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1º
TENENTE DALVARO JOSÉ DE OLIVEIRA |
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* Cabo e 3º Sargento de Comunicações da Bateria de Comando da Artilharia Divisionária da 1ª DIE, entrevistado em 7 de dezembro de 2000. Desde o dia primeiro de setembro de 1939, o ambiente no Brasil era de muita preocupação devido à invasão da Polônia pela Alemanha nazista. Mas foi no início da década de 1940 que se deu início à convocação dos reservistas de primeira e segunda categorias, a fim de completar os claros do efetivo do nosso Exército, e à formação de novas unidades. Neste momento, começou a nossa missão. Uma sucessão de fatos, como a VIII Conferência Internacional de Lima, as I, II e III Reuniões de Ministros do Exterior das Repúblicas Americanas, ocorridas no Panamá, em 1939, em Havana, em 1940 e no Rio de Janeiro, em 1942. O ataque japonês aos americanos em Pearl Harbor e os torpedeamentos dos navios brasileiros Baependi, Araraquara, Aníbal Benévolo, Itagiba e Arará, no mês de agosto de 1942, em nosso litoral, na costa da Bahia, levou o Brasil a declarar estado de beligerância à Alemanha em 22 de agosto de 1942. É necessário dizer que esses torpedeamentos contra navios inocentes e desarmados foram verdadeiras agressões ao nosso País e à nossa gente. Mais de 600 brasileiros perderam a vida nesses cinco naufrágios devido à ação criminosa do Eixo que, no biênio 1942-1943, afundou 31 navios da nossa Marinha Mercante. Logo a seguir, começou a preparação das unidades que vieram a integrar a Força Expedicionária Brasileira em diversos pontos do País, como Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais e Pernambuco. Houve, então, vários deslocamentos de tropas, que se reuniram no Rio de Janeiro, ponto de partida para os seus destinos. Foi na Cidade do Rio de Janeiro, ou mais especificamente, no Campo de Gericinó, em Jacarepaguá, na Barra da Tijuca, que naquela época era quase deserta, no Recreio dos Bandeirantes e na Pedra de Guaratiba, que participei de muitos exercícios preparatórios para a campanha que se avizinhava. Nesses locais e em muitos outros, tentou-se criar uma simulação do Teatro de Operações no qual, posteriormente, deveríamos agir. Durante essa fase de treinamento, recebemos muitos ensinamentos. Várias missões americanas, vieram ao Brasil e, juntamente com os nossos comandos, acompanharam a nossa familiarização com as modernas técnicas empregadas nos Estados Unidos da América, concernentes à Infantaria, Artilharia, Engenharia etc, que estavam sendo introduzidas no Exército Brasileiro. Dessa forma, considero que fomos bem treinados.
Chegou o dia 22 de setembro de 1944, quando se iniciou a nossa viagem com destino ao real Teatro de Operações. Embarcamos no navio americano General Mann, que zarpou do Armazém 10 do Cais do Porto do Rio de Janeiro. No entanto, antes de irmos para o cais, estivemos na Vila Militar, no atual 1º Grupo de Artilharia Antiaérea. De lá, fomos de viatura para o quartel do II/1º Regimento de Artilharia Auto- Rebocado, em Campinho, onde só permanecemos por um dia. Saímos da Vila Militar no dia 17 e, já no dia 18, recebemos a ordem de embarque. A Bateria de Comando da AD, que eu pertencia, fez o policiamento do navio sob a supervisão dos americanos até o dia 22 de setembro, data da nossa partida.
