Major Nestor Lício
Ex-Combatente da 2ª Guerra Mundial


Companhia de Intendência
Rio de Janeiro, RJ

Aguardando relato biográfico.

Em Livorno na Itália
Em Livorno
Vet Nestor Lício
Dedicatória no verso da foto: Minha querida Belinha, vai aqui um flagrante vivo do frio de dezembro, janeiro e fevereiro. Nesse dia, o termômetro apenas a 12 abaixo de zero...E estes 4 dentistas quase chegaram a invejar a situação de quem anda pelas caldeiras de "Pedro Botelho"...
Carteira de sócio da Associação do Rio de Janeiro.

Abaixo texto de sua autoria publicado no
Jornal Estado de Minas em 07 de setembro de 1976.

Mais Um

Mal chegando em casa, a mulher veio ao seu encontro. Nos seus olhos, ele vislumbrou a interrogação de todo dia.
- E então?
- Estaca zero.
Sentou-se à cabeceira da mesa, coçou a cabeça e resmungou:
- Traz a gororoba e dois dedos de birita. Falei muito hoje, até o que não devia, e preciso refrescar a goela.
- Bebeu, comeu e enfurnou no quarto.
Sempre assim. Após o almoço, pegava a pasta de plástico já puída e, num bem-humorado “até logo, dona Lili Marlene” para a compassiva companheira, rumava para a eterna via sacra, para o dia-a-dia das negaças, do “ainda não”, do volte amanhã.
Encostado do INPS, com míseros seiscentos cruzeiros mensais, sua grande esperança estava no processo de Reforma Militar. Desde que retornara da Itália, a saúde foi minguando, minguando, até jogá-lo à condição de inválido temporário do Instituto.
Dos três filhos, só o mais velho ajudava nas despesas. Os outros mal faziam para prover às próprias necessidades. Cursinhos, material escolar, transporte, vestuário, um deus nos acuda. Cada dia, novo aumento de preço, diluindo inapelavelmente as magras disponibilidades do orçamento familiar. Na desesperada conjectura, prenunciando dias mais negros, “dona Lili” se esfolava na tina de roupa, no ferro de brasa, no fumacento fogão à lenha e, não fora sua arraigada convicção no poder dos santos, das velas, das lamparinas sempre acesas, já teria até, aceitado o convite para uma terreira nas vizinhanças.
E a vida, sem perspectiva de melhoria para aquelas criaturas caldeadas no desalento, ia seguindo, rotineira e cruel, até que uma noite, o quadro, já de si sombrio, turvou-se mais: Cláudio, o último, nos seus dezesseis anos, chegou em casa com os olhos vermelho, numa fungação sem fim. Jogou a bolsa de livros em cima de um móvel e ficou olhando para um ponto vago na sala mal iluminada.
- Que foi meu filho?
- O que eu já esperava. Fui impedido de fazer as provas mensais por atraso de pagamento. Tentei apelar para o diretor do curso mas sem proveito. Nem me recebeu. O vexame foi tão grande que lá não volto mais.
Fincou os cotovelos na mesa, cobriu o rosto e explodiu num choro convulso.
- Deixe isso pra lá menino. Você ainda tem muito mundo pela frente. Olhe, aquele trancelim com as medalhas, que foi da vovó deve valer alguma coisa. Amanhã nós torramos tudo e pronto. Não há de ser por tão pouco que você vai parar seus estudos. Agora vou trazer seu prato. Jante e ligue o “pilha” que já está na hora do jornal.
Aquela ternura materna amaciou o temporal e os irmãos, quando chegaram nada perceberam. Muito unidos, os problemas de um eram compartidos pelos outros, nessa solidariedade que só a má sorte propicia.
Todos os anos, no Dia da Pátria, Teodoro era dos primeiros a rumar para o local do desfile, ostentando, orgulhoso, as medalhas de bravura nos campos de batalha. Nesta data esquecia as angustias do cotidiano, para viver tão-somente, as recordações do dever cumprido. Não se releva com as chacotas do moleques do boteco:
- Onde comprou estes enfeites , Téo?
Tinha que ser assim. Quase trinta anos separam a atual geração do término da Grande Guerra e, durante tanto tempo, a gloriosa presença do Brasil na Itália fora muito omitida, até nas escolas...
Naquele dia, Téo saiu depois do almoço, mas, contra os hábitos, demorou pouco. Sua fisionomia demonstrava um maior abatimento. Ficou longo tempo na varanda, matutando sozinho, até que um acesso de tosse, a “tosse de cachorro”, como ele a chamava, trouxe a mulher para perto dele.
- É dona Lili, o trem vai mal.
- Pior do que está?
- Põe pior nisso. O espanhol me deu um aperto daqueles. Cinco meses de aluguel e três de caderno do armazém. Tentei me justificar, mais ele foi duro: despejo e penhora dos cacarecos.
- E agora?
- Faz na mão e bota fora... e ambos riram do humor negro.
Nesta noite, a tosse passou de intermitente à contínua, até que um chá de erva cidreira com raspa de gengibre o acalmou.
Manhã alta, após ter despachado os meninos, dona Lili voltou ao quarto para ver como é que era.
Deitado de costa, os olhos meio abertos, mas sem uma contração, Téo dormia, dormia, dormia...
Aquele coração, onde havia tanto de Brasil, cansara.
Este ano, no dia da pátria, os moleques do boteco vão perder o rebolado.

Autor: Vet Cap Nestor Lício - Identidade Militar Nº 1G-267.382
Na época, Diretor Secretário da ANVFEB, Seção Regional de Belo Horizonte.