Cornélio
Grossi Veterano da FEB
Barbacena, 08 de maio de 2005..
“Por
mais terras que eu percorra
Não permita Deus que eu morra
Sem que volte para lá.
Sem que leve por divisa
Esse “V” que simboliza.
A vitória que virá”
Assim cantávamos, estuantes de vida, de mocidade, de entusiasmo,
de saudade e de amor à Pátria.
E
Deus, na sua infinita bondade, atendeu as nossas preces.
Conquanto
uma canção de guerra, o Hino do Expedicionário,
num milagre bem brasileiro, é ao mesmo tempo, uma prece e uma
canção de amor, inspirada na famosa “Canção
do Exílio”, do sempre louvado poeta maranhense Gonçalves
Dias.
Elevemos, pois, em primeiro lugar, nossos agradecimentos ao Criador,
que nos trouxe de volta ao Brasil muito amado e nos conservou vivos
até hoje, com o mesmo entusiasmo de moços e o mesmo
amor à Pátria.
É certo que todos trazemos nos cabelos aquela neve dos apeninos,
mas é certo também que, a serviço da Pátria,
nosso coração bate ainda, com força dos vinte
anos.
Sessenta anos são passados.
Contudo, não nos esquecemos. A guerra marcou a ferro nossas
memórias e nossas almas.
Naquela época, os exércitos alemães, imbatíveis,
se espalhavam pela Europa, como um rolo compressor. Expandiam-se por
toda Europa, até a África, como uma enchente, uma força
da natureza que nada conseguia deter.
A Áustria, seduzida pelo Pan-Germanismo, e minada pela 5ª
Coluna, foi dominada em apenas um dia, sem um tiro só!
A Tchecoslováquia, abandonada pela Inglaterra e pela França,
também é conquistada, para espanto da comunidade internacional.
Atacada pelos alemães, a Polônia sucumbe em poucos dias.
Luxemburgo, a Bélgica, a Holanda a Dinamarca, a Noruega, a
Grécia e a Iugoslávia caem inexoravelmente, como um
castelo de cartas, sob o tacão da bota nazista.
A França heróica, para assombro do mundo, é esmagada
em trinta dias.
A Força Expedicionária Inglesa, com cerca de 350 mil
homens, e abatida inapelavelmente, e destroçada em Dunquerque,
largando para trás armas e bagagens.
A Grã-Bretanha esteve a ponto de sucumbir à fome, diante
do implacável bloqueio submarino, que, no seu auge, afundava
navios com suprimentos alimentícios.
A Alemanha ainda encontra ímpeto para avançar pelas
planícies infinitas da Rússia. Obtém vitórias,
faz milhões de prisioneiros.
Mas o óleo canforado da ajuda americana, injetado pelo Porto
de Murmansk, mantém viva a União Soviética.
E Adolf Hitler encontra o mesmo destino que Napoleão, afundado
na lama e na neve, batido pelo “General Inverno”, e detido
pelo heroísmo russo.
Atacados de surpresa pelo Japão em Pearl Harbour, os Estados
Unidos finalmente entram na Guerra.
O Brasil, até então, mantinha uma posição
de neutralidade.
Orgulhosa e desafiadora, a Alemanha reúne forças para
expandir sua campanha submarina, passando a atacar navios de quase
todas as nacionalidades.
Nossos barcos mercantes, desarmados e identificados com nossa bandeira,
foram covardemente metralhados e afundados, com requintes de crueldade,
nas costas dos Estados Unidos, do Caribe, e até em nosso mar
territorial, à vista de nossas praias.
Morreram, inocentemente, tripulantes, mulheres e crianças,
num total de 971 pessoas. Perdemos 31 navios, cinco deles afundados
em agosto de 1942, em apenas dois dias.
Diante desses ataques, o Brasil se levantou em protesto. A opinião
pública, liderada pela juventude, força o governo a
declarar guerra às potências do Eixo. Cogitou-se, então,
de criar uma Força Expedicionária para desafrontar a
honra nacional.
Em 2 de julho de 1944, seguia, para combater na Europa o maior contingente
de tropas da história pátria, e mesmo da América
do Sul.
Era o 1º Escalão da Força Expedicionária
Brasileira, composto de 5.075 homens, entre oficiais, sargentos, cabos
e soldados, embarcados no navio-transporte norte-americano General
Mann.
Os alemães e a 5ª Coluna proclamavam, em tom de ameaça,
que nenhum brasileiro chegaria vivo ao campo de batalha.
