![]() |
3°
Sgt José da Mota |
![]() |
||||
|
Herói por todos os títulos. Com este apresento-lhe os meus protestos de admiração, além de relatar alguns de seus feitos, para muitos que não o conhecem ou que o conhecem mas não sabem, por circunstâncias diversas, quanto útil foi a sua ação destemida em combates na última grande guerra. Este rapaz vive ainda e com as marcas de seu heroísmo, para quem quiser ver. Trás na cabeça o sinal de dois projéteis que lhe valeram ser dado como morto, por diversas horas e, depois, como louco para o resto da vida. É um dos integrantes do famoso e malogrado “Ataque a Abetaia”, no dia 12 de dezembro de 1945. Chama-se José da Mota, natural de Januária, Minas Gerais, baixinho, vermelho, quase imberbe, modesto e bem humorado, valente e sereno e já foi bom cavaleiro também. Entretanto é fácil de se queimar e, quando queima, é um “Deus nos acuda”. Vira bicho. Creio que atualmente serve em Juiz de Fora. Ora, todos os caros companheiros já perceberam de quem quero tratar e, eu sei, já se aliaram a mim, quando lhe apresento o meu tributo de admiração. O Mota é um desses rapazes que não conta vantagem e mesmo os seus feitos são sabidos apenas por pessoas mais chegadas a ele, assim limita em comentá-los sem rodeios ou coloridos. Possuidor de uma capacidade de comando um tanto superior as funções atribuídas a seu posto, tem grande facilidade de dominar, com a sua maneira leal e prestativa, os que o rodeiam. Pertencia a um Pelotão da 2ª Cia. do 11° RI. Fez inúmeras patrulhas, tendo se desempenhado da melhor maneira, atingindo os seus objetivos e trazendo o que lhe era mandado trazer. Por ocasião de um ataque a Monte Castelo, acompanhava o seu pelotão rumo a Abetaia, no setor que lhe fora confiado.
Tomaram posição de ataque logo que a situação o exigiu e continuaram a sua progressão rumo ao perigo. Começava a raiar a luz do dia, o que os obrigava a aumentar a cautela com que vinham. Paravam, olhavam, escutavam e progrediam. De repente, estalidos secos se faziam ouvir, cortando violentamente o espaço, o que notaram serem partidos de uma casa a uns trinta metros de onde se encontravam - é bom que se esclareça que os alemães, soldados experientes que eram, nesses casos deixavam que a gente chegasse o mais perto possível, imóveis e sem se mostrarem, a fim de não perderem a pontaria. A prova está no fato de quase a totalidade dos que ali tombaram, terem sido mortos com tiros na cabeça - foi o seu grupo surpreendido e quase dizimado por traiçoeiras e arrasadoras rajadas de “lurdinha” e “costureira”. De sua posição, o sargento Mota tentou um reajustamento em seu grupo, notando que diversos de seus comandados já haviam tombados inertes. Estando perto de seu atirador, ordenou que este abrisse sobre uma janela a fim de silenciar uma das armas que os hostilizava. Infelizmente sua ordem não pode ser cumprida porque o soldado já tombara vencido por uma terrível e bem ajustada rajada na cabeça. O seu cabo, recebendo ordens, tentou retirar o FM (Fuzil Metralhador) para fazer dele uso, caindo em cima do soldado, não tendo melhor sorte que seu companheiro. Ficou o Mota detido e com o grupo quase sem efetivo, nessa posição. O menor movimento poder-lhe-ia causar a morte, como causara a quase todos os seus camaradas, tão perto de si. O caro leitor, poderá avaliar quanto era aflitiva sua situação, vendo os seus irmãos - irmãos porque também na guerra, o sangue de um ideal nos irmaniza - que o acompanharam desde os primeiros passos de preparação para a guerra, tombarem inertes a seu lado. Por isso ele precisava do FM. Urgia a necessidade de silenciar a metralhadora que já localizará. Com uma nuvem de esperança, uma cortina de fumaça produzida por granadas fumígenas, lançadas pela nossa artilharia, surgiu, parecendo amenizar um pouco a situação. O primeiro pensamento do Mota foi aproveitar da oportunidade e, imediatamente, apoderar-se do FM. Era preciso tentar e tentou. Mas a mesma arma que colhera os outros dois, parece que estava com o tiro “amarrado” para o local, vira-lhe a cabeça, com capacete de aço e tudo. Cai desacordado o sargento Mota. O frio, que já era intenso começava a solidificar as águas estancadas no terreno pantanoso e movediço. Vinha caindo a tarde. A nossa artilharia continuava a lançar fumígenas a fim de facilitar o retraimento de nossas tropas, logo após o que, começa a bombardear fortemente a região, conhecida foi a existência de numerosos inimigos no lugarejo. Sobrevém em seguida um silencio profundo, quebrado apenas por alguns gritos angustiosos de dor ou um tiro de inquietação de quando em vez, para mostrar que ali continuava a guerra. A noite vem chegando tétrica e indiferente às maldades humanas que se desenrolaram naquele fatídico lugar. O ambiente de nossas linhas era de tristeza. O ataque frustrado trazia uma espécie de abatimento moral, agravado pelas contas de diminuir que se faziam com relação ao pessoal empregado na