Cabo Raul Graciani
Ex-Combatente da 2ª Guerra Mundial

1918
2000

8° GMAC - Grupamento Móvel de Artilharia de Costa
(1ª Bia de Canhões)

(Períordo: de 30.11.1942 a 17.03.1944)

BC AD/1E - Bateria de Comando da A.D. 1/E

(Período: 18.03.1944 a ...)

Em 1944, me apresentei como voluntário no 8º GMAC Bateria de Comando da A.D.1/E. Éramos os fundadores de um grupo de artilharia e tudo era novidade para nós. Seu comandante, o Cap Francisco Saraiva Martins, homem de fibra e que tinha o RDE (Regulamento Disciplinar do Exército) como seu livro de cabeceira.

Nossos treinamentos físicos eram feitos em pistas de obstáculos de cavalos e algum tempo depois o quartel foi transferido para Triagem onde havia edificações novas e ruas calçadas de paralelepípedos, onde fazíamos a física. Havia duas brincadeiras, meio besta, ai. Uma era o chamado corredor polonês e a outra era a briga de botequim. A primeira era formada por duas alas de soldados, uma em frente a outra, formando um corredor por onde tínhamos que passar correndo, enquanto os soldados das alas batiam em nossas costas. Na corrida, os paralelepípedos cortavam a sola dos pés, tendo muitos que baixar à enfermaria. A segunda formavam-se dois grupos de soldados, geralmente das duas baterias. uma fazia de conta que estava no botequim fazendo desordem e a outra seria a polícia que queria acabar com a briga. Era uma verdadeira luta livre e o fim sempre era a enfermaria.

8º GMAC - Grupamento Móvel de Artilharia de Costa - 1942 - Leblon - Rio de Janeiro
O círculo verde indica o Cb Raul Graciani

Nossa Unidade patrulhava a costa do Rio de Janeiro, desde o Leblon até o Pontal de Sernambetiba, fim da maior praia do Rio, a praia da Barra com seus 21 quilômetros de extensão. Tínhamos acampamento em praias da Av. Niemeyer, São Conrado e Barra da Tijuca. O "black out" obrigava a pintar as luzes de preto do lado do mar, para não sermos vistos pelos submarinos alemães. Na época a Barra da Tijuca era completamente deserta. Só havia um comércio para atender os pescadores. A vegetação era alta, abrigando muitas espécies de animais, tais como cobras e ouriço-caxeiros. Em nossos acampamentos, era escalada uma turma para catar siris, havia tantos que quando se pegava um, outro beliscava o pé do apanhador.

Certa ocasião planejou-se fazer exercícios de tiro real com os canhões e trabalhamos duro para instalar 40 quilômetros de fios telefônicos. Era a vez de vir os canhões com a tropa. Na descida do Joá para a Barra, numa curva, o trator que transportava a tropa e puxava o canhão, perdeu o freio e o motorista, para não matar os homens, jogou o trator no paredão de pedra, para pará-lo. O canhão era mais pesado e, girando rebentou o engate e desceu na ribanceira indo parar, ficando no chão, no meio de um bananal. Levamos o dia inteiro para tirá-lo de lá. A brincadeira estava terminada, não houve exercícios de tiros e tivemos que recolher os fios sem usá-los

8º GMAC - Grupamento Móvel de Artilharia de Costa - 1942 - Leblon - Rio de Janeiro

A 1ª Bateria foi designada para compor a FEB e os preparativos eram feitos rapidamente. Fomos removidos para Deodoro, onde nos devíamos preparar para a guerra. Manobras em Gericinó, reconhecimento de armas novas e aparelhos de rádio.

Certo dia, o capitão nos disse: É hoje. Preparamos as mochilas e sacos e fomos acampar no Recreio dos Bandeirantes, nesta época, completamente deserto. Armamos nossas barracas e nada tínhamos para fazer senão passar o dia inteiro na praia ou subir na pedra do Pontal houve ali, até um acidente grave. Um sargento caiu da pedra, fraturando alguns ossos. Dizíamos, que os navios chegariam ao largo e nós seríamos transportados por lanchas. Enquanto isso embarcava no cais do porto o 1º Escalão da FEB - 02/07/1944.

Voltamos, chateados ao quartel, aguardando nosso embarque, até que um dia fomos levados a um quartel de Campinhos, onde dormimos e o capitão nos revelou que era desta vez o embarque e nos concedeu telefonar para nossos familiares, sob sigilo. No dia seguinte, tomamos um trem em Madureira e fomos diretos ao cais do porto, o trem tinha suas janelas fechadas e, ao desembarcarmos, vimos dois belos e enormes transatlânticos, Gen Mann e Gen Meigs. Nossa Bateria de Comando da A. D. 1/E foi para o primeiro, junto com o 1º RI, onde nos acomodamos em beliches de quatro andares. Éramos cerca de 6 mil homens, em cada navio e, mais 2 mil tripulantes. Era 22 de setembro de 1944.

Começamos a viagem em clima de euforia, cantando ao sair da barra, "Quem parte leva saudade". A vida no navio era monótona, mas divertida, passávamos os dias em bate-papos nos beliches ou no convés. Os banhos eram de água salgada do mar e os banheiros abertos, sem portas. Olhando um para a cara do outro.

A passagem do Equador foi uma festa animada. Os auto-falantes anunciavam um prêmio ao primeiro que descobrisse no mar a linha do Equador. Foi uma boa farra. À tarde tivemos um exercício de tiro e emergência.

Na costa da África tivemos um alarme, um submarino inimigo foi detectado. Todos fomos para os beliches e a marujada corria, pelos corredores carregando mangueiras e outros apetrechos, como se fossem atletas em pista de atletismo, para ocuparem seus postos.

Os canhões de poupa começaram a atirar. Tudo tremia e nós na cama impassíveis sem nada poder fazer, nem sair do beliche. O barulho infernal continuou por toda à noite.

