HOMENAGENS

Cerimônias Cívicas da Comunidade Judaica homenageando os brasileiros de todas as fés que tombaram no esforço de guerra contra o nazi-fascismo Realizada no dia 01 de maio de 2005 no Monumento Nacional aos Mortos da 2ª Guerra Mundial no Aterro do Flamengo.

Discurso do Presidente da FIERJ
Jornalista Osias Wurman
Ten Israel Blajberg, da Comissao Organizadora
e o General de Brigada Helio Chagas de Macedo Jr,
Chefe do Estado Maior do Comando Militar do Leste.

Parte do publico estimado em 800 a 1.000 pessoas que lotou o Grande Templo Israelita

General-de-Divisão Samuel Kicis, Veterano da FEB
A Carreira Exemplar de um Soldado Brasileiro de Fé Mosaica

Após o término da Campanha da Itália, a 2ª. Bateria do 4º. Grupo de Artilharia 155 da FEB posa para uma fotografia histórica, com todo o seu efetivo, sob o comando do Capitão de Artilharia Samuel Kicis, tendo ao fundo as 4 peças da Bateria, obuseiros de 155 mm de fabricação americana, as peças de maior poder de fogo com que contava a Artilharia Divisionária da FEB.

Foto gentilmente cedida por Da. Leda , filha do Gen Div Samuel Kicis, Z”L, em reunião em sua residência no Rio de Janeiro, com o autor e o Dr. Nelson Menda, aos 19 novembro 2004, quando nos cedeu também as alterações militares e outros informes históricos sobre a atuação de seu Pai na FEB.

Conforme o Cel Ref Germano Seidl Vidal,

“ ... a foto demonstra o nosso grupo perfilado, com os OBUSES da bateria. O original desta foto foi doado ao GRUPO MONTESE, na Vila Militar, na passagem do 45º. aniversário da conquista de Montese (Itália) pelos brasileiros ... ...é a nossa 2ª. bateria do 11º. Grupo de Artilharia de Campanha (GAC). Vários componentes do grupo assinaram no verso da foto ! É o melhor registro em foto que temos desta brilhante corporação militar atuando no teatro de operações na Itália. “
Corria o ano de 1944.

Leda, uma menina de 7 anos no colo da mãe assistia da varanda da sua casa em Deodoro, a beira da linha da Central do Brasil, o lento e constante desfilar do imenso comboio de vagões rolando sobre os trilhos, carregando as tropas prontas para o embarque no Cais do Porto, onde os navios americanos de transporte aguardavam, junto com a nossa Marinha de Guerra que faria a escolta até Gibraltar.

As tropas vinham da Vila Militar, Minas, e São Paulo.

Mesmo no inverno, o sol do Rio de Janeiro já era quente de manhãzinha, bem diferente da Itália gelada para onde o pai de Leda estava iniciando uma longa viagem naquele trem, a viagem que não para todos teria retorno.

Com seus olhinhos de menina esperta, Ledinha conseguiu divisar o pai a distancia, na janela do trem.

Assim, com as bênçãos infantis da filha, o jovem Capitão de Artilharia Samuel Kicis, Comandante da 2ª. Bateria do 4º. Regimento de Obuses 155, seguiu para o front, junto com os seus soldados.

Samuel vinha de longe. Seus pais, Isaac e Bertha Kicis nasceram e cresceram na Bessarabia, hoje Moldávia, região entre a România e a Rússia,

Havia dezenas, centenas de pequenas cidades onde floresciam pequenas, medias e grandes comunidades judaicas. Um mundo que acabou...

Uma terra que amargava séculos de dominação estrangeira, pelos russos, pelos prussianos, e onde a minoria judaica alternava períodos de tranqüilidade com a perseguição injustificada.

Pogrom ... palavra russa que significa chacina ... de judeus.

Em 1903, ali mesmo, em Kishinev, uma cidade central da Bessarabia, aconteceu.

Um jovem poeta estava ali, viu e escreveu "A Cidade do Massacre" em homenagem às vítimas inocentes

Chaim Nachman Bialik (1873-1934). Poeta. Judeu nascido na Rússia. Falecido em Tel Aviv, mais tarde viria a ser conhecido como o Poeta Nacional de Israel.

A profunda e emotiva descrição do poeta Bialik do sofrimento inimaginável torna-o extraordinariamente apropriado para recordar Auschwitz.

“Que fazes aqui, filho do homem?
Levanta-te, foge para o deserto!
Leva para lá contigo o cálice de desgosto!
Levai a sua alma, rasgai-a em mil retalhos!

Com raiva impotente, com coração deformado!
Verte a tua lágrima sobre rochas áridas
e manda um grito amargo à tempestade!

Era um prenuncio do Holocausto, que estava por vir. Não surpreende portanto que tantos tenham decidido partir.

