Muita gente desconhece
que as guerras são travadas em dois lugares: no mundo externo
e no interior das mentes dos soldados. Provavelmente a última
decide para quem será os louros da vitória. No maior
conflito bélico que a humanidade já viu, é possível
evidenciar diversas formas de persuasão. Hitler persuadia usando
os meios de comunicação de massa e quase conquistou
o mundo. Os aliados encontraram força nas derrotas e atrocidades
sofridas em cada País que tombava. E os Brasileiros? O que
motivou o pracinha lutar uma guerra que não era sua? O bombardeio
dos nossos navios? A pressão dos Estados Unidos? O que você
diria?
Marcos Evangelista de Santana queria muito servir. Tentou a Marinha
e como não tinha estudo foi rejeitado. Não desistiu,
foi para o Exército e quando atravessou os portões do
18º Batalhão de Caçadores, executou os primeiros
movimentos de ordem unida, deu os primeiros tiros e recebeu a boina
depois de meses de treinamento, teve certeza de que era isso mesmo
que queria para sua vida.
Muitos soldados passam anos desejando internamente que um conflito
aconteça para que ele possa aplicar o que aprendeu na teoria
e nos exercícios simulados. Mas, a guerra é caprichosa
e não acontece para qualquer um. Para Marcos ela resolveu acontecer.
Se bem que ela tentou fugir, mas não teve jeito.
Integrando ao primeiro escalão da FEB, Marcos conta que ao
chegar na Itália, incorporado no 6º Regimento de Infantaria,
houve a redefinição de funções após
o período de adaptação. Ele seria mensageiro
do comandante. Inconformado ele não sabia o que fazer para
mudar a situação. Dizem que o sucesso é o encontro
da sorte com a oportunidade. Havia um soldado que tinha sido designado
para Função municiador da peça de metralhadora,
ou seja, mais cedo ou mais tarde, ele ficaria frente a frente com
o inimigo. Exatamente o que queria Marcos. No entanto, faltava aquele
soldado a motivação para cumprir a tarefa designada
e a coragem de assumir o medo. Felizmente ele encontrou a sorte e
Marcos a oportunidade. Sem perder tempo Marcos procurou o capitão
e sugeriu a troca:
- Comandante, eu gostaria de ir para linha de frente. Me sentirei
um inútil se o senhor me manter na retaguarda. O companheiro
não que ir. Então se o senhor puder autorizar a substituição,
nós dois agradecemos.
O comandante concluiu que a solicitação seria vantajosa
para a FEB e não hesitou em atender ao pedido do soldado. Talvez,
no fundo, o capitão soubesse que a chance de vencer o exército
mais temido do mundo estava exatamente na determinação
e na coragem de homens como Marcos. Quando a cobra começasse
a fumar ele precisaria dos melhores na linha de combate, e ali, naquele
momento, estava diante de um deles.
Nascido
na cidade de Rochedo – MS, no dia 25 de abril de 1921, Marcos
Evangelista de Santana, não tinha nada de extraordinário.
Era simples e não se aplicara no estudo fundamental, fato que
não desmereceu em nada sua pessoa. A deficiência foi
facilmente superada pela potenciação de sua vontade,
entusiasmo, comprometimento, coragem e patriotismo. Hoje com 86 anos
de idade, Marcos revela que sua atuação na Itália
impressionou tanto os comandantes que um coronel sugeriu que o veterano
permanecesse na ativa. O pracinha comenta o fato:
- Confesso que fiquei orgulhoso com o reconhecimento, mas uma guerra
cansa e há muito tempo eu não via a família.
Minha mãe morreu quando eu retornava para o Brasil. Voltei
tarde. Mas minha missão tinha sido cumprida exatamente como
ordenada pelo escalão superior. Uma coisa que eu tinha de sobra
era saúde, força e fé. Esses três atributos
foram suficientes para sobreviver aos intensos combates de Monte Castelo,
Monte Cassino e Vale do Pó. Diga-se de passagem, que nestes
locais a coisa foi feia. Houve muitas baixas. Era capitão,
tenente e sargento ferido, soldado que fugia, cabo que travava no
meio da tempestade de bombas e tiros. Um verdadeiro Deus nos acuda.
Porém, entre mortos e feridos a FEB venceu e eu, incrivelmente
sai ileso, afinal, estive nas piores batalhas atirando para tudo quanto
é lado e em tudo o quanto era inimigo. Graças a Deus
sobrevivi.
Quando voltou para o Brasil Marcos casou e teve oito filhos. Pergunto
quantos netos animam as festas de família. Brincalhão
ele responde: “Xiiii, nem sei meu filho, mas é um monte.
Mais de 25. Sem contar os binetos”. A filha caçula, Janete
Evagelista Gabilan, 41 anos, diz que o pai é especial pelo
que representa para ela e para história do mundo.
União - pelos serviços prestados, Marcos foi condecorado
pelo Exército Brasileiro com a Medalha de Campanha. Da guerra
ficou a lição que guarda até hoje. Marcos define
assim: “Eu queria ser mais valente do que os outros. Brigava
com os companheiros e era meio individualista. A guerra me ensinou
o verdadeiro sentido da palavra união fato que levei comigo
durante os 25 anos de serviço nos Correios, e que até
hoje permanece comigo”.
Atualmente a missão do veterano é evangelizar e ele
se orgulha disso tanto quanto ter sido um integrante da Força
Expedicionária Brasileira. Talvez você ainda esteja pensando
o que motivou os soldados brasileiros na Itália. Arrisco dizer
que a resposta está no espírito de pessoas como o herói
Marcos Evangelista de Santana, que ao vencer seus conflitos internos,
venceu consequentemente a temida Segunda Guerra Mundial.
FONTE:
Matéria gentilmente enviado
por
Vanderley Santos Vieira – Jornalista
(Colaborador do site)

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