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Enfermeira Elza Cansanção Medeiros Ex-Combatente da 2ª Guerra Mundial |
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Com a criação do Quadro de Enfermeiras da Reserva do Exército pelo Decreto nº 6097 de 13 de Dezembro de 1943 e dado o pequeno número de enfermeiras profissionais existentes, foram aprovadas as instruções para o Curso de Emergência de Enfermeiras da Reserva do Exército (CEERE), do qual participou, na sua primeira turma, em 1944, a enfermeira Elza, que contava então com 22 anos de idade.
A instrução ministrada pelo CEERE, na cidade do Rio de Janeiro, ocorria em três turnos ao longo do dia: logo cedo pela manhã, no Hospital Central do Exército, havia a prática hospitalar. A partir da 13 horas, instrução teórica no Quartel General do Exército e das 15 horas em diante, ordem unida, no Colégio Militar. Nos outros dias da semana, ocorriam os treinamentos de educação física na fortaleza de São João na Urca e de natação, na Tijuca.
A 25 de Março de 1944, o Boletim Interno nº 70 publicava a relação da classificação intelectual da primeira turma de enfermeiras formadas pelo CEERE. Foram três as primeiras colocadas no curso, todas com o grau de 9,5: Maria do Carmo Correa e Castro, Berta Moraes e Elza Cansanção Medeiros.
Elza, por ser a mais nova dentre as três ficou em terceiro lugar na classificação final de curso; coube a Elza, porém, a honra de ser a oradora da turma e mais tarde,quando do envio das tropas brasileiras à Itália, foi ela a primeira convidada para integrar o Destacamento Precursor de Saúde que seguiu para aquele país, em 9 de Julho de 1944.
Concluído o CEERE, as ex-alunas foram nomeadas Enfermeiras de 3º classe. Elza, e mais quatro colegas concluintes do curso foram integradas, em 22 de Abril de 1944, ao Destacamento Precursor de Saúde que tinha por missão embarcar a 8 de julho com destino à Nápoles, e lá chegando - o que ocorreu a 15 de julho - recepcionar os cinco mil brasileiros do 1º Escalão da FEB a bordo do navio General Mann. Mas na mesma noite de sua chegada à Nápoles, Elza havia sido informada que os alemães estavam cientes da movimentação brasileira e de que
|Na manhã do dia 16 de julho, deu-se o batismo de fogo da enfermeira Elza. Designada para a seção hospitalar brasileira do 45th Field Hospital, Elza foi incumbida de receber cerca de 300 brasileiros que chegaram baixados do General Mann e que para aquele hospital haviam sido encaminhados. Distribuídos nas várias enfermarias que compunham o 45th Hospital, os pracinhas ficaram também sob os cuidados das enfermeiras e dos médicos norte-americanos. Dado que os brasileiros e os norte-americanos não compreendiam o idioma um do outro, a enfermeira Elza foi também intérprete, tendo seu nome bradado pelos alto-falantes do hospital inúmeras vezes: "Miss Medeiros, please, ward 5th! Miss Medeiros, Ward 9th!"
A chegada das outras colegas enfermeiras, nos dias que se seguiram, diminuiu o volume do trabalho e com a visita de Clarice Lispector no hospital, muitos doentes puderam ter cartas escritas aos seus familiares pela gentil senhora e mais tarde escritora brasileira de renome, na época esposa de Mauri Gugel Valente, cônsul brasileiro da Itália. O trato com as enfermeiras de outras nacionalidades, porém, tornara-se o maior problema. Dado que hierarquicamente não possuíam posto militar que pudesse ser equiparado com o das enfermeiras norte-americanas - todas oficiais - as enfermeiras brasileiras sofriam desagradáveis humilhações por parte daquelas, o que levou Elza a participar ao comandante da FEB, General Mascarenhas de Morais, da conflitante situação. Após um estudo realizado na legislação, encontrou-se a solução do problema em um regulamento não revogado da Guerra do Paraguai: a prática do arvoramento, em outras palavras, as enfermeiras de terceira-classe seriam "arvoradas" ao posto de 2º Tenente, podendo fazer uso das insígnias do mesmo, gozar dos direitos e vantagens inerentes, com exceção da pecuniária. As primeiras enfermeiras da FEB arvoradas foram as cinco que chegaram com o Destacamento Precursor de Saúde: Antonieta Ferreira, Carmen Bebiano, Elza Cansansão Medeiros, Ignacia de Melo Braga e Virgínia Portocarreiro. A medida que as demais enfermeiras brasileiras foram chegando à Itália, eram de imediato arvoradas ao posto de 2º Tenente, o que lhes poupava assim os vexames iniciais que as companheiras precursoras haviam sofrido.
