, entre outras coisas, que quando um país da América
fosse atacado, todos os países signatários daquele tratado
iriam em socorro do país agredido. E foi exatamente isso que
aconteceu: os japoneses atacaram a frota americana aportada em Pearl
Harbor, no Havaí, e o Brasil deixou a sua neutralidade para trás,
aderindo à campanha dos Aliados.
Na segunda fase, considerada a fase da beligerância, a Força
Expedicionária Brasileira se organizou a partir de um movimento
geral motivado pelo torpedeamento dos nossos navios. O povo saiu às
ruas - naquela época eu tinha 19 anos - depredando estabelecimentos
comerciais italianos e alemães. Em Belo Horizonte, eu vi a população
invadir lojas e incendiá-las. Assim, Vargas foi pressionado a
declarar guerra ao Eixo, não tinha outra solução.
Declarada a guerra, o Presidente da República resolveu por Decreto-Lei
– como ditador, ele governava por Decreto-Lei – convocar
a sua reserva militar, os reservistas, a integrarem a Força Expedicionária
Brasileira. Isso ocorreu em 1943; até aí, nós já
tínhamos perdido mais de trinta navios nas nossas costas. Os
alemães próximos às nossas águas, às
nossas praias torpedeavam os navios mercantes, desarmados, o que levava
à morte a população civil, bem como aos integrantes
de unidades do Exército que se deslocavam para o Nordeste, por
via marítima.
A carga desses navios torpedeados ia para o fundo do mar, porque naquela
ocasião nós não tínhamos essa malha rodoviária
que temos hoje. O nosso transporte, ligação Norte, Nordeste
e Sul, era feito por via marítima, por não existirem as
rodovias 116 e 101. A nossa navegação fluvial era precaríssima,
nós tínhamos as gaiolas que faziam o transporte de Pirapora
para o Norte, mas estas encalhavam nos bancos de areia e só atendiam
à população ribeirinha. O trajeto era feito pelo
Rio São Francisco, saindo de Pirapora parando na corredeira de
Sobradinho. Em razão dos bancos de areia e da incipiente estrutura
fluvial, a comunicação Norte-Sul pelo interior do Brasil
era extremamente difícil
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Dog-Tag
- Tenente Taitson |
Podemos
dizer que o Brasil, na verdade, era formado de ilhas sem comunicação.
O Norte era uma região, o Nordeste, outra, e o Sul uma outra
bem diferente. Isso levou à morte muita gente que precisou utilizar
o transporte marítimo; assim, perdemos mais elementos no litoral
do que na própria guerra. Ao todo, de 1942 a 1945, lamentamos
a morte de, aproximadamente, mil e quinhentos homens, incluindo civis
e militares. No mar, sobretudo, no Atlântico Sul, perdemos, aproximadamente,
mil homens, mais do que o dobro de nossas mortes na Campanha da Itália,
embora, no Teatro de Operações do Mediterrâneo,
tivéssemos dois mil e oitocentos feridos, dentre os quais aqueles
que ficaram mutilados ou inválidos.
A minha inserção na Força Expedicionária
Brasileira ocorreu porque eu servia no 10º Regimento de Infantaria
em Belo Horizonte. Embora o Regimento Expedicionário não
fosse em Belo Horizonte, e sim em São João Del Rei, o
meu Regimento se deslocou como um todo para São João Del
Rei, ficando três meses neste local, seguindo depois, para o Rio
de Janeiro, como parte do 11º Regimento de Infantaria, porque o
efetivo de guerra de um Regimento era bem maior do que o de paz, exigindo,
portanto, muito mais pessoal.
Assim, integrando o 11º Regimento de Infantaria, fomos para a Vila
Militar onde armaram galpões de madeira e lá permanecemos
de março a setembro de 1944, quando viajamos para a Itália.
Neste local, nós recebemos instrução baseada numa
nova tática, porque a nossa era francesa e, dali para frente,
passamos a receber instrução com armas e doutrina americanas.
Na Vila Militar, também, fomos submetidos a exame de saúde
por médicos americanos. O nosso exame de saúde inicial
foi feito em Belo Horizonte, tratava-se de um rigoroso exame, mas quando
nós chegamos à Vila Militar, as nossas condições
de saúde foram verificadas pelos médicos norte-americanos,
porque íamos ser incorporados ao V Exército americano.
E, ali, passamos a ter instrução, com tiro real, nos campos
de Gericinó.
Houve exercícios preparatórios visando à guerra
que se avizinhava; eram exercícios práticos, utilizando
o Campo de Instrução de Gericinó, onde recebíamos
treinamento diversificado sempre com tiro real. Inclusive, houve exercício
da Infantaria com a Artilharia, além de outros que tínhamos
de rastejar debaixo de uma cerca de arame com a metralhadora atirando
por cima, a fim de adaptar-nos a uma guerra que se aproximava. Este
treinamento, inclusive, prosseguiu quando chegamos à Itália,
conforme narrarei a seguir.
O transporte do 11º RI do Rio de Janeiro para a Itália foi
feito no 3º escalão, no navio General Meighs, navio-transporte
de tropa americano, que partiu junto com o navio General Mann, que levava
o Regimento Sampaio, considerado 2º escalão. Ao todo, incluindo
a tripulação, em cada navio, foram transportados cinco
mil e quinhentos homens. O embarque se processou sem problema, inclusive
por estarmos acostumados a fazer exercícios semelhantes, pois,
de vez em quando, treinávamos, fazendo o percurso da Vila Militar
até o Cais do Porto e voltávamos. Isso visava a dois objetivos:
treinar o soldado para o embarque e, ao mesmo tempo, despistar a Quinta-Coluna
que estava implantada no Brasil.
