Vet. Pacífico Pozzobon
Ex-combatente da 2ª Guerra Mundial

Centro de Recrutamento de Pessoal da FEB

Pacífico Pozzobon mora na cidade de Santa Maria-RS. Atualmente preside a associação dos ex-combatentes desta localidade. Casado, ele tem dois filhos, sendo que o mais velho faleceu há oito anos. Possui, ainda, uma neta.

A participação de Pacífico Pozzobon da Segunda Guerra Mundial, segundo a sua ótica, foi narrada da seguinte forma:

- Ainda era um rapaz solteiro, e servia no 3° do 7° Batalhão de Infantaria, em Santa Maria, onde hoje é a Vila Militar, quando a Unidade foi transferida para Santa Cruz do Sul, em 1944. Antes de entrar para o quartel para prestar o serviço militar eu era agricultor. Eu queria ficar no quartel para seguir carreira, mas não ia dar, com a guerra fiquei mais um pouco. Depois de ir para Santa Cruz do Sul começou a seleção para ir para a Itália lutar pela Força Expedicionária Brasileira.

Veterano Pacífico e Cap Weissbach

- Na viagem para o Rio de Janeiro, saí de Santa Cruz do Sul na véspera do Natal de 1944, chegando no dia primeiro do ano seguinte, à noite. O meio transporte foi o trem de carga. Chegando lá fomos para um acantonamento, do 2° RC, onde fiz exames médicos e tomei medicação. Também recebi roupas e farda para ir para a Itália (túnica, culote). A roupa era um pouquinho melhor da que usávamos quanto servíamos em Santa Cruz. As instruções que recebemos não foram úteis para o que íamos fazer na Itália, como pude ver a seguir. As armas só recebemos na Itália.

- Saímos do Rio de Janeiro em 05 de fevereiro e chegamos na Itália no dia 21 do mesmo mês. As condições da viagem não eram boas, pois o alojamento (cabine) era pequeno e o balanço do navio causava muito enjôo. Cada Companhia tinha um alojamento. Muitos soldados perderam peso. Era muito quente no navio (mais de quarenta graus). Além disso, quem preparava a comida eram os norte-americanos, bem diferente da nossa. O navio também era americano. Era servida comida a cada doze horas. Quanto uma turma estava terminando, outra estava começando. Eram servidas durante as vinte e quatro horas e, às vezes se tomava café da manhã de tarde ou se almoçava de madrugada. Durante a viagem passei mal. Quase não comi. Cheguei muito magro. Os companheiros vinham e espremiam laranja na minha boca.

- Ao chegar à Itália era inverno. Um frio muito intenso. Os soldados brasileiros não possuíam roupas adequadas, por isso, recebemos novas fardas. A única peça da roupa que continuamos a usar, daquelas que viemos, foi a calça. As novas roupas recebidas eram todas norte-americanas (jaqueta, japona, roupa de baixo). Passamos por novos exames médicos e por uma desinfecção. Ficamos em alojamentos, mas a roupa era pouca para o frio que sentíamos.

- O frio foi uma coisa que chamava a atenção dos pracinhas brasileiros. Além de não estarem acostumados, algumas curiosidades com relação a temperatura chamava a atenção, como o fato da água congelar na tubulação ou mesmo se deixada em algum lugar. Isso fazia com que muitos soldados dormissem com o cantil debaixo do travesseiro com a finalidade de ter água em estado líquido pela parte da manhã. Criativos, os soldados brasileiros faziam brincadeiras, tais como jogar água de um local mais alto e não vê-la chegar ao solo. No trajeto a água congelava, transformando-se em cristais de gelo.

- Durante a primeira refeição feita na Itália encontrei um General que havia comandado o 7º em Santa Maria. Ele passou perguntando se alguém havia servido na unidade que ele havia comandado. Eu disse que havia servido. Nisso ele mandou que levantasse para falar com um general, mas eu estava com tanta fome que ignorei.

