General Carlos de Meira Mattos
Ex-Combatente da 2ª Guerra Mundial

Oficial-de-Ligação da 1ª D.I.E.

Natural do Estado de São Paulo, pertence à turma de janeiro de 1936 da Escola Militar do Realengo. Na guerra, exerceu a função de Oficial-de-Ligação da 1ª Divisão de Infantaria Expedicionária e, em curto período, o comando da 2ª Companhia do I/11º Regimento de Infantaria. Foi instrutor da Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN) e da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME). Nos anos de 1961-62, exerceu as funções de Oficial de Gabinete do Ministro da Guerra, General João de Segadas Vianna. Em agosto de 1963, foi promovido a Coronel. Comandou o 16º Batalhão de Caçadores, em Cuiabá, e o Batalhão de Guardas Presidencial, em Brasília. Foi Vice-Chefe do Gabinete Militar do Presidente Castello Branco. Em 1965, comandou o Destacamento Brasileiro na Força Interamericana de Paz (FAIBRÁS), na República Dominicana e, em 1966, o Batalhão de Polícia do Exército, em Brasília. Em 1968, foi promovido a General-de-Brigada e, no ano seguinte, nomeado Comandante da AMAN. Em novembro de 1973, foi promovido a General-de-Divisão e, em 1975, assumiu o cargo de Vice-Diretor do Colégio Interamericano de Defesa, em Washington. Passou para a reserva em 1977. Recebeu as seguintes medalhas e condecorações pela sua participação na Segunda Guerra Mundial: Cruz de Combate 2ª Classe; Medalha de Campanha; Medalha de Guerra; Estrela de Bronze (Estados Unidos); e Cruz de Guerra com Palma (França). Autor de vários livros e trabalhos sobre Geopolítica.


General-de-Divisão Carlos de Meira Mattos*


* Oficial-de-Ligação e Comandante da 2ª Companhia do I / 11º RI da Força Expedicionária Brasileira, entrevistado em 22 de fevereiro de 2000.

Por ser um país pacífico, não havia no Brasil, uma consciência de guerra, no final da década de 1930. Quando as figuras de Hitler e Mussolini e seus projetos políticos expansionistas ganharam força, na Europa, surgiram, no Brasil, os grupos pró-nazistas, inimigos ferrenhos dos pró-comunistas. Esses grupos provocaram o despertar de uma consciência democrática, natural no povo brasileiro, e que estava, vamos dizer, semimorta.

Caracteriza esse período, por exemplo, a expansão dos alemães com espírito nazista, em Santa Catarina, que obrigou uma série de providências, inclusive a organização de associações civis, para contê-la. No Rio de Janeiro, foram organizados grupos ligados a uma tal Aliança Nacional Libertadora, com o objetivo de introduzir, de maneira branda, sub-reptícia, as idéias marxistas e recrutar adeptos. O chefe da Aliança, no Rio, era o Prefeito Pedro Ernesto, e quem pesquisar vai encontrar suas ramificações perigosas. Eles não se diziam PC – Partido Comunista; declaravam-se democratas, reformistas, mas, atrás disso, estava, inclusive, o financiamento da Internacional Comunista. Começaram a surgir, depois, os grupos integralistas. Em 1935, irrompia em Natal o movimento armado chamado de Intentona Comunista, secundado pelo de Recife e cujo epílogo se registrou no Rio de Janeiro, com as revoltas no 3º Regimento de Infantaria, na Praia Vermelha, e na Escola de Aviação Militar, no Campo dos Afonsos.

Começava a se formar, no País, um ambiente de bipolaridade: de um lado, as idéias de uma elite democrática que se formou, ativa, e do outro lado, a propaganda de direita nazista e de esquerda comunista. Mais tarde, depois de 1935, essa dualidade de posições se manifestou nas campanhas eleitorais do Clube Militar. Havia a chapa azul, dos militares democráticos, e a chapa amarela, dos que acreditavam – havia os crentes em vários graus – nas promessas do socialismo, do marxismo.

O fato principal desse período anterior à eclosão da guerra foi o panamericanismo. Os Estados Unidos, pensando na guerra com muito mais acuidade estratégica para os problemas mundiais, foram preparando as nações do continente americano para um futuro conflito. Realizaram-se diversas conferências com o objetivo de formular uma estratégia de defesa conjunta, como a de Lima, no Peru, em 1939, e a realizada em Havana, Cuba, em 1940, ambas muito importantes. Até que, em dezembro de 1941, houve o ataque japonês em Pearl Harbor. Os Estados Unidos estavam vacilando em entrar na guerra. O Presidente Roosevelt, que era favorável, pessoalmente, aos ingleses, que estavam sofrendo todas as agruras da guerra, mas tendo, no seu país, uma reação contrária à entrada no conflito ou à sua participação direta, recebeu de “presente” o ataque japonês. Essa agressão mudou, completamente, a consciência do povo americano e, já no dia seguinte, toda a opinião pública queria a guerra e Roosevelt passou a ser o comandante da preparação do país. Ele foi o grande estimulador do pan-americanismo visando a uma resistência ao nazi-fascismo.