No dia seguinte, soube que, talvez tivessem afundado o submarino e que o destróier ficara na área, patrulhando. A viagem prosseguiu, a rotina de bordo voltou ao normal. Logo passamos por Gibraltar e entramos no Mediterrâneo, ao longe se avistava Ceuta e a costa da África. Chegamos sem mais incidentes a Nápoles. O porto estava quase todo destruído e vimos os primeiros vestígios da guerra. Navios emborcados, outros apenas com o chaminé fora d'água. O cais destruído, restando apenas um píer, onde atracamos.

Passamos para umas barcaças que atracaram a seguir. Estas eram grandes, cabiam duzentos soldados, suas rampas de desembarque eram na proa e seguimos em formação para fora da Baia de Nápoles. Ao anoitecer, aportamos e passamos a noite em Pazzuolli. Pela manhã, tivemos o primeiro contato com o povo italiano que chegou às barcaças para nos vender uvas ou trocar por cigarros.

Zarpamos e foi refeita a formação das barcaças, escoltadas por destróiers e blimps (balões dirigíveis). Navegamos pela costa da Itália, no mar Tirreno. Seguimos devagar, até o porto de Livorno. O porto estava completamente destruído, não havia um pedaço de cais e os navios afundados atravancavam tudo. As barcaças foram manobrando, as primeiras lançaram suas rampas para terra e as outras foram se encostando umas nas outras e unindo-as por pranchas e nós desembarcamos, passando de uma barca à outra, pelas pranchas, até que a última prancha nos levou a terra firme. Esperávamo-nos, os caminhões, que nos levaram para a Tenuta San Rossore onde acampamos em barracas americanas de 10 praças. O Mar de barracas era de perder de vista e ali, recebemos a visita de nosso Ministro da Guerra, o General Dutra, foi uma bonita parada, Dutra passava revista às tropas e nós, em posição de sentido, sem mexer um músculo, em forma por centenas de metros. Eram mais de 10 mil homens.

Recebemos armamento novo e bastante sofisticado: Fuzis Garand, metralhadoras .50, bazucas, metralhadoras .30, de mão, morteiros e canhões. Nossos rádios eram de 3 tipos, de várias freqüências e alcances. O que mais usamos foi um de escuta permanente, com dois receptores e dez canais que funcionavam com cristais, estes podiam ser trocados periodicamente. Recebemos os criptográfos (máquina de codificar mensagens) e aprendemos a usá-las. Nossos carros eram jipões Dodge, que foram nosso ambiente de trabalho durante toda a guerra. Nosso rádio podia ser acoplado à linha telefônica através de remoto-controle acionado pelo operador.

Éramos, na bateria, cerca de 110 homens, turmas de telefonistas, turma de rádio, de meteorologistas, de motoristas, dos burocratas do comando e outros como interpretes, mensageiros, etc. Um capitão, um primeiro tenente e dois segundos tenentes convocados. Na turma da cozinha, trabalhava um dos grandes jogadores de futebol do Brasil, o Perácio que na época jogava no Flamengo.

Enquanto estávamos ali, o 1º Escalão fazia grandes progressos na frente de batalha. Tiveram seu batismo de fogo na frente de Massa-Carrara. O 6º RI ocupou uma frente de 9 quilômetros e com ordem de penetrar 5 quilômetros nas linhas alemãs, no dia 16 de agosto de 1944 e tomaram Massarosa, Quieza e Bozzano. No dia 18 Zenóbio comandou pessoalmente uma investida com os soldados em jipes, avançando sobre os alemães em alta velocidade, descendo o morro, para surpresa dos inimigos que nunca tinham visto guerrear assim. Os brasileiros já estavam bagunçando a guerra. E, Camaiore foi tomada, tinha grande importância estratégica e foi nosso 1º feito, grande feito. Os alemães tiveram que abandonar a linha Camaiore. Este episódio marcou, bastante a presença dos homem brasileiros como combatente dos mais dignos, entre os maiores do mundo, os alemães e deu aos americanos a confiança que precisavam. do valor e denodo da nossa gente.

Começaram as chuvas, o rio Arno encheu cobrindo pontes e casas de Pisa, descobrindo, com a enxurrada as minas que os alemães tinham deixado de presente para nós. Recebemos ordens de levantar acampamento. Formamos em comboio e saímos de San Rossore, passando por fora de Pisa, por causa das enchentes e tomamos a auto-estrada Pisa Firenze até Pistóia, onde a abandonamos, entrando na cidade e, sem parar, tomamos a estrada 64 (Pistóia-Bologna), subindo as montanhas dos Apelinos começando a ver rolos de arame farpados nas encostas, pontas de trilhos fincados no chão e trincheiras abandonadas. Eram os primeiros vestígios da Linha Gótica, que os alemães prepararam para resistir o avanço dos aliados e o nosso também, nos perigosos contrafortes dos Apeninos. Já era tardinha, estávamos cansados e com fome, os caminhões pararam na subida, em frente a um olival com suas oliveiras carregadas de frutos maduros, ficamos alvoroçados, saltamos dos caminhões e pulamos a cerca para apanhar as azeitonas. Todos nós fizemos uma careta horrível ao comê-las. Foi uma risada geral.

O comboio continuava seguindo para o desconhecido e anoiteceu, nossa progressão era feita sem faróis, só com olho de gato e o motorista da cabeça do comboio tinha que dirigir, mais pela intuição que pela visão. Passamos por algumas aldeias e chegamos à Porreta-Terme, seguimos em frente, a cidade estava às escuras e já se ouviam os tiros de canhão. Um frio desagradável correu por nossas espinhas. Atravessamos a ponte, deixando a estrada e seguimos por uma estrada de terra, subindo novamente, numa curva de 180 graus, havia uma casa,. era nossa primeira parada nos campos de batalha. Dormimos acomodados de qualquer jeito e no dia seguinte, procuramos melhores acomodação. Acomodados, começamos nossa vida de guerra. Começamos esticando os fios e instalando os telefones e aparelhos de rádio e começamos a contactar com os outros aparelhos.