-Durante o dia pegávamos umas barcaças dos italianos, que cabiam em torno de 400 soldados, para nos deslocar. Uma correria e um aperto danado. Íamos de Nápoles até Liorno onde havia comboios para nos levar até o acampamento.

- No acampamento cada um soldado de vinte recebia umas caixas com ração para distribuir entre os demais. Chamava atenção a diferença dos soldados do sul em relação aos do norte do Brasil. Eles falavam muitos palavrões. Nós não estávamos acostumados com aquilo.

-Também encontrei um soldado que havia morado perto da minha casa em Santa Maria (Distrito de Três Barras), do qual fiquei muito amigo. Ele também servia no Sétimo. Era um loirinho de cabeça vermelha. Fomos companheiros de barraca, que eram para dois. Forramos a barraca com folhas. De onde estávamos víamos o clarão das bombas e os aviões que cruzavam por cima do acampamento.

Vet. Pacífico e seus diplomas

- A Guerra continuava e os soldados chegados recebiam instrução. Conhecíamos todo o tipo de arma. Eram duas horas de instrução com cada tipo de arma: duas horas de granada, duas de lança-rojão, ponto cinqüenta, ponto trinta e assim por diante. Durante a instrução, conforme o rendimento, os soldados iam recebendo números de 1 a 25. Isto indicava uma classificação. Os melhores preparados tinham números menores. Eu fiquei com o número sete. Isso dizia que, para a frente de batalha iriam, em primeiro lugar, os com o número menor. Durante a minha permanência na Itália, foram chamados para a frente de batalha os soldados que tinham até o número seis. As instruções duravam vinte e poucos dias até estarmos prontos, sendo usadas até doze horas por dia. Às vezes até durante a noite éramos acordados para fazer instrução. Terminado o período de instrução fiquei no acampamento lançando linha (era de comunicações), aguardando para ser chamado.

- Enquanto não era chamado para a frente de batalha, como eu era de comunicações, ficava no acampamento estendendo linhas. Podia ver e ouvir, de duas em duas horas, aviões alemães passando acima do acampamento. Também podia ouvir os bombardeios. Era muito difícil ver os soldados no combate.

- Meu relacionamento no acampamento com os companheiros era muito bom, talvez até melhor que de uma família, principalmente entre os gaúchos. Parece que os gaúchos eram mais respeitadores e por isso se davam bem.

- Vi alguns amigos do acampamento irem para a frente de batalha. Não tive notícias deles depois. Não tive medo da guerra. Confia na minha pontaria. Era bom de tiro em vários armamentos, inclusive no tiro anti-aéreo.

- A comida na Itália, no acampamento, era em lata (ração) e somente de manhã que tínhamos um mingau.

- No meu ver não senti dificuldade nenhuma na Itália, em primeiro porque sabia que estava indo para uma guerra e não podia esperar coisa melhor. Em segundo porque estava acostumado com uma vida pesada, de trabalho na lavoura. Até certo ponto, a vida estava melhor lá do que quando eu era agricultor.

- Nunca ouvi um discurso do Presidente Vargas e, pelo que sei, o Brasil entrou na guerra porque os alemães afundaram uns navios brasileiros.

- Após terminada a guerra pude conviver, muito pouco, com os italianos. Como tinha desejo de prosseguir na carreira militar, continuava mais no acampamento, mas, em geral, os italianos eram boas pessoas com os brasileiros. Somente aqueles que simpatizavam com Hitler e Mussolini e que ficavam um pouco retraídos. Os brasileiros eram considerados porque eram muito religiosos e respeitadores. Tiravam o chapéu e deixavam de fumar durante as missas. Os americanos não.

- Soube de alguns soldados que casaram pela Itália. Outros trouxeram a mulher para o Brasil, mas também conheci um da Quarta Colônia (Santa Maria) que mandou a mulher de volta para a Itália.

A viagem de volta, no Mediterrâneo foi tranqüila, mas quando o navio entrou no Atlântico, foi a mesma coisa da ida: enjoei muito, vomitei, emagreci. Cheguei no Rio de Janeiro e vim com uma das últimas turmas da Itália. Chegando, jogamos toda a bagagem em caminhões, com exceção do fuzil, e fomos desfilar. Os doentes ficaram nos caminhões para cuidar da bagagem. Levaram toda a bagagem, imagine: doente cuidando de bagagem!

