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1º
TENENTE SALVADOR MORENO 3º
Cia do 1º Btl do 6º Regimento de Infantaria |
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Salvador Moreno nasceu em 23 de março de 1915 na fazenda de Timburi, distrito de Pirajú, SP. Filho de imigrantes espanhóis destinados às fazendas de café do interior paulista, Salvador passou toda sua infância e adolescência acompanhando seus pais e irmãos na duras lides dos trabahos agrícolas. O começo difícil e sofrido de sua vida não o impediu, porém, de almejar dias melhores. As primeiras letras as conseguiu frequentando uma escola improvisada por um morador de outra fazenda distante a 8 km da sua; caminho que fazia a pé todos os dias acompanhado de crianças e jovens de outras localidades. Aos 15 anos encontra-se em Cubatão, SP. Seu pai morre em acidente de trabalho e, à frente da família na condição de filho primogênito, enfrenta grandes dificuldades financeiras, mas sobressai-se com êxito. Em 1932, encontra-se empregado pela Usina da Light no cargo de serviços gerais. Graças à sua dedicação, empenho e inteligência, torna-se ajudante de mecânico na usina e nos tempos de folga é diretor do Esporte Clube Cubatão. Tempo ainda lhe sobra para nos finais de semana ser o operador do cinema da cidade. O ano é 1938, e aos 25 anos completos, é mecânico ajustador de bancada de reconhecida competência na montagem de geradores da Light. Um pecadilho do amor, porém, vem a lhe tumultuar a existência até então pacífica e feliz. Salvador se envolve com uma mulher que, para sua infelicidade, era casada. O marido desta, ao descobrir-se traído, não tarde em ir a busca de Salvador para tirar-lhe a vida em nome do ultraje sofrido.
Diante do dilema que se configurou, Salvador não vê outra alternativa senão sentar praça no Exército. Por não ter-se apresentado na idade regulamentar de 18 anos para o serviço militar obrigatório, é aceito nas fileiras do Exército como recruta insubmisso. Além dele, outros onze insubmissos, cada qual dos mais longínquos rincões do estado de São Paulo, foram incorporados a 14 de outubro de 1940, no 4º Regimento de Infantaria, em Quintaúna, SP. Começava ali, sem que Salvador talvez pudesse aquilitar o peso daquela decisão, uma nova fase em sua vida que a mudaria por completo e inscreveria seu nome no rol dos heróis da Força Expedicionária Brasileira.
Estamos em 1941 e como soldado faxineiro da 5º companhia de fuzileiros do dito batalhão, Salvador completa o período de recruta com êxito, faz um estágio na banda do batalhão como auxiliar de saxofonista e retorna a tropa. Todo o tempo livre que tem é dedicado ao leitura de livros da biblioteca da unidade. Sua maior aspiração tornou-se atingir a graduação de cabo, a qual consegue, após muito estudo e dedicação, em meio aos outros 300 outros soldados que prestaram o concurso interno. O tempo passa e a dura rotina de instrução militar continua no Batalhão. O ano de 1942 chega e os efeitos da guerra que assola o mundo atingem o Brasil, com o torpedeamento de vários de seus navios mercantes pelas forças nazistas. O cabo Salvador ascende à graduação de terceiro-sargento, após outro concorrido concurso interno e, no final daquele ano passa o natal com a família, apreensivo com a possibilidade da participação de seu batalhão na guerra.