Assim começou nosso trabalho, enquanto os infantes ocupavam suas posições nas trincheiras. Eram os que tinham contato direto com os alemães e de quem se exigia o maior sacrifício. No setor radiotelefônico, nosso comandante era o Sgt Carcará, homem que não tinha diálogo conosco. A cozinha foi instalada abaixo da estrada e Perácio fazia o trabalho de auxiliar de cozinha.

O Comando da FEB avançara 7 vezes, desde Bognoli, em 16/7/44, passando por San Rossore a 16/9 e chegou a Porreta-Terme em 2/11/44, ocupou uma casa grande com uma torre, imitando um castelo que ficava na rua principal da cidade, sua fachada amarela foi maculada , mais tarde, por uma granada da artilharia inimiga, resultando um grande rombo sobre uma janela, nós o chamávamos de "castelinho".

Parte da Bia de Cmdo da A.D. 1/E em Porreta-Terme - Itália

O Vale do Reno estava ocupado pelablindada e limitava esta, em manter as posições ocupadas, frente ao maciço Belvedere-Monte La Torracia-Monte - Castelo-Affrico-Torre di Nerone-Soprassasso. A Torre de Nerone era uma ruína atribuída ao tempo de Nero e era um valioso ponto de observação, mas, encravada em território inimigo, a vida de seus defensores andavam constantemente por um fio. Era tamanho o barulho à noite que se dormia apenas com o dia claro. As comunicações eram difíceis, os fios telefônicos eram sempre cortados pela metralhadora. As trocas eram feitas à noite e rastejando, para não despertar a atenção dos inimigos. Muitos ali ficaram e os que sobreviveram, nunca mais esqueceram aquele lugar infernal.

O Coronel Dewey, da blindada, confessou que a torre era, freqüentemente, passada de mãos, perdendo na última investida alemã, um pelotão inteiro que foi feito prisioneiro. Mascarenhas não titubeou e garantiu que a torre seria mantida pelos brasileiros, apesar da sugestão do Coronel americano em poder abandoná-la.

O 2º Batalhão do 6º RI ocupou a Torre de Nerone e imediações. As chuvas continuavam, o terreno estava encharcado, já fazia frio e os "fox-roles" eram banheiras de água barrebta e os soldados ali dentro e a chuva por cima.

Na manhã seguinte, os alemães notaram "algo de novo no front" e responderam com pesadas cargas de artilharia e morteiros, causando muitas baixas em nossos homens.

O IV Coro determinou que conquistássemos Castelnuovo, mas este objetivo era longe e a frente Belvedere - Castelo - La Torracia estavam mais perto exigindo tudo de nós.

Os alemães guerreavam com todas as armas disponíveis e, dentro em pouco, começamos a receber granadas cheias de panfletos escritos em português, sugerindo que a tropa brasileira voltasse ao Brasil, onde dominava o sol tropical e não ficasse para morrer nos campos de neve da Itália. Que éramos lacaios dos americanos e outras coisas para nos ofender. Vocês já imaginam o que fazíamos com esses papéis?...

No dia 14/11/44, foi aprisionada toda uma patrulha alemã, emboscada por nós. Nossa patrulha era comandada pelo Sgt Onofre da 5ª Cia do 6º RI, nas imediações da Torre de Nerone, foi nosso primeiro feito no vale do Reno.

O General Mascarenhas recebeu e transmitiu as seguintes ordens: "Defender, fortemente as regiões de Affrico e Torre de Nerone; cobrir o franco Oeste da posição, com maior esforço nas regiões de Bombiana e Gaggio Montano; imediatamente, fixar as posições de Soprassasso e cota 722, levando o flanco direito do setor face às vertentes sul das alturas de Castelnuovo". Isso tudo era a incumbência do 1º Escalão, apenas: 6º RI, 1º Esquadrão de Reconhecimento, 3 Grupos de Artilharia 105, a 1ª Cia de Comunicações e o 9º Batalhão de Engenharia de Combate. Alguns tangues americanos, cuja função era discutível, pois, na montanha e na lama não se moviam e o apoio da artilharia americana que também tinha o que fazer e não podia nos paparicar, e seus canhões de trajetória muito tensa. Foi estabelecido um sub-setor com essa tropa: um batalhão, um Quarteirão Leste (1º Batalhão do 6º RI) e um Quarteirão Oeste (2º Batalhão do 370º RI de negros americanos). O retardo da tropa do 2º Escalão entrar em combate - 1 mês e meio - se deveu a falta de materia lnas proximidades da linha de frente, enquanto a sede da PBS em Caserta dispunha de tudo em estoque e, teve que se admitir o fornecimento de material das unidades em combate aos soldados ainda desprovidos deles. E, só em 21 de novembro, foi confirmada a substituição do 6º RI pelo 1º RI (menos 0 1º Batalhão) já iniciada à noite de 20/21. E, o 6º RI pode então descansar (menos o 2º Batalhão) em Borgo Capene e Granaglione, depois de dois meses de luta intensa, deu-se o primeiro repouso dos guerreiros. O 2º Batalhão recebeu nova ordem de permanecer em Ca di Cristo.

O 2º Batalhão do 1º RI foi para frente e seus homens tiveram o seu material completado pelos outros dois batalhões do regimento, em seguida, o 3º Batalhão assumiu a frente pelo mesmo método e o 1º Batalhão do 1º RI teve que se prover no 11º RI. Seria, no Brasil, agora, considerado fruto do subdesenvolvimento, mas estávamos na Itália, no meio dos exércitos dos países desenvolvidos e, com garantia de que nada nos faltaria, pois estávamos pagando tudo!

