A
MENINA SILVANA
Fevereiro,
1945
A véspera tinha sido um dia
muito duro: nossos homens atacaram uma posição difícil
e tiveram de recuar depois de muitas horas de luta. Vocês já
sabem dessa história, que aconteceu no fim de novembro. O comando
elogiou depois os médicos que deixaram de se alimentar, abrindo
mão de suas refeições para dá-las aos
soldados. Um homem, entretanto, fora elogiado nominalmente: um “pracinha”,
enfermeiro de Companhia, chamado Martim Afonso dos Santos. Às
9 horas da manhã , Martim foi ferido por uma bala quando socorria
um ferido na linha de frente. Não foi uma bala no peito; o
projétil ficou alojado nas nádegas. Mas não importa
onde a bala pegue o homem: o que importa é o homem. Martim
Afonso dos Santos fez um curativo em si mesmo e continuou a trabalhar.
Até as 11 e meia da noite atendeu aos homens de sua Companhia.
Só então permitiu que cuidassem de si.
Resolvi
entrevistar Martim e fui procurá-lo num posto de tratamento
da frente, onde me disseram que ele deveria estar. Lá me informaram
que ele tinha sido mandado para um hospital de evacuação,
muitos quilômetros para a retaguarda – e para encurtar
a conversa eu andei mais tarde de posto em posto, de hospital em hospital,
e até agora não encontrei o “diabo” do pretinho.
Encontrei.
No posto de tratamento estavam dois homens que acabavam de ser feridos
em um desastre de “jeep” e um outro com um estilhaço
de granada na barriga da perna.
- Padioleiros, depressa!
Os homens saíram para apanhar o ferido – mas quando,
eles entraram, eu estava procurando o nome de Martim no fichário,
e não ergui os olhos. O médico me informou que, como
o ferimento era leve eu devia procurá-lo em tal hospital; talvez
já tivesse tido alta...Foi então que distraidamente
me voltei para a mesa onde estava sendo atendido o último ferido
– e tive uma surpresa. Quem estava ali não era um desses
homens barbudos de botas enlameadas e uniformes de lã sujo
que são os fregueses habituais do posto. O que vi ao me voltar
foi um pequeno corpo alvo e fino que tremia de dor.
Um camponês velho deu as informações ao sargento:
Silvana Martinelli, 10 anos de idade.
A menina estava quase inteiramente nua, porque cinco ou seis estilhaços
de uma granada alemã a haviam atingido em várias partes
do corpo. Os médicos e os enfermeiros, acostumados a cuidar
rudes corpos de homens, inclinavam-se sob lâmpada para extrair
os pedaços de aço que haviam dilacerado aquele corpo
branco e delicado como um lírio – agora marcado de sangue.
A cabeça de Silvana descansava de lado, entre cobertores. A
explosão estúpida poupara aquela pequena cabeça
castanha, aquele perfil suave e firme que Da Vince ou qualquer gênio
da Renascença amaria desenhar. Lábios cerrados, sem
uma palavra ou um gemido, ela apenas tremia um pouco – quando
lhe tocavam num ferimento contraia quase imperceptivelmente os músculos
da face. Mas tinha os olhos abertos – e quando sentiu a minha
sombra ergueu-se um pouco.
Nos seus olhos não vi essa expressão de cachorro batido
dos estropiados, nem essa luz de dor e raiva dos homens colhidos no
calor do combate, nem essa impaciência dolorosa de tantos feridos,
ou o desespero dos que acham que vão morrer. Ela me olhou quietamente.
A dor contraía-lhe, num pequeno tremor, as pálpebras,
como se a luz lhe ferisse um pouco os olhos. Ajeite-lhe a manta sobre
a cabeça, protegendo-a da luz e ela voltou a me olhar daquele
jeito quieto e firme de menina correta.