Tenho reportagens da época nas minhas pastas, onde guardo os
meus alfarrábios, que certifica que a espionagem era muito atuante
em nosso País; tínhamos espiões espalhados por
todo o Brasil, sobretudo no Rio de Janeiro. Assim, era preciso realizar
aquele treinamento que ia até o Cais do Porto e voltava, até
que, no dia 22 de setembro de 1944, tomamos, realmente, o navio e fomos
para a Itália.
Do Atlântico, entramos no Mar Mediterrâneo e descemos no
Porto de Nápoles no dia 6 de outubro, ou seja, 14 dias após
deixarmos o Rio de Janeiro. O navio que nos levou até Nápoles
era de grande calado e não tinha condições de atracar
e desembarcar a tropa no Porto de Livorno. O nosso destino era Pisa
e o porto mais próximo, Livorno; então, o trajeto Nápoles-Livorno
fizemos em barcaças de desembarque, as LCI.
Após passarmos uma noite terrível, mal acomodados dentro
daquelas barcaças, descemos em Livorno, pegamos os caminhões
americanos que já nos esperavam e fomos para Pisa, onde acampamos
em Tenuta de San Rossore, local que fora campo de caça da família
real.
Naquele local, recebemos o armamento e a munição. Os últimos
treinamentos foram feitos um pouquinho mais ao norte, em Filetoli, onde
se seguiram instruções que se prolongaram noite adentro.
Tempo chuvoso, em outubro e novembro chove muito na Itália, e
ali nós recebemos, além das armas e da munição,
roupa para o frio. Assim, fomos para o front, para o combate.
Eu pertencia à 1a Companhia do 11º Regimento de Infantaria,
portanto, não estive no Vale do Rio Serchio. Nesta região,
operou o 6º Regimento que chegou com o 1º escalão,
o 6º de Caçapava. O 11º foi direto para o front no
Vale do Reno, depois de alguns dias reservados para recebermos o armamento.
Devíamos realizar um dos ataques a Monte Castelo numa frente
difícil. O 1º Regimento já o tinha atacado no dia
29 de novembro, sem sucesso. No primeiro dia em que o 1º Batalhão
do 11º foi para a frente de combate, encontramos em Casa Guanella
muitos cadáveres empilhados, todos de soldados brasileiros, que
morreram no ataque do dia 29 de novembro.
Entramos no front em 1º de dezembro e, no dia seguinte, tivemos
um insucesso. Fomos malsucedidos e não sei dizer, precisamente,
a razão: dizem que foi uma precipitação do Comandante
da 1ª Companhia – o Capitão Cotrim. O fato é
que o meu Batalhão teve de recuar sob alegação
de que estávamos diante de um golpe de mão alemão,
realizado por patrulhas que haviam se infiltrado em nossas linhas. Então,
as duas Companhias de 1o escalão do nosso Batalhão –
1ª e 2ª companhias – acabaram retraindo desordenadamente.
Diante disso, houve recomposição de dois dias numa cidade
próxima, em um vilarejo, Granaglione. Lá, nos recompomos
e voltamos em seguida para o ataque do dia 12 de dezembro ao Monte Castelo,
que foi terrível. Na ocasião, o comando da minha Companhia,
3ª Companhia de Fuzileiros, continuava com o Capitão Hésio
de Mello Alvim, enquanto que o Batalhão, era comandado pelo Major
Jacy Guimarães. As suas 1ª e 2ª companhias tiveram
os seus comandantes substituídos.
A 3ª Companhia, em Casa Guanella no dia 2 de dezembro, se saíra
muito bem, conduzida, com a correção de sempre, pelo Capitão
Hésio e foi muito sacrificada por isso. Em Casa Guanella, quando
houve aquele recuo precipitado, a nossa Companhia não se perturbou,
tudo se deu com disciplina e controle, sob a supervisão do Capitão
Hésio, mas os outros dois comandantes, o Schleder e o Cotrim,
se atrapalharam e foram substituídos pelos capitães Meira
Mattos e Bueno, que assumiram os comandos das 2ª e 1ª companhias,
respectivamente.
O Capitão Bueno, mato-grossense, foi um grande herói.
Esteve ferido gravemente na terra de ninguém, ficando lá
durante um dia e uma noite quando foi encontrado pelo seu ordenança
que o procurou, incansavelmente, até achá-lo, trazendo-o
lá da frente quase ao amanhecer, num momento em que a esperança
de todos desaparecia. Desse modo, o comandante foi encontrado pela impressionante
persistência daquele soldado e trazido de volta, mas em estado
grave, em conseqüência dos tiros de metralhadora que recebera
no pulmão.
Ele ficou em Belo Horizonte para recuperar-se, alguns colegas meus foram
visitálo e viram que ele permanecia bem doente, com sua saúde
muito abalada. Naquela época, as pessoas com problemas de pulmão
tinham de estar num local com um bom clima. Não soube mais do
Capitão Bueno, que foi o Capitão escolhido exatamente
para substituir o Comandante da 1ª Companhia e o fez com extrema
dignidade.
Assim como o Capitão Bueno substituiu o Cotrim, o Capitão
Meira Mattos substituiu o Schleder. Foi preciso tirar esses oficiais
de dentro do gabinete do Mascarenhas de Moraes; eram homens de confiança,
conhecidos, porque se fazia necessário levantar o moral da tropa;
então, tinham de ser capitães de grande confiança
do General Mascarenhas de Moraes – o Capitão Bueno era
Ajudante-de-Ordens do General Zenóbio da Costa e o Capitão
Meira Mattos do próprio General Mascarenhas, ambos se portaram
magnificamente. Podemos afirmar que, a partir dessas duas substituições,
o I Batalhão se houve de modo admirável, porque as 1ª
e 2ª Companhias passaram a atuar de modo semelhante à 3ª,
cujo desempenho foi sempre elogiável.