Após de dois ataques Monte Castelo, mal sucedidos e que causou muitas baixas, o IV Corpo decidiu que deveríamos atacar novamente, e no dia 5 expediu uma ordem que dizia: "Capturar e manter a crista Belvedere - La Torracia. Estar preparada para, mediante o auxílio do IV Corpo, capturar Castelnuovo e Monte della Croce. A reserva da Divisão só poderá ser empregada mediante ordem do IV Corpo. Ligar-se à 6ª Blindada Sul-africana".

A Ação ocorreria no dia 12 e foi comandada, integralmente pelo General Zenóbio. No reconhecimento feito por Mascarenhas, Zenóbio e Cordeiro, ficou constatado que a missão requeria duas divisões, para ser realizada com êxito, mas, somente uma divisão, a nossa, deveria participar, acresce a circunstância, de que os alemães estavam concentrando suas forças, frente aos ataques constantes, no mesmo ponto, isto é, em Monte Castelo, pelas nossas investidas, feitas anteriormente. E mais, tomar Belvedere e La Torracia sem poder usar sua tropa de reserva, sem prévia autorização, o que era mais uma ingerência em nossos assuntos.

Coube aos Regimentos Sampaio e Tiradentes (1º RI) e (11º RI) o maior fardo da luta. Chovia muito e um nevoeiro denso dominava o ar, não podia levantar aviões de reconhecimento, nem os PO (posto de observação) via nada. A visibilidade era zero. Os canhões só podiam atirar por cálculo de mapa. As .50 eram inoperantes. Os alemães pressentindo a operação atacaram e tomaram a crista de Monte Belvedere dos americanos. Os americanos atacaram com artilharia, precipitando o combate e, às 6 horas, o 3º batalhão avançou, chegando, às 6:30 horas, na linha Lê Rocole – Casa di Guanela.

O 2º batalhão começou a se mover às 8 horas e foi loco atacado por rajadas de artilharia e de morteiros, “na baixada de Casa di Guanela – La Cá – C. Vitelline”.

Os Alemães respondiam ao nosso fogo com fogo dobrado, dominando completamente a situação. Às 3 horas da tarde, nossos homens já sabiam que não poderiam mais prosseguir, já estávamos com cerca de 14 mortos e 140 feridos. A Neblina impedia a ação de nossa artilharia e dificultava a ação de nossos observadores dos PO, impedidos de ter uma visão clara do quadro, chegando a ponto de confundir nossos homens, com os alemães, anunciando a tomada, por nós, de Mazzancana e depois, Abataia e Valle.

O inverno Chegara com todo o vigor, e o maior fracasso das tropas brasileiras em toda a sua história, não esmoreceu nossos soldados que enfrentavam outro maior inimigo, o “General Inverno”, que combateu e venceu os exércitos de Napoleão e Hitler, na Rússia.

A frente ficou bonita com a tempestade de neve, toda a terra se cobriu de branco, sepultando nossos mortos nas encostas de Monte Castelo. Os brasileiros achavam tudo aquilo era novidade.

Porreta-Terme era castigada, constantemente pelos canhões 170n alemães, nosso contingente foi se alojar numa encosta, acima da represa, num vale bem abrigado, depois era cercado de montanhas e, banhado por um riacho que descia a montanha dos lados da cidade de Casteluccio. Nesta época tudo estava coberto de neve e a represa tinha uma grossa camada de gelo cobrindo sua superfície. As noites, mesmo com os tiros de inquietação, eram calmas, de vez em quanto éramos acordados com tiros dos canhões 170 e tínhamos que correr para apanharmos nossos capacetes de aço e em seguida nos abrigarmos melhor, já que a calmaria nos fazia acreditar que estávamos seguros.

Janeiro foi o mês de maior intensidade do frio e neve. As nevadas eram constantes. Uma manha, após um noite de nevada, as ruas estavam com cerca de um metro e sessenta centímetros de neve e os italianos saíam de suas casas, com suas pás e iam abrindo o caminho. Em meados de fevereiro, começou o degelo.

Tomada de Monte Castelo

Os americanos, que haviam dado um vexame, em novembro, deixando os alemães retomarem a crista do Monte Belvedere, prejudicando nossas tropas e expondo mais a cidade de Porreta-Terme, aos canhões alemães, Saíram da frente, dando lugar à 10ª D.I. de Montanha, americana, unidade de elite especializada em montanha, formadas nas Montanhas Rochosas e preparadas para qualquer tipo de escalada.

A 10ª de Montanha retomou a crista de Monte Belvedere, que era o início da defesa alemã, sobre o Vale do Reno, o que facilitou, bastante, nossa ofensiva contra Monte Castelo, pois, da crista de Monte Belvedere partiam tiros que nos atingiam no flanco esquerdo e atuavam os observatórios PO nazistas.

O combate começou pela manhã, às 8 horas, nossa artilharia havia preparado intensamente, o terreno, na última semana, só na noite de 20/21 foram lançados 8.600 tiros, sem contar os tiros dos canhões de infantaria e os de morteiros. A progressão era limitada; lama, terreno escarpado, campo minado, eram os empecilhos ao avanço, sem contar o fogo intenso dos defensores do monte. O 1º batalhão do 1º RI foi o mais prejudicado neste sentido e ainda agravado com o intenso fogo inimigo. Os alemães, quando viram que se tratava de um avanço para lhe tomarem o monte, tiraram seus canhões de campanha das casamatas e atacaram com tiros diretos sobre nossa tropa, ocasionando muitas baixas e pânico. Com isso, nossos homens perdiam o auxílio de nossa artilharia, para que revidasse o ataque, o que ocasionou diálogos nervosos, pelo telefone, acompanhados de palavrões e palavras ásperas.