Durante a viagem, foram realizados muitos exercícios, com muita calma e ordem, pois o nosso militar havia se adaptado à disciplina americana e mantinha, com razão, um certo receio, principalmente por parte da Bateria Comando, integrada por 17 náufragos, vítimas de submarinos alemães com relação aos exercícios de abandono do navio, em caso de torpedeamento. Esses exercícios eram feitos diariamente, lembrando-nos o difícil episódio de nosso naufrágio, quando a bordo do Itagiba. Cada um dos cinco compartimentos saía na sua vez, a começar pelo primeiro, que era seguido pelo segundo, e assim sucessivamente até esvaziar o navio. A nossa segurança até o Estreito de Gibraltar foi feita por navios brasileiros. A partir daí até Nápoles, ficaram encarregados, pela mesma, navios aliados, creio que ingleses. Quando lá desembarcamos, tivemos duas visões. A primeira foi a do Vesúvio com a fumaça que dele vinha; nós nunca havíamos visto um vulcão. A segunda, a da miséria. Ali mesmo no cais, já podíamos ver o que estava acontecendo com o povo italiano. Em Nápoles, pegamos as barcaças LCI (lanchas de desembarque de Infantaria) para prosseguirmos até o Porto de Livorno. Após desembarcarmos em nosso porto de destino na Itália, fomos para o acampamento de Tenuta Di San Rossore, campo de caça do Rei da Itália, onde foi dada continuidade à nossa preparação. Nós nos deslocávamos para exercício com o nosso Comandante, o então Capitão Francisco Saraiva Martins, a quem rendo a minha homenagem por ter sido um bravo Oficial, de idéias fantásticas, que permitia que nós o informássemos do que julgássemos necessário; enfim, a maior figura da nossa Bateria. Também nos acompanhava o Subcomandante da Bateria, o Tenente Luiz Gonzaga de Andrada Serpa, que faleceu como Coronel. Esse era um homem bem alto, muito atuante e sério. Havia, ainda, o Serpa “moreno”, que estava no II Grupo da FEB, e o Serpa “loiro”, que pertencia à Companhia de Artilharia do 1º Regimento, que integrava, portanto, o Sampaio. Eles eram muito amigos e eu me dava muito bem com todos. Releva citar o fato de que Alípio Napoleão de Andrada Serpa, morto durante os torpedeamentos, deixou o seu nome num campo de futebol, no Grupo Monte Bastione, em São Cristóvão. Curiosidades à parte, gostaria de falar sobre o meu batismo de fogo na Itália. Nós saímos de Tenuta Di San Rossore, passamos por Lucca, e começamos a subir a serra. Estávamos indo para Castel de Cássia, onde íamos montar o nosso QG da Artilharia. Nessa ida para Castel de Cássia, os alemães, talvez por terem pressentido que havia uma tropa nova se localizando naquelas cercanias, arremessaram contra nós cerca de cinco granadas de tempo, obrigando-nos, por ordem do Capitão Saraiva, a descer imediatamente das viaturas, para buscar abrigo no terreno, ao mesmo tempo em que adotávamos a posição de combate, deitados no chão. Esse episódio ocorreu, se não me falha a memória, no dia 10 de novembro, ou seja, o inverno já se aproximava. Estava chovendo muito e ficamos completamente molhados e enlameados. Apesar de ter integrado o 2º Escalão e, conseqüentemente, não ter participado das lutas no Vale do Serchio, desejo ressaltar também uma ação do Grupo Monte Bastione, do 2º Grupo de Obuses. No dia 16 de setembro, esse grupo deu o primeiro tiro de artilharia da FEB em terra italiana e, embora o 2º Escalão tenha chegado somente no dia 7 de outubro a Nápoles, esse dia ficou gravado nas nossas mentes. Todos os anos, é comemorado pelo nosso grupo em São Cristóvão. Mais tarde, tivemos uma atuação intensa nos Apeninos. Cinco dias antes da tomada de Monte Castelo, a nossa Bateria foi chamada para fazer a preparação de observatórios. Era necessário ligar muitas linhas telefônicas aos