Quanto ao meu batismo de fogo, é necessário lembrar que
foi um pouco difícil. Naquela primeira noite, como eu já
mencionei, nós tomamos posição em Casa Guanella,
de frente para Monte Castelo e lá encontramos aquelas pilhas
de cadáveres do ataque malsucedido do 1º RI, alguns dias
antes. Mas quando caiu à noite, vivemos aquele quadro tétrico
do golpe de mão. Cedo, o Subcomandante da minha Companhia, Tenente
José Neves, que estava instalando o pessoal lá em Guanella,
debaixo dos tiros de morteiros e das metralhadoras, teve um joelho dilacerado
por um estilhaço de granada, daí ele foi para o hospital
e não voltou mais ao front. Quem assumiu o Subcomando foi o Tenente
Linhares, de Juiz de Fora. Então, ficaram o Comandante, Capitão
Ézio, e o Subcomandante, Tenente Linhares.
A frente se estabilizou; foi o período em que veio a neve, cabendo-nos
participar de patrulhas e de golpes de mão, atividade permanente,
realizada na linha de frente para saber o efetivo da tropa que estava
diante da nossa. Toda noite saíam duas ou três patrulhas
na alta madrugada para trazer prisioneiros e para saber o que o inimigo
vinha fazendo: se estava construindo trincheira, deslocando armas pesadas,
tudo a gente procurava saber através das patrulhas. Até
que a neve derreteu, aproximando-se a primavera.
Providências tiveram de ser tomadas pelo V Exército e pelo
Comando da FEB, dentre as quais concatenar os ataques da 10a de Montanha
e da FEB, inclusive, com o auxílio de tanques americanos, para
tomar, antes, Belvedere, que ficava no flanco esquerdo do nosso ataque
e impedia o nosso êxito contra Monte Castelo. Daquele flanco,
representado por Belvedere, recebíamos tiros quase contínuos,
pois Belvedere era um monte mais elevado do que Monte Castelo, era a
cunha que entrava em nossas veias. Então, nós atacamos
Monte Castelo depois da queda de Belvedere, pela ação
da 10ª Divisão de Montanha americana. Isso facilitou o nosso
avanço vitorioso sobre Castelo em 21 de fevereiro de 1945: com
tanques, artilharia e aviação, todos colaboraram, podendo-se
dizer que o Senta a Pua entrou rasante em Monte Castelo.
A batalha de Monte Castelo começou às seis horas da manhã
e terminou às cinco e meia da tarde, quando o Major Uzeda, 1º
RI, fincou a Bandeira do Brasil no local. A minha Companhia ficou em
reserva na Ponte de Silla, que estava toda coberta com fumaça
fabricada por uma Unidade aliada para proteger esse ponto, visado constantemente
pela Artilharia alemã. Assim que a ponte era reconstruída,
os alemães, imediatamente, destruíam-na com a sua Artilharia.
Então, era preciso manter uma fábrica gerando fumaça
o dia todo para cobri-la por sua extrema importância para a ligação
entre Pistóia, Porreta-Terme e Bolonha, no Vale do Pó.
Não há dúvida de que o nosso soldado amadureceu
na fase das patrulhas, tornando-se, verdadeiramente, profissional. Isso
aconteceu nos golpes de mão, na busca do contato com o inimigo
através da terra de ninguém, e mesmo nos ataques fracassados,
onde o soldado precisa superar-se, precisa buscar novas forças.
É, nessa hora, que o sistema psíquico de cada um se revela
inferior ou superior.
O pracinha na linha de frente, depois que recebeu o batismo de fogo,
fez as patrulhas, bateu e apanhou, tornando-se um verdadeiro soldado.
Felizmente, adaptou-se muito bem à guerra, pois foi bem treinado,
não só nos Campos de Gericinó, como também
em Filetoli, próximo a Pisa. Esse trabalho preparatório,
aliado às patrulhas, a verdadeira escola da guerra, possibilitou
que o soldado amadurecesse, para enfrentar, com o máximo profissionalismo,
o obstáculo representado por Monte Castelo, vencido em 21 de
fevereiro de 1945, bem como a batalha decisiva de quatro dias em Montese,
que se estendeu de 14 a 17 de abril, onde, com a derrocada alemã,
conseguimos abrir o caminho na direção do Vale do Pó.
Em Monte Castelo, os alemães retraíram; antes, porém,
ofereceram resistência em Castelnuovo de Vergato no dia 5 de março.
Lá, a minha Companhia e o meu Batalhão, foram muito sacrificados
porque lutamos para tomar Soprassasso e, em seguida, Castelnuovo de
Vergato. Além da artilharia alemã que nos trucidava, existiam
as minas colocadas por eles em toda a parte, o que significou para nós
a perda de muitos companheiros. O soldado ia progredindo na direção
do objetivo, daí a pouco a mina explodia, impedindo que o combatente
continuasse sua ação. Quando não morriam, ficavam
mutilados para a vida toda. O alemão espalhou naquela região
minas pessoais que, muitas vezes, arrancavam o pé do soldado
que precisava progredir em terreno desconhecido. Cada mina ativada significava
menos um soldado na linha de frente.