No Brasil, pouco antes de Pearl Harbor, já tinham sido tomadas algumas providências. Uma delas, por exemplo, visava a fortalecer a capacidade defensiva do Nordeste brasileiro. Mas, a partir da agressão japonesa aos Estados Unidos, as medidas se aceleraram. O efetivo militar dessa região, que era de cerca de 12 mil homens, passou para cinqüenta mil em um ano. O General Mascarenhas de Moraes, na época General-de-Divisão, Comandante da 7ª Região Militar, com sede em Recife, foi encarregado da mobilização, tendo realizado um trabalho extraordinário. As três Forças reforçaram seu dispositivo e seus efetivos no Nordeste. Com base em Acordos Militares assinados, os Estados Unidos instalaram bases militares aéreas, em Natal e Belém, e naval, em Recife. Não foi efetivado o Comando Conjunto para a região, e os Comandos Militares das três Forças ficaram localizados em Recife, onde estava a base naval americana comandada pelo Almirante Jonas Ingram. Houve um perfeito entendimento e harmonia de procedimentos entre os altos chefes militares que exerceram comando na área – eram, além do General Mascarenhas e do Almirante Ingram, o Brigadeiro Eduardo Gomes, no comando da Zona Aérea, e o Almirante Soares Dutra e, em seguida, o Almirante Dodsworth Martins, no comando da Força Naval do Nordeste. Foi uma fase de grande aproximação militar entre os dois países. Foram planejadas e realizadas várias operações conjuntas de segurança do Atlântico Sul – missões de defesa do litoral brasileiro, de patrulhamento aeronaval, de escolta e proteção de comboios e de vigilância. Havia uma expectativa de que os alemães realizassem ações de comando no Nordeste do Brasil, que só desapareceu quando os aliados invadiram a França, em junho de 1944. Até essa data, nada impedia que os alemães pudessem utilizar uma base da Marinha francesa situada no Senegal, então colônia da França, defronte ao litoral brasileiro. Não se imaginava que o alemão pudesse montar uma operação de vulto aqui, mas desembarques isolados, em Natal ou Recife, em operações tipo comando, eram perfeitamente previsíveis, na época. Essas foram as razões essenciais para o fortalecimento do Nordeste. Sua importância foi tão grande que recebemos a visita do General Marshall, Chefe do Estado-Maior do Exército americano, para estimular a colaboração e a participação do Brasil e do Presidente Roosevelt, que esteve em Natal e referiu-se à importância da ponte estratégica Natal-Dacar.

O problema da adesão à causa democrata, defendida pelos países ocidentais, contra o nazi-fascismo, encontrou dificuldades, principalmente na classe militar. Havia militares de alta patente que eram simpatizantes da Alemanha; eles admiravam o militarismo alemão. Talvez, não admirassem o sistema político mas, por admirarem o Exército alemão, eles achavam que ele ia ganhar a guerra. Esses oficiais relutaram muito em favorecer a adesão do Brasil à Segunda Grande Guerra. Quem lê o livro A Serviço do Brasil na Segunda Guerra Mundial, do General Estevão Leitão de Carvalho, que participou, diretamente, dos entendimentos com os americanos e sentiu as reações internas, poderá se assenhorear de que essa situação não foi fácil.

A grande figura do Brasil, que fez com que o país pendesse, definitiva e formalmente, para o lado do Ocidente, que tomasse uma atitude clara, que saindo da obscuridade e das evasivas, foi o Ministro das Relações Exteriores, Osvaldo Aranha. Enfrentou, com muita coragem, o grupo que, dentro do Governo Getúlio Vargas, era contra o engajamento do País na guerra. Foi a favor de uma participação direta, concreta, militar e inquestionável. No final, os entendimentos previam que o Brasil iria organizar um grupamento de forças de valor Corpo de Exército, composto de três Divisões, mas as providências se retardaram e a guerra foi chegando ao seu final. Acabamos enviando uma Divisão. A segunda, chegou a ser preparada em Recife, pelo General Nilton Cavalcante, mas não embarcou.

Meu ingresso na Força Expedicionária Brasileira foi através da relação de conhecimento que tive com o General Mascarenhas, iniciada na 9a Região Militar, que compreendia o território de Mato Grosso, onde eu servia, como 2º Tenente, e o Mascarenhas foi comandá-la. Mais tarde, voltamos a nos encontrar no 4º Regimento de Infantaria, em São Paulo, onde eu estava servindo – no posto de Capitão – e ele, como Comandante da 2ª Região, foi inspecionar a Unidade. Passou por mim e disse:
“Olha! Você aqui! Aguarde que eu vou lhe chamar.” Pouco tempo depois, fui comandar a Companhia do Quartel-General (QG) – na organização francesa, corresponde, hoje, a Companhia de Comando.