regimentos de Infantaria, à Engenharia e à 10ª Divisão de Montanha. O nosso pessoal de comunicações realizou um trabalho, realmente, árduo. Nós entrávamos na neve e, por isso, enfrentávamos mais essa dificuldade, além de outras ligadas às características do terreno a vencer e às condições meteorológicas adversas, para lançar nossas linhas. Felizmente, vencemos todos esses obstáculos para podermos instalar, com segurança, os observatórios que necessitávamos. No dia 21 de fevereiro de 1945, deu-se o ataque ao Castelo. Havia quase cinco dias que não dormíamos, mas às 5 horas da manhã desse dia 21, com todos já acordados, começou o movimento. Enquanto uns iam para o observatório, outros ficavam na retaguarda, no caso de precisarmos enviar algo para frente. Eu, particularmente, fiquei um pouco acima de Porreta Terme, porque o Capitão Francisco Saraiva Martins mandou que eu guarnecesse a Central Telefônica. A nossa Central era de 44 direções, mas eu recebi mais uma central e uni as duas, perfazendo, assim, 88 direções para ter ligação com a Infantaria, a Engenharia, com toda a Divisão e, principalmente, com o QG do nosso querido Marechal Mascarenhas de Moraes. Para chegar ao Vale do Pó, enfrentamos outros desafios. Estávamos perto de Montese e todos os dias saíamos para, dentre outras coisas, observar as linhas e, entre os dias 14 e 19 de abril, o nosso 2º Sargento Arno Schneider, que era chefe de equipes telefônicas, foi atingido por quarenta e poucos estilhaços de morteiro. Quando ele estava instalando as linhas, os alemães enquadraram a nossa turma. Eles começaram a atirar, acabando por atingir o sargento Schneider. Nesse momento, desapareceu um outro soldado nosso, Valdemiro, carinhosamente conhecido como “Português”. Passamos essa noite no escuro, pois não podíamos acender qualquer luz, em meio a uma grande agitação. Além dos tiros em nossa direção, tínhamos que verificar quem faltava. Enquanto uma turma ia por um lado para lançar as linhas, a outra recuava para levar o sargento ferido. No entanto, quando chegamos a Gaggio Montano, para a nossa felicidade, o soldado Valdemiro já estava lá. Nós pensávamos que tínhamos perdido mais um, mas Deus permitiu que o recuperássemos. Após a difícil conquista de Montese e de outros objetivos, partimos para o Vale do Pó. Nessa fase, a nossa Bateria foi muito requisitada para as operações que levariam a rendição da 148ª Divisão de Infantaria alemã. Nós retiramos tudo o que podíamos das viaturas, para conduzirmos a tropa de Infantaria para o cerco. Após a rendição, tivemos a primazia de trazer para a retaguarda os soldados alemães, que só queriam se entregar ao Comando brasileiro. Achei interessante que os alemães, mesmo vencidos, mantinham a sua empáfia. É importante destacar que enfrentamos um outro inimigo: o inverno rigoroso, com o qual não estávamos acostumados. Deixamos o Brasil, em setembro, com uma temperatura de 22 ou 23 graus e, ao chegarmos à Itália, encontramos 2 graus abaixo de zero. Nós chegamos a pegar 18 graus abaixo de zero nos Apeninos. No entanto, o soldado brasileiro reagiu bem, graças à sua criatividade. Como as extremidades do corpo são mais sensíveis ao frio, colocávamos jornal dentro de nossas galochas para esquentar os pés, não usando os coturnos. Posteriormente, os próprios americanos acharam a nossa idéia interessante e passaram a fazer o mesmo. Recebemos informações seguras de que o Brasil teve um número bem menor de casos de pé-de-trincheira do que os Estados Unidos. Nossos oficiais, desde o Comandante, tiveram uma participação brilhante. Eles se adaptaram ao clima e à parte bélica. Da mesma forma, os nossos sargentos, onde me incluo. Os nossos “pracinhas”, denominação carinhosa dada pelo povo brasileiro, foram muito bravos. Faziam o máximo que podiam e, muitas vezes, suas idéias os levavam a realizar mais do que o exigido. Há que