Os alemães fugiram para a Região de Montese, que caiu
em nossas mãos depois de muita luta, com um sabor especial para
nós, mineiros, pois a mesma foi tomada pelo 11º Regimento
de São João Del Rei, o querido Regimento Tiradentes, que
realizou um ataque, surpreendente e decisivo, desde as primeiras horas.
O ataque foi iniciado no dia 14 de abril, quando a cidade foi tomada,
mas os alemães resistiram não só em Montese, como
também nas alturas de Serreto, Montebuffone e Montello, mais
a direita e mais ao fundo, ocupadas quando perderam Montese. Nessa região,
resistiram até o dia 17 de abril. Foi uma luta terrível.
Depois desses três dias, desalojamos o inimigo, como o fizemos
em Montese, que já estava livre. Os alemães não
queriam deixar a região de alturas de Serreto, Montebuffone e
Montello que eram as últimas posições que permitiam
a defesa em boas condições. Contudo, acabamos por vencer
essa tenaz resistência para iniciar o Aproveitamento do Êxito
na busca de impedir a retirada do inimigo da Itália.
Os russos já estavam entrando na Alemanha, os americanos já
tinham desembarcado na Normandia e já estavam no coração
da França; então, tínhamos de andar rápido
para tentar o cerco das tropas alemãs em território italiano.
Tomadas as alturas de Montebuffone e Montello, conseguimos o que queríamos:
perseguir os alemães no Vale do Pó. Estávamos lutando,
até aqui, em uma região montanhosa difícil, quando
eles caíram no Vale do Pó, os nossos heróicos soldados
da FEB foram atrás deles com a Infantaria transportada nas viaturas
da Artilharia. Eles passavam por determinados vilarejos e perguntávamos
há quanto tempo os alemães deixaram a área. Principalmente,
os da 148ª Divisão contra a qual nós lutávamos
desde o Vale do Serchio. Pelas informações dos camponeses,
a defasagem entre as tropas alemãs e as nossas era de cerca de
duas horas, e nós continuávamos a perseguição,
cientes de que estávamos bem perto deles. Até que a Vanguarda
da FEB os cercou na Região de Collecchio e Fornovo. Dessa operação,
não participamos, porque no Vale do Rio Pó, o 6º
RI se deslocou para a direita e o 11º RI seguiu para Noroeste,
com o objetivo de ocupar as cidades de Alessandria e Turim.
Lá, em Collecchio e Fornovo, coube ao 6º RI e ao Esquadrão
de Reconhecimento Mecanizado cercar e obter a rendição
das tropas que lutavam contra nós, compostas de 14.799 soldados,
mais de 800 oficiais e até dois generais. Enquanto isso, o nosso
Regimento chegou às cidades de Alessandria e Turim e, após
ocupá-las, deslocou elementos para Suza, na fronteira com a França.
Embora o inimigo estivesse mais concentrado na Região Nordeste,
tínhamos de nos espalhar pelo Noroeste da Itália, porque
existia o perigo de focos de resistência dos alemães combinados
com os fascistas, os camisas pretas. Outro objetivo era evitar que os
partisans e comunistas, inimigos figadais dos fascistas, liquidassem,
de maneira bárbara, o inimigo. Como a guerra já estava
no final, não se justificava uma vingança atroz. Então,
a presença do 11º RI nessas regiões evitou que houvesse
atrocidades, inclusive, com a população civil indefesa.
Por essas razões, deslocamo-nos para o Noroeste da Itália.
Os partisans foram cruéis, fuzilaram o Mussolini em Milão,
depois de um julgamento sumário de quinze minutos. Reuniram,
na praça principal da cidade, Mussolini, parte do seu Estado-Maior,
alguns de seus ministros, todos que ali se encontravam, assim como sua
amante, Clara Petracce e os fuzilaram.
Com referência a tomada de Montese, é relevante lembrar
a figura do Tenente Iporan, pois sua atuação foi perfeita.
Primeiro homem a entrar em Montese, realizou um trabalho espetacular.
Lutou bravamente na tomada de Montese buscando, de rua em rua e de casa
em casa, desalojar os alemães, porque existiam focos, ninhos
de metralhadoras dentro das casas e prédios. O Capitão
Divaldo Medrado, do nosso Regimento, por exemplo, foi ferido numa dessas
situações, em Montese, por uma metralhadora assestada
numa janela de um prédio. Então, era preciso desalojar
os alemães. A luta foi duríssima, mas conseguimos sobrepujar
o inimigo. Em Montese, enfrentamos o combate mais sangrento da campanha
da FEB na Itália.
Vale lembrar que, além da determinação dos alemães
de resistir, como se viu em Monte Castelo e Montese, tivemos, pela frente,
um outro inimigo – o clima agressivo que se manteve de novembro
a fevereiro. O final do ano de 1944 e os meses de janeiro e fevereiro
1945 foram marcados por uma temperatura fria, muito rigorosa: era o
inverno que teve de ser enfrentado pela FEB. Numa temperatura de 18º
C negativos, cada um se defendia como era possível. A minha Companhia,
por exemplo, conseguiu valer-se de uma fazenda italiana. Chegamos lá,
encontramos umas famílias, dividimos a casa: a família
ficava no segundo andar e nós, no primeiro andar. Isso dava um
certo conforto, mas lá não era possível alojar
uma Companhia toda. Então, alguns pelotões tiveram de
cavar trincheiras, abrigos individuais que foram forrados de feno adquirido
dos italianos, que o forneciam para forrarmos o fundo das nossas tocas,
das casamatas e dos abrigos para não ficarmos com o pé
na lama, dia e noite. A vida era desse jeito: foi assim que conseguimos
sobreviver no frio, na neve e na chuva.
