Sd Luiz Luciano da Fonseca
Ex-Combatente da 2ª Guerra Mundial

I/2º ROAuR - Regimento de Obuses Auto Rebocado

Os escritos abaixo foram retirados de depoimentos e histórias contadas pelos familiares do Pracinha.

Nossas vidas são repletas de vitórias e derrotas, e de Heróis de ficção, onde o cinema, desenhos e quadrinhos nos apresentam personagens com super poderes, seres indestrutíveis e capazes de tudo.

Embora hábeis para nosso entretenimento, eles não são capazes de como nós de chorar e enfrentar o medo real da morte e nos deixar de herança um orgulho honroso de uma lição de vida!

Pacth Original
da Farda

Muitos dos nossos verdadeiros heróis podem estar vivos e bem perto de nós, no corpo hoje marcado pelo tempo, mas na mente e em suas fortes palavras um exemplo de vivência, de um verdadeiro herói.

É assim com cada “Pracinha”, cada soldado, independente de patente, que embarcou para o “Teatro de Operações de Guerra da Itália”.

Eles estão por toda parte, praticamente em cada cidade do nosso amado Brasil, muitos ainda vivos e dispostos a nos contar seus verdadeiros atos heróicos e tristezas do horror famigerado da Segunda Grande Guerra.

Aos que já não estão mais entre nós, resta-nos seu legado, de Histórias reais que devemos escutar e contar a nossas próximas gerações.
Portando, gostaria de incluir aqui neste espaço reservado a estes Magníficos Homens, um breve histórico sobre o cidadão (já falecido) Fonseca, que atuou como Soldado, Motorista e Telefonista na Força Expedicionária Brasileira, da qual ele sempre se referia com orgulho e carinho.

Luiz Luciano da Fonseca nasceu na cidade de Mogi Mirim no ano de 1919. Trabalhou desde muito cedo, ainda criança sonhava em dirigir grandes caminhões.

Pacth Original
da Farda

Aos oito anos de idade já trabalhava como lavador de carros nas lojas e concessionárias dá época, na adolescência trabalhou em oficina mecânica, aprendendo o ofício, conheceu superficialmente o idioma Inglês tendo um velho dicionário, em virtude a paixão por veículos e seu funcionamento, tentava entender os manuais que ganhava (a maioria em Inglês), movido pela curiosidade.

Luiz Luciano da Fonseca

Aos 20 anos tornou-se motorista, e em 1940 ingressou no exército, tendo servido no 6º RI em Caçapava. Neste período acompanhava todas as notícias da guerra que varria a Europa e as atrocidades cometidas pelo famigerado Adolf Hitler e seus comparsas pelos noticiários de jornais e rádios. Estes fatos geravam profunda revolta no coração daquele jovem da época que acreditava no respeito a vida do ser humano e na espiritualidade, onde a guerra e a maldade comandada pela “Mão de ferro”, sob o signo da “Suástica”, dizimava milhares de inocentes dia após dia.

No final do ano de 1941 o soldado “Fonseca” deu baixa, ficando na reserva do Exército Brasileiro. Logo, o Brasil também se tornava vítima, e o governo de Getúlio Vargas, passou a organizar sua Força Militar.

Em 1943 o cidadão Luiz Luciano, foi novamente convocado pelo Exército. Conforme relato dos familiares, o que contou foi sua noção de Italiano (herdado do convívio com os avós então imigrantes), além da boa habilidade no volante e experiência em mecânica de veículos. Infelizmente a família, entrou em desespero, sua mãe, irmãs e namorada, choraram com o temor de ter o estimado na linha de guerra.

Embarcou para Itália, no 2º Escalão, sentiu muito temor, pois a viagem foi sofrida, e a recepção italiana foi hostil, no primeiro momento.

Tão logo começou o treinamento, (quase não pode estar a disposição, pois existia a carência de motoristas no V Exército), mal se adaptou ao seu caminhão, e já estava a serviço, antes mesmo de seu grupamento seguir diretamente ao fronte de batalha.

Artilharia e Grupo105 Obuses Auto Rebocados - Rio de Janeiro dias antes do embarque

Fonseca foi empregado em missões de transporte de soldados e outras tarefas solicitadas pelos Norte Americanos e com autorização de seus oficiais superiores da FEB.

Logo seu caminhão, já tinha um apelido “Sem Tempo”, tamanha eram as tarefas, como transporte de pessoal, correspondências, reboque de Obuses e também o fogo cruzado.

Nesta viatura, o mesmo ostentava com orgulho uma pequena bandeira do Brasil, e um adesivo enviado do Brasil com o logotipo da “Cobra Fumando” ( inclusive foi um dos primeiros que trocou sua ração pelos serviços de bordado das sofridas mulheres italianas).

O “Sem Tempo” (era o apelido de seu caminhão que continha na traseira o escrito em Português “não tenho tempo”), realmente não tinha parada junto com seu condutor, o comando sempre os designava, pois seu hábil condutor tinha a capacidade de ficar até 60 inacreditáveis horas sem pregar os olhos ao volante, fato que ocasionava certo inchaço aparente em sua face.