levar em conta que não recebemos instruções,
por exemplo, sobre como enfrentar a difícil topografia dos
locais onde estivemos; já, a 10ª Divisão de Montanha
foi preparada para isso. Antes de muitos combates, íamos à
frente para instalar linhas Os soldados brasileiros foram também reconhecidos pelo povo italiano. Procurávamos deixar claro que estávamos ali como seus libertadores e amigos. A maior prova de que os italianos entenderam a nossa missão é a forma como nos recebem, até a data de hoje, quando lá vamos. Para ser sincero, eles nos recebem melhor do que o nosso povo e dizem que somos “os libertadores da Itália”. No tocante à
saúde, os nossos soldados foram muito bem assistidos pela nossa
equipe de médicos, enfermeiros e padioleiros, que estavam sempre
presentes e ajudavam, com carinho, aqueles que necessitavam de seus
serviços. Eu mesmo estive no hospital de Livorno, devido a
um problema na garganta, e fui muito bem tratado. Não nos faltou
nada. O apoio logístico foi perfeito; tanto na parte médica
como na de manutenção, alimentação, material
e evacuação, tínhamos o que precisássemos
a Também tivemos apoio religioso. Na nossa Bateria, havia um capelão, o Primeiro- Tenente Amarílio Leite, que chamávamos de Dom Francisco. Ele rezou missa na nossa ida para a Itália. Era um capelão brincalhão, que levantava o nosso moral nos momentos difíceis. O nosso capelão voltou, mas infelizmente já faleceu. Por outro lado, o soldado inimigo revelava uma grande imponência. Com certeza, os soldados alemães foram muito bem adestrados para aquela campanha, mas esse adestramento já vinha de muitos anos. Os alemães, assim como os italianos, conheciam o terreno a palmo. Sobretudo, o soldado alemão que era obediente e, muitas vezes, parecia que não era humano mas, sim, uma espécie de robô. Mesmo assim, os alemães não nos intimidaram. Quando chegamos a Vignola, por exemplo, perguntamos por eles, pelo “tedesco”, ao que o italiano respondeu: “Tedesco andare via mezza ora”. Ainda seria possível pegá-los, mas eles estavam correndo porque sabiam que, de uma hora para outra, cercá-los-íamos conforme cercamos as três divisões, duas alemãs e uma italiana. Um fim de Campanha eletrizante! As tropas aliadas também estavam muito bem treinadas. Seu uniforme e o material que usavam era de primeira, para que eles tivessem condições de galgar morros, inclinações e, até mesmo, fazer “arapucas”, como diziam lá. Tive muito contato, principalmente, com a 10ª de Montanha porque enquanto atacavam Belvedere, nós atacávamos o Castelo. Por sinal, devido ao nosso fardamento, em um determinado momento, eles confundiram o nosso soldado com o alemão, mas através de contatos rádio e telefônico, tiramos essa dúvida. De forma geral, o que mais me impressionou na campanha da FEB foi, juntamente com o ferimento do sargento Schneider, a morte do nosso 2º Sargento Fábio Pavani no dia 8 de maio, o último dia da guerra, quando foi assinada a rendição incondicional dos alemães. Ele voltava de uma missão, descuidou-se e caiu da viatura, sofrendo esmagamento da cabeça. Foram muitos
os momentos difíceis. Era necessário ajudarmos uns aos
outros. Quando algum soldado ficava meio desesperado, nós o