Eu estava nessa função, quando chegou o rádio cifrado do Ministro da Guerra, Eurico Gaspar Dutra, consultando-o se aceitaria o comando da Força Expedicionária Brasileira. O rádio foi decifrado por mim e pelo, também Capitão, Edson Figueiredo, e levamos ao seu conhecimento. Ele respondeu no mesmo momento, na mesma hora: “Estou à disposição; aceito o comando.” Essa mesma mensagem foi enviada a quatro generais, sendo que o único que respondeu, prontamente, foi ele. Os demais pediram tempo para responder; um disse que tinha que fazer uma cirurgia... ninguém respondeu negativamente, mas a resposta positiva, aceitando de imediato, ninguém deu. Então, ele foi escolhido e convidou um grupo pequeno para acompanhá-lo para o Rio de Janeiro. Viemos eu, o Celso Daltro Santos e o Edson Figueiredo, todos capitães servindo na 2ª Região; o Major Aguinaldo José Senna Campos, que tinha o curso de Estado-Maior e era muito amigo dele, também veio. Eram cerca de oito a dez pessoas e nos instalamos no Quartel-General – atual Palácio Duque de Caxias – numa sala onde hoje tem o retrato do Mascarenhas.

Quando o designaram, não se tinha idéia de como iria ser organizada a Divisão. Existia muito pouca coisa sobre a Força e ele veio para criar, quase que do nada. Estabelecemos ligação com o Estado-Maior do Exército e começamos a trabalhar. Disseram ao Mascarenhas que seus oficiais de estado-maior estavam realizando curso em Ft. Leavenworth, nos Estados Unidos, preparando-se para atuar segundo a organização e doutrina americanas. Era a primeira turma saída daquele curso. Assim, ele não escolheu seus oficiais de estado-maior a não ser o Senna Campos, que já o acompanhava. Foram expedidos os atos do governo organizando a 1ª Divisão de Infantaria Expedicionária, com as Unidades sendo dotadas de material americano e motorizadas. Em cada organização foram entregues determinadas quantidades: dez jipes... dez caminhões de uma e meia tonelada... fuzis... metralhadoras... obuseiros de Artilharia... tudo modelo americano, para que o pessoal fosse se habituando com o material que iria receber, mais tarde, no Teatro de Operações. Na época, nossas Unidades eram hipomóveis. A preparação foi, inicialmente, na área de cada Unidade, onde eram inspecionadas, até que se decidiu pela concentração numa região entre a Vila Militar e o Campo dos Afonsos, no Rio de Janeiro. A seguir, foram programadas as viagens para a Itália, e, em tempo recorde, a FEB – 1º Escalão – se transferiu para o acampamento de Tarquínia, onde recebeu o material e, em 15 de setembro de 1944, já estava ocupando posição na linha de frente.

É interessante esclarecer o porquê de o 6º RI ter sido o primeiro a embarcar para a Itália. Foi realizado um teste dos grupamentos, veladamente, devido ao sigilo que era necessário sobre qualquer notícia relativa à presença do Brasil na guerra, tipo embarque de tropa, por exemplo, que poderia provocar a ação de submarinos para impedir nossa chegada na Itália. Nesse teste, o Mascarenhas achou que o 6º RI estava em melhores condições, e o General Zenóbio, o 1º RI, tendo, inclusive, adiantado para o Coronel Caiado, comandante da Unidade. No dia do embarque, os três grupamentos vieram até a região portuária, mas apenas o 6º RI embarcou. Isso deve ter contrariado o General Zenóbio, mas é coisa de menor importância; o pessoal ligado ao general considera o fato mais grave que ele próprio.

A viagem para a Itália foi penosa, pelo desconforto, em primeiro lugar, e perigo. Os navios de transporte tinham o primeiro, o segundo, o terceiro e o quarto deck e você ficava em um deles, isto é, no de cima, ou um abaixo, ou outro mais abaixo, até o último. As camas eram macas e nós tínhamos que permanecer o dia inteiro com o salva-vidas – dormir... comer... – que era uma das prescrições que o comandante do navio exigia, com rigor. Durante o trajeto para a Itália, houve vários exercícios de alarme de ataque de submarino e que nos obrigava ao cumprimento de uma série de prescrições de salvamento. As regras eram as seguintes: as balsas eram arriadas no mar e a turma do primeiro deck embarcava, enquanto a turma do segundo passava para o primeiro, a do terceiro para o segundo, e a do quarto para o terceiro. A seguir, eram arriadas as balsas do segundo deck para o embarque de sua turma e, sucessivamente, até todos terem embarcado. Você pode imaginar a realidade, debaixo de tiros com o navio querendo afundar. Nessa viagem, a Marinha brasileira nos escoltou até Gibraltar, quando a missão passou para a dos Estados Unidos e a da Inglaterra. Alguns não agüentaram aquela pressão permanente, durante 15 dias, até Nápoles, e aconteceram as primeiras perdas, por neurose de guerra. Outro desconforto desses grandes navios de transporte é o problema da alimentação. No refeitório, não cabiam todos os cinco mil e quinhentos homens e, por isso, o pessoal era dividido em turmas: o primeiro café da manhã era às 7 horas; a segunda turma às 8 horas; a terceira às 9 horas; e a quarta às 10 horas. Aí, acaba o café da manhã e começa, às 12 horas, a primeira turma do almoço. Havia gente que ficava desesperada, com fome, vendo os outros já alimentados.