|Uma vez resolvido o entrave da situação hierárquica, a situação entre as enfermeiras melhorou significativamente e a então 2º Tenente Elza, desejosa em ir para o front, requereu junto aos canais competentes e obteve sua transferência para o 38th Evacuation Hospital, no vilarejo de Santa Luce, em Cecina. O Hospital, todo em barracas de lona, possuía cerca de 800 feridos e acabou tendo que ser abandonado devido a uma enchente que sofreu provocada pelos Alemães, que dinamitaram a barragem do rio Arno, inundando toda a região. Sem condições de lá permanecer, os doentes foram evacuados e as enfermeiras transferidas para outras unidades. À Ten Elza, coube sua transferência para o 16th Evacuation Hospital, na cidade de Pistóia, plena frente de combate. Em Livorno, porém, a situação disciplinar do 7th Station Hospital era preocupante. Tratava-se do hospital que tinha o maior contingente de enfermeiras brasileiras servindo e sua administração estava provando ser tarefa difícil. Das palavras do Coronel Generoso Ponce, subchefe do hospital, recebia a Ten Elza, em 29 de Novembro de 1944, a sua mais nova missão:
Além da questão administrativo-disciplinar, havia também os casos gravíssimos de ferimentos de guerra, que para o 7th eram levados. Como resultado, frente ao grande números pacientes, enfermarias e enfermeiras brasileiras e norte-americanas, foi preciso que a Ten Elza atuasse com rigor, acirrando o seu trabalho de fiscalização e também o de intérprete, o que harmonizou a comunicação entre enfermeiras e pacientes de ambas as nacionalidades, melhorando não só a disciplina no hospital, como também estabilizando a caótica situação que o inexistência de um idioma em comum causava no relacionamento entre todos ali. As pesadas atribuições do cargo de chefia do 7th em muito consumiram a Ten Elza, que com problemas de saúde, a fizeram requerer o desligamento da função. Em resposta, foi designada como oficial de ligação, em virtude da reconhecida facilidade com que manejava o idioma inglês.
Na condição de oficial de ligação serviu sob o comando do Ten Cel Augusto Sette Ramalho, no 182th Station Hospital, de onde seguiu para o 45th General Hospital, em 18 de Abril de 1945. Neste período, serviu também no 16th Evacution Hospital em Pistóia e no 300th General Hospital, em Nápoles. Um elogio do Ten Cel Ramalho, porém, lhe estava reservado ao deixar o 182th:
Com o fim da guerra em 8 de Maio de 1945, solicitava a Ten Elza o retorno ao Brasil, embarcando para aquele destino a 11 de junho com o sexto grupo que deixou a Itália, sendo licenciada do serviço ativo do Exército Brasileiro em 14 de Julho de 1945. Não obstante, o denodo e a relevância dos serviços de guerra prestados pelas enfermeiras voluntárias da FEB não foram esquecidos. A 29 de Julho de 1945, o Gen Mascarenhas de Morais resolve promover 24 das 67 enfermeiras que estiveram no teatro de operações italiano à enfermeiras de Segunda e, logo em seguida, de Primeira Classe. Além da dupla promoção por merecimento, duas condecorações passaram a ornar o uniforme da Ten Elza, as medalhas de Campanha e a de Meritorious Service United Plaque.