chamávamos para encorajálo: Com essa mesma coragem, enfrentamos o problema da propaganda, da Quinta- Coluna, principalmente a veiculada pela rádio que se chamava Auriverde, cuja locutora de nome Margarida insistia em cooptar a nossa gente. Dizia aos nossos soldados: “Vocês estão lutando num país que não lhes pertence e enfrentando problemas que não são seus. Entreguem-se, venham para o nosso lado. Nós mandaremos vocês para o Brasil.” Contudo, a nossa resposta era tiro de Artilharia. Mas também temos histórias de cooperação. A ELO fazia observação no ar e nós, em terra. Alguns de seus oficiais, sargentos e soldados serviram junto à nossa Bateria. Trabalhamos muito com eles. Por falar em ar, o nosso 1º Grupo de Caça, o “Senta a Pua”, escreveu no céu da Itália uma página bonita para a Força Aérea Brasileira. Os nossos aviadores mostraram impressionante coragem, fazendo inacreditáveis vôos rasantes. Quanto à comemoração da nossa vitória na Itália, posso compará-la ao entusiasmo gerado por um gol decisivo em um grande jogo de futebol. Foi algo que sentimos no peito e na alma. Pensávamos: “Viemos, vencemos e estamos agora preparados para voltar para o Brasil”. A fase de preparativos para a volta foi bastante intensa. Na minha Bateria, tivemos que encaixotar o material: bobinas, rádios, telefones, armamento etc, com exceção das fiações, pois os americanos não queriam que as recolhêssemos. Estávamos em Campus Spinozo Albaredo, onde iniciamos a nossa viagem de regresso ao Brasil. De lá, fomos para um subúrbio de Roma e, depois, até perto de Nápoles. De Nápoles, voltamos para Francolise, onde ficamos até chegar a ordem de retornarmos a Nápoles e embarcarmos. No dia 22 de agosto, chegamos ao Brasil. Depois de atracarmos no Armazém 10, esperamos quase duas horas. Quando finalmente desembarcamos, fomos acolhidos pelo povo carioca com um entusiasmo inacreditável. Essa vibração nos encheu de orgulho por termos ido à Itália para lutar e mostrar o valor do soldado brasileiro. Para o Exército, as conseqüências de ter participado da guerra foram muito boas. A evolução foi muito grande. A mentalidade mudou totalmente. Até o entrosamento entre os próprios oficiais melhorou. E o Exército, assim como o povo, recebeu-nos muito bem. Muitas condecorações me foram outorgadas: a do V Exército americano foi concedida à Bateria Comando e eu a recebi em 1945, ainda na Itália. A Medalha da Vitória também ganhei, ainda na Itália, do Governo italiano. Dentre as medalhas brasileiras, cito a Cruz de Combate de Segunda Classe, bravura em ação coletiva; a Medalha de Campanha, que foi entregue a todos aqueles que combateram nos campos da Itália; a Medalha de Guerra, pelo esforço de guerra no exterior; a Medalha Marechal Mascarenhas de Moraes, da Associação dos Veteranos da FEB; a Medalha do Regimento Sampaio, que recebi pelo que fiz por esse Regimento durante a guerra; a Medalha da Vitória, da Associação dos Ex-combatentes do Brasil e, finalmente, a Medalha Sangue de Herói, da Associação dos Ex-combatentes de Nova Iguaçu. Com toda essa experiência, após a minha volta, eu queria ingressar na Academia Militar das Agulhas Negras. Devido à minha idade, não pude concretizar esse meu desejo. Apesar de magoado, senti que precisava seguir em frente e fiz o Curso de Aperfeiçoamento de Sargentos. Na ocasião, uma lei concedia a todos que tivessem sido sargentos na Itália o direito de serem promovidos a Segundo-Tenente, mas sofri um acidente de carro no Rio de Janeiro, que me deixou incapacitado por dois anos e fui para a reserva. Não podemos encerrar essa entrevista sem falarmos sobre os torpedeamentos de navios brasileiros, no nosso litoral, dos quais fui vítima. Nós não estávamos em guerra. Vivíamos em paz, mantínhamos uma posição de neutralidade com relação ao conflito mundial que começara. Com o início da guerra, fomos obrigados a deslocar tropas dentro do Brasil, porque o nosso território estava desprovido de defesas, especialmente no Norte e no Nordeste. O litoral nordestino, principalmente, estava muito abandonado e possuía grande importância estratégica, porque