Suas apreensões, de fato, não estavam de todo infundadas. A 9 de Agosto de 1943 é criada a Força Expedicionária Brasileira e o General Mascarenhas de Moraes é indicado para o seu comando. Brasileiros de diversas localidades do país são convocados para compor a legendária 1º Divisão de Infantaria Expedicionária e, do 4º Regimento de Infantaria de Quintaúna, 31 sargentos foram transferidos para o 6º Regimento de Infantaria (6º RI) em Caçapava, a fim de completar os claros naquela unidade cujo destino era a guerra. Dentre os 31 sargentos escolhidos, figurava o terceiro-sargento Salvador, então com 28 anos. Acantonada em Taubaté, a 3º Companhia do 6º RI da qual Salvador foi incluído encontrava-se em total preparação e instrução militar. O pouco tempo de sobra, porém, não impediu que o amor uma vez mais adentrasse na vida do jovem sargento. Em novembro de 1943, enquanto assistia a um jogo de futebol, Salvador vem a conhecer aquela que se tornaria sua futura esposa, uma moça de nome Maria. A 10 de dezembro é promovido por merecimento a segundo-sargento e classificado na 9º Companhia do 3º Batalhão do 6º RI. Antes, porém, fica noivo de Maria e despede-se de todos os familiares, pois a 30 de junho de 1944 se dá a partida dos espedicionários. Foram 5.075 homens da 1º DIE que embaracaram no navio norte-americano General Mann.
São gastos dois dias e duas noites para completar o embarque. O calor a bordo e o desconforto da viagem que durou 16 dias e 16 noites até a Itália foram insuportáveis, mas não o bastante para arrefecer a obstinação que Salvador e seus companheiros expedicionários traziam junto de si, o que se depreende de suas próprias palavras: “este navio tem navegado por muitos mares, levando muitos homens para guerra e para a paz. Da nobre lona onde se agita o pracinha, agitaram-se nos últimos anos, sonhos e pesadelos, resmungos de várias línguas, de seres de todas espécies e de diferentes nações. Alguns estão mortos, outros lutando ou metidos em campos de concentração, outros ainda gemendo em hospitais. O pracinha talvez não saiba disso. No meio dessa grande e tormentosa humanidade o pracinha é um homem. É apenas um homem e agora vai dizer o que sente. Vai intervir como homem no destino dessa humanidade” (Moreno, 1987, p.74). A 15 de Julho de 1994 o efetivo da 1º DIE desembarca no porto de Nápoles. Como a localidade não estava preparada para receber as tropas, todos se abivacaram nas imediações e fizeram uso, pela primeira vez, da famosa ração K, que infelizmente teve de ser consumida fria. Mas a noite daquele dia memorável ainda guardava surpresas: aviões alemãs tentaram afundar o navio "General Mann", mas foram repelidos pela artilharia anti-aérea que defendia o porto. Para a grande maioria dos pracinhas ali presentes, aquele ataque foi, sem dúvida, um espetáculo ao mesmo tempo impressionante e dantesco, uma recepção de boas-vindas sem precedentes dos tedescos. Os dias se seguiram com a incorporação da FEB no 5º Exército Norte-Americano. A instrução dos brasileiros resuma-se a marchas e mais marchas até que a 2 de agosto de 1944 os efetivos partem para a cidade de Litornia norte da Itália, embarcados em enormes caminhões. Uma vez lá, iniciaram-se a instrução com uniformes e armamento norte-americano. O tempo passa, e como sargento auxiliar de pelotão, Salvador espera com ansiedade pelo momento que a “cobra fumaria”. O preparo da tropa prosseguia célere. A correspondência com o Brasil havia cessado e não havia água para o banho. A 16 de setembro de 1994, nas imediações de Vada, o tenente Carqueja, comandante do pelotão de Salvador, o concita a preparar seus soldados pois muito em breve entrariam em combate. E foi o que se sucedeu. Na madrugada daquele dia, os efetivos brasileiros presentes substituiram a tropa americana que se retirava para a retaguarda e tomaram dos alemães as cidades de Massarosa e Santo Estevão. Foi o batismo de fogo do sargento Salvador e de seus companheiros. O saldo da batalha: o inimigo fora derrotado e duas cidades