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2º
Tenente Pedro Paulo de Figueiredo Moreira |
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3º Sargento auxiliar de Topografia e do Serviço de Meteorologia
da Bateria Comando da Artilharia Divisionária da 1ª DIE,
entrevistado em 12 de junho de 2001. Vivida a primeira fase, de neutralidade, evoluímos, então, para o estado de beligerância, confirmado em 31 de agosto, com a declaração formal de guerra do Brasil à Alemanha, Itália e ao Japão. Essa definição bastante concreta de nosso País, nesse período, deve-se ao libelo indignado de nosso povo, em razão dos vários torpedeamentos de agosto, que vitimaram indistintamente centenas de civis e militares, cerca de mil inocentes, atingidos pela fria sanha nazista. Nós, por exemplo, ao viajar, para cumprir missão no Nordeste, no navio Itagiba, recebemos, repentinamente, impacto tenebroso de um torpedo vindo de um submarino alemão e passamos por todos os dissabores de um naufrágio. Senti, pois, como soldado, os terríveis momentos do torpedeamento do nosso navio mercante pela hostil ação alemã, uma vez que o Itagiba viajava desarmado, sem ter condições de se defender. Este foi um episódio muito importante na história do Brasil, por ter contribuído decisivamente para a declaração do estado de beligerância em todo território nacional. A indiferença do governo com relação à guerra durou até sermos agredidos covardemente em águas brasileiras com o afundamento de cinco navios – Baependi, Araraquara, Aníbal Benévolo, Arará e o nosso Itagiba, num espaço de três dias, 15 a 17 de agosto de 1942. Diante dessa afronta, o governo brasileiro declara guerra aos países do Eixo, pressionado, como afirmei, pela indignação e revolta do povo. Dando seqüência à declaração de guerra, o Brasil passou a organizar a Força Expedicionária Brasileira que iria lutar ao lado dos aliados. O meu depoimento constará de dois relatos específicos. O primeiro, relacionado com o naufrágio do Itagiba e o segundo, com a nossa experiência na Força Expedicionária Brasileira. Embarcamos no dia 13 de agosto de 1942, às 13 horas, no armazém 13 do Cais do Porto do Rio de Janeiro, no navio Itagiba, com destino a Olinda, em Pernambuco. O navio conduzia 119 passageiros, entre militares, senhoras, crianças e a tripulação. A partida de Vitória para a Bahia aconteceu no dia 15, às 16h da manhã. Até o amanhecer do dia 17, fazíamos boa viagem, sem nenhuma ocorrência anormal. Ao chegarmos a altura do farol de São Paulo, mais ou menos a 30 milhas de Salvador, às 10 horas e 50 minutos do dia 17, no momento em que estávamos almoçando, fomos surpreendidos por uma violenta explosão e o estremecimento geral do navio, o que determinou a queda de objetos que se encontravam nos camarotes, além da quebra de vidros etc. Ouvíamos: “Fomos torpedeados, vamos para as baleeiras!” Grande parte do navio ficou em destroços. A princípio não sabíamos bem do que se tratava, mas, logo, foi constatado tratar-se de torpedeamento. Estabeleceu-se, naquele momento, pânico a bordo, correria de um lado para outro, em busca de salva-vidas e em direção às baleeiras, das quais poucas foram retiradas dos picadeiros e lançadas ao mar. Só houve uma explosão em baixo da escotilha do porão número 3, a boreste, e não se viu a unidade inimiga devido a inclinação do navio que adernava. Afundaríamos em cerca de dez minutos, enfrentando uma forte ventania e um mar muito agitado. Quando nos esforçávamos para sair do navio, a baleeira caiu em cima do convés, encostando-se à chaminé. Gritos eram ouvidos para que os passageiros buscassem salvamento de qualquer modo, pois o navio já começava a sua inclinação vertical. Eu, particularmente, fui tomado de tremendo medo que chegou ao ponto de transformar-se em total desprendimento, pois criei coragem para lançar-me ao mar como a única alternativa de salvamento. Ao saltar, fui puxado pela sucção das águas provocada pelo afundamento do navio, tendo sido arrastado a grande profundidade, voltando à tona, após muito esforço, segurei-me em um pedaço de madeira, a fim de descansar e adquirir forças para nadar em direção a uma das baleeiras que já se encontrava afastada do local da tragédia. Assisti cenas que jamais pensei de presenciar na minha vida durante o tempo em que estive abraçado aos destroços do navio. Vi companheiros meus serem puxados por tubarões, dando gritos de dor e desaparecendo; outros mais fracos, perderam