operação. Patrulhas se organizavam para buscar os feridos e mortos. Horas de amargura para todos nós, aquela... Desacordado, em cima de uma poça de sangue já congelado pelo frio, estava o sargento Mota.O manto escuro da noite vem proteger um pouco os remanescentes daquela tragédia. Já era de madrugada, quando o Mota voltou a si, mas... que hora imprópria ... Ao abrir os olhos deu com outros olhos gateados a observar-lhe os movimentos. Vulto estranho. Era o inimigo à procura de alguns vivos no meio daqueles cadáveres, a fim de fazer prisioneiros que lhe dessem algumas informações. E vem se dirigindo ao Mota, que, percebendo continua imóvel. O alemão chega-se perto, observa e, com o pé, vira-lhe o rosto coberto de sangue congelado e sem movimento. Não. Não poderia estar vivo. Não interessava. E vai à procura de outros. Mas acontece que estava vivi o nosso herói. Tão logo se afastou o “tedesco”, vem o Mota fazendo um esforço tremendo, arrastando-se com dificuldade, seguindo rumo ao sul, orientado pela sua bússola de pulso. Não estava conhecendo as alturas, mas sabia que ao sul havia gente amiga.Depois de percorrer uma boa distância, é surpreendido com um manobrar de arma automática acompanhado de uma voz de brasileiro. Identifique-se e foi levado para o PC situado na igreja de Bombiana. Era quase impossível acreditar que um homem naquelas condições estivesse com vida. A cabeça varada em dois lugares, com o capacete de aço enterrado na cabeça, sendo difícil até tirar, pois os estilhaços do próprio capacete aprofundaram-se-lhe pela cabeça a dentro. Com dificuldade tirou-se este, ministrando-lhe os primeiros curativos, evacuando-se o Mota para o hospital, embora contra sua vontade. Francamente não tínhamos esperanças que ele sarasse e, se isso acontecesse, fatalmente seria vítima de completodesequilíbrio mental, dada a vulnerabilidade do ferimento. Submetido a intervenções cirúrgicas e curativos intensos, para sorte nossa e por incrível que pareça, vem o Mota serecuperando rapidamente. E eis que um belo dia, aparece o Mota no “front”, pronto para combater mais. Volta para o seu primitivo pelotão, onde ainda restavam alguns de seus antigos comandados, agora sob o comando do bravo tenente Ari.
Recomeçara o Mota com o mesmo ritmo de sua norma de ação, demonstrando uma grande noção de cumprimento do dever, notável entusiasmo pelas causas que fossem do Brasil tão saudoso. O seu heroísmo chegou a ser conhecido pelas autoridades, pois, já era voz corrente a sua indicação para o oficialato. Fazia patrulhas e atacava com maestria, agora aperfeiçoado pela já notável experiência de veterano. Tomou parte ativa na Batalha de Montese, onde teve por missão atacar pela frente, tomando as primeiras casas, apesar do grande número de minas que encontrou no caminho. Nas vizinhanças dessas primeiras casas, após grande troca de tiros, ficou sem vida o seu comandante o nosso saudoso e bravo Tenente Ari. Foi obrigado a reajustar o pelotão já com diversas baixas e sob o intenso fogo de artilharia e de metralhadoras inimigas que de todos os lados se manifestavam, dada a circunstância de estar combatendo em rua e o combate de rua é o mais terrível, uma vez que tudo é suspeito. Mais uma vez saiu-se muito bem o Mota. Reunindo os homens que lhe sobraram, agüentou a posição ocupada até que lhe fosse substituir, apesar da insistência do inimigo em manter aquela cidade a qualquer preço.
E é nessas condições que eu vou encontrar. Já transportará o seu heróico comandante para os escombros de uma casa, pelejando para ministrar-lhe o curativo de urgência, mas o Tenente já agonizava. Apesar de todos esses chocantes acontecimentos, o Mota procurava controlar-se e trazer o seu pessoal sempre à mão. Uma coisa entretanto ele não podia esconder, a vontade de aniquilar todos os inimigos que pudesse, uma vez que esses lhe haviam causado tantos dissabores. O restante da cidade foi tomada e o Mota, embora triste pela perda de seus companheiros, inclusive de seu Tenente, de quem era grande amigo, ainda procurava encobrir essa tristeza, soltando algumas piadas que lhe são muito características, em qualquer circunstancia. Estava pronto para outra. Depois disso, ainda tomou parte no grande avanço para o norte, o qual culminou com a nossa tomada de contato com as tropas francesas nos alpes, ao Norte de Turim. E Deus, na sua bondade infinita, quis que ele continuasse a viver, com a sua inteligência lúcida, e nosso amigo. É, pois, prezados leitores, ao Mota que me dirijo hoje. E convido-vos a render-lhe as homenagens que ele muito bem merece. Nota: O que mais nos revolta, amigos leitores, é a burocracia reinante, que deixa um homem desses sem promoção, sem ao menos prestar uma homenagem digna. O nosso boletim lança aqui um apelo aos poderes públicos competentes para que se “dê a César o que é de César”. Atualmente ele é Capitão e reside em Belo Horizonte. FONTE:
Página Principal - www.anvfeb.com.br
|
||||||