A infantaria continuava a progressão, sem o auxílio de nossa artilharia, tiveram que responder com seus morteiros e armas de mão. A lurdinha continuava a cantar seu canto sinistro e assim os infantes foram ocupando o monte e expulsando os alemães. No nosso flanco esquerdo, uma companhia da 10ª de Montanha atacou uma companhia do 1º RI, matando um soldado e ferindo outros. Foi alegada a semelhança de nossos uniformes aos dos uniformes alemães, mas esta confusão era, um tanto inverossímil, nossos capacetes de aço eram americanos, bem diferentes dos nazistas. Houve, um grande atraso, na progressão do 1º batalhão do 1º RI, por este episódio lamentável.

Ocupamos a montanha. O 1º batalhão atingiu a cota 977. Eram 5:40 horas da tarde, quando um pracinha brasileiro ficou nossa bandeira verde-amarela no ponto mais alto de Monte Castelo, este pracinha pertencia ao 1º RI.

A batalha ainda não estava ganha porque os alemães eram mestres nos contra ataques e a 10ª de Montanha ainda não tinha conseguido alcançar seu objetivo, o Monte Della Torracia, onde os alemães resistiam ferozmente. O 2º Batalhão do 1º RI foi lançado entre 5 3 6 horas da tarde, para o norte de Monte Castelo, facilitando a progressão do 3º batalhão, para coroar a montanha. Continuou sua ação, tomando os pontos críticos da defesa alemã. – C. Viteline – Casa di Guanela, La Cá. O 2º batalhão pode descansar, mantendo sua vigilância, após um dia cheio, nesta noite, ainda pelas 2:30 horas da madrugada de 22 tomaram a famosa Abataia, forte reduto da resistência inimiga. Eram cerca de 12 horas quando a 10ª de Montanha conseguiu tomar La Torracia, apoiada pelo fogo intenso de nossa artilharia.

No dia 22, o capelão do 1º RI foi encarregado de comandar uma missão bem macabra, recolher os mortos brasileiros da batalha de 12 de dezembro, tinham eles ficados sepultados na neve durante todo o inverno e, só agora foi permitido dar-lhes sepultura.

Recebemos ordens para levantar acampamento e seguir para Gaggio Montano. Desde o combate da tomada de Monte Castelo, não mais foi visto nosso sargento Coringa, o cinegrafista da artilharia, nem encontrado seu cadáver, nem seu equipamento. Em vista disso, foi considerado desaparecido, provavelmente, havia sido feito prisioneiro dos alemães. Lamentamos o fato, e, como era comum, não se falou mais no seu destino incerto.

Nossas tropas continuavam ocupando as posições conquistadas e fazendo pequenos avanços. Continuamente, os alemães faziam os contra ataques, principalmente em Belvedere.Quando o ataque era à noite, pelas patrulhas gigantes alemãs, as escaramuças se notabilizavam pelo efeito pirotécnico dos “very lights” que eram lançados por nós, para iluminar o front. Os pequenos pára-quedas, com sua luz intensa, faziam um belo luar entrecortado pelas balas traçantes das metralhadoras e seu matraquear sinistro.

A preparação para a batalha de Montese foi severa: reequipamento, posicionamento da tropa, construção de linhas telefônicas, neste trabalho tivemos uma baixa, nosso companheiro, 2º sargento Arno Schneider, Comandante dos telefonistas, foi ferido por um morteiro, perto de Montese. O trabalho era tão próximo do inimigo, que nossa estrada era visão direta da cidadela inimiga e nós dela. Por isso, havia uma cortina de camuflagem ao longo da estrada, para minorar este perigo.

A 14 de abril foi feita a batalha. A 10ª de Montanha atacou com fogo de nossa artilharia, mas os alemães contratacaram ferozmente, ocasionando 553 baixas nas fileiras americanas, em 2 regimentos. A 1ª Divisão Blindada Americana não pode progredir devido, principalmente às dificuldades do terreno, que não se prestava ao emprego de blindados. Foi quando entrou o 11º RI. Neste lance, foram ocupados pontos estratégicos. Estes pontos foram violentamente atacados pelos alemães. Apesar desta reação, nossa Infantaria conseguiu ocupar, às 13 horas, a linha: Casone – II Serro – Possessione – Cota 745 – e daí, saia novo ataque para: Montese – Montello – Cota 888 - que era nosso objetivo final naquele dia.

O 1º Batalhão do 11º RI, à esquerda e o 3º Batalhão, à direita, começaram, meia hora depois, a progredir. Já, no meio dia, o comandante do IV Corpo pressionava a FEB a atacar Montese, frontalmente, para aliviar a 10ª de Montanha, que se achava em maus lençóis. O 1º Batalhão avançou, diretamente contra Montese. A 2ª companhia conseguiu avançar, aproveitando uma brecha, mal definida, dos alemães. Entraram em Montese até ficarem detidos pelo fogo inimigo. Foi mandado um mensageiro para pedir socorro. Foi-lhe enviada uma patrulha, que caiu num campo minado, necessitando de uma verdadeira operação de resgate para socorrê-la. Turma de mineiros da Engenharia trabalhavam bastante, sob o fogo intenso dos alemães. Nossa Artilharia teve que intervir para aliviar sua intensidade.

O 3º Batalhão alcançou Serreto e imediações de Paravento, com o auxílio dos tanques americanos, funcionando como artilharia. Enquanto isso, o 1º Batalhão consolidava a tomada de Montese.

O combate de Montese, como todo combate de rua, teve lances dramáticos; alemães atiradores nos telhados, nas janelas, nas esquinas, atrasando o progresso dos brasileiros, com suas rajadas de metralhadoras, e quando acabava a sua munição, levantavam os braços e, para suscitar piedade, tirava de seus bolsos o retrato da família e mostravam a nossos soldados, para não serem metralhados. Alguém, uns dizem que foi um tenente, outros, que foi um capitão, deu uma ordem, no calor da luta: “Não peguem um metralhador vivo!” E, não houve metralhadores alemães prisioneiros naquele dia. As leis de guerra mais uma vez eram letras mortas.