Para uma campanha da natureza que esta foi, a nossa gente ainda precisava
ter tido mais treinamento; mas, mesmo assim, a atuação
dos nossos oficiais e graduados foi admirável. Noventa e nove
por cento dos comandantes, dos tenentes e dos sargentos se portaram
muitíssimo bem. Agora, sabemos que, numa guerra, se depende muito
do sistema nervoso de cada um, alguns tiveram medo, o que os italianos
chamam de paura, pavor, e tais elementos, por exemplo na minha Companhia,
que eu posso falar com certeza, foram substituídos. O Capitão
Ézio era um homem que entendia de Psicologia. Se ele percebesse
que um indivíduo estava tomado pelo medo, o que é natural,
ele o substituía imediatamente.
Houve uma situação dessas em que um Tenente foi substituído,
não convém citar o nome, nem me lembro se ele era da ativa
ou da reserva, pois não tivemos tempo para um maior contato,
mas ele havia sido designado para uma patrulha de dia, em que íamos
na direção de Monte Castelo; a patrulha diurna, como sabemos,
é o que há de mais difícil. Então, para
a mesma foram selecionados aqueles que tinham mais prática e
este Tenente estava “meio verde” para a missão e
a patrulha já estava experiente; talvez, tenha pesado a falta
de um treinamento mais intenso, por isso o Capitão o substituiu.
Nesse caso, a substituição não se relacionou com
o medo e sim com a necessidade de maior experiência.
No Grupo de Combate, aconteceu de um sargento ser ferido e o Capitão
Ézio, assim que o viu e constatou as suas condições,
na mesma hora voltou e pediu a substituição. Esse tipo
de substituição aconteceu com o sargento, com o cabo,
com o soldado, principalmente quando o sistema nervoso do indivíduo
dava sinais de não suportar aquele sofrimento de uma batalha,
de uma patrulha, de um golpe de mão. Nesse caso, ele tem de ser
substituído, para não atrapalhar os outros elementos,
porque todos devem estar em condições de participar das
ações na direção do objetivo fixado. Outra
lembrança sobre isso é que, na minha Companhia, tivemos
um soldado, meu colega, que via o alemão até nas estrelas;
então, foi encaminhado para o hospital, não podia permanecer.
O nosso pracinha se agigantou nisso tudo; muitos soldados do meu Pelotão
ficavam aborrecidos quando não eram designados para uma patrulha.
Ficavam de cara amarrada e eu gostava daquilo. O soldado, depois que
se familiariza com a guerra, gosta de sair nas patrulhas, de participar
de um golpe de mão, ele não quer ficar parado, quer lutar.
Isto é impressionante, por isto o brasileiro surpreendeu.
Outro ponto a salientar nestas lembranças é o relacionamento
que mantínhamos com a população local. Não
sei se a nossa origem latina ajudou, mas o fato é que em dois
meses na Itália já falávamos, quase correntemente,
o italiano. O povo se aproximava das nossas barracas e a gente dividia
o chocolate, o cigarro, a sobra de comida com eles. O café, principalmente,
que eles tanto gostavam e não dispunham.
Então a gente dividia com os italianos o que possuía e
se relacionava muito bem. Desse modo, eles tornaram-se nossos amigos.
Inclusive, em cada Companhia, havia um elemento local para sair com
as patrulhas como guia, porque eles conheciam as trilhas, aquelas ravinas
que nos aproximariam do inimigo.
Por muitas vezes, em nossas conversas com os italianos, ficávamos
inteirados de casos em que alguns deles tinham parentes em São
Paulo e queriam saber como era a vida no Brasil; isso nos aproximava
ainda mais. Percebíamos que eram pessoas sofridas que estavam
numa região terrível e que padeceram com os alemães
durante a guerra.
As palavras que mais se ouviam na linha de frente eram as seguintes:
tedesco portate via, quer dizer, o alemão levou embora o que
nós tínhamos. Os alemães levavam tudo: a vaca,
o carneiro e até os rapazes válidos para trabalhar nas
fábricas na Alemanha. Numa das casas em que fui, havia um casal
de velhos muito acima dos 70 anos e uma moça que se chamava Virgínia.
Perguntei-lhe se ela era só. Ela me disse que tinha vários
irmãos, mas tedescos portate via, isto é, eles foram levados
para a Alemanha, para trabalharem nas fábricas e plantarem batata
e beterraba, e ela havia ficado para cuidar daqueles dois velhos que
lá estavam, dando-lhes apoio. Com isso, vemos que um povo que
tem a sua terra invadida é um povo muito triste.
Naquela situação, o alemão já estava vivendo
à custa dos italianos, pois eles não recebiam suprimentos
da Alemanha, comiam o que encontravam na Itália, tomavam do italiano.
No final, faltaram remédios e munição.
Tive a felicidade de não precisar do apoio hospitalar oferecido
durante a guerra; sabe-se, no entanto, que foi um apoio de excelente
qualidade. Colegas meus, que foram feridos e estiveram nos hospitais,
ficaram surpresos com o ótimo tratamento recebido. Se o soldado
conseguisse chegar com vida ao hospital, dificilmente morreria. Isso
porque contavam com pessoal especializado de muito bom nível
e todo o material necessário à atividade médica,
inclusive com os mais modernos medicamentos existentes, não faltando,
também, o plasma.
O americano dá um valor extraordinário ao homem, mas não
dá ao material como, por exemplo, à metralhadora. Quanto
ao homem, ele dizia: “Demora vinte anos para fazer um soldado,
metralhadoras nós fazemos centenas por dia”. Os americanos
tinham o homem como centro de tudo. Possuíamos armas à
vontade. Caso se perdesse um fuzil, por qualquer motivo, ou este engasgasse,
não funcionasse, jogava- se o mesmo fora e se pegava outro, o
que evidenciava a perfeição do apoio logístico
americano durante a Segunda Guerra Mundial.
