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Januário Antunes |
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Década de 40: - SENTIDO! A voz de comando provoca um movimento conjunto da tropa de soldados do 11º Regimento de Cavalaria. Os seis meses de instrução transpareciam na perfeição dos movimentos de ordem unida. - EM CONTINÊNCIA A BANDEIRA, APRESENTAR, ARMA! Dezenas
de jovens de 17, 18 e 19 anos após o movimento marcial de continência,
juraram amar e defender a pátria mesmo que o custo fosse a própria
vida. A partir dali, garotos tornaram-se homens. Breve a responsabilidade
não tardaria a cobrar-lhes pela promessa feita perante o Pavilhão
Nacional. - Senhores! Vou ser objetivo. Quero saber quem de vocês se voluntaria para compor a tropa brasileira que lutará na Segunda Guerra Mundial?
Muitos levantaram a mão no susto. Outros nem conseguiram esboçar reação. Alguns tremeram ao ouvir a palavra ‘guerra’. Mas, depois do esclarecimento do oficial a respeito das conseqüências, dezenas de duvidas foram sanadas e o resultado transpareceu na enorme quantidade de desistências: - Gostaria de lembrar que se trata de uma guerra senhores, onde se mata e se morre. A coisa é muito séria e uma vez incorporados não tem volta. Pensem bem! Quem se habilita? Muitos que haviam levantado o braço antes não pensaram duas vezes para mudar de opinião. Outros que estavam na dúvida, mantiveram a posição de inércia. Os que naturalmente tinham o receio encontraram nas palavras do oficial motivos suficientes para justificar a negativa. Entre os poucos corajosos e ousados, Januário Antunes, manteve a decisão: - É guerra, então vamos a ela! Com
apenas seis meses de Exército, o jovem soldado mostrou que tinha
fibra. Logo foi incorporado no 1º Regimento de Infantaria –
Regimento Sampaio, para exercer, durante toda a guerra, diversas funções
designadas pelo comando de sua fração: observador, municiador,
eletricista e esclarecedor. - Saímos de Campo Grande, MS com destino a cidade maravilhosa, a famosa Rio de Janeiro. De trem, a viagem durou dois dias. A segunda parte, ou seja, a travessia do oceano atlântico foi feita de navio até Napoles. Confesso que foram 15 inacabáveis dias. Não foi pior que as batalhas, mas foi ruim pra danado. O pior é que, quando eu pensei que o martírio tinha terminado com o desembarque no porto, descobri da pior maneira que tudo começaria novamente. Embarcamos mais uma vez em outra embarcação de menor porte que nos conduziu para o destino final, Livorno. O treinamento
Após o alojamento da tropa, iniciaram-se os treinamentos. Januario comenta que a atenção especial foi dedicada ao manuseio do armamento, minas e uma técnica que chamou sua atenção: a purificação de água suja ou contaminada. - Era um comprimidinho curioso que limpava mesmo a água de qualquer impureza. Muito interessante. Terminado a fase de treinamento o veterano partiu com a tropa para o combate. Monte Castelo, Ponte de Sila, Zocca. Nessas pelejas não sofreu nenhum ferimento grave. No entanto, o veterano descreve que foi ali que viveu seus piores momentos por ocasião das patrulhas de realizadas pelos alemães: -
Eram sempre nas patrulhas de contra-ataques onde mais morria os nossos
companheiros. Nessas escaramuças perdi muitos amigos. Numa guerra
o homem que esta ao seu lado rapidamente se transforma em um irmão.
Éramos uma família que estava na mesma condição
e, sem nenhuma vergonha, digo que um precisava do outro. Era duro saber
que fulano ou beltrano morreu. Mas a morte que marcou foi de um soldado
do Regimento Sampaio. Havíamos nos conhecido na viagem de navio.
Não tardou muito estávamos juntos em uma patrulha quando
ele pisou numa mina anti-pessoal. A cena foi horrível, eu estava
muito perto na hora da explosão e quase fui também. Não
fui porque Deus me permitiu viver e continuar lutando - Precisamos retrair Tenente, não dá. São muitos e se ficarmos vamos morrer. O oficial ironizou a sugestão do soldado e respondeu: - “Paraguaizinho de merda”. Se esta com medo volte! Daqui minha tropa não se mexe. Irado com a ofensa Januário resolveu ficar. Não para provar nada para o Tenente embusteiro, mas por consideração aos companheiros que certamente precisariam de qualquer soldado em condições de resistir ao ataque maciço dos alemães. No meio do combate, outro grito rasgou a batalha. Desta vez, talvez por iluminação divina, um sargento repetiu a sugestão antes proferida por Januário: - TENENTE! TENENTE! Temos que retrair. É burrice ficar e se ficarmos todos iremos morrer.
