IZALTINO
ROSSI, veterano da 2ª Guerra Mundial relembra detalhes da sua
participação na vida militar e como pracinha da FEB.
Natural de Maximiliano de Almeida-RS, nascido em 16 de fevereiro de
1921. Izaltino prestou serviços militares em São Gabriel,
RS.
Já fui homenageado várias vezes, em diversos locais
no Brasil e na Europa, sempre acompanhado com os colegas ex-pracinhas
mas onde me emocionou mais foi no dia 15.03.2006, quando a Câmara
de Vereadores e a Associação dos Reservistas da minha
terra natal me prestaram homenagem emocionante.
Depois do alistamento eu aguardei a chamada, que vinha da sub-delegacia
de polícia, marcando o dia do embarque para o Exército,
que aconteceu em fevereiro de 1943. Depois de quase dois anos de quartel,
viajei novamente, desta vez para a guerra e sem saber se iria voltar.
No mês de dezembro de 1944 saí de São Gabriel
junto com mais 31 companheiros, fomos até Bagé-RS, para
nos reunirmos com mais companheiros e de lá fomos para o Porto
de Rio Grande, no Porto tomamos um navio até o Rio de Janeiro
da onde partimos no dia 06 de fevereiro de 1.945 com destino à
Europa. Atracamos no Porto de Nápoles, Itália no dia
20 de fevereiro de 1945. De imediato tivemos seis semanas de treinamento
para irmos ás linhas de fogo.
Na Itália, fiquei de 20 de fevereiro até 29 de agosto
de 1945. Chegando lá, fomos incorporados no 5º Exército
Americano.
Eu não tive dificuldade de entender os colegas norte-americanos,
quase todos falavam o italiano e como eu falava o italiano desde pequeno
foi moleza. Entre os franceses, russos, poloneses, palestinos e outros
povos a língua que predominava mesmo eram o italiano.
Quando chegamos na Itália o inverno estava acabando. Somente
nas montanhas ainda caía neve.
O nosso Comandante era o Marechal Mascarenhas de Moraes, natural de
São Gabriel onde eu servia o Exército.
Quando saímos
do Rio de Janeiro recebemos o fardamento e uma parte do equipamento
de guerra. No princípio tínhamos um slogan de distintivo
no fardamento, coração com o nome do Brasil, depois
que surgiu o slogan da cobra fumando. Pelo que diziam, era que nem
a Itália nem a Alemanha acreditavam que o Brasil iria participar
da Guerra e muito menos a favor dos Estados Unidos. Era mais fácil
a cobra fumar do que o Brasil participar da Guerra contra o eixo.
Assim que o Brasil aderiu a Guerra foi criada "a cobra vai fumar”.
Ao chegarmos na Itália nos juntarmos com os norte-americanos
o comandante do referido Exército era o marechal Mark Clarck.
O nosso fardamento era misto, ao nos incluirmos nas Forças
das Nações Unidas o Exército norte-americano
completou todo nosso fardamento e equipamento de guerra, inclusive
muita roupa de lã que não tínhamos levado do
Brasil.
SD. IZALTINO N. º 776, este era meu número de quartel
do 3° RCM de São Gabriel. Na Guerra meu nome continuava
o mesmo somente o número que mudou para 2387. Para correspondência
nosso endereço na Itália era bem prático, nós
tínhamos somente o número e a senha para o inimigo não
descobrir onde nós estávamos acampados. Meu endereço
era: SD 2387 – 402 B, Itália.
Eu fui para a guerra como voluntário, escrevi uma carta de
São Gabriel para minha mãe e junto do mesmo envelope
mandei uma carta para minha namorada.(Pálice Florentina Pontello)
Mamãe, não reze para eu não ir para
guerra, e sim reze para eu voltar, porque eu vou de livre espontânea
vontade. Para a namorada escrevi assim: “Se
você arranjar outro namorado pode se casar, porque minha viagem
tem ida, mas não sei se terá volta”.
“Já que não poderei ir despedir-me
pessoalmente, me despeço através desta carta...”
Das
cinco levas de tropas brasileiras eu fui ao último contingente.
O navio que nos levou foi o mesmo que já havia levado outras
tropas anteriores. USS GENERAL MEIGS. Dentro do navio estávamos
em aproximadamente 5.800 homens. Durante a viagem no mar, nós
comíamos duas vezes ao dia, era tudo enlatado distribuído
pelos norte-americanos, dificilmente não tinha carne de peixe
misturado na comida e nem hora certa para a refeição.
Olhava-se para um lado via gente triste, chorando olhava para outra
via gente sorrindo e cantando, assim foram os 14 dias até chegarmos
no Porto de Nápoles dia 20 fevereiro de 1945. Ficamos sete
dias num lugar chamado Banholli e de lá tomamos um navio italiano
e fomos até as Praias de Viarregio, de lá embarcamos
em um comboio de caminhões americanos. Entramos em uma mata
fechada onde ficamos seis semanas de treinamento acampados em barracas
para depois irmos para o combate.
Em 1992, 47 anos depois eu voltei no mesmo lugar onde estava durante
a Guerra na Itália. Eu tive na casa de um italiano onde já
tinha estado; eles não me reconheceram, mas lembravam bem dos
soldados brasileiros que acamparam ali durante a guerra. De
Maximiliano era somente eu, mas lá na Europa me encontrei com
soldados de Paim Filho, Marcelino Ramos, Ibiaçá e outras
localidades vizinhas.