servia como um trampolim entre a América e a África. Esses deslocamentos em nosso litoral, inclusive para transportar tropas, tornaram-se, extremamente, perigosos pela ação dos submarinos, iniciada em fevereiro de 1942, por alemães e italianos, contra navios mercantes brasileiros, após o Brasil ter se posicionado ao lado dos EUA, após o ataque japonês aos americanos em Pearl Harbor. Por essa decisão, o Eixo resolveu vingar-se dos brasileiros, civis e militares, atacando nossos navios mercantes indefesos. Eu me encontrava no Grupo de Artilharia que hoje é o Monte Bastione, em São Cristóvão, no Rio de Janeiro. Com duas baterias, partimos, alegres, com destino a Olinda, Pernambuco, para formar o 7º Grupo de Artilharia de Dorso, o atual 7º Grupo de Artilharia de Campanha. O navio Itagiba, onde eu viajava, transportava uma bateria e o Baependi, a outra. Quando o Itagiba chegou à altura da Ilha de Tinharé, onde se encontra o Farol de São Pedro-São Paulo, na costa da Bahia, perto da Cidade de Valença, foi torpedeado por um submarino, no dia 17 de agosto, dois dias após o naufrágio do Baependi que, ao ser atingido, levou apenas um minuto para afundar. Além desses dois navios, no intervalo entre 15 e 17 de agosto, foram torpedeados, também, os navios Araraquara, Aníbal Benévolo e Arará. O Itagiba havia saído do Rio de Janeiro no dia 13 de agosto. Às 10h45min da manhã do dia 17, em pleno mar, quando nós nos preparávamos para almoçar, vi, por acaso, um submarino emergindo, mas este sumiu logo. Devido a seu telescópio, parecia um coqueiro de cabeça para baixo. Em seguida, foi disparado o torpedo. Houve gritos – “Olha, uma baleia! Um tubarão!” Era, porém, o ataque. O navio levou apenas treze minutos para afundar. Foi uma catástrofe. Mais de 180 pessoas estavam a bordo do Itagiba. Muitas mulheres, crianças e civis morreram. No Baependi, todo o nosso comando desapareceu no naufrágio. O Major Landerico de Albuquerque Lima foi uma dessas vítimas. Nesse navio, torpedeado no dia 15, por volta das 19 horas, salvaram-se apenas 36 pessoas, sendo 12 militares do Exército Brasileiro, enquanto no Itagiba mais de 100 conseguiram sobreviver. Felizmente, eu me salvei. Estava no tombadilho do Itagiba naquele momento. Fui para dentro e saltei para a baleeira, mas o mastro caiu e quebrou-a. Eu e um colega, Carlos José Salomão Bacarat, nadamos em direção ao Arará, que se aproximava. No entanto, quando eu estava a uma distância de cem a duzentos metros do navio, este afundou, rapidamente, após ter sido atingido por um torpedo. Levou aproximadamente um minuto. Lamentavelmente, a área do Farol de São Pedro-São Paulo, na ilha de Tinharé, além de ter sido o ninho da Quinta-Coluna alemã, era infestada por tubarões e o meu colega foi devorado por um. Esta constatação me foi possível porque ele berrou devido a dor e desapareceu no mesmo instante. Algumas pessoas
chegaram a entrar no Arará antes do torpedeamento, como o Tenente
Alípio Napoleão de Andrada Serpa. Por sinal, há
uma passagem em que ele demonstrou grande heroísmo. Ele tinha
se cortado durante a explosão e estava sangrando quando viu
o soldado Pedro Paulo de Figueiredo Moreira, a seu lado, bastante
aflito. Imediatamente, o Ten Serpa entregou o seu salva-vidas a esse
soldado e o encorajou a prosseguir. Pedro Paulo, que continua entre