Num dos comboios, sob o comando de militares do V Exército chegou a levar destacamentos de soldados Norte Americanos, até perto da fronteira da Alemanha, em deslocamentos perigosos, em sua maioria a noite, com os faróis das viaturas apagados, com apenas um pequeno lampião em cima do capô, evitando a visualização da aviação inimiga.

Outra passagem triste relatada pelo Pracinha , foi a que ele já havia se acostumado ao cheiro fétido da morte, do fronte, mas houve um período, que este cheiro insuportável tomou também o “Sem Tempo”, ofuscando até o cheiro forte de combustível , Fonseca inspecionou todo o veículo, sem nada encontrar, então resolveu procurar, embaixo, quando se defrontou com a cena que o atormentou pelo resto de sua vida!

Uma cabeça humana, e parte de um tronco em decomposição encravados nas ferragens do chassis do caminhão. O próprio mais 5 companheiros da FEB, cuidaram da retirada e enterro, independente de qual lado pertencesse aquele falecido.

Também se entristecia pelo fato da perda de companheiros, e pelo sofrimento principalmente de crianças que eram inocentes vítimas da violência, de um conflito que não era delas.

Passou medo, frio, até o “Sem Tempo”, alguns dias parecia que ia sucumbir ao frio, e “dava trabalho pra pegar”.

Viu morte dia e noite, ficou dias sem tomar banho, passou pelos reveses da guerra, fome, medo de não retornar, mas o instinto de liberdade falava cada dia mais alto.

Combateu o inimigo Nazista, infelizmente também matou “Era guerra não campo de férias” capturou aqueles que se rendiam sem resistência, e respeitou sua dignidade como seres humanos, apenas confiscando na hora das revistas, o material escrito, cartas e manuscritos, armas.

Desde o embarque todos os Soldados Brasileiros foram instruídos por meio de panfletos e pelos superiores o perigo da espionagem, e por este motivo e por não dominar a língua Germânica, em via das dúvidas confiscava todo tipo de carta e material escrito, inclusive alguns destes fragmentos foram guardados, o restante entregue a superiores e depois queimados.

Capa e contra capa dicionário Inglês-Alemão, trocado com militar
Norte Americano, no interior do documento há anotações e traduções
básicas para o Português.

Evitou execuções sumárias, tanto pelas mãos de brasileiros, americanos e partizans, fato muitas vezes comum, mas indigno na visão daquele homem.

Foi grande sua felicidade no momento que sentiu que a guerra estava terminando, foi o dia de um grande feito da FEB, a rendição de 20.000, Alemães, que na verdade não tinham noção de tão poucos eram os soldados da FEB, mas foi um dia de muito trabalho, pois ficara encarregado de revistas.

Cédula confiscada de Soldado Nazista

Mas as felicidade estava próxima pois aquelas cenas remitiam a tão esperada volta ao Brasil!

No retorno, pelos serviços prestados recebeu um Diploma de Motorista, com ótimas referencias, recebeu ainda o Diploma pela Passagem da Linha do Equador (Gen Mann).

Com o termino da guerra Luiz Luciano da Fonseca retornou a São Paulo e em seguida a Mogi Mirim, onde a princípio teve muitas dificuldades.

Casou-se em maio de 1946 com Sra. Maria Aparecida Costa Fonseca, teve quatro filhos, um antes de seu casamento, na Itália durante a 2ª Guerra Mundial e não localizado, Luiz Antonio Costa Fonseca, Laércio Costa Fonseca e Leandro Tadeu Costa Fonseca. Tiveram também seis netos, Luciene Aparecida de Cássia Fonseca, Alex Sander de Paula Fonseca, Fabiano Trombini Fonseca, Adriano de Paula Fonseca, Danielle Trombini Fonseca e Gabrielle Fonseca.

Cunha, Cipriano, Vitorino e Fonseca

Magalhães, Josué,
Tenório ,Cunha (ao centro).


Magalhães e Fonseca
de bicicleta ao fundo.
Diploma de Motorista
Certificado
“Teatro de Operações da Itália”
Diploma Gen Mann
Certificado
Homenagem da Prefeitura de Mogi Mirim
(Post Mortem)
Placa do Monumento em Mogi Mirim

Exerceu a profissão de motorista e caminhoneiro, até o ano de 1987, onde veio a falecer em virtude a um derrame.

Portanto deste homem nos resta seu legado histórico, assim como outros bravos homens que cruzaram os mares e lutaram pela liberdade e democracia em outras terras, visando o bem estar de suas próximas gerações, assim com carinho e estima devemos lembrar e respeitar estes humildes e bravos soldados que lutaram, viveram e morreram pelo nosso amado Brasil.

Nossos sinceros agradecimentos a família Fonseca, pelas descrições e narrativas de memórias, aqui contidas.

FONTE: Matéria gentilmente enviada por Tomaz A. F. Ribeiro
Imagens cedidas ao Tomaz A. F. Ribeiro por Girassol Coleções