Quando nós chegamos – eu me lembro – uma coisa que aborreceu os americanos foi a imprudência dos nossos motoristas. Começaram a surgir muitos acidentes de automóveis e anotações por excesso de velocidade. São problemas de adaptação que somente com o tempo seriam corrigidos. É preciso não esquecer que nós chegamos num Teatro de Operações em que a tropa que ali estava vinha lutando desde a Campanha da África, pelo menos, a partir de 1942. Havia o V Exército americano, do General Mark Clark, e o VIII Exército inglês, de Montgomery, enquadrados pelo XV Grupo de Exércitos, comandado pelo famoso Marechal inglês Sir Harold Alexander. Eram veteranos de três anos de guerra e nós chegamos, completamente, recrutas. Nosso último conflito, vamos dizer, guerra mesmo, foi a Guerra do Paraguai, que terminara em 1869. Não se pode exigir de uma tropa recém-chegada em um Teatro de Operações que faça tudo certo. Aprende-se muito durante a campanha na guerra.

No Estado-Maior da Divisão eu era o Oficial-de-Ligação com o IV Corpo de Exército, isto é, com o comando superior. Havia, ainda, oficiais responsáveis pelas ligações com as duas Unidades vizinhas – da direita e da esquerda. Nós três éramos, diretamente, ligados à 3ª Seção do Estado-Maior – Seção de Operações – e morávamos na unidade onde estávamos destacados; eu, por exemplo, morei no IV Corpo de Exército durante quase toda a guerra. Cada Oficial-de-Ligação possuía uma gaveta – a minha era Brazilian Liaison – onde as pessoas colocavam as informações que tinham e que poderiam nos interessar. Minha função era ouvir o “meeting” diário do IV Corpo, às sete horas da manhã, que começava com o E2, dizendo o que tinha acontecido nas outras frentes e na nossa, o E3 sobre as operações realizadas, o E4 sobre o apoio logístico, o E12 com os problemas de pessoal: mortos; feridos; recompletamentos etc, o pessoal dos Serviços que tinha alguma observação e, por último, o General fazia um comentário e encerrava. Depois, eu apanhava os documentos na gaveta e levava para a nossa Divisão. O Capitão Celso de Azevedo Daltro Santos fazia ligação da Divisão com o flanco, ora com a Divisão indiana, ora com a sul-africana.

Precisei deixar essa função no Quartel-General porque houve uma crise no 11º RI. O General Octávio Costa, que era Tenente do Regimento, na época, fez uma conferência na Escola de Estado-Maior contando, muito bem, essa crise. O que aconteceu foi o seguinte: um Batalhão do 11º RI foi tomado de pânico e abandonou sua posição, à noite. É um clima de alucinação, gritaria, em que as pessoas vêem fantasmas, se propaga e é difícil conter, principalmente à noite. Existem vários livros sobre esse tema e pode acontecer com as melhores tropas do mundo. Bem, em virtude desse pânico, três capitães de infantaria foram destituídos do comando e submetidos a Corte Marcial, havendo necessidade de substituí-los. Mas, o Depósito de Pessoal, órgão encarregado do recompletamento, ainda não tinha chegado na Itália. A solução lógica foi deslocar oficiais que estavam lá e eu fui indicado. O Mascarenhas disse: “Eu dou um Capitão e o Zenóbio dá o outro.” Então, eu fui da “cota do Mascarenhas” e o Capitão João Tarcísio Bueno foi escolhido na “cota do Zenóbio”.

Logo após a Companhia ter deixado a posição, assumi o comando. Os homens estavam dispersos, perdidos e as armas abandonadas, o que exigiu um esforço para recuperá-las. O Capitão que eu substituí era muito benquisto pelos seus subordinados e eles não se conformavam em vê-lo submetido a Conselho de Guerra. Não tinha sido ele quem provocou o pânico e sim outro Capitão que se acovardou, começou a ver fantasmas e aí se propagou. Sobre os duzentos homens que eu comandei posso dizer que apenas um chegou para mim e disse que tinha medo. Logo que assumi o comando ele me procurou e falou: “Capitão, pelo amor de Deus, eu tenho medo, mas o senhor me deixa aqui, porque vim com a minha gente de São João del-Rei e quero voltar com eles; se o senhor me mandar embora, vou para o Depósito e, depois, não sei para onde vão me mandar.” Deixei-o como meu auxiliar. Era a única pessoa que tinha um medo nervoso, neurótico e perdia a cabeça.