- Corríamos, nos abrigávamos e respondíamos ao fogo inimigo. Repetimos essa seqüência varias vezes. Até que me deparei com a segunda pior situação em combate. Na corrida me deparei com dois companheiros gravemente feridos. Um já quase morrendo pedia para que eu terminasse com seu sofrimento. Ele suplicava com a voz quase sumida: - Mate-me, por favor! - A situação do soldado brasileiro era trágica. Mas, para mim, matá-lo não fazia nenhum sentido. O outro soldado tinha sido atingido por vários tiros. O sangue corria pelas pernas e braços. Ele não conseguia se mover. O que mudava, com relação ao outro soldado, era que este queria viver: - Me tira daqui, por favor! Disse agonizando. Com muito esforço coloquei-o em minhas costas e desci uma ribanceira. Conseguimos nos salvar. Quanto ao outro soldado, até hoje não sei o que aconteceu com ele. Torci para que Deus o tivesse levado antes dos alemães. Torci que outro companheiro o tivesse carregado para longe do fogo inimigo. Infelizmente não sei o que aconteceu. Na guerra é assim, uma hora você tem que fazer uma escolha e nem sempre ela é tão fácil assim. Mudando de assunto, o veterano disse que a guerra não foi só de episódios tristes. Januário relata que teve a grata satisfação de conhecer quase toda a Itália e Alemanha. Em solo Europeu aprendeu muita coisa em um ano: - Conheci a verdadeira diferença entre pessoas boas e más. Aprendi ainda o real sentido da palavra amizade justamente com os piores inimigos que alguém poderia ter tido. Os Alemães, numa demonstração de desprezo pelo próximo, deixavam seus próprios companheiros apodrecerem feridos em combate. Para eles o companheiro impossibilitado e ninguém era a mesma coisa. Uma demonstração de ignorância à vida. Como todos os pracinhas o Januário relembra com um grande sorriso nos lábios do retorno para o Brasil. Após o fim dos combates, permaneceu no front cerca de um mês e embarcou nas primeiras ‘levas’. Para o expedicionário, foi maravilhoso saber e sentir que estava voltando para casa. Já em águas brasileiras, os veteranos foram recebidos pela gloriosa Marinha com salvas de tiros. Quando chegaram ao porto a surpresa foi maior ainda: - Foi simplesmente lindo. Estavam todas as forças (Exército, Marinha e Aeronáutica) e milhares de brasileiros nos recebendo com carinho e afeto que sinceramente, não existiria palavras que descrevessem a sensação daquela recepção esplêndida. Aliás, alegria idêntica tive quando fui condecorado com a medalha de Campanha. Passada as comemorações Januario, teve um problema na perna que o deixou uns seis meses de cama. Para que o fato fosse mais emocionante, o veterano lembra que o Tenente Chagas, que era o médico do 11º R C, queria amputar sua perna. Se não fosse a intervenção de sua mãe, o médico teria feito o que desejava. Depois de recuperado o ex-combatente foi licenciado e trabalhou na Polícia Militar até sua merecida aposentadoria. A partir de 1980, começou a receber seus proventos referentes à aposentadoria da F.E.B. Para não ficar parado o veterano dedica seu tempo a uma nobre missão religiosa atuando como Pastor da Assembléia de Deus. A esposa, Clotilde Rodrigues Antunes, casada há 48 anos, conta orgulhosa que para ela Januário é valoroso: - É meu herói, homem de Deus, um espelho para toda a nossa família e para todos os que o conhecem. É um exemplo para nossos quatro filhos (três homens e uma mulher) e nossos 12 netos e um bisneto. Pode ter certeza Dona Clotilde, que o Senhor Januário é também um exemplo não só para sua família, mas para todos os brasileiros também. A entrevista e as fotos foram realizadas pelo Contador e Ten R2 Gledson Douglas Ferreira Araújo. O texto é do jornalista e colaborador Vanderley Santos Vieira FONTE: Página Principal - www.anvfeb.com.br
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