- Quando da minha volta para o Brasil pude ver que os soldados da FEB foram muito bem recebidos. Mas até voltar para Santa Maria ainda demorou um pouco pois não davam a passagem de volta. Uns diziam que era porque estavam querendo derrubam o Getúlio. Voltamos de trem e ao chegar em Santa Maria, com mochilas pesadas, caminhados por todo o centro, porque não tinha táxi. Chegamos em Santa Maria já com o certificado de reservista, no entanto, como não tínhamos roupa civil, viajamos fardados.

- Foi após a minha volta para Santa Maria que conheci a minha esposa.

Veterano Pacífico, esposa
e Cap Weissbach

Depreende-se através do relato deste ex-combantente da 2ª Guerra Mundial, que, embora o tempo possa ter deixado nublado alguns fatos, não desmerece a sua trajetória, muito menos a sua idéia. Vislumbra-se por meio do relato, a despeito de um pensamento coletivo equivocado de que todos os pracinhas praticaram atos heróicos, uma simplicidade e um comprometimento com a verdade, na medida em que o Sr Pacífico Pozzobon não fez questão de enaltecer as suas ações ou sequer mencionar algum ato que denotasse uma bravura exagerada. Também não fez questão de destacar algum herói do feito, o que em certa medida depõe contra a cultura da história factual em que apenas algumas pessoas são notabilizadas por um fato.

O mérito maior do relato, e talvez da participação do Sr Pacífico Pozzobon no conflito, foi o fato dele ter primado a sua conduta pela interação com as outras pessoas que lhes estavam próximas. Independente do posto ou graduação, da nacionalidade ou outro fator de diferenciação, o Sr Pacífico revelou em seus gestos simples e sinceros uma característica peculiar do povo brasileiro: a receptividade, o acolhimento e a sociabilidade. Na atualidade, o Sr Pacífico ainda cultiva esta característica. Sem esquecer de destacar os feitos da FEB e, sobretudo da importância da participação do Brasil na campanha, o Sr Pacífico prefere contar estórias cotidianas de pessoas que dificilmente terão seus nomes em obras públicas. Esta sua atitude não se contrapõem ao engrandecimento da participação da FEB na Itália. Talvez ao contrário, ressalta a bravura no comedimento, o heroísmo na simplicidade e a consciência inconsciente de ter construído a história.

4. DADOS BIOGRÁFICOS DE PACÍFICO POZZOBON


Nome: Pacífico Pozzobon

Local de nascimento: Distrito de Três Barras – Santa Maria-RS
Data: 19 de julho de 1922
Estado civil: Casado
Esposa: Carlinda Maria Antonello Pozzobon
Local de Nascimento: Distrito de Arroio Lobato – Santa Maria-RS
Data: 24 de fevereiro de 1928
Filhos: Edilberto Francisco Pozzobon (falecido) Anilton Pozzobon
Unidade que serviu: 3º Batalhão do 7º Regimento de Infantaria (Santa Maria-RS, depois Santa Cruz do Sul-RS)
Período que esteve na FEB: Janeiro de 1944 a outubro de 1945.

Preside a Associação Nacional dos Veteranos da Força Expedicionária Brasileira Seção de Santa Maria-RS.

Medalhas que possui:

- De Campanha da FEB

- Jubileu de Ouro

- Do Mérito dos Ex-Combatentes

- Mascarenhas de Moraes

- Zenóbio da Costa

- Sangue de Heróis

- Da Vitória

- Marechal Falconieri

- Vitória dos Combatentes Poloneses.

FONTE:
Cap QCO Paulo Ricardo Machado Weissbach
1º. Sgt Art Valdecir Francisco Lorenzoni
Al Edna Dandara Teixeira Palhano


Enviado pelo
1º Sgt Flavio Costa


Página Principal - www.anfeb.com.br