Deus, que está no Céu – se é que, depois
de tantos governos cruéis e tanta criminosa desídia
ninguém o pôs para fora de lá, ou Vós mesmo,
Senhor, não vos pejais de estar ai quando Vossos filhos andam
neste inferno! - Deus sabe que tenho visto alguns sofrimentos de crianças
e mulheres. A fome dessas meninas da Itália, que mendigam na
estrada dos acampamentos, a humilhação dessas mulheres
que diante dos soldados trocam qualquer dignidade por um naco de chocolate
– nem isso, nem o servilismo triste, mais que tudo, dos homens
que precisam levar pão à sua gente – nada pode
estragar a minha confortável guerra de correspondente. Vai-se
tocando, vai-se a gente acostumando no ramerrão da guerra:
é um ramerrão como o medo, o disco de Lili Marlene,
junto de uma lareira que estala, a lama, o vinho, a cama-rolo, a brutalidade,
a ajuda, a ganância dos aproveitadores, o heroísmo, as
cansadas pilhérias – mil coisas no acampamento e na frente,
em sucessão monótona. Esse corneteiro que o frio da
madrugada desafina não me estraga a lembrança de antigos
quartéis de ilusões, com alvoradas de violino –
Senhor, eu juro, sou uma criatura rica de felicidades meigas, sou
muito rico, muito rico, ninguém nunca me amargará demais.
E às vezes um homem recusa comover-se: meninas da Toscana,
eu vi vossas irmãzinhas do Ceará, barrigudinhas, de
olhos febris, desidratadas, pequenos trapos de poeira humana que o
vento da seca ia tocar pelas estradas. Sim, tenho visto alguma coisa
e também há coisas que homens que viram me contam; a
ruindade fria dos que exploram e oprimem e proíbem pensar,
e proíbem comer, e até o sentimento mais puro torcem
e estraga, as vaidades monstruosas que são massacres lentos
e frios de outros seres – sim, por mais distraído que
seja um repórter, ele sempre, em alguma parte em que anda,
vê alguma coisa.
Muitas vezes não conta. Há 13 anos, trabalho neste ramo
– e muitas vezes não conto. Mas conto a historia sem
enredo dessa menina ferida. Não sei que fim levou e se morreu
ou está viva, mas vejo seu fino corpo branco e seus olhos esverdeados
e quietos. Não me interessa que tenha sido o inimigo o canhão
que a feriu. Na guerra, de lado a lado, é impossível
até um certo ponto evitar essas coisas. Mas penso nos homens
que começaram esta guerra e nos que permitiram que eles começassem.
Agora é tocar a guerra – e quem quer que possa fazer
alguma coisa para tocar a guerra mais depressa, para aumentar o número
de bombas dos aviões e tiros de metralhadoras, para apressar
a destruição, para aumentar aos montes a colheita de
mortes – será um patife se não ajudar. É
preciso acabar com isso, e isso só acaba a ferro e fogo, com
esforço e sacrifícios de todos, e quem pode mais deve
fazer muito mais, e não cobrar o sacrifício do pobre
e se enfeitar com as glórias fáceis. É preciso
acabar com isso, e acabar com os homens que começaram isso
e com tudo o que causa isso – o sistema idiota e bárbaro
de vida social onde um grupo de privilegiados começa a matar
quando não tem outro meio de roubar.
Pelo corpo inocente, pelos olhos inocentes da menina Silvana (sem
importância nenhuma no oceano de crueldades e injustiças),
pelo corpo inocente, (pelos olhos inocentes da menina Silvana) mas,
oh! Hienas, oh! Porcos, de voracidade monstruosa, e vós também,
águias pançudas e urubus, oh! Altos poderosos de conversa
fria ou vozes frenéticas, que coisa mais sagrada sois ou conheceis
que essa quieta menina camponesa?) pelo corpo inocente, pelos olhos
inocentes da menina Silvana 9oh! Negociantes que roubais na carne,
quanto valem esses pedaços estraçalhados?) – por
esse pequeno ser simples, essa pequena coisa chamada uma pessoa humana,
é preciso acabar com isso, é preciso acabar para sempre,
de uma vez por todas.
Fonte:
Com a FEB na Itália
de Rubem Braga

Soldado
João Martins da Silva – do 1º RI
Natural do Estado do Rio de Janeiro
“Durante
o bombardeio de seu posto Bela Vista foi atingido por três estilhaços
de granada o Soldado Martins.