o juízo diante de tanta barbaridade, proferindo frases sem nexo, tais como: “Eu quero café”; “Espere minha mãe”; “Vou a pé” e desapareciam na profundeza do mar. Após presenciar esse espetáculo desesperador, nadei em direção a uma das baleeiras. Devido à superlotação, a baleeira tombou lançando muita gente ao mar pela segunda vez, inclusive eu. Após algumas horas de pavor e nervosismo, surge um iate, parece-me, enviado por Deus, o Aragipe, que presenciara o naufrágio do nosso navio e viera em nosso socorro, recolhendo a bordo todas as vítimas, levandonos para a cidade de Valença, na Bahia. Nessa localidade, os feridos foram levados ao hospital e os náufragos restantes colocados em casas de família, gentilmente oferecidas pelos moradores, como também nos salões da Prefeitura. Ao chegarmos em
terra, foi imediatamente organizada a lista dos sobreviventes, notando-se
a falta de onze tripulantes, inclusive o comandante. Este apareceu
no dia seguinte, acompanhado de um taifeiro. Os passageiros desaparecidos,
naquele momento, eram cerca de 25. Hoje, sabemos que, naquele triste
naufrágio, perdemos Após mais ou menos três dias, fomos para Salvador num navio de guerra, o cruzador Rio Grande do Sul. Chegamos a Salvador no mesmo dia e nos alojamos no Forte Barbalho, onde ficamos até seguir destino para Olinda, como previsto. No naufrágio do navio Itagiba, destaco duas figuras realmente excepcionais: O Tenente Alípio de Andrada Serpa e o nosso soldado Walter Silero Fix. Não posso deixar passar essa oportunidade sem ressaltar o heroísmo e bravura daquele jovem oficial do nosso Exército, o valente Tenente Serpa, que soube, no momento do bárbaro e covarde atentado, portar-se como verdadeiro líder, atento e atuante, dotado de exata noção do cumprimento do dever. No desejo de salvar a todos os seus comandados, morreu tragado pelo oceano, vítima da ação, cruel e covarde, dos nazistas. O desassombro do Tenente Alípio Serpa, brioso oficial do nosso glorioso Exército, ficou como um belo exemplo para todos os brasileiros. Eu estava correndo, transtornado, em busca de um salva-vidas, vendo-me, deu-me o seu, dizendo: “Calma seu Figueiredo, muita calma!” quando, então lhe disse: “Este é seu, Tenente. O senhor não vai deixar o navio?” Respondeu-me: “Sairei depois de todos os meus soldados, fique com o salva-vidas.” Sinto-me feliz por poder, publicamente, demonstrar minha gratidão pela sua impressionante solidariedade humana em tão trágico momento. Não seria justo também deixar de enaltecer o nome do meu velho amigo, hoje falecido, soldado Walter Silero Fix, pelo belo gesto heróico e de amor ao próximo, salvando a menina Vera Beatriz, filha do Capitão Tito Canto, tomando-a nos braços e só a deixando em terra firme. Ele obteve o respeito e a admiração de todos com aquela atitude! De Pernambuco, retornei ao Rio de Janeiro, onde vim servir no 8º Grupo Móvel de Artilharia de Costa (8º GMAC), Unidade em que encontrei outros náufragos do Itagiba.
O meu ingresso na Força Expedicionária Brasileira deu-se na função de 3º Sargento auxiliar de Topografia e de Serviço de Meteorologia, exatamente por servir na 1ª Bateria do 8º GMAC, uma vez que a mesma foi designada para formar a Bateria de Comando da Artilharia Divisionária da FEB. Participei, no Brasil, de exercícios preparatórios para a campanha que se avizinhava no campo de Gericinó. Esse treinamento foi útil em relação ao emprego em campanha na guerra e muito me ajudou no desempenho de minha função na Itália, onde também houve o nosso aperfeiçoamento, através de vários exercícios, antes de partimos para a frente de combate.
Viajamos com destino ao Teatro de Operações no navio transporte General Mann. Fizemos uma boa viagem, com 14 dias de duração. Tivemos boa alimentação a bordo e relativo conforto. Todos os integrantes do 2º Escalão gozavam de boa saúde. Durante a viagem, nos entretínhamos com jogos, como dama, xadrez e também com batucadas e cantorias. Houve, ainda, durante todo o tempo vários exercícios de abandono do navio em horas nunca mencionadas, inclusive durante à noite. Em razão do torpedeamento do Itagiba, cujos momentos de aflição ficaram gravados nos náufragos, estes, que agora integravam a Força Expedicionária Brasileira e que ali estavam fazendo exercícios de abandono de navio, volviam ao passado, mesmo sem desejar, tornando a viver os momentos terríveis daquele inesquecível naufrágio, recordando os amigos que se foram.