Um sentimento do soldado brasileiro e que o estimula a cumprir as missões mais perigosas é a hombridade. Quando o espírito de corpo é alto, a Unidade consegue sucesso porque o soldado raciocina da seguinte maneira: “Se o João faz, porque eu não faço.” Explorei muito esse sentimento de hombridade que possui uma força extraordinária. Eu dizia: “O pelotão tal faz; será que o seu não faz?”, “Os americanos são capazes de cumprir essa missão; será que vocês não são?”

Sobre o batismo de fogo, eu tenho uma teoria – não sei se está certa – que é a seguinte: a pessoa que está no comando e sente a responsabilidade da função, não tem tempo de passar por isso. É tanto problema para resolver, ao mesmo tempo, tantas dificuldades, que o seu pensamento fica concentrado na solução dessas questões e não dá tempo para ter essa crise psicológica que é o batismo de fogo. O soldado sente o problema porque ele só é responsável por si próprio; o cabo é responsável por uma “meia-dúzia”; mas, no comando de uma Companhia, você tem duzentas pessoas sob sua responsabilidade.

Antes do embarque da FEB, na fase da sua organização, quando eu estava no Estado-Maior do General Mascarenhas e, ainda, não tinham chegado os oficiais que foram fazer o curso em Ft. Leavenworth, eu recebi uma missão especial. Examinando a estrutura organizacional americana, apareceram alguns tipos de elementos que nós não tínhamos, no Exército, como a Companhia de Polícia, enfermeiras e a capelania. O General Mascarenhas me deu a missão de orientar a formação dos dois primeiros. Para a polícia, foram recrutados quarenta voluntários da Guarda Civil de São Paulo, famosa, sempre bem-fardada. Houve um contato com o governador que me pôs em ligação com o comandante da corporação e eu trouxe esse primeiro grupo. Quanto às enfermeiras, orientei muita coisa pelo bom senso e acho que acertei, porque todas elas ficaram muito gratas a mim.

Com relação ao desempenho em Campanha dos nossos oficiais e sargentos, ouvi alguns veteranos da FEB dizerem que nós chegamos na Itália sem saber nada, completamente ignorantes, o que não é verdade. Os nossos quadros, com a instrução recebida no Brasil, só tiveram que se adaptar ao material e mais nada. Todos sabiam quais eram suas atribuições. Você pode perguntar ao Pitaluga – Comandante do Esquadrão de Reconhecimento Mecanizado da FEB – se alguma vez ele precisou de conhecimento militar para comandar. Agora, nós tivemos que nos adaptar a uma organização e equipamentos diferentes. Quanto ao treinamento, ele foi atropelado, porque a formação normal para a guerra, começando com a instrução individual, depois a das pequenas unidades, a seguir exercícios em que essas frações operam juntas, mais adiante, instruções e exercícios de batalhão e regimento, não foi seguida.

Costumo dizer que a FEB está consagrada pelos resultados obtidos na campanha. Não adianta discutir, mas comparar com as tropas das nove ou dez nacionalidades que estavam no mesmo Teatro de Operações – americana, francesa, australiana, indiana, polonesa e outras. Devemos comparar os resultados de Unidades iguais à nossa, isto é, Divisão de Infantaria. Os índices do tipo: quantos dias de combate? Quantos mortos? Quantos feridos? Quantos inimigos aprisionou? vão mostrar que ninguém teve uma performance melhor do que nós. A FEB passou quase um ano em efetivo combate, sem rodízio, porque o Mascarenhas dizia: “O dia que a Divisão sair da linha de frente, vão dizer, no Brasil, que fomos derrotados; ninguém vai entender.” Tivemos que “inventar” uma maneira de dar certo “recreio” à tropa, sem tirar a Divisão da frente. Não adianta analisar que o homem era ignorante, analfabeto, do setor rural e que nunca tinha visto a cidade; essa argumentação morre, porque – como diz muito bem o General Dwight D. Eisenhower – não há substitutivo para a vitória.

Quanto ao desempenho operacional, a atuação inicial e feliz da FEB, no Vale, do Serchio, fez com que ganhássemos a confiança do General Mark Clark, Comandante do V Exército. A missão dessa frente de combate era cobrir as operações principais que se desenvolviam mais para leste, no eixo da estrada 64, que desembocava em Bolonha. Localizava-se próximo ao litoral do Mar Tirreno. Embora fosse um flanco secundário, não poderia ficar para trás e teria que progredir, acompanhando o avanço das tropas principais. Acontece que o V Exército estava com problemas de efetivo, pois sofrera a retirada de divisões a fim de efetuarem a invasão da França meridional. Como os alemães estavam sem aviação e pouco ativos, Unidades antiaéreas foram transformadas em infantaria, com a revolta de seus integrantes que, indignados com esse tratamento, passaram a não levar muito a sério suas atribuições e estavam parados, enquanto que a idéia era progredir. Nesse quadro, chegou a tropa brasileira e entrou em ação, em 15 de setembro, progredindo, sem parar, até o dia 29 de outubro, portanto, um mês e meio. No final das operações, fomos surpreendidos com o lançamento de um contra-ataque inimigo, em Castelnuovo di Garfagnana, e tivemos que recuar. O General Zenóbio ficou “danado da vida”, porque ele já tinha incorporado a glória daquela vitória, inclusive recebido elogios do Major-General Willis D. Crittenberger, Comandante do IV Corpo de Exército. Não obstante esse revés, a tropa tinha provado que era boa e foi transferida para o Vale do Rio Reno. Ela “fora promovida ao primeiro time do V Exército”, consoante declarou o próprio General Mark Clark.