Os Kicis descendem do Rabino Ze'ev Wolf Kitzes, que viveu no séc. XVIII. A grafia experimentou evoluções ao longo dos séculos, bem como novos ramos se incorporaram: Kitces, Keces, Keses, Kitzes, Ketzis, Kitzis, Kicis, Kitsis, Kitses, CHAREST, PEARSON, GORDON, WESTHEIMER, GREENWALD, SIMON, ROHR, DUNSKY.

Os Kicis ouviram falar do Brasil. Um pais de onde diziam haver tantas riquezas, pedras preciosas, fartura de tudo, terra generosa.

Terra Abençoada, povo alegre, lúdico e musical, muitas águas, sol brilhante, seriam bem recebidos pelo povo hospitaleiro que descendia dos índios, dos negros escravos e dos portugueses, e que por isso mesmo não discriminava ninguém.

A viagem foi penosa. Reunindo os poucos pertences que podiam levar despediram-se dos familiares que jamais iriam rever, iniciando a viagem para a nova Terra Prometida.

Não era raro que crianças e idosos não resistissem a bordo. Os pais se desesperavam ao ver o pequeno corpinho sendo lançado ao mar. Queriam ir juntos, quase enlouquecidos, era preciso que os amigos os segurassem para que não pulassem a amurada.

Mas o futuro iria sorrir para aquela gente, apesar de tudo com o coração cheio de esperança.

Ao atravessar a entrada da barra na Baia da Guanabara, só de olhar a paisagem já gostaram daquela terra, e entre lagrimas de saudade da família distante, prometiam a Deus e a si mesmos que tudo fariam para honrar a confiança que a nova pátria lhes depositava, tudo fazendo para serem bons brasileiros, criando os filhos, trabalhando e estudando por um Brasil melhor.

Do convés, os passageiros se admiravam com o cordão de fortalezas em volta da barra. Copacabana, Duque de Caxias, Santa Cruz, São José, São João, São Luiz, Pico, e a última, já numa pequena ilha dentro da baia, a Fortaleza da Lage, que seria a última barreira a repelir o inimigo invasor.

Era sinal de que o povo era hospitaleiro, mas desde a época das caravelas saberia defender-se, se necessário fosse. O jovem casal Kicis talvez não acreditasse se lhe dissessem que o primeiro filho um dia estaria a postos numa daquelas fortalezas, como Oficial da Artilharia de Costa...

E foi isso que aconteceu. Bertha e Isaac tiveram 4 filhos, Fany, Olga Mauricio e Samuel.

Ao desembarcarem no mesmo Cais do Porto jamais imaginariam que um dia o Todo Poderoso haveria de lhes conceder a graça de ter dois filhos homens, e que eles seriam Soldados Brasileiros, um deles havendo de embarcar ali mesmo, para navegando pelos mesmos mares mas no caminho de volta, lutar pela liberdade e pela democracia.

E o outro, Mauricio, também artilheiro, viria a ser admitido ao Magistério Militar, por muitos anos lecionando Francês no Colégio Militar.

Os primeiros tempos foram duros. Trabalho árduo, de sol a sol, fazendo jus ao ditame bíblico, de ganhar o sustento com o suor do próprio rosto.

A família morava em São Cristóvão, onde Samuel nasceu na véspera de Pessach, em 15 de abril de 1913 e estudou no Colégio Pedro II. O menino Samuel era estudioso e cresceu observando a movimentação das tropas dos quartéis próximos, os comboios, o tropel da Cavalaria, os canhões ainda de tração hipomovel.

Daí para a Escola Militar foi um passo. Aprovado no difícil concurso de seleção, Samuel tornou-se um Cadete do Realengo, usando com orgulho a cintura o espadim, a miniatura do sabre invicto de Caxias.

Praça de 8 de abril de 1930, optou pela Arma dos fogos largos, poderosos e profundos, tendo sido declarado Aspirante a Oficial de Artilharia em 25/jan/1934. Os velhos retratos amarelecidos demonstram a alegria dos pais imigrantes.

Seu filho Samuel, um Oficial, do Exercito de Caxias, da Artilharia de Mallet, envergando com garbo o Primeiro Uniforme, na cerimônia a que compareceu o Presidente da Republica.

Ali começava a carreira exemplar de um Soldado Brasileiro de fé mosaica, que se estenderia por mais de 3 décadas.

Designado para a Guarnição do Distrito Federal, foi mandado servir no histórico quartel do Forte de Campinho, que naqueles tempos sediava o 1º. Grupo de Artilharia de Dorso.

Naquela época a Artilharia era hipomovel, ou seja, as peças eram tracionadas por muares. Assim, as unidades de artilharia muito se assemelhavam as da Nobre Arma Ligeira, a Cavalaria. Tinham baias, veterinários, enfim, tudo que fosse necessário.