Os alemães, ao se retirarem, levaram seus mortos, deixando um cadáver de um soldado brasileiro, na praça de Montese, os italianos, logo o enterraram em uma encosta onde ficou 21 anos. O prefeito de Montese, indo à solenidade de inauguração do Monumento aos Mortos Brasileiros em Pistóia, relatou que havia ainda, enterrado em Montese, um soldado brasileiro. No ano de 1967, foram exumados e levados para Pistóia os restos mortais do soldado Fredolino Chimando, do 11º RI. Foi promovido a cabo “Post Morten”, É o único soldado brasileiro que ainda permanece em território italiano, no antigo cemitério de Pistóia.

Começou então, para nós, a “corrida” à procura dos alemães. Recebemos ordem de capturar elementos inimigos na margem do rio Panaro e atingir Zocca. O 6º e o 1º RI ocuparam Zocca – II Monte, após alguns combates. Chegamos a Zocca á tarde e soubemos que os alemães tinham partido de manhã. Ali fui conhecer os belos e terríveis canhões 170 que muito nos fez sofrer em Porreta-Terme. Tinham sido abandonados pelos retirantes. Dormimos em Zocca e pela manhã, vimos passar sobre nossas cabeças, um avião de bombardeio americano, que voava a baixa altura e logo após, bombardeou a estrada por onde viemos, logo acima. Era evidente, um ataque alemão. Os alemães reconstruíram aviões aliados abatidos, e recuperados, fazendo estragos em nossa linha. Nossas metralhadoras logo o fizeram cair em chamas. Mais um dos truques de guerra.

Partimos de Zocca pela manhã em perseguição às tropas nazistas. Seguimos adiante e alcançamos Montecchio-Emilia à tardinha. Pela manhã, os alemães se retiraram dali. Nossa progressão tinha sido limitada ao sul da Via Emília, com a incumbência de evitar que as tropas alemãs remanescentes, vindas dos Alpinos atingissem o rio Pó e o atravessassem.

No mesmo dia, o 1º Esquadrão de Reconhecimento contactou com tropas alemães que ocupavam Collecchio, cidadezinha ao sul de Parma, à margem da estrada 62: dois batalhões da 90ª Divisão “Panzer”, que seria uma cabeça de ponte da 148ª DI alemã, esta divisão estava considerada desaparecida, pelo IV Corpo, que não possuía nenhuma informação dela, desde que deixou a frente de Massa-Carrara. Nossa tropa era bastante inferior, mais o Capitão Pitaluga revolveu atiçar a fera com fará curta, não se lembrando que nossas tropas, mais próximas, estavam a muitos quilômetros de distância. Era o 1º Batalhão do 6º RI, estava detido por tropas alemãs muito superiores e contratacaram violentamente. O Esquadrão de Reconhecimento da 34ª DI americana não estava mais trabalhando ao sul da estrada 9. A situação era difícil. O Gen Mascarenhas recebeu o pedido de auxílio pelo rádio em Montecchio e verificou que as tropas que chegavam, 1º Batalhão do 6º RI, estavam exaustas, pelo dia cheio, da caçada aos nazistas. Em S. Pol D’Enza, estava chegando o 2º Batalhão do 11º RI e seu comandantes prontificou a atuar. O Gen Mascarenhas foi em seu jipe e mais 3 caminhões com os soldados, chegaram a Collecchio, safando a tropa brasileira do aperto em que se encontravam. Mais tarde, chegou o restante do Batalhão e os brasileiros, comandados por Mascarenhas e Zenóbio conseguiram vencer mais esta batalha, prendendo, os alemães, 600 prisioneiros e grande quantidade de material bélico.

Neste mesmo dia, 26 de abril, a 10ª de Montanha tinha alcançado Verona após atravessarem o rio Pó, com a finalidade de impedir que os alemães fugissem pelo Passo de Brenner.

A 27, Piacenza foi tomada depois de renhido combate oferecido pelo 1º RI e a 34ª DI americana. Grazziani, chefe do Exército italiano, rendeu-se a Codorna, General italiano que lutava com os aliados. Tinha havido, dois dias antes, uma reunião com Mussolini e seu Estado-Maior, para discutir a rendição e o Duce não aceitou a idéia, fugiram então para a fronteira da Suíça na região do lago de Como, para tentarem atravessar a fronteira e fugir da prisão eminente. Grazziani resolveu voltar para não afastar do destino de seus homens. O 6º RI, encontrando resistência ao sul de Collecchio, pressentiu grande concentração de tropas oferecendo combate, se posicionou para a batalha e vigiava toda a região, combatendo na zona da estrada 32. Neste mesmo dia, tropas americanas chegaram a Como, que já estavam nas mãos dos partisanos.

Fornovo Di Taro – Rendição da 148ª DI Alemã

Às 11 horas da noite, apresentaram-se três oficiais alemães, chefiados pelo chefe do Estado Maior da 148ª DI, o major Kuhn, ao PC do 6º RI, em Collecchio, no sentido de negociar a rendição, alegando não estar à divisão em condições de combater, por estar com muitos feridos, sem condições de tratamento e com seus equipamentos bélicos desfalcados. Era diferente, as condições com que a defrontamos em Monte Prano. Foi relatado que a tropa se compunha da Divisão alemã e restos de duas Divisões italianas: a Itália e a Monte Rosa e Batalhões da 90ª Divisão “Panzer”. Cerca de quatro mil homens. Após 6 horas de discussão, entrando pela madrugada, ficou acertado que a rendição era incondicional, era esta a ordem recebida por todas as tropas do 5º Exército e que cessariam os tiros de nossos canhões, logo que os parlamentares transpusessem as linhas. Era uma das principais preocupações dos parlamentares, pois, nossos canhões faziam muitos estragos em suas fileiras. Foi pedido que fosse dado o mesmo tratamento de prisioneiro de guerra, ao General Carlini, comandante da Divisão Italiana, A maioria dos elementos das divisões italianas desertou quando viu a guerra perdida e preferiu procurar seus parentes ou suas cidades, onde encontrariam apoio. Restavam apenas cerca de dois batalhões italianos acompanhando os alemães.