Assim, ferido, deixou-se ficar no mesmo lugar sem uma queixa sequer.
E ali permaneceu cerca de oito horas. Sabedor do fato pelos companheiros
do soldado ferido o Comandante do Pelotão, determinou sua evacuação.
No Posto de Socorro, interrogado pelo médico porque resolvera
calar sobre seu estado de saúde, respondeu-lhe que ciente de
que os alemães iriam lançar contra-ataques, decidira
não se afastar do posto para ajudar a repeli-los, uma vez que
o Pelotão se encontrava desfalcado e ainda se sentia forte.
Possuía, realmente, o Soldado Martins a têmpera do verdadeiro
combatente. O seu exemplo, pela sua grandeza e pelo estoicismo, envaidece
a tropa brasileira”.
Boletim Interno de 09 de junho de 1945.

TRÊS
HERÓIS
GERALDO BAETA DA CRUZ
GERALDO RODRIGUES DE SOUZA
ARLINDO LÚCIO DA SILVA
Na Itália, os pracinhas confirmaram a bravura brasileira, lutando,
vencendo, e até mesmo deixando ali muitas vidas, como sacrifício
em prol de nossa liberdade.
Dentre os muitos feitos de heroísmo, enfatiza-se a atitude
de coragem e abnegação à própria vida
de três pracinhas brasileiros, nascidos em Minas Gerais. São
eles, Arlindo Lúcio da Silva, Geraldo
baeta da Cruz e Geraldo Rodrigues de Souza.
Algo ocorrera com eles, durante um confronto com o inimigo.
Após longos momentos de resistência, os três foram
mortos, no dia 14 de abril de 1945. Os alemães, que tanta frieza
e crueldade demonstraram durante a guerra, reconheceram naquele trio
indômito tamanha valentia e insistente vontade de derrotar o
inimigo, que lhes deram uma sepultura rasa com ao dizeres:
DREI BRASIANISCHE HELDEN; em português:
TRÊS HERÓIS BRASILEIROS.
“ELES
NÃO MORRERAM EM VÃO”
GERALDO
BAETA DA CRUZ - IDENT. MILITAR N° IG-295.850
Classe 1916. 11º Regimento de Infantaria. Embarcou para além-mar
em 22 de setembro de 1944. Natural do Estado de Minas Gerais, filho
de Antonio José da Cruz e Maria Conceição da
Cruz, residente em João Ribeiro, MG. Faleceu em ação
no dia 14 de abril de 1945, em Montese, Itália, e foi sepultado
no Cemitério Militar Brasileiro de Pistóia, na quadra
C, fileira nº 4, sepultura nº 47, marca: lenho provisório.
Foi agraciado com as Medalhas de Campanha, Sangue do Brasil de Combate
de 2ª Classe. No decreto que lhe concedeu esta última
condecoração, lê-se: “Por uma
ação de feito excepcional na Campanha da Itália”.
GERALDO
RODRIGUES DE SOUZA - IDENT. MILITAR N° 4G-88.714
Classe 1919. 11º Regimento de Infantaria. Embarcou para além-mar
20 de setembro de 1944. Natural do Estado de Minas Gerais, filho de
Josino Rodrigues de Souza e Maria Joana de Jesus, residente à
rua Cajurú nº 4, Serra Azul, SP. Faleceu em ação
no dia 14 de abril de 1945, em Natalina, Itália, e foi sepultado
no Cemitério Militar brasileiro de Pistóia, na quadra
B, fileira 9, sepultura nº 98, marca: lenho provisório.
Foi agraciado com as Medalhas de Campanha, Sangue do Brasil de Combate
de 2ª Classe. No decreto que lhe concedeu esta última
condecoração, lê-se “Por uma
ação de feito excepcional na Campanha da Itália”.