Observe-se que a FEB foi empregada por partes, na medida da chegada dos escalões. O Comando americano não esperou a concentração de toda a Divisão e lançou-a na frente de combate para suprir a grande falta de efetivos. Acho que foi o único caso, no Teatro de Operações, de uma Divisão não se concentrar para ser empregada. Quando houve o emprego, no Vale do Rio Serchio, só havia chegado à Itália o primeiro escalão, composto do 6º RI com o 2º Grupo de Obuses e frações de reconhecimento, engenharia, saúde, comunicações e outros elementos de apoio. Esse grupamento tático foi chamado de Destacamento FEB, sob o comando do General Zenóbio da Costa e representava um terço da Divisão – não era a Divisão que estava sendo empregada.

Havia uma expectativa muito grande com relação à atuação da nossa tropa. Ninguém a conhecia direito e a última experiência de combate, para que se pudesse fazer uma avaliação, tinha sido, como eu falei, a Guerra do Paraguai. Sob esse clima de esperança, o Destacamento começou a cumprir sua missão e, ao longo de um mês e meio, mostrou grande impulsão e surpreendeu os americanos. Essa frente, caracterizada pelo confronto de patrulhas, estava estacionada, sem progredir, e, quando a nossa tropa chegou, ela avançou uns quarenta quilômetros, naquele período. Uma qualidade muito importante para os americanos é o espírito ofensivo e essa ação demonstrou a vontade de progredir do Grupamento.

Quando chegamos ao Vale do Rio Reno, nos Apeninos, em novembro de 1944, a tropa americana estava detida. O terreno montanhoso da área condicionava as operações em força, de modo que se ficava limitado aos eixos. O objetivo do V Exército era chegar em Bolonha, antes do rigor do inverno – estávamos em fins do outono, começo do inverno. Para realizar essa ofensiva era necessário limpar os alemães das montanhas que flanqueavam, completamente, a estrada 64, que de Porreta conduz a Bolonha. A visibilidade que desfrutava o inimigo sobre essa importante via de comunicação exigia, como medida de disfarce, a produção intensa de cortina de fumaça. Caminhava-se de dia como fosse noite. Monte Castelo era o baluarte desse sistema montanhoso e sua ocupação representava, praticamente, a abertura do eixo da estrada 64. Inicialmente, lançaram-se à conquista, por duas vezes, forças sob o comando americano com a participação de elementos brasileiros, postos à disposição. Diante dos reveses, chegou-se à conclusão que o objetivo era muito forte para batalhões e foi atacado por dois regimentos que, também, fracassaram. A chegada do inverno fez suspender as operações e teve início a fase das patrulhas. Trouxe, também, as instruções de esqui, a neve nas estradas, retirada através de máquinas que trabalhavam o dia inteiro, e as correntes nas rodas das viaturas para evitar que deslizassem na pista, que ficava como pedra de gelo. Em determinada oportunidade, pude presenciar um caminhão, com soldados, escorregar e cair num precipício.

Terminado o inverno, na preparação para a grande ofensiva da primavera, Monte Castelo foi alvo de um novo ataque feito por duas divisões: a 10a de Montanha, americana, precedendo a Divisão brasileira, conquistou Mazzancana, e nós atacamos o objetivo principal, naquela manhã memorável de 21 de fevereiro, e fomos vitoriosos. Acho que houve, do ponto de vista operacional, uma má avaliação de Monte Castelo. Ele não podia ser atacado por um batalhão, como aconteceu várias vezes. A conquista teria que ser feita por duas divisões. Uma coisa que deve ser consignada é que, quando conquistamos Monte Castelo, foram encontrados corpos de soldados nossos, do primeiro ataque, no alto do morro. Eles chegaram lá em cima, mas não tinham força, estavam diluídos; morreram lá em cima. Dominado Monte Castelo, as operações visando a abrir o caminho da estrada 64 se tornaram mais fáceis. Um ataque brasileiro conquistou Castelnuovo, elevação mais próxima da rodovia mas que não tinha a importância da anterior.