Chegando à Itália, felizmente não houve dificuldade na adaptação ao novo material, realizada antes de sermos enviados ao front. A adaptabilidade a esse material, inclusive ao armamento, deu-se sem problemas. Quanto à alimentação, também nos ajustamos com facilidade. O meu batismo de fogo aconteceu em Porreta Terme quando da organização do PC da AD. Ao chegarmos ao local determinado, o soldado motorista que nos conduziu para a realização desse trabalho, por descuido ou até mesmo por ignorância, acendeu o farol do caminhão, o qual foi visto pelo inimigo que dominava toda a região. E, assim, fomos saudados com algumas granadas de tempo, tendo uns estilhaços batido no capacete de aço do cabo Nolasco e feito uma mossa no seu capacete. Faltou a disciplina total de luzes e o inimigo percebeu, lançando suas granadas de tempo sobre os artilheiros da Bateria do Comando da AD. O motorista cometeu um erro palmar e todos nós corremos risco de vida. A guerra exige atenção e uma boa dose de prudência, pois o erro de um normalmente repercute sobre os outros. No prosseguimento das ações, a nossa Bateria muito se empenhou nos Apeninos, sobretudo nos ataques a Castelo e Montese. A Bateria teve muito trabalho, estendendo, inicialmente, linhas telefônicas para os observatórios e Postos de Comando e, depois, reparando defeitos e recuperando linhas danificadas pela artilharia e morteiros alemães, principalmente na tomada do Monte Castelo, em 21 de fevereiro de 1945. Posteriormente, em Montese, tudo se repetiu: lançar linhas, estabelecer Postos de Observação e, depois, em pleno combate, recuperar os circuitos danificados, sempre na busca de manter os nossos meios em funcionamento. Um problema sempre presente consistia na dificuldade para subir com todo o material de comunicações naquelas cotas elevadas, porque estávamos sempre na parte baixa, obrigados a vencer um terreno difícil, para chegar ao local dos observatórios. A campanha do Vale do Rio Pó para a nossa Bateria aconteceu, fazendo o transporte da tropa de Infantaria em nossas viaturas, contribuindo no que estava ao nosso alcance. Quanto ao clima devo dizer que, no início, foram grandes as dificuldades para enfrentar o rigoroso inverno europeu, mais forte que em anos anteriores, pelo que nos informaram. A tropa sentiu a mudança de temperatura, mas, no desenrolar dos acontecimentos, fomos nos aclimatando à baixa temperatura, contando com bons agasalhos. O desempenho de oficiais e graduados, que ali estavam, foi muito correto, mesmo dispondo de pouco tempo de treinamento, chegando mesmo a surpreender, assim como o desempenho do soldado brasileiro em combate, o qual se mostrou excelente sobre todos os aspectos, principalmente no apoio mútuo durante as dificuldades. O relacionamento com a população local foi muito bom em virtude da simpatia, educação e da maneira de agradar dos brasileiros, muito diferente dos alemães quando ocupavam uma localidade. Os italianos tinham verdadeiro pavor dos alemães, que eram soldados valentes, mas extremamente cruéis. A língua italiana, que é parecida com a nossa, foi um fator de aproximação entre aquele povo sofrido e os nossos combatentes. Com o tempo, nós nos acostumamos às expressões utilizadas por eles e acabamos aprendendo um pouco o italiano. A integração latina, que existe aqui no Brasil, em São Paulo principalmente, aproximava os nossos dois povos, enquanto que o alemão fazia questão de se manter distante. Os italianos nos chamavam de liberatori quando, no aproveitamento do êxito, chegávamos às suas cidades. A comunicação do nosso Comando com as tropas de Artilharia e Infantaria servia também para tomarmos conhecimento dos problemas ocorridos com o nosso pessoal, como no caso do 2º Sargento Schneider, ferido com diversos estilhaços de morteiro, assim como no sumiço do soldado Waldomiro, que, posteriormente, foi encontrado. O Waldomiro desapareceu nas imediações de Monte Castelo. Não me lembro bem o local. E foi uma alegria o reaparecimento dele, pois todos já consideravam o seu desaparecimento como um fato consumado. Ele era muito estimado e a Bateria vibrou em tê-lo novamente conosco. Na frente do Vale do Pó, a totalidade das nossas viaturas foram cedidas, com