1º Ten Enf Carlota Mello
Ex-Combatente da 2ª Guerra Mundial

Diretoria de Saúde da 4ª RM

Nasceu na Cidade de Salinas – MG. Formou-se pela Escola da Cruz Vermelha (filial de Minas Gerais – BH, em 1942). Fez o curso de Enfermagem de Emergência do Exército, ministrado pela Diretoria de Saúde da 4ª RM, em 1944, sendo nomeada Enfermeira de 3ª Classe. Foi convocada para atuar no Teatro de Operações da Itália, pela Portaria 7017, de 9 de agosto de 1944, incorporando-se à equipe brasileira no 45º Hospital Geral americano, em Nápoles. Diante das colegas americanas, todas oficiais, acharam por bem dar o posto de 2º Tenente às enfermeiras brasileiras. Retornou ao Brasil, sendo licenciada pela Portaria no 8472, de 13 de julho de 1945, sendo, posteriormente, nomeada, por concurso do DASP, para trabalhar no antigo Instituto dos Bancários. Reconvocada pela Lei no 3.160, de 1º de julho de 1957, foi incluída no Serviço de Saúde do Exército, no posto de 2º Tenente, sendo-lhe assegurados todos os direitos inerentes aos oficiais da ativa, exceto o acesso que iria até o posto de 1º Tenente. Serviu no Colégio Militar de Belo Horizonte, onde foi promovida ao posto de 1º Tenente, aí permanecendo até passar para a Reserva. Dentre as condecorações que lhe foram outorgadas, por sua participação na Segunda Guerra Mundial, destacam-se: a Medalha de Campanha e a Medalha de Guerra.

Primeiro-Tenente Carlota Mello*

* Enfermeira, entrevistada em 23 de novembro de 2000.


Nós, enfermeiras de Minas Gerais, éramos quatro. No início, havia muitas moças, algumas como eu e a Roselys, já tínhamos feito o Curso de Enfermagem profissional e realizado o Curso de Socorro Urgente para o Serviço de Saúde do Exército. Finalmente, depois de rigorosa seleção, ficaram apenas quatro: Eu – Carlota Mello –, Roselys Teixeira Gazzinelli, Ilza Meira Alkimin e Ligia Fonseca, esta de Três Corações. Fomos para o Rio, para um estágio de mais três meses, no Hospital Central do Exército e no Hospital Moncorvo Filho. Depois de muitos preparativos relacionados com roupas, uniformes e tudo, seguimos para a Itália de avião e o 1º escalão com algumas enfermeiras já havia saído do Rio. Nosso avião era muito feio, não tinha estofamento e possuía bancos ao longo de um lado e de outro. O barulho era insuportável, mas acostumamos logo. Em Natal, Rio Grande do Norte, na Base de Parnamirim, ficamos alguns dias realizando alguns treinamentos necessários, seguindo, depois, para a Itália, com pernoite em Dacar e escala em Casablanca, Tunísia e, finalmente, em Nápoles.

Quando sobrevoamos o Saara, tivemos que fazer uma aterrissagem forçada em Tindoff. Recebemos um maço de cigarros e uma cartela de fósforos com a ordem para fumar e soltar bastante fumaça para espantar os mosquitos transmissores de uma terrível enfermidade ali existente. Eu, que nunca tinha posto um cigarro na boca, soltei fumaça mais de uma hora. Engolia, sufocava, tossia e sentia que minha língua, meus lábios, garganta e nariz iam ficando inchados e minha respiração difícil.

Fui socorrida a tempo com antialérgicos e antitóxicos. E foi, aí, que começou a minha mudança de vida. Em Dacar, o alojamento era com paredes de tela, instalação sanitária, e as camas, grandes redes enfileiradas. Passamos a noite sem dormir, amedrontadas, observando os guardas armados de carabinas. Eram negros, muito magros, de bermuda, camisão, meião e gorro vermelho, que ali protegiam o nosso sono ou vigília. Chegamos a Nápoles com a temperatura de zero graus, que fazia abalar qualquer organismo.

Ficamos alojadas num prédio que havia sido bombardeado. As camas eram de lona sem colchão, com dois cobertores verdes de alguma organização militar.

Poucos dias depois, fomos classificadas: sete enfermeiras brasileiras, entre elas, eu e a Roselys, para servir no 45º Hospital Geral americano do V Exército, na periferia de Nápoles; Ilza e Ligia seguiram para outras paragens – Livorno e Pistóia.

Nosso hospital era totalmente de barracas de tábuas e cobertura de lona no centro, uma verdadeira estufa. Tudo era americano. Nossos uniformes de trabalho, nossos chefes, nossa alimentação e nossa convivência. Roselys trabalhava na enfermaria P5, só com doentes brasileiros, sessenta e quatro leitos permanentemente ocupados, que contavam com o atendimento de mais duas enfermeiras americanas e dois técnicos. Eu trabalhava na P6 com as mesmas características, mas com doutores americanos e brasileiros. Até hoje, aparece, de vez em quando, uma enfermeira dizendo que foi chefe, mas, nos Hospitais onde trabalhei na guerra, não houve chefes brasileiros. Em todo Hospital, existia uma Seção com um médico brasileiro, com o posto de Major, que era mais um amigo, um conselheiro como Dr. Estelita Lins e Dr. Sete Câmara, estes do nosso Hospital. Eles nunca intervieram no trabalho, na administração e na organização. Tudo era americano.

No 45º, trabalhávamos oito horas por dia ou por noite, não havendo distinção entre dia e noite. A atividade era, portanto, contínua. Ali se aplicava penicilina, fazia-se curativos, tirava gesso, dava comida na boca, media pressão e temperatura, escrevia cartas para mãe, esposa, namorada, cuidava da moral, ligava soro, dava comprimidos para dor e, assim, esquecíamos as apreensões de um possível bombardeio, de uma mina implantada em qualquer lugar, das saudades, das angústias, das tristezas e incertezas do amanhã.

Depois que a guerra acabou, ainda trabalhamos mais dois meses em outro Hospital, o 300o Hospital Geral, em Nápoles, até voltarmos para o Brasil, também de avião.

Sinto-me gratificada pelos serviços que prestei ao meu País, pelos quais me foram outorgados os seguintes diplomas e respectivas medalhas: Diploma da Medalha de Campanha, Diploma da Medalha de Guerra, Diploma da Cruz Vermelha, Diploma da Inconfidência e Diploma de Honra ao Mérito.

De tudo que pude observar, durante a missão que cumpri na Itália, o que mais me impressionou na campanha em solo europeu, foi a perfeita organização americana em todos os aspectos. Mal de nós se não tivéssemos sido incorporados ao V Exército americano.

Desejo relembrar o tratamento fino, educado e sensato do Chefe do Serviço de Saúde, Doutor Marques Porto, ainda aqui no Brasil, e do Chefe da Seção de Saúde do 45º Hospital Geral, em Nápoles, Doutor Estelita Lins.

Também relembro, com saudades, da enfermeira culta e educada, Roselys Teixeira Gazzinelli, minha inseparável amiga que, comigo, enfrentou dias difíceis, mas também dias de grande felicidade, sobretudo pelas realizações profissionais.

Muitas passagens teríamos para contar, mas, aí, escreveríamos um livro. Fico lisonjeada por participar do Projeto História Oral do Exército na Segunda Guerra Mundial, cujo objetivo precisa ser alcançado pela sua extrema relevância.

FONTE:
História Oral do Exército na Segunda Guerra Mundial

FOTOGRAFIAS:
Roberto R. Graciani

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