ARLINDO
LÚCIO DA SILVA – IDENT. MILITAR N° 1G-291.827
Classe
1920. 11° Regimento de Infantaria. Embarcou para além-mar
em 20 de setembro de 1944. Natural do Estado de Minas Gerais, filho
de João Olímpio da Silva e Maria Cipriana de Jesus,
tendo como pessoa responsável D.Maria Cipriana de Jesus , residente
à rua Vargo de faria n° 177, São João del-Rei,
Estado de Minas Gerais. Faleceu em ação no dia 14 de
abril de 1945, em Montese, Itália, e foi sepultado no Cemitério
Militar Brasileiro de Pistóia, na quadra C, fileira nº
4, sepultura 44: lenho provisório.
Foi agraciado com as Medalhas de Campanha, Sangue do Brasil de Combate
de 1ª Classe. No decreto que lhe concedeu esta última
condecoração, lê-se: No dia 14 de
abril, no ataque a Montese, seu Pelotão foi detido por violenta
harragem de
morteiros inimigos, enquanto uma Metralhadora alemã, hostilizava
violentamente o seu flanco esquerdo, obrigando os atacantes a se manterem
se manterem colados ao solo. O Soldado Arlindo, atirador de F.A, num
gesto de grande bravura e desprendimento, levanta-se, localiza a resistência
inimiga e sobre ela despeja seis carregadores de sua arma, obrigando-a
a calar-se nessa ocasião, é morto por um franco-atirador
inimigo”
Fonte:
Revista Verde Oliva - Edição Histórica

CAMAIORE
ALVORADA FESTIVA
BATISMO DE FOGO
Na jornada de 14 de setembro, todo o oficial do 6º RI foram realizar
reconhecimento do terreno, na ilha de Filetoli, ao norte de Pisa.
No dia seguinte, à meia-noite, a tropa brasileira, substituiu
a americana, que se encontrava naquela posição.
A jornada de 16 de setembro, que prenunciava ser tranqüila, foi,
entretanto, agitada por volta de meio-dia. Chegou uma ordem de avanço
para nova linha, balizada pelas alturas de Monte Communali –
La Quiesa – Monte Acuto, com início do movimento às
15:00 hs daquela mesma jornada.
Após o reconhecimento feito por seus comandantes, as três
Companhias de Fuzileiros do I/6º RI iniciaram seus deslocamentos.
Na jornada de 17, as demais subunidades concluíram o movimento
para as novas posições.
Destacava-se, como ponto importante na área, a cidade de Camaiore,
cuja ocupação provavelmente aliviaria as pressões
na frente de Florença pressões foram materializadas
pelo constante vai-e-vem das tropas americanas que atravessaram o
rio Amo, pois, em face dos duros contra-ataques inimigos, refluíam
para ataques às posições anteriores, com baixas
consideráveis e preocupantes.
Caso fosse possível tomar Camaiore, um pouco à retaguarda
das linhas alemãs, provavelmente a posição do
Arno cairia pela manobra e seria abandonada pelo inimigo.
Às 20.00 hs do dia 17 de setembro, chegou um mensageiro com
a ordem:
“Reunir-se na região de Luciano, de onde deverá
partir às 08.00 hs de 18 de setembro, para conquistar camaiore”.
Aproximadamente a 06.00 hs, um Pelotão de Fuzileiros da 2ª
Companhia foi embarcado em caminhões de duas e meia toneladas
e os Pelotões de Metralhadoras e Morteiro, nesta ordem, colocaram-se
à retaguarda, formando uma coluna de marcha que se deslocou
para Luciano.
Nessa localidade, encontrava-se o Pelotão de Carros de Combate
dos norte-americanos.
Reiniciou-se o movimento às 08:30 hs do dia 18 de setembro,
em marcha realizada por estrada e enormemente dificultada pelas freqüentes
destruições deixadas pelo inimigo. Nas proximidades
de cada cratera ou devastação de via, a coluna fazia
alto e a Engenharia lançava-se à frente para os trabalhos
de detecção de minas. Avançava, então,
um tanque Buldozer que se encontrava à testa dos carros de
combate americanos e aplainava o terreno, dando condições
ao reinicio do movimento.
Esta operação morosa e cansativa foi repetida dez ou
doze vezes.
O Monte Nocchi estava situado numa serra elevada. Dessa região,
dominava-se a cidade de Camaiore, mas à frente, havia o vale
de um rio, com descida íngreme, por estrada em ziguezague,
a ser vencida pelas viaturas em movimento totalmente a descoberto.