De volta ao Brasil, passa os dois anos seguintes viajando e, em 1947, ingressa, por concurso público, no serviço médico do Banco do Brasil, cargo que ocupa nos doze anos seguintes, período o qual se gradua Jornalista, recebe sua carta patente de 2º Tenente, além de vários elogios e medalhas pelo seus serviços de campanha, das quais a de Guerra, a de Bronze, a da Cruz Vermelha Brasileira e a de Santos Dumont. Publica também seu primeiro livro sobre a odisséia da FEB nos campos da Itália: Nas barbas do Tedesco (1955). Por força da lei nº 3160, de 1º de junho de 1957, as enfermeiras voluntárias da FEB que desejassem poderiam requerer sua reversão ao serviço ativo, no Serviço de Saúde do Exército, no posto de 2º Tenente. Elza, por ocasião da lei é convocada e, a 19 de setembro daquele ano, reingressa no Exército, ficando adida à Diretoria Geral de Saúde. De 1957 a 1962 serve em várias unidades, é condecorada pelo governo do Paraguai com a medalha Abnegacion y Constancia Honor al Merito, apresenta trabalhos em congressos de Medicina Militar e de Enfermagem e profere palestras ãs turmas de formação da Escola de Saúde do Exército. Em todas as atividades que participa destaca-se pelo profissionalismo e recebe inúmeros elogios. Como resultado, a 21 de Setembro de 1962, o Ministro da Guerra resolve promovê-la ao posto de 1º Tenente Enfermeira, a contar de 25 de agosto daquele ano. De 1963 a 1965 fica agregada, a fim de reassumir suas funções no Banco do Brasil. Em janeiro de 1965 passa a disposição do Serviço Nacional de Informações lá permanecendo até junho de 1966. Reverte uma vez mais ao serviço ativo do Exército em 22 de novembro de 1965. A 24 de outubro deste ano é agraciada com a Medalha do Pacificador. Serve na Policlínica Central do Exército e na Clínica de Cardiologia. Continua a proferir palestras na Escola de Saúde e a receber elogios de todos que lhe privam da vida profissional. Por força do agravamento de seu estado de saúde e de um diagnóstico confirmado de espondilo artrose anquilisante - moléstia adquirida em zona de combate - a 12 de abril de 1976, aos 54 anos, a 1º Tenente Enfermeira Elza é reformada dois postos acima na hierarquia militar, como Major. Atualmente, neste posto, foi reconhecida como a Decana das mulheres militares do Brasil, e é detentora de 36 condecorações militares e paramilitares, destacando-se a:
Sua moléstia, porém, nunca a impediu que deixasse de cuidar, com a coragem e determinação que sempre lhe foram intrínsecas, dos trabalhos de pesquisa sobre a FEB e seus veteranos. Dona de mais de 5000 fotos e documentos relativos a II Guerra Mundial, organizou um museu da II Guerra Mundial em Maceió, o que lhe rendeu o título de cidadã daquela cidade em 1982. Escritora consumada, publicou três outros livros sobre a odisséia da FEB: E Foi Assim Que A Cobra Fumou (1987), Eu Estava Lá! (também publicado nos EUA e na Itália, escrito por ela nos respectivos idiomas, em 2002), e 1... 2... Esquerda... Direita... Acertem o Passo! (2003). Fundou ainda as revistas Ex-combatentes, da Associação de Ex-Combatentes e O Febiano, da ANVFEB. Artista plástica com produções premiadas em escultura, pintura,tapeçaria, artes cênicas e também cantora de rádio, a múltipla personalidade de Elza Cansansão Medeiros soube, ao longo de todos os papéis que tem representado na vida dignificar o Brasil não só como heroína de guerra e inquebrantável preservadora da Memória Histórica da FEB, mas, sobretudo, como a aguerrida mulher brasileira, da mesma fibra e estirpe de Maria Quitéria de Jesus, Sóror Joana Angélica, Ana Néri, Ana Lins de Vasconcelos, Ludovina Portocarrero e Rosa Fonseca, mulheres que na luta pelos seus sonhos e ideais, fizeram e ilustraram a história de nosso país.
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