A fase seguinte das operações visava à ruptura das posições alemãs estabelecidas sobre os últimos contrafortes da cadeia dos Apeninos. Coube à nossa Divisão atacar o importante maciço de Montese, onde se localizava a cidade de mesmo nome cuja torre da igreja via-se de longe. Havia muitos campos minados que causaram número expressivo de feridos. Em Montese, aconteceu um fato singular: um tenente resolveu se infiltrar, com muita garra, seguindo um riacho – nas montanhas eles se apresentam fundos, com vertentes altas –, e, de surpresa, entrou na cidade, alcançou a torre da igreja e começou a metralhar os alemães que, confusos, recuaram. Esse tenente – Iporan Nunes de Oliveira, mato-grossense, era da Companhia que eu havia comandado e que agora estava sob a direção do Capitão Darci Lázaro. A conquista de Montese foi muito elogiada pelo Major-General Willis D. Crittenberger, numa das reuniões diárias do IV Corpo de Exército, quando disse: “Os americanos precisam aprender com os brasileiros como se conquista uma localidade.” Embora ache que aquela ação foi de muito valor, penso ter sido um acaso o tenente descobrir aquele caminho. O alemão não esperava que alguém se infiltrasse por ali.

Quando ingressamos na vasta planície do Rio Pó, sentimos que a desorganização reinava nas fileiras alemãs. O planejamento alemão era constituir uma posição defensiva nesse vale, mas não havia mais essa possibilidade. Lançamos o Esquadrão de Reconhecimento na direção oeste, e não norte-sul, a fim de retomar o contato com o inimigo. O General Mascarenhas, vendo a morosidade do deslocamento da Infantaria, emprega os caminhões da Artilharia em proveito da maior mobilidade dos infantes. Ele não teve alternativa porque as Unidades de Infantaria não eram motorizadas; apenas possuíam alguns caminhões para seus serviços. Nesse quadro, o Esquadrão fez contato com tropa inimiga, em Collecchio, e o Pitaluga – comandante da Unidade – com pouca gente, solicitou reforços, enquanto iniciava o cerco da cidade. Os alemães não esperavam e ficaram assustados. Convém ressaltar a ousadia do nosso Esquadrão de Reconhecimento que se lançou a grandes distâncias em busca do inimigo, encontrando-o e possibilitando, com isso, que a Divisão, com o emprego dos Batalhões, detivesse o retraimento inimigo. Sem condições de prosseguir, a não ser com luta, o General alemão – Fretter Pico – enviou um emissário para discutir a rendição. O Coronel Nelson de Mello, comandante do 6º RI, informa que só a aceitaria de forma incondicional. Finalmente, os detalhes foram acertados e, em 29 de abril, tem início a rendição. Esse episódio da capitulação seguiu um cerimonial que consistiu na deposição das armas – fuzis, metralhadoras – em locais já designados e uma formatura de despedida dos comandantes de batalhões, companhias e pelotões, quando se separavam, oficiais, sargentos e soldados, cada grupo para um lado, onde eram presos. Costumo dizer, repetindo o Marechal Mascarenhas de Moraes, que foi a operação mais espetacular da Força Expedicionária Brasileira.

Com a rendição de todas as tropas alemãs em operações na Itália, recebemos uma área de ocupação, numa região rica, que tinha como centro a cidade de Alessandria. O Quartel-General da Divisão foi transferido para essa cidade. A idéia do comando aliado era que continuássemos na ocupação – a tropa aliada ficou na Europa cerca de três anos, depois da guerra –, mas o governo brasileiro não concordou e, depois de um mês de efetivo cumprimento da missão, iniciamos os preparativos para o retorno.

Um aspecto sobre a campanha, que me deixou muito impressionado, foi a capacidade do americano, que assumiu toda a logística da guerra. Passei pela África, depois fui para a Europa e tudo estava funcionando rigorosamente bem, em termos de transportes, sendo que o alemão, quando saiu, tinha destruído tudo. Os aliados chegaram e encontraram destruídas as pontes, aeroportos, estações ferroviárias, usinas elétricas, e o americano recompôs tudo. Os grandes hotéis em Roma, Turim, Bolonha, das grandes cidades, eram administrados pelo americano. Isso foi uma das coisas que mais me impressionou: a capacidade do americano, que fez tudo sozinho; todas as tropas, de todas as nações, dependeram de seu apoio. O Exército americano possuía, no início da guerra, para se ter uma idéia de seu esforço de mobilização, trezentos mil homens e, ao final, estavam com 11 milhões. Essa é a razão porque alguns consideram que o homem mais importante da guerra não foi o Eisenhower, mas o Marshall, que não combateu, mas montou a logística relativa à mobilização.

Atualmente, preocupa-me o estado de espírito do soldado brasileiro. Será que hoje, se nós tivermos uma outra guerra, a nossa tropa irá se conduzir tão bem como a que combateu na Itália? Não tenho dúvidas sobre a oficialidade e os quadros de sargentos, que são muito bem preparados nas escolas, mas sobre a tropa tenho dúvidas porque ela é o reflexo da sociedade; que hoje, está com uma mentalidade muito destrutiva; a mentalidade não é de defender a pátria, não é de luta, não é de civismo, não é nada, compreendeu! A mentalidade da juventude, hoje, é profundamente universalista; e isso me preocupa.