A recepção em Monte Nocchi foi uma rajada bem regulada
de tiros da artilharia inimiga. Era o “batismo de fogo”.
O soldado brasileiro saiu-se com galhardia desse teste tão
temido por todas as tropas.
Era necessária máxima rapidez, não somente para
escapar, do bombardeio de Monte Nocchi, como para tentar surpreender,
pela velocidade, o inimigo, evitando que ele acompanhasse nossa tropa,
sem nenhuma defesa durante um deslocamento a descoberto, por estrada
sinuosa.
Às 19:00 hs de 18 de setembro de 1944, precedido pela Seção
de Engenharia, o Pelotão de Fuzileiros da 2ª Companhia
do I Batalhão do 6º RI entrava na cidade de Camaiore.
A localidade estava totalmente deserta e em completa escuridão.
As atuações inimigas, que tinha sido tão enérgica
quando da aparição em Monte Nocchi e durante o deslocamento
motorizado pela encosta, mantinha-se agora completamente abafada.
Ao alvorecer, a população veio para a rua e percebeu
que a cidade tinha sido liberada. A decantada extroversão italiana
confirmou-se nas ruidosas manifestações de júbilo,
transformando aquela manhã de 19 de setembro em dia de festa.
Fonte:
Adaptação do texto de autoria do General Ernani Ayrosa
da Silva – Memórias de um Soldado.

16
SET 44
MONTE BASTIONE
2ª PEÇA, FOGO!
NO AR.
UMA GRANADA BRASILEIRA
Nas encostas do Monte Bastione, situado em Massarosa, a Artilharia
Brasileira estava em posição.
Desde o iníciodo movimento da Infantaria, todos os artilheiros
estavam atentos, ansiosos, esperando a primeira missão de tiro.
Há um murmúrio de impaciência das Baterias; e,
mais que isso, uma trepidação, um frenesi...
Os artilheiros enrubescem. As mãos dos atiradores crispam-se
nos cordéis de disparo das peças. Pouco depois das duas
horas, um observador avançado entra no ar e anuncia a esperada
missão de tiro. A 1ª Bateria do II / 1°
RO 105 Au R é bafejada pela sorte...
As pontarias são retificadas, as derivas ajustadas, as bolhas
caladas e os obuseiros carregados.
As peças estão prontas.
Eram precisamente, 14:22 hs do dia 16 de setembro de 1944,
quando se fez ribombar nos contrafortes dos Apeninos o primeiro tiro
disparado pela Artilharia brasileira na II Guerra Mundial.
Era a materialização da resposta à insólita
agressão aos navios brasileiros que, pacificamente, singravam
os mares da Pátria.
PEÇA ATIROU!
Fonte: Adaptação do texto de autoria do
Coronel J.V. Portela F. Alves – Letras em Marcha.

MISSÃO
PERIGOSA
CORRESPONDENTE DE GUERRA
Foi há quase 50 anos, no dia 8 de maio de 1945. Eu me encontrava
em Milão, no Restaurante Biffi da Galeria Vitório Emmanuele,
em companhia de alguns jornalistas como eu, todos correspondentes
de guerra. De uma guerra que terminaria definitivamente no fim da
tarde daquele dia, quando, em Reinos, os Comandantes alemães
– o Marechal Keitel à frente – iriam render-se,
formal e incondicionalmente, ao Comando Aliado.
A conversa, naquela tarde no Biff de Milão, não se resumia
apenas em festejar o término da guerra, que sabíamos
iminente e que na verdade para nós, correspondentes, já
terminara de fato dias atrás. Éramos todos jornalistas
brasileiros, de forma que o tema central referia-se à FORÇA
EXPEDICIONÁRIA BRASILEIRA, FEB, cuja luta havíamos acompanhado
de perto, desde o primeiro combate de Camaiore, no setor do Rio Serchio,
em setembro de 1944, até a última ação,
a 29 de abril de 1945, quando nossos soldados cercaram e aprisionaram
toda uma Divisão Alemã – a 148º Panzer, comandada
pelo General Pico. Foram 8 meses de uma guerra ingrata, impiedosa,
quase sem tréguas, aquela em que nossos “pracinhas”
haviam combatido na frente italiana. E que ainda mais cruel se tornara
quando começou a cair à primeira nevasca – muito
antes do dia para isso especificado no calendário – de
um inverno que, a partir de fins de novembro de 1944 e até
fins de março de 1945, se apresentaria, na Região Apenina,
como o mais rigoroso dos invernos dos últimos 50 anos.