Assim como a assistência médica era excelente nos hospitais,
o apoio religioso também funcionava muito bem: os padres e os
capelães que acompanharam a FEB foram muito eficientes, estavam
sempre presentes. A prova disso foi a perda do nosso Frei Orlando, que
morreu durante um deslocamento para dar apoio espiritual aos combatentes
na frente de combate.
Há três anos, participei de uma excursão que a FEB
fez à Itália. Lá pude constatar o reconhecimento
do italiano ao empenho e à atuação dos brasileiros
na Segunda Guerra, homenageando-nos com dois significativos monumentos:
um ao pé de Monte Castelo e outro em Montese, agradecendo à
Força Expedicionária Brasileira por ter libertado aquela
região do nazi-fascismo. Há trezentos metros do local
de onde o Frei Orlando morreu, não há um monumento, mas
lá está uma placa fixada no granito com dizeres sobre
o Frei, informando o dia, a hora e o local em que morrera. Não
fomos ao local exato em que se deu a sua morte, porque é um local
íngreme, de difícil acesso, mas tivemos a grande satisfação
de vê-lo homenageado.
Diferentemente do apoio logístico prestado aos alemães,
o nosso foi perfeito. Não faltou nada para os soldados. Quando
podia, a comida ia quente da retaguarda para o homem que estava na frente;
quando não, contentávamo-nos em comer a ração
K e a ração C, que são caixinhas e latinhas, respectivamente,
que têm de tudo.
A ração K, na caixinha de papelão, era mais para
a hora do ataque, do movimento, e a latinha da ração C,
por ser preciso esquentá-la, era usada numa situação
mais parada. Essas embalagens tinham de tudo: queijo fundido, biscoito,
suco, sopa, chocolate, cigarro etc. Era suprimento que dava para o sujeito
passar o dia, porque havia três caixinhas para o dia e, fora isso,
vinha a comida da retaguarda, a chamada ração quente.
Agora, há um detalhe: essa ração quente, que era
levada para o soldado na linha de frente, só podia chegar lá
antes do dia clarear ou depois que escurecesse, porque o alemão,
lá dos Apeninos, bombardeava a tropa que ia levar comida para
os que estavam na linha de frente. Assim, a ração passou
a ser levada à noite ou de madrugada, buscando a segurança
oferecida pela escuridão.
Certa vez, entre a ponte de Silla e Monte Castelo, uma tropa de italianos,
usando aquela peninha no chapéu, levava comida para nós.
Eles tiveram a sua tropa, tropa de três ou quatro muares, bombardeada,
porque o alemão os procurava de binóculo e, assim, bombardeou-os.
Esse acontecimento foi aproveitado pela região, pois os italianos
das proximidades dirigiram-se até aquele local e levaram a carne
dos muares, para se alimentar porque, na Europa, é comum comer
carne de cavalo.
O desafio era fazer chegar a alimentação ao destino, naquele
terreno acidentado, sujeito ao bombardeio alemão. Quanto ao mais,
o que resolvia mesmo era a ração que cada soldado tinha
dentro do seu bornal, para as horas difíceis, para as suas patrulhas
e para os eventuais bombardeios da tropa que ia levar comida para a
gente.
|
Da
dir/esq: João de Jesus, José
Leite Rios e Geraldo C. Taitson. Fotografia
tirada no período que passou em Roma, de 27 a 31 de janeiro
de 1945, Na Piazza dell' Esedra. |
Quanto
ao alemão, percebia-se que ele já estava cansado da guerra,
que já não tinha omesmo poder de fogo, mas eram corajosos
na batalha. No início, quando atacado, o alemão era uma
fera; no final, depois de Montese, Montello e Montebuffone, exaustos
da guerra, tendo oportunidade, os alemães se entregavam. Por
várias vezes, eu vi soldados alemães com as mãos
para cima, porque não tinham munição, assim como
havia escassez de comida, conforme mencionei antes, faltando também
medicamentos. E com fome ninguém agüenta lutar, como ferido
e com sérias restrições do Serviço de Saúde.
Então, premidos por tais circunstâncias, rendiam-se.
Gostaria de enfatizar o fato de a minha Companhia ter sido muito exigida,
o que já mencionara, e o ótimo desempenho que obteve,
graças à orientação do nosso Capitão
Ézio, que era muito eficiente e ponderado. Ele não permitia
um excesso sequer do soldado como, por exemplo, tomar vinho exageradamente.
No Dia da Vitória – anunciada com a rendição
da 148ª Divisão alemã – foi um momento de grande
euforia para o soldado; afinal, o maior inimigo tinha, finalmente, se
entregado. Mesmo assim, o Capitão manteve o controle, evitando
exageros na comemoração.
Durante toda a campanha da FEB, o que me impressionou, profundamente,
foi a organização do nosso Exército. Eu não
sei se houve a influência estrangeira, mas o Exército Brasileiro
ajustou-se perfeitamente a forma de atuação americana.
Um ponto a ressaltar é o cumprimento de horário, pois
quando se falava: a tropa vai deslocar-se às sete horas da manhã,
dez minutos antes estavam os caminhões todos a postos. Caso houvesse
problema com esse tipo de viatura, outro era colocado a disposição
no momento previsto. A nossa Logística manteve, assim, um desempenho
que se aproximou da perfeição, o que merece ser aqui registrado,
mesmo considerando o fato de que a mesma se valesse de meios americanos.