motoristas, para permitir, com a máxima rapidez, o deslocamento de nossas tropas para a frente, na perseguição ao inimigo e, depois, para levar os alemães para os campos de prisioneiros que foram organizados, como o de Modena, para onde milhares de homens foram transportados após a rendição. O contato da Bateria de Comando com as tropas aliadas na Itália deu-se em muito bom nível, pois havia respeito de ambos os lados. O apoio logístico foi muito eficiente, do material de guerra até a distribuição da alimentação que sempre esteve ao nosso alcance. O corpo de saúde da FEB prestou muita assistência aos seus integrantes e o apoio religioso foi primordial no moral da tropa. Não precisei assistir nem confortar qualquer subordinado nas horas difíceis, como fizera, com tanto acerto, durante o naufrágio, o nosso Tenente Alípio Serpa, um homem íntegro, bom, justo e enérgico. O que mais me impressionou na campanha da FEB foi a modificação na mentalidade dos nossos oficiais, felizmente para melhor; era uma grande e unida família em campanha. Cogitou-se da possibilidade de colocar o nome da Bateria de Comando de Bateria Francisco de Sá Saraiva Martins, nome de nosso Comandante na Guerra, mas não foi possível, porque a Bateria era da própria AD, que tinha já o nome de Marechal Cordeiro de Faria. Houve propaganda, na Segunda Guerra Mundial, tanto de um lado, como de outro. O lançamento de panfletos, induzindo os soldados inimigos a se entregarem às tropas aliadas, era apresentado como única forma de retornarem aos seus lares. Os panfletos eram jogados na linha alemã e nas nossas com o objetivo de estimular a rendição. Felizmente, aqueles prospectos não tiveram o menor efeito sobre os nossos soldados. O pracinha brasileiro não se impressionava com aquelas palavras e não as achava engraçadas. Era perda de tempo. O tiro saía pela culatra. Vibrávamos muito com os êxitos conseguidos. Houve muita camaradagem e união entre todos os componentes da FEB, especialmente entre os integrantes da Bateria de Comando da AD, onde o convívio foi sempre amistoso. Senti orgulho e felicidade pela missão cumprida. Comemorei a vitória dos aliados em terras italianas juntamente com aquelas sofridas famílias que nos puxavam para o interior de suas casas, dando vivas aos brasileiros e nos oferecendo vinho para brindar a tão esperada vitória. Tínhamos expectativa de um belo retorno ao Brasil, quando iríamos abraçar os nossos entes queridos. Os preparativos para esse retorno foram bastante acurados: arrumando o material, organizando, catalogando, para que tudo saísse a contento. Ficamos aguardando o embarque de regresso em Francolise, próximo a Nápoles, onde nos foi outorgada a Medalha Expedicionária Brasileira pelo V Exército americano. O regresso da FEB ao Rio de Janeiro foi muito emocionante. Estava estampado na fisionomia de cada homem a satisfação e a alegria pelo dever cumprido. Fomos recebidos com a maior comemoração coletiva de todos os tempos. A imprensa escrita e falada, na ocasião, divulgou bastante os feitos e as glórias conquistadas no front da Itália. Após a campanha, senti-me um homem mais maduro e confiante para enfrentar o futuro. As conseqüências em minha vida pessoal por ter participado da guerra só foram para melhor, pela experiência e ensinamentos que colhi. O Exército é uma grande escola. A FEB trouxe muitos ensinamentos, experiência e a modificação total na mentalidade de seus integrantes. Termino a minha participação no Projeto História Oral do Exército na Segunda Guerra Mundial homenageando meus companheiros mortos, que ofereceram sua vida pela Pátria e, hoje, descansam na paz do Senhor. Aos que se encontram vivos, o meu respeito e admiração pelo esforço, sacrifício e coragem para bem representar o Brasil durante a Campanha na Itália. Todos nós honramos a nossa Bandeira e o glorioso Exército de Caxias, devolvendo aos bárbaros e covardes nazistas a agressão que sofremos dentro de “nossa casa”. Agradeço a oportunidade que me deram de cumprir minha missão nesse importante Projeto, narrando os principais fatos por mim vividos como náufrago do Itagiba e como integrante da Força Expedicionária Brasileira. FONTE:
História Oral do Exército na Segunda Guerra Mundial |