Eu tinha um grande amigo no Exército que eu gostaria que tivesse
ido comigo para a guerra: João Crestani que era como um irmão
para mim. Antes de ir para guerra era eu quem lia e as cartas que
João recebia de Maximiliano, porque ele era meu amigo e não
sabia ler nem escrever.
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Mário
Weber e Izaltino Rossi |
O
risco de vida que ocorreu comigo lá na Itália foi o
dia em que um soldado brasileiro quis acender um cigarro junto ao
tonel de gasolina que estava sendo transportado numa camioneta americana.
A camioneta estava toda molhada de gasolina, ao notar que o colega
iria riscar o fósforo eu mais que depressa impedi que o mesmo
provocasse uma tragédia. Depois que eu já estava morando
no Brasil tive mais risco de vida do que na própria guerra,
foram duas vezes que eu tombei o trator.
Namorada lá na Itália não era difícil,
as italianas eram loucas para virem junto para o Brasil, colegas meus
deixaram até filhos na Itália, mas eu tenho certeza
que eu não deixei filhos lá. Nossa dificuldade era grana,
nós ganhávamos uns troquinhos em liras que não
dava para nada, e uma carteira de cigarros mixuruca por dia.
Nós pertencíamos as Nações Unidas que
lutava contra o eixo, Alemanha, Itália e Japão. Antes
de nós chegarmos no Porto de Nápoles os norte-americanos
já tinham tomado o local. O bombardeio foi grande e eu queria
que vocês vissem como estava tudo destruído.
Dos 465 brasileiros mortos durante a guerra pode-se dizer que muitos
deles morreram vítimas de armadilhas de campo minado, doenças
e outros.
Aqueles que não foram identificados para o sepultamento ocorreu
o seguinte: todos os soldados usavam no pescoço uma identificação
em duas plaquetas de metal igual, com o nome, número e grupo
sangüíneo para que se morressem quem o encontrava colocava
uma plaquetinha na boca do cadáver e a outra era entregue no
comando. Quando alguém era atingido por uma bomba e perdesse
as plaquetinha não se podia identificar mais o morto, aí
era enterrado como soldado desconhecido. Ainda era pior se não
tinha mais fardamento para identificar o seu país. O soldado
encontrado morto era enrolado em um lençol e enterrado como
desconhecido.
A minha plaquetinha de identificação era:
BRASIL
IZALTINO
3G – 108940 D
T45 O
B RA
Depois
de um combate, encontramos um alemão morto com uma carta no
bolso escrita para sua mãe que dizia assim: “...
mamãe a guerra está para acabar, dentro de breve estarei
aí para abraçar a senhora.” Foi
dura aquela cena, saber que aquela mãe não leu a carta
e nem mais viu o seu filho.
Para nós a guerra acabou no dia 28 de abril de 1945, o dia
em que a 148ª Divisão Alemã foi capturada. Em 03
de maio houve o cessar fogo definitivo. Em 26 de agosto de Nápoles
fomos para Portugal, antes de voltar para o Brasil fizemos um desfile
comemorativo em 04 de setembro de 1945.
Os jornais italianos anunciaram o fim da Guerra antes mesmo de assinar
a armistício. Quando a guerra acabou nós estávamos
em manobras. Regressando da manobra ao passar na Ponte Capeano os
italianos já tinham a noticia que havia terminado a Guerra.
Nós riamos e chorávamos, é difícil explicar
o que se passava pela nossa cabeça, a emoção
maior foi quando os italianos cobriram as ruas com flores comemorando
o fim da guerra. E assim acabou a minha participação
na II Guerra Mundial.
O comando do Exército brasileiro determinou para cada unidade
que convocasse 100 homens para embarcar, para irem à Europa,
mas como o nosso regimento havia 32 voluntários, incluindo
eu, fomos de imediato. Os 100 convocados foram depois.
Nós nos encontramos no Rio de Janeiro, quando estávamos
voltando para o Rio Grande do Sul, com os colegas que iriam para a
Europa caso a guerra não tivesse acabado, juntos com eles,
passamos um mês conhecendo o Rio. De lá embarcamos no
trem com destino a São Gabriel. Antes porém no dia 02
de outubro fui licenciado do Exército. Quando passamos em Marcelino
Ramos eu me despedi dos companheiros de guerra, e cheguei em Maximiliano
de Almeida quase noite, fui direto ao hotel do Fernando Adriani, lá
eu me encontrei com o Sr. Ângelo Pontello que me fez ir posar
na casa dele, para no outro dia eu ir na casa dos meus pais, na Linha
Caçador, dia 28 de outubro de 1945.
Durante 02 anos 08 meses e 04 dias estive servindo o Exército.
Eu me orgulho de ter prestado serviço militar no 3º RCM
de São Gabriel, quartel este que participou da guerra do Paraguai.
Casei-me, com Pálice Florentina Pontello e com ela tivemos
os seguintes filhos: Ioni, Ivanir, Ivocir, Ilvo, Ivoni, Ildo, Italino,
Iraci, Irineu e Evaldo (os três últimos já falecidos)”
.
"No
dia 07 de novembro de 2007 foi tombado no último combate da
vida em um leito de um Hospital na cidade de São João,
PR".
FONTE:
Matéria gentilmente enviada pelo Sr.Mário
Weber
Localidade: Maximiliano de Almeida, RS
ALMURS.

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