Cabe destacar, portanto, o emprego desses meios.
O Exército Brasileiro aprendeu muito com o americano, ao valorizar
bastante o soldado, inclusive, na parte logística. Para este,
não faltava nada: assistência hospitalar, religiosa, alimentícia,
bélica etc. Os soldados alimentavam-se do que havia de melhor.
O vestuário era adequado, receberam uniformes de frio, apesar
de os sacos de dormir, durante a Campanha, por serem em número
limitado, terem ficado para uso dos oficiais e sargentos; assim, o soldado,
praticamente, não os utilizou.
Houve momentos na Campanha, é interessante destacar, em que se
precisou confortar muitos companheiros. No momento em que o soldado
se feria, por exemplo, ou demonstrava um pouco de medo, dávamos-lhes
uma injeção de ânimo: dizíamos que éramos
vitoriosos e que, por isso, iríamos continuar, não entregaríamos
uma guerra já ganha. Com essas palavras de estímulo, conseguíamos
melhorar o ânimo do soldado, principalmente, quando ferido.
O destaque a registrar na Companhia foi a solidariedade, sendo importante
considerar isso. Quando era formada uma patrulha, como eu já
disse, todos queriam ir, mas não havia possibilidade de aceitar
o voluntariado plenamente; então, o comando designava, entre
os voluntários, os soldados necessários, conforme a missão.
Um soldado, de Nova Lima, em Minas Gerais, Benedito Vitalino, sujeito
extremamente corajoso, tomou parte em diversas patrulhas perigosas,
ficando consagrado pela sua valentia em minha Subunidade. Ele era tão
eficiente que o sargento Max Wolf o chamou para integrar-se ao conhecido
pelotão suicida, o chamado “SS” brasileiro, respeitadíssimo
pelo valor dos homens que o compunham, a começar pelo próprio
Max Wolf. Um outro da minha Companhia também foi chamado para
integrálo. Era um orgulho fazer parte deste pelotão, ao
qual eram atribuídas todas as missões suicidas. Por isso,
Max Wolf é, com toda justiça, considerado um dos maiores
heróis da FEB.
Nesta guerra, a propaganda foi um meio utilizado com o objetivo de diminuir
o moral do oponente. A propaganda inimiga era contra o americano. Os
alemães jogavam-na de avião ou dentro de granadas que,
ao explodirem, soltavam aqueles panfletos, na linha de frente e, nesses
panfletos, os dizeres eram os seguintes: “Por que vocês
estão lutando contra os alemães? Nós somos seus
amigos, vocês deviam lutar contra os americanos, que exploram
vocês, impedindo a exportação de seu café
e a exploração do seu petróleo”.
Ainda havia a esfinge com o rosto do Presidente Roosevelt como se fosse
uma águia, prendendo com suas garras o Brasil. Isso era comum
lá, mas aquilo não tinha influência sobre nós.
Absolutamente, nem ligávamos para aquilo. Continuava bem viva
em nossas mentes a morte de tantos brasileiros inocentes em nosso litoral
pelos covardes torpedeamentos dos mercantes nacionais! O que diziam,
por conseguinte, não tinha a menor influência em nosso
pessoal!
Outro aspecto que desejo destacar relaciona-se com a participação
da Força Aérea Brasileira na Campanha da Itália.
A nossa ELO e os aviões do Senta a Pua tiveram um desempenho
extraordinário, nesta Campanha. Quando os alemães bombardeavam
as nossas tropas, em Monte Castelo, Castelnuovo, Montese, imediatamente,
pelo rádio – não o soldado lá na linha de
frente – mas o Comandante, ao perceber o fato, ligava para ELO
e pedia os aviões, que passavam tranqüilos, observando.
Na mesma hora, cessava o bombardeio sobre as nossas linhas, porque eles
tinham a possibilidade de localizar a Artilharia alemã. Era um
refrigério para os soldados, pois, na mesma hora, cessava o bombardeio.
O alemão não queria ver as suas posições
de Artilharia identificadas. Então, paravam de atirar tão
logo viam os aviões da ELO nos céus. Quando se localizava
a Artilharia alemã, imediatamente, pedia-se do avião o
tiro da nossa Artilharia para neutralizar aquela peça inimiga
que estava nos ameaçando.
No que respeita ao Senta a Pua, seus corajosos pilotos consagraram-se
no Teatro de Operações do Mediterrâneo, com uma
participação muito importante no ataque vitorioso de Monte
Castelo.
Quanto aos preparativos de volta ao Brasil, é necessário
considerar que o soldado depois de uma guerra do porte da que nós
enfrentamos, já estava com muita saudade do Brasil. Assim, dia
e noite, vivia sonhando com o regresso para o qual estava preparado,
porque o que ele tinha era uma arma, uma mochila e dois sacos de roupa;
logo, estava sempre em condições de viajar. Afinal, a
cabeça e o coração estavam sempre no Brasil!
Quando acabou a guerra, fomos para Alessandria e lá permanecemos
poucos dias. Concentramo-nos ali e, depois, fomos para o Sul esperar
o navio americano, porque os americanos estavam empenhados na guerra
contra o Japão. Portanto, não pudemos vir imediatamente
para o Brasil, tivemos de ficar a 80 quilômetros de Nápoles,
numa cidadezinha, Francolise, acampados, aguardando que os navios americanos
viessem nos apanhar para o retorno ao Brasil, que, agora, seria tranqüilo,
pois não havia mais o perigo dos submarinos. O Atlântico
Sul estava livre daquela ameaça.
