TORRE DE NERONE
Todos os febianos que participaram ativamente da Campanha da Itália, durante a 2ª Guerra Mundial, têm em suas memórias este ou aquele episódio que exigiu de cada qual o máximo de suas energias, de cautela, de ponderação, discernimento e sacrifício.

A coragem de todos foi posta à prova desde o instante em que se iniciou a travessia do Atlântico e do Mediterrâneo, pois os alemães haviam esparramado uma quantidade acima do normal de minas submarinas em uma grande extensão daquelas águas, expondo o majestoso "General Mann" a enorme perigo durante os quinze dias de viagem que empreendeu do Rio de Janeiro até Nápoles.

Vencidos todos aqueles riscos, primeira etapa do compromisso assumido pelo Exército Brasileiro para com as tropas aliadas, agora já em solo italiano, chegou a prova de fogo - o combate ao experiente e resoluto inimigo.

O preparo físico, tático e psicológico durou aproximadamente dois meses e, a 15 de setembro de 1944, o 1º Escalão deslocou-se de Hospedaleto para o "front", nas proximidades de Pisa, a fim de substituir o 2º Batalhão do 370º Regimento de Infantaria americano.

Torre de Nerone em nov. de 1944
Durante o trajeto, a travessia do rio Arno foi feita por meio de balsas, pois suas pontes haviam sido danificadas pelos alemães.
Em princípio de novembro (1944), o II Batalhão do 6º Regimento de Infantaria (II/6º RI), da Força Expedicionária Brasileira (FEB), deslocou-se para a região de Porreta Terme e, na noite de 3 para 4, ocupou as posições localizadas nas proximidades da Torre de Nerone, passando o posto de observação (PO) a funcionar precariamente junto ao comando do batalhão em Costa de Áfrico. De imediato foram "agraciados" com rudes bombardeios da artilharia alemã, provavelmente localizada na região de Castelnuovo.


Em meados de dezembro, ainda sob impiedoso frio acompanhado de fortes chuvas, o pelotão de observadores rumou para a Torre de Nerone, localizada na cota 670, um local importantíssimo e sumamente estratégico, mas de enorme perigo por estar completamente desprotegido, exposto aos certeiros tiros dos alemães com fuzis munidos de lunetas.

O posto de observação localizava-se num buraco (subsolo) da Torre, escavado durante a noite, com área de mais ou menos quatro metros quadrados, com pouco mais de um metro de altura, mal dando para se mexer em seu interior. As observações eram diuturnas, sem a menor trégua.

Torre de Nerone dos dias atuais
Durante quase todo o implacável inverno o pelotão permaneceu na Torre de Nerone e, devido às dificuldades de acesso àquele local, de lá deslocava-se apenas uma vez por semana até o posto de comando (PC) do major comandante do Batalhão a fim de suprir-se de ração e água. A água que levava era distribuída para cada um dos companheiros e o conteúdo de um cantil tinha que ser rigorosamente dosado. Do local onde se encontrava o PC (Costa de Áfrico) até a Torre, era mais de uma hora de caminhada devido ao terreno ser escarpado e com um declive de mais ou menos 400 metros. A descida somente era possível depois das 21 horas, quando a escuridão era completa.


Nossas patrulhas, morteiros, nossa artilharia pesada e até mesmo nossos valorosos irmãos da Força Aérea Brasileira tiveram um insano trabalho para rechaçar as investidas do inimigo e pressioná-lo para evacuar suas posições no imenso arco montanhoso por ele ocupado: montes Belvedere, Della Torracia, Castelnuovo di Garfagnana e Soprassasso.

Do PO da Torre de Nerone mantínha-se constante comunicação com todas as companhias do II Batalhão, que eram rudemente atingidas pela artilharia alemã e que necessitavam saber a procedência daqueles disparos para responderem de imediato com contra-ataques. A vigilância se intensificava a cada chamado com angustiantes súplicas e alucinantes apelos para tentar descobrir a localização dos canhões, bem como das posições das metralhadoras - as célebres "Lurdinhas"- dos alemães, metralhadoras estas que tinham condições de disparar mais de 1.200 tiros por minuto! Felizmente, dada a privilegiada localização do PO da Torre de Nerone, conseguiu-se identificar muitas das posições da artilharia inimiga e bloquear suas investidas.

A Torre de Nerone foi para o pelotão que durante todo o rigoroso inverno ali permaneceu uma posição das mais perigosas. Mas de lá foi possível controlar a movimentação do inimigo e dos locais onde se encontravam seus canhões. Torre de Nerone foi uma perfeita cobertura para a Divisão Expedicionária Brasileira nos campos da Itália.

Fonte: Adaptação do texto de autoria do Dr. Flávio Villaça Guimarães,
Ex-Combatente, publicada na revista O Expedicionário