nós, deve a sua vida ao Nós demos sorte porque apareceu um iate pequeno, de madeira, o Aragipe, que nos levou para Valença; era um iate de transporte de cacau que ia de Ilhéus para Salvador. Esse iate salvou aproximadamente 50 pessoas. Como um torpedo custa caro, não fazia sentido atacá-lo. Assim mesmo, procuraram metralhar-nos, mas houve uma reação. Ouvi dizer que, depois, apareceram aviões de patrulha nossos. Além do Aragipe, lanchas da Cidade de Valença que haviam recebido o sinal de socorro vieram apanhar as vítimas na foz do Rio Una. Muitos pescadores também ajudaram. Mas houve muita agonia, principalmente, porque o iate Aragipe só apareceu por volta das quatro horas da tarde, cerca de duas horas após o segundo torpedeamento. Já estava quase anoitecendo, quando chegaram as lanchas. Nós fomos noite adentro porque os civis foram na nossa frente, sendo que crianças e mulheres tiveram prioridade. Durante esse tempo todo, ficamos, sobretudo, em cima das tábuas que cortamos das baleeiras encravadas nas corrediças. Foi o que nos salvou, pois só uma baleeira pôde ser usada para transportar as pessoas. Eu fui um dos últimos a deixar o Aragipe; cheguei em terra quase à meia-noite. Ficamos vários dias sem o fardamento, que só recebemos quando retornamos ao Rio de Janeiro. Havíamos perdido tudo, inclusive os canhões e caminhões. A nossa maior revolta, porém, foi gerada pelas perdas humanas. Presenciamos o desespero de pessoas como o soldado Carberón Ortiz, que não sabia nadar. O navio afundava e ele pedia socorro, mas, de repente, ele escorregou, entrou pela chaminé e sumiu. O outro foi o soldado Rabelo, que estava agarrado a um pedaço do mastro, gritando, quando um tubarão o apanhou. Vimos ainda crianças mortas nas praias de Sergipe. Por isso, no Rio Una, perto da Ilha de Tinharé, na Bahia, nós, de mãos dadas, juramos que iríamos à guerra para vingar aquelas mortes. Felizmente, cumprimos o nosso juramento. Fomos para o 8º GMAC e, de lá, integramos voluntariamente a Bateria Comando da AD. No retorno de Pernambuco para Bahia, quase fomos torpedeados novamente, dessa feita a bordo do Tiradentes. Deixamos a capital pernambucana e, depois de vinte e dois dias, chegamos, finalmente, ao Rio de Janeiro, após uma série de paradas em vários lugares. Como os outros febianos, tenho orgulho de haver combatido e vencido os alemães na Campanha da Itália. Essa vitória é também uma homenagem aqueles que morreram, inocentemente, nos mercantes brasileiros no ano de 1942. Até a data de hoje, temos procurado comemorar os nossos feitos. Espero que os meus colegas da Força Expedicionária Brasileira e as novas gerações passem aos seus filhos, netos e bisnetos a idéia de que a FEB representou, com brilho e destemor, o Povo brasileiro no Teatro de Operações do Mediterrâneo. Nós, soldados do nosso querido Exército, soubemos mostrar em combate o amor imenso que temos pelo Brasil! Desejo ainda comentar um gesto do meu Comandante, Capitão Francisco Saraiva Martins, que muito me emocionou. Foi o último elogio que recebi dele: “Ao desligar o terceiro-sargento Dalvaro José de Oliveira, desta Bateria, louvo pelo muito que fez pelo Exército e pelo Brasil durante o tempo em que serviu nesta unidade. Disciplinado, dedicado, trabalhador, inteligente e com grande espírito de sacrifício cumpriu com muita eficiência as missões recebidas nos campos de batalha, na Itália, mesmo as mais difíceis e perigosas. A Bateria de Comando da AD é agradecida e deseja muitas felicidades na sua nova unidade, onde vai servir”. Nesse momento, fui indicado para a Medalha Cruz de Combate. Para concluir, agradeço pela oportunidade de participar do Projeto História Oral do Exército na Segunda Guerra Mundial, da Diretoria de Assuntos Culturais do Exército, que está resgatando fatos, até então desconhecidos, que constituem páginas marcantes da História do Brasil. Bateria
de Comando da A.D. 1/E
Fotografia tirada em Deodoro, Rio de Janeiro em 1944 antes do embarque para a Itália (Fotografia enviada pelos Vet. Ten Anestor e Ten Dalvaro, ambos da Bia Cmdo) FONTE:
História Oral do Exército na Segunda Guerra Mundial |