Nos exercícios e desfiles, a tropa de artilharia seguia uma cadencia diferente das demais, ao ritmo peculiar da Canção da Artilharia, deslocando lenta e seguramente os canhões Krupp 75.

Aos 29 de novembro de 35, Kicis teve de interromper as férias devido aos acontecimentos que se desenrolavam na capital, tendo participado do contra-ataque aos rebeldes da Escola de Aviação Militar.


Entre diversos elogios que constam da sua folha funcional, destacamos aquele lavrado aos 19 de janeiro de 1937, pelo General de Divisão Eurico Gaspar Dutra, ao deixar o Comando da I Região Militar:

“... apraz-me manifestar meus agradecimentos ao 1 Ten Kicis, que foi meu colaborador, pela capacidade de trabalho e inteligência

Outras comissões se seguiram, em João Pessoa no 4º G A Do, 3ª. Bia AC Forte do Imbuhy em Nictheroy, 3º. G A Do de Campo Grande – MT,

Em 10 de novembro de 37 foi decretado o Estado Novo. Um grupo atacou o Palácio Guanabara com a finalidade de depor Vargas.

O General Dutra, ministro da Guerra, soube por telefone, e como morava no Leme, dirigiu-se ao Forte Duque de Caxias, onde requisitou uma tropa de 12 homens, comandada por um jovem tenente, dirigindo-se ao Palácio, onde salvou o Presidente.

Quis o destino que naquele dia estivesse de serviço o Tenente Samuel Kicis. O Grande Arquiteto do Universo nos conduz por caminhos nem sempre claros. Não seria a primeira vez que um brasileiro judeu entrava na história de Getúlio. Talvez a história do Brasil tivesse sido diferente, se outro tivesse recebido o Gen Dutra no Forte.

Assim, Plínio Salgado acabou seguindo para o exílio, afastando a ameaça que um dia pesou sobre a nação brasileira.

Os anos passaram, veio a guerra, e Samuel embarcou para a Itália em 1944.
Logo sua Bateria foi enviada para a frente de combate. A Artilharia da FEB era comandada pelo General Cordeiro de Farias. Foram recebidos diretamente na Itália vindo dos Estados Unidos os obuses de 105 e 155 mm aquela época os mais modernos, de que ainda não dispúnhamos no Brasil.

Samuel comandou cerca de 200 homens, e ocupou por inúmeras vezes os observatórios avançados do Grupo, junto as primeiras linhas da Infantaria, em pontos considerados extremamente perigosos.

Sua bateria se destacou em qualidade nas operações e nos objetivos alcançados !

Da sua folha de serviços constam inúmeros elogios individuais e coletivos, destacando especialmente sua inteligência privilegiada e a capacidade de comando e organização com que se houve a frente da 2ª. Baterias de Obuses 155.

Em Diploma assinado aos 6 de março de 1961 pelo Ministro da Guerra Marechal Odilio Denys pode se verificar que ele esteve exposto ao fogo inimigo por diversas vezes ao situar-se nos posto de observação avançada que acompanhavam o tiro da artilharia, conquistando elogios pelo seu espírito de sacrifício, pela assistência que dava a seus comandados, conduzindo a sua bateria em todas as situações com calma e coragem.

Da sua folha de serviços neste período, verificamos ser plena de elogios, inclusive de superiores que um dia se tornariam Presidentes da Republica, como o na época Comandante do Núcleo da Divisão Blindada, o General Arthur da Costa e Silva

“.... elogio o Ten Cel Kicis que integrou o meu Estado Maior, pela capacidade de ação, inteligência, dinamismo e garbo ...”


Samuel serviu no EME com outras destacados oficiais, como o então Cel Ademar de Queiroz, que viria no futuro a ser Presidente da Petrobrás, Cel Aurélio de Lyra Tavares, que veio a ser Ministro da Guerra e imortal da ABL, Coronel Adalberto Pereira dos Santos, futuro VP da Republica

Senhoras e Senhores.

Este breve relato não poderia terminar sem que ressaltássemos o importante papel das Forças Armadas, instituição nacional única e integradora da alma brasileira, onde se funde a nossa nacionalidade multirracial, convivendo lado a lado o filho do rico e o filho do pobre, o negro, o índio, e o branco, o católico, o espírita e o judeu.

No momento em que vestem a honrosa farda verde oliva tornam-se todos iguais, companheiros, irmãos de armas, com as mesmas oportunidades que teve um jovem filho de imigrantes de terras remotas, a quem ora prestamos a maior homenagem que poderia receber pela sua carreira exemplar, o melhor elogio que poderia merecer:

General Samuel Kicis:

Foi um soldado brasileiro

FONTE: Material gentilmente enviado pelo 2º Ten R/2 Art Israel Blajberg