italianas foram libertadas do jugo nazista. A guerra, para Salvador, atingia seu fim com a substituição das tropas brasileiras do seus trabalhos de ocupação militar do território conquistado em 3 de junho de 1945. Era chegada a hora de retornar ao Brasil. A 1º de julho Salvador é desligado do Exército em Operações seguindo destino ao Brasil a bordo do navio “General Meigs”, lá desembarcando a 18 de julho, quando seguiu para a sede do 6º RI em Caçapava, onde, a 10 de agosto de 1945, foi licenciado das fileiras do Exército Brasileiro, sendo declarado reservista de 1º classe. Com a missão cumprida, Salvador retorna ao convívio dos seus familiares em Cubatão, onde foi tido como herói de guerra. Desejoso em recomeçar a vida, opta por residir em Santo André, onde se casa com Maria em fevereiro de 1946. Lá, monta em parceria uma pequena indústria de ferramentas para marcenaria e carpintaria, dedicando-se a ela intensamente. Da pequena indústria, torna-se comerciário, prosperando na crescente Santo André de então. Por decreto do Presidente da República de 24 de novembro de 1964 é reformado no posto de 1º Tenente. Com as duas filhas que teve com Maria, passa a residir em Campinas, SP. Aos 60 anos, decidi ingressar no curso de Direito, bacharelando-se aos 65 anos de idade, vindo a atuar no Forum da cidade. Os anos passaram, as filhas cresceram e seguiram seus caminhos. Se a missão como pai estava cumprida, a missão como militar da reserva continuava pois Salvador nunca deixara de cutuar e escrever sobre o que pôde sobre os pracinhas, sua memória e seus feitos nos anos que se seguiram o seu retorno da Itália até o seu falecimento em 2005, aos noventa anos, na capital paulista. Sua viúva, Maria Moreno, quando na reunião de inauguração do sítio da Associação dos Expedicionários Campineiros (AExpCamp) em 1º de março de 2008, em Campinas, me procurou com algum material fotográfico e jornalistico de Salvador que julgava ser importante divulgar por intermédio do sitio da AExpCamp na Internet. Comovido pelo gesto dela em ter em mãos semelhante material histórico, que incluia jornais da época, fotografias e uma cópia do livro de memórias "Uma Longa Caminhada" escrito por Salvador e de onde foi baseado este texto, comprometi-me com Maria em divulgar a história de seu marido, que como muitos outros pracinhas, deram tudo de si para elevar o nome do Brasil na luta pela democracia e pela liberdade. Da leitura que fiz de seu livro de memórias, confesso que meu entendimento sobre a saga e a realidade da FEB nos campos Italianos foi em muito ampliado. De fato, o sacrifício desprendido pelos nossos expedicionários foi muito além do que a historiografia oficial posa realmente registrar em suas bibliografias. Relatos como o de Salvador me fizeram refletir sobre quantos outros feitos e memórias de nossos pracinhas poderiam talvez vir a luz, de algum armário empoerado muitas vezes, e levar ao conhecimento de nossas gerações o que aqueles homens fizeram pelo nosso país. Profícuo escritor da saga febiana, Salvador Moreno escreveu vários artigos para jornais de Campinas, São Paulo e região, entre crônicas e outros textos. Sua viúva Maria Moreno me solicitou que divulgasse um destes escritos em particular, pois se trata de uma mensagem que muito sensibiliza aqueles que a lêem, por ser dedicada aos “companheiros que ainda resistem no tempo”. A mensagem na sua íntegra encontra-se no sitio da Associação dos Expedicionários Campineiros, cujas fileiras Salvador Moreno veio a pertencer desde a sua fundação, ainda a bordo do General Meigs, quando os pracinhas embarcados em direção ao Brasil lá tiveram a idéia de fundar a Associação e assim preservar a memória e o patrimônio histórico-cultural dos cidadãos campineiros, adotivos ou de nascimento, que combateram na II Guerra Mundial (1939-1945), na defesa da honra e da integridade nacional no litoral brasileiro, nos campos e nos ares da Itália. Referências
Bibliográficas FONTE: |
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