Os homens que nós levamos para a guerra não foram da elite; essa ficou na rua gritando que queria a guerra, mas na hora de ir, não foi, compreendeu! Contam-se pelos dedos os estudantes que nós tínhamos na FEB, agora, aqui na rua, gritando que queria a guerra, era só estudante. Foram para a Itália o agricultor de Minas; de São Paulo; o pessoal da Baixada Fluminense; comerciários; bancários; essa era a massa da FEB. A quantidade de gente que nunca tinha visto o mar – ou melhor, nunca tinha navegado – que levamos foi uma barbaridade. Havia nesses homens menos cultos uma consciência nacional. Eles tinham uma consciência de dever, de responsabilidade para com o País e a Pátria, um sentido de hombridade, porque não poderiam ser inferiores aos outros. Esse é o problema que me preocupa. Igualmente, os americanos têm dúvidas se conseguirão, agora, fazer uma mobilização igual à que fizeram; se a juventude responderá da mesma maneira que na Segunda Guerra Mundial.

Quando terminou a guerra, com a vitória aliada, e a FEB regressou ao País, pudemos perceber duas situações distintas. A recepção popular foi extraordinária; todas as cidades se engalanaram e receberam os soldados como heróis. Foram homenageados quando desembarcaram no Rio e, depois, nas capitais de seus estados, nas suas cidades de origem e, se fossem de um vilarejo, eram lá, também, homenageados como heróis. Essa fase acabou rapidamente e eles tiveram que enfrentar a dura realidade de suas atividades e profissões – carteiro, empregado do comércio, agricultor – e foi muito dura a readaptação, surgindo o desajuste – cuja principal causa estava exatamente nesse aspecto.

O outro lado foi o tratamento dentro do Exército. Pesou o fato de que a maioria não foi para a Itália. Essa parte maior não queria a concessão de vantagens para o pessoal que integrou a FEB e, então, houve uma preocupação de desmobilizar a Força, de imediato, em vez de manter algumas unidades, como padrão. Mas, muita coisa se aproveitou, em termos de pessoal. O Coronel Humberto de Alencar Castello Branco – promovido no fim da guerra – foi aproveitado na Escola de Comando e Estado-Maior, como Diretor de Ensino, e preparou a Escola para a nova doutrina militar, que não poderia mais ser a francesa, derrotada na guerra; o Coronel Bizarria Mamede foi designado para a mesma função, na Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais; eu, que tinha experiência de combate de Infantaria, fui designado Instrutor-Chefe do Curso de Infantaria da Academia Militar das Agulhas Negras. O Exército não soube aproveitar a Força como um todo, mas deu-se o aproveitamento individual; havia medo e receio político de que a FEB derrubasse o Governo.

Na verdade, existia uma contradição muito grande: nós chegamos como heróis que lutaram pela restauração da democracia e, no Brasil, o regime era ditatorial. Esse contraste, situação antagônica que se criou, produziu um receio de que a FEB, quando aqui chegasse, fosse lutar contra o Governo. Acho – opinião pessoal – que foi por isso que houve uma preocupação de acabar, desorganizar, desestruturar e mandar cada um para um lado. E estabeleceu-se esse contraste com aquela recepção popular apoteótica.

Concluindo meu depoimento, gostaria de afirmar que a atuação da Força Expedicionária Brasileira foi, indiscutivelmente, uma consagração. Ela lutou e venceu. Cometeu falhas e teve que aprender na dureza do combate, mas toda força incorre em erros. Soube enfrentar as dificuldades e superá-las, como mostra o resultado consagrador de uma campanha vitoriosa. Nós tivemos a sorte de sermos comandados pelo então General João Baptista Mascarenhas de Moraes. Não havia um comandante mais adequado para a Força Expedicionária Brasileira. Porque aconteceu que tivemos que nos enquadrar num dispositivo militar muito grande e não adiantava ter gente de arroubos, querendo fazer estratégia. Estávamos num conjunto de 24 divisões atuando no Teatro de Operações, e cada uma recebia um pedacinho da missão que vinha dos escalões superiores. Essa era a realidade, e não adiantava você achar que era um grande estrategista ou um grande tático, porque você tinha que atacar Monte Castelo, no dia e hora determinados, que precisavam ser respeitados pelo reflexo que traziam em outra operação, cujo desencadeamento, por sua vez, influiria numa terceira e, assim, sucessivamente. Entendo que a grande qualidade do Gen Mascarenhas de Moraes foi a seriedade, e os Comandos americanos logo viram que estavam tratando com uma pessoa íntegra, de palavra, na qual podiam confiar. Ele conduziu muito bem a tropa, sem arroubos e exageros, com uma disciplina férrea.

O General Meira Mattos faleceu aos 93 anos e meio em 25 de janeiro de 2007, no Hospital Santa Catarina, na cidade de São Paulo.

FONTE:
História Oral do Exército na Segunda Guerra Mundial
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