Ficou acertado que a deposição das armas se fizessem em dois postos e começaria às 17 horas do dia 29, o que se deu. Os oficiais foram separados para serem enviados para Modena, onde permaneciam os outros oficiais já aprisionados. Os soldados em coluna por um, iam andando e jogando no monte suas armas. Uns jogavam-nas violentamente, no intuito de se quebrarem, alguns, mais afoitos, pegavam seu fuzil com as mãos e a levavam ao joelho para quebrarem a coronha, o que era conseguido por muitos. Procuravam por todos os meios, apesar da vigilância dos brasileiros, danificar o material a ser entregue, A rendição foi uma operação monótona, enfiou noite adentro e durou cerca de 22 horas. Os soldados ao se despedirem de seus oficiais choravam, como se estivessem se despedindo de seu próprio pai que estava morrendo. Durante este trabalho, um grupo de partisanos atacou uma bateria Da artilharia alemã. A unidade alemã pediu socorro e tivemos muito trabalho para convencer os partisanos que aquela tropa já era nossa prisioneira e que estavam obedecendo nossas ordens para entregar as armas. Os alemães tinham medo de cair nas mãos deles.

A rendição se completou com a apresentação do General Otto Fretter-Pico, comandante da 148ª DI, que foi levado de carro para Florença, onde era o QG dos Exércitos aliados na Itália, foram reunidos todos os Generais inimigos aprisionados. Ao todo foram aprisionados mais de 14 mil homens.

No dia 30 de abril foi feito um desfile das tropas do IV Corpo e sua entrada oficial em Milão e a FEB estava representada por um grupo do 1º RI.

Enquanto isso, nossa bateria estava em Montecchio, junto ao comando e as coisas melhoraram para nós. Estávamos no trabalho de ocupação e policiamento da cidade e no 1º dia de maio, fomos convidados pelas italianas para uma festa. Um baile, no qual seria comemorado o Dia do Trabalho – esta festa, por sua origem comunista, era proibida por Mussolini. Foi ótimo, todos se divertiram muito, mas como tudo que é bom dura pouco, tivemos que voltar muito rápido para a nossa realidade e ao amanhecer partimos.

Chegamos à Piacenza, que já tinha sido tomada pelos americanos e por nossas tropas. Ocupamos uma escola, para ficarmos ali e nossas patrulhas ainda prenderam 80 alemães, muitos à paisana, preparados para se misturarem na população civil, mas foram denunciados pelos italianos e ainda salvamos muitos italianos de linchamento, sob a alegação de que eram fascistas, o populacho os perseguiam pelas ruas, como crianças na malhação de Judas, no sábado de Aleluia. Os alemães ficaram no pátio, na hora do almoço nosso tenente da cozinha pediu ao capitão alemão para os colocar em forma para receberem o rancho, a uma ordem de comando, os soldados que estavam deitados, descansando, levantaram-se imediatamente e se puseram em forma, mostrando a disciplina militar, que mesmo na derrota, permanecia viva naqueles homens que quase dominaram o mundo. Ali passamos a noite e no dia seguinte seguimos nosso caminho. Ao passarmos pela cidade de Stradela, famosa por ser a cidade das fábricas de acordeons e sanfonas, fomos recebidos como heróis pela população nas ruas, dando-nos vivas, nos chamando de “Liberatori” e nos oferecendo flores e vinho. Passamos sem parar e fomos para Campospinoso-Alberedo.

Cansados da viagem desde Piacenza, ocupamos a escola da aldeia e então, pudemos afinal descansar. Estava terminando a guerra na Itália.

No dia 8 de maio de 1945, foi assinado o armistício na Alemanha, com a rendição das últimas tropas alemãs em luta. Estava terminada a maior tragédia que o mundo já viu, provocada pela ambição paranóica de dois homens e apoiada pelos seus povos que pagaram caro pelos seus ideais de conquista e expansionismo.

A vida, para nós, mudou. Nossas tropas passaram da agitação e apreensão da guerra, para a quietude da paz. Saíamos todas as tardes para ir a aldeia bater papo, entrando em contato com os residentes e tomar o bom vinho italiano.

Os brasileiros ocuparam uma área de mais de cem quilômetros no vale do Pó. De Piacenza à Alessandria e conviviam, muito bem, com os italianos. Foi incrementada a “tocha”. Tocha era o nome que dávamos a fuga da unidade sem autorização, como os atletas que levam a tocha na olimpíada, passeavam por seus próprios meios, conhecendo lugares e cidades, tinham que driblar os policiais militares nas cidades e estradas, pedindo carona e quando voltavam eram recebidos como heróis pelos companheiros que ouviam com prazer as suas peripécias. Por incrível que pareça, tivemos um tocheiro que foi preso em Berlin, pelos PM russos. Normalmente não eram punidos. Se acontecesse durante a guerra, poderia ter pegado um processo de deserção.

Foi estabelecido para nós, um sistema de turismo. Saíamos em grupo que davam para encher um caminhão, com passes para visitar as diversas cidades importantes do norte da Itália. Assim, visitei Milão, Turim, Gênova, Como, Veneza e outras. Como era difícil a comida nessas cidades, levávamos uma porção de “scatoletas” para comer, mas, comumente era mais prático trocarmos as latas por alguma comida quente.