No seu retorno, a FEB foi muito bem recebida pelo povo. Ao chegarmos
ao Rio de Janeiro, foi decretado feriado municipal e o povo veio todo
para a Avenida Rio Branco recepcionar os expedicionários e, ali,
tivemos dificuldades em desfilar, porque a população queria
se aproximar do soldado, da tropa para tirar o seu emblema, o seu escudo,
filmando tudo que era possível. Então, tivemos dificuldades
para desfilar, tal era o amor do carioca ao receber a FEB.
Gostaria de expressar-me, criticamente, quanto ao recebimento da FEB
no seio do Exército, fazendo, inclusive, um retrospecto desta
narrativa, culminando num desabafo. Ao sermos convocados para a guerra,
fomos submetidos a rigorosos exames de saúde em Belo Horizonte,
no meu caso, 10º RI e na Vila Militar, feitos por médicos
americanos e brasileiros.
Era evidente que não podiam mandar para a guerra um elemento
com problemas de saúde. Então, todos que iriam integrar
a tropa foram submetidos a uma série de exames.
Entretanto, na hora da baixa, retornamos à vida civil, após
quase três anos no Exército, sem que nossos chefes tivessem
o cuidado de submeter-nos a um novo exame médico, a fim de saber
como estava a saúde física e mental dos ex-combatentes,
o que é imperdoável. Simplesmente, liberaram a tropa no
Rio de Janeiro, separaram as suas economias, deram uma passagem de volta
para casa e nada mais. Os próprios febianos, vendo o sofrimento
de muitos colegas, cuidaram de fundar em Belo Horizonte, no Rio de Janeiro
e em várias partes do País a Associação
dos Ex-combatentes, para dar assistência a seus colegas, que tiveram
dificuldades para reintegração à vida civil.
Processou-se uma desmobilização precipitada, inconseqüente.
Aliás, nós fomos desmobilizados na Itália, antes
de chegar ao Brasil, não pertencíamos mais a FEB, pertencíamos
parece que à 1ª Região Militar no Rio de Janeiro,
e isso foi terrível. Penso que, para esse fato, entrou, também,
a parte política, porque o Getúlio Vargas, como ditador,
não podia admitir que uma força expedicionária,
que se deslocara para ajudar a democratizar o mundo, resolvesse realizar
o mesmo no Brasil.
Entendo que o Exército tenha aprendido muito na guerra, porque
tivemos em contato com americanos, ingleses e com eles evoluímos
bastante, além de enfrentar os alemães que muito sabiam
sobre a arte da guerra. Nós demos um passo enorme para a frente,
porque nos atualizamos na área militar, em termos de armamento
e de doutrina, além de termos divulgado positivamente o nome
do Brasil perante à comunidade internacional.
Depois da guerra, tivemos uma missão relacionada com a Alemanha,
a missão do General Lira Tavares. Ele foi lá e permaneceu
durante quatro anos com os Aliados, dentro da Europa, principalmente
na Alemanha, porque esta teve de ser dividida em quatro partes; então,
ele foi lá para participar das tratativas representando o nosso
governo. Não houve um armistício, houve uma ocupação:
dividiram uma parte para a Rússia, uma parte para a França,
uma para a Inglaterra e outra para os Estados Unidos. O alemão
teve de submeter-se e, lá, o Brasil esteve presente graças
à FEB.
A minha participação na Segunda Guerra Mundial, como já
mencionei, levoume a filiar-me à Associação dos
Ex-combatentes do Brasil, assim como à Associação
dos Veteranos da FEB, que eu ajudei a fundar. Por isso, é que
estou freqüentemente nos colégios e lá no Museu da
FEB, legando, na qualidade de Diretor de Cultura e Civismo da ANVFEB,
os meus conhecimentos da campanha aos alunos, para esta juventude de
15 a 17 anos, que está fazendo o 2º grau. Procuro mostrar-lhes
que o Brasil hoje, como ontem, deve permanecer atento à manutenção
de sua soberania e da integridade de todo o patrimônio nacional.
Lembro-lhes que o nosso País, precisa conservar o que possui,
porque percebo através dos jornais, das notícias de rádio
e televisão que estrangeiros estão de olho na nossa Amazônia.
Durante quinhentos anos, ela foi nossa; então, não podemos
perdê-la, precisamos ocupá-la, inclusive deslocando tropas
para manter a integridade dessa importante área do território.
Como é que nós vamos permitir, se não somos covardes,
que nossos filhos, netos ou bisnetos sejam despojados da Amazônia
que é patrimônio nosso?
Outro
aspecto fundamental que desejo ressaltar é que aqui não
há questão racial. Deveríamos ter o Dia da Etnia,
para louvar e homenagear o somatório de raças que contribuíram
para constituir esse País imenso e imune a conflitos étnicos
e religiosos.
O
meu discurso é também transmitido ao homem do interior,
através de elementos instruídos por nós, em Belo
Horizonte, para fazer palestras quando aquele não pode deslocar-se.
Então, o cidadão que esteve em Belo Horizonte dirige-se
às diversas áreas do Estado de Minas Gerais, para, através
de palestras, difundir os ideais dos febianos.
Se
tivermos que nos empenhar em outra guerra, desejo que esta seja fora
das nossas fronteiras, porque as privações e provações
da população são terríveis. Um país
em guerra dentro do seu território vê as suas famílias
atingidas, moral e materialmente, como tivemos oportunidade de constatar
na Itália, onde tudo foi destruído, com o atroz sofrimento
do povo, convivendo com a fome e a desagregação familiar.
FONTE:
História Oral do Exército
na Segunda Guerra Mundial
FOTOGRAFIAS:
Roberto R. Graciani

Página
Principal - www.anvfeb.com.br

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