Fizemos ali, mesmo uma espécie de balanço, de inventário
do que a FEB fizera naqueles últimos meses e chegamos todos
a uma só conclusão: a de que os nossos “pracinhas”
haviam aprendido a guerrear na própria frente de operações;
que haviam aprendido depressa, muitas vezes com a ajuda do indiscutível
senso de improvisação e criatividade tão comuns
aos brasileiros; que haviam se portado com bravura, competência
e obstinação; e que, finalmente, soldados e oficiais,
comandados e comandantes, tinham cumprido, integralmente, todas as
missões que lhes haviam sido confiadas pelos Generais Mark
Clark e Crittemberger. Respectivamente Comandantes do V Exército
Americano e do IV Corpo de Exército, aos quais a FEB estava
subordinada. Sim, os “pracinhas” brasileiros naquele 8
de maio de 1945, podiam sentir-se orgulhosos. Haviam passado por toda
espécie de sofrimentos; haviam enfrentado dois inimigos impiedosos,
os alemães e o frio, e haviam derrotado os dois.
Camaiore, Monte Castelo, Castelnuovo, e Fornovo já eram indicações
seguras, indiscutíveis, de que os “pracinhas” brasileiros
tinham levado a melhor, para desespero e tristeza dos derrotistas
e simpatizantes do nazi-fascismo, muitos deles escondidos na cúpula
dirigente da ditadura estadonovista, que desde a partida do 1º
Escalão da FEB, ou até mesmo antes quando a Força
Expedicionária Brasileira ainda estava sendo agrupada, profetizavam
para os nossos soldados derrota e humilhação.
No dia 18 de julho de 1945, desembarcava no Rio de Janeiro o 1º
Escalão Expedicionário, ovacionado pela cidade inteira;
mas, então, a FEB não existia mais, pelo menos como
Corpo regular do Exército.
Deixara de existir 12 dias antes, no dia 6 de julho, exatamente na
data em que o primeiro contingente de “pracinhas” embarcava
na Itália de volta ao Brasil.
No dia 5 de maio de 1945, finda a Guerra, e do seu Quartel-General
Avançado. Agora sediado em Alessandria, ao Sul de Milão,
o General João Baptista Mascarenhas de Moraes, comandante da
vitoriosa Força Expedicionária Brasileira, enviava a
Getúlio Vargas o seguinte telegrama:
“Dr.
Getúlio Vargas – Palácio do Catete – Rio
–Brasil”.
Com encerramento dia 2 corrente Campanha do Teatro de Operações
da Itália,com fulminante e integral vitória Armas Aliadas
e cujo âmbito Forças Brasileiras tiveram desempenho à
altura da confiança que lhes foi outorgada pela Nação,
sinto-me orgulhoso tê-las comandado em tão transcendentes
circunstancias .
Cumprida nossa árdua missão, estamos liberados para
regressar a Pátria, com consciência tranqüila por
tê-la bem servido, atraindo para seu nome gloriosa estima e
respeito dos povos que amam a liberdade. Congratulo-me Vossa Excelência,
Chefe Nação Brasileira, por nos ter proporcionado o
excepcional ensejo de revelar mundo civilizado determinação
dos nossos soldados em cumprir sagrados compromissos sua Pátria
. – a) General Mascarenhas de Moraes”
Que a Força Expedicionária brasileira desempenhou, no
campo de luta da Itália, um papel marcante, é fato hoje
fora de qualquer dúvida. Isso reconheceram todos os Oficiais
Generais estrangeiros que lutaram ao lado dos nossos pracinhas “na
Frente Apenina: o General Mark Clark, o Marechal Alexander, o General
Truscott, General Crittemerger, entre outros, todos reconheceram,
em livros de memórias eu publicaram, a bravura dos soldados
brasileiros no campo de luta. E ressaltaram, particularmente, o fato
de eles se terem batido com tanta valentia e determinação
sob as circunstâncias as mais adversas, (clima, adestramento
precário etc) e contra um inimigo com mais de quatro experiências
na guerra da Europa”.