Tivemos um infausto desastre na estrada. Nosso sargento mensageiro, Pavini, viajava com seu motorista a alessandria, para levar mensagem ao Comando da Divisão. Na estrada reta, havia várias carroças de feno que deviam ser ultrapassadas, numa dessas manobras, o carro estando na contra-mão, surgiu outro carro em sentido contrário. Pavini tomou o volante da mão do motorista e deu um golpe de direção. O carro saiu da Estrada e Pavini saltou do carro batendo a cabeça em um poste e o carro logo parou em um campo de trigo. Morreu pelos dois erros praticado. Um por tomar o volante do motorista e o outro por saltar do carro em movimento.

Francolise

Era um acampamento preparado em um campo de trigo. Centenas de barracas americanas, em forma de pirâmide, diferentes das nossas, em forma de telhado com duas águas, já as tínhamos usado em Tenuta San Rossore, cabiam dez soldados, muita poeira e mais nada. Soubemos que ficava perto da cidade de Cápua que fica a cerca de 50 quilômetros de Nápoles, onde deveríamos embarcar para o Brasil.

Encontro do Coringa

Um dia tivemos uma grande surpresa. Um de nossos oficiais superiores foi visitar Nápoles e Capri. O oficial viu em uma mesa do restaurante onde almoçava uma pessoa que não lhe era estranha que o fez levantar e exclamar: Você não é o Coringa, elegantemente trajando uma farda de oficial da FAB, comendo calmamente. Estava desaparecido desde a tomada de Monte Castelo – “Foi a nossa maior tocha”. Mais tarde, o interrogatório apurou que, na tomada de Monte Castelo, Coringa trabalhou bastante na filmagem da batalha e vendeu os filmes para seus colegas americanos, apurando muito dinheiro e resolveu gasta-lo fora da guerra. Comprou a farda da Aeronáutica e consegui passar todo esse tempo, passando bem edibrando a polícia militar aliada, que não pediam identidade a um oficial das forças aliadas, sem um motivo aparente.

Depois se criou um problema. Leva-lo à Corte Marcial? Afinal, era um desertor. Mas, havia o fato de que o Coringa, oficialmente, não era cinegrafista e se houvesse o processo, isto teria que ficar evidente. E, não devia aparecer este problema para nosso Comando da Artilharia. – O posto de 3º sargento do Coringa correspondia, no organograma da Artilharia, a uma atividade sem expressão, desnecessária, por isso, nosso general resolveu mudar a função. Comprou máquinas e filmes, para Coringa ser nosso cinegrafista, embora a Artilharia não comportasse esta função. Mas também o fato não poderia passar em brancas nuvens. Depois de muita discussão, acharam uma solução, resolveram rebaixar o Coringa a soldado e coloca-lo para trabalhar na turma da faxina. Coringa foi castigado e a honra da Artilharia foi lavada, embora, ficando sem os seus preciosos filmes e material cinematográfico, mas, Coringa foi cantado em prosas e versos pelos soldados.

A Volta

Nossos navios chegaram em Nápoles e embarcamos no Mariposa, grande navio que fazia a linha de turismo do Pacífico, antes da guerra, levando turistas para o Hawai e o gen Meigs, já nosso conhecido, quando da ida para a Itália. As acomodações eram as mesmas da ida, sem as apreensões e os perigos dos submarinos, embora, ainda permaneciam muitas minas alemães flutuando no mar, perigando a navegação. Ali somente tivemos contato com toda a tropa, de todas as armas e, como nada tínhamos para fazer, aproveitamos o tempo para contar nossas experiências e conferir nossas histórias.

Rio de Janeiro

A chegada no Rio de Janeiro foi apoteótica. Saímos do cais e nos formamos para o desfile e todo a população na rua em festa, vendo-nos passar. Próximo ao Obelisco estava armado um arco do triunfo e nós passamos por ele. Tudo era alegria.

Ao entregarmos nossas armas e fardamento e despedirmos de nossos companheiros de tantas lutas e peripécias, focou-nos uma interrogação. Seríamos bem sucedidos agora após o nosso regresso? Mas teria que esperar, agora o que mais importava era rever meus familiares.

Assim que fomos liberados, tomei um bonde até a Central do Brasil e peguei o trem até Japeri, lá chegando, fiz a baldeação para a minha saudosa “Maria Fumaça”, que tantas vezes, ainda menino, ao carregar a carroça de boi com caixas de manga da Fazenda Santa Helena, me dirigia, ainda no escuro, para a estação de Andrade Costa, para que fossem embarcadas na Maria Fumaça, com destino aos mercados do Rio de Janeiro. Agora eu estava voltando nela, faceira como sempre, e parecia que apitava mais, como se estivesse saudando-me alegremente por minha volta.

Minha chegada em Andrade Costa foi tão apoteótica quanto à chegada do Rio de Janeiro. Toda a população estava aguardando a chegada do trem para saudar seu único representante a participar da guerra. A minha mãe contratou uma banda de Paraíba do Sul para me recepcionar. Foi uma festa que jamais esquecerei. O maquinista, que já sabia da surpresa, começou a apitar o trem à um quilometro antes da chegada. Foi difícil de segurar as lágrimas ao ver a estação totalmente tomada, nunca havia visto tanta gente assim em minha cidade. Ao tentar descer do trem fui agarrado e me carregaram nos ombros até próximo de minha mãe que me abraçou muito emocionada. Neste momento, um guarda chaves da estação (o Edgar) soltou um foguete embaixo do telhado da estação e acabou atingindo-me na cabeça, mas não foi nada, apenas um susto. Seria muito azar, voltar ileso de uma guerra e ser ferido na estação de Andrade Costa.

Identidade Militar

Cobra fumando - Medalha de Campanha - Diploma da Medalha de Campanha


Boletim do Exército N° 27
Publicação do recebimento da Medalha de Campanha
(Boletim enviado pelo 2° Sgt Art André da Silva Castro do 26° GAC - Guarapuava, PR)

22 anos
67 anos


FONTE:

Acervo Roberto R. Graciani
Filho do Veterano

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