Mesmo chefes alemães atestaram, no pós-guerra, a excepcional
conduta dos brasileiros no front italiano. Um deles foi o Coronel
Rudolf Bohmler, veterano de várias batalhas de Stalingrado
e da demorada e sangrenta Batalha de Monte Castelo.
Em seu livro. Assim se referiu aos soldados brasileiros:
“
Sabe-seque não é fácil, para uma tropa não
acostumada ao combate, ter de lutar contra veteranos experientes ,como
os das Divisões e Regimentos Alemães na Itália.
O soldado brasileiro, no entanto, mostrou extrema boa vontade e satisfação,
demonstrando, juntamente com os seus oficiais, um grande desejo de
lutar.”
A FEB não poderia te recebido elogio maior. Exatamente por partir
de quem como é o caso do veterano Coronel Alemão –
não tinha nenhum motivo para fazê-lo, pois ele próprio
foi um dos Comandantes alemães derrotados pela FEB no último
assalto a Monte Castelo.
Fonte: Adaptação do texto e autoria do jornalista
Joel da Silveira - Revista do Exército Brasileiro.


CAPITÃO
CAPELÃO
ANTONIO ÁLVARES DE SILVA
(Frei Orlando)
Naquela
manhã de fim de inverno europeu, em meio aos seus colegas, estava
Frei Orlando, bravo Capelão do II Batalhão do 11º
RI.
Era jovem. Físico de atleta. Cabelos negros. Semblante sempre
alegre. Onde ele estivesse, estaria também à alegria.
Era assim Frei Orlando. Por todos estimado.
Pelo seu heroísmo e pela sua bravura, granjeou o respeito e a
admiração de todos os componentes de 11º RI.
Nos momentos mais cruéis e mais difíceis, quando o fogo
da metralha e o arrebatar das granadas castigavam os homens do seu Batalhão,
ali estava ele, com um realejo, a tocar para animar os soldados em luta.
Para alguns, aquilo poderia parecer uma temeridade, mas não era.
Ele, no meio dos soldados, simbolizava, em toda a sua inteireza, a figura
do pai extremado junto aos filhos, na hora em que suas vidas corriam
perigo.
“Frei Orlando, saia daí, seu lugar é junto ao médico!”.
Gritavam-lhe o tenente e o sargento do pelotão. Mas o Capelão
ficava. Ficava para encorajar os filhos, animando-os à luta.
Após uma reunião para tratar de assuntos referentes a
Capelania, Frei Orlando não tinha viatura para regressar a Riola,
onde estava o PC.
Decidiu ir a pé. Ao chegar a trezentos metros de Bombiana, encontrou
um capitão do seu Batalhão, que lhe deu uma carona. Depois
de percorrer uma boa parte da estrada poeirenta, o jipe esbarra numa
pedra e para. Descem os ocupantes. Um “partigiano” que ia
na viatura procurou remover o obstáculo, mas fê-lo desastradamente.
Com a coronha do fuzil, procurou tirar a pedra de sob o eixo traseiro
da viatura. A arma estava carregada, e com o esforço, detonou,
atingindo em cheio o coração de Frei Orlando, que exclamou:
“Minha Nossa Senhora!” O Capitão veio em socorro.
Com o terço na mão, fala ao amigo: “Não há
mais jeito, estou ferido”. Rezando, morreu.
Aquelas mãos, agora contraídas no terço da Virgem,
foram mãos que tantas vezes abençoaram; que tantas vezes
se ergueram aos céus para pedir pelos filhos, que, distantes
da Pátria, bravamente lutavam para que o Brasil e o mundo fossem
livres.
Fonte:
Adaptação do texto de autoria do Monsenhor Alberto da
Costa Reis - Revista Militar Brasileira


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