Após 14 dias e 14 noites de horror e agonia, que incluíram
dezenas de alarmes designados como “exercício de abandono
de navio” - que mais tarde viemos, a saber, serem verdadeiros
– descia no Porto de Nápoles o nosso primeiro escalão,
comboiado e protegido por belonaves americanas e brasileiras.
Com os outros quatro escalões que seguiram nos meses seguintes,
somaram-se, ao final, mais de 25 mil brasileiros a desembarcar no
palco italiano de guerra, inclusive mulheres que apoiaram os serviços
de enfermagem e outros suplementos à participação
do Brasil na II Guerra Mundial.
Diante da magnitude dessa guerra e o empenho global das forças
aliadas, que contavam com milhões de homens mobilizados no
mundo inteiro, a participação brasileira pode ser considerada
restrita, porém, sem dúvida, foi corajosa, destemida
e heróica.
A Força Expedicionária Brasileira enfrentou na Itália
condições penosissimas: chuva, lama, neve, montanhas
íngremes e frios de 20 graus abaixo de zero, sem falar na virulência
do soldado alemão, treinado em 5 anos de experiência
em campos de guerra, também sob as mais duras condições.
Como todos os exércitos do mundo, tivemos dificuldades e reveses,
mas, no cômputo geral, conquistamos o respeito e a admiração
de aliados e inimigos, além da gratidão do povo italiano.
Houve um prisioneiro alemão que teria afirmado:
- “Ou o brasileiro é louco, ou é o
melhor soldado do mundo!”.
Antes da chegada do segundo escalão, que se deu a seis de outubro
de 1944, o destacamento da FEB, comandado pelo General Zenóbio
da Costa, já conquistara inúmeras vitórias no
Vale do Sercchio, dentre as quais se destacaram Massaroza, Camaiore
e Monte Prano.
Completado o efetivo da 1ª Divisão de Infantaria Expedicionária,
sob o comando do General Mascarenhas de Moraes, as nossas forças
foram destacadas para o Vale do Reno.
Naquela região, em frente muito extensa, que possibilitava
infiltrações do inimigo, e obrigava à vigilância
de 360 graus, os brasileiros passaram o inverno atolados na lama e
enterrados na neve.
Demonstraram, então, excepcional adaptação ao
clima inclemente, com termômetros marcando dez, quinze, até
vinte graus negativos, destacando-se com bravura nos combates, audácia
nas patrulhas, e estoicismo sem par.
Conquistaram heroicamente vitórias inolvidáveis, dentre
as quais avultam Monte Castelo, La Serra, Castelnuovo, Soprassasso,
Montese, Collecchio e Fornovo de Taro, quando aprisionamos cerca de
20 mil oficiais e praças das Divisões Alemãs
e Italianas, enquanto tivemos apenas 35 dos nossos capturados.
Vale ressaltar algumas características sumamente honrosas para
os nossos combatentes. Diferente dos soldados de outras nações,
os nossos lutavam até, não concebiam se entregar, e
não admitiam render-se. Além disso, tinham vergonha
de baixar hospital. Mesmo doente ou ferido, o nosso soldado insistia
em permanecer na linha de frente.
Cumpre ressaltar, também, a atuação excepcional
do Grupo de Caça, que na Itália representou dignamente
a Força Aérea Brasileira. Nada ficou a dever aos seus
irmãos infantes, no combate ao inimigo comum.
Honra e glória àqueles aviadores, que sobrepujaram em
muito os seus colegas americanos.
O trauma que sacudiu o mundo naqueles anos terríveis nunca
será esquecido. O holocausto dos judeus nos campos de concentração,
na Polônia e na Alemanha, deixou o mundo aterrorizado com a
cruel, desumana e assassina sanha do nazismo.
Os responsáveis por aquela hecatombe, uma guerra fratricida
que sacrificou milhares de vidas em nome do delírio da superioridade
racial e da megalomania de querer conquistar o mundo, tiveram o fim
merecido.
Triste fim dos ditadores.
Adolf
Hitler acovardou-se, suicidando-se nos porões da Chancelaria
Alemã, juntamente com sua mulher Eva Braun.
Benito
Mussolini, com a amante Claretta Petacci e seus companheiros, foram
justiçados pelos “partigianni” da oposição
ao nazi-fascismo, tendo seus corpos expostos em praça pública
em Milão.
Para
concluir, lanço mão mais uma vez, da letra de outro
hino memorável, a nossa.
“CANÇÃO
DO EXERCITO”
“A
PAZ QUEREMOS COM FERVOR.
A GUERRA SÓ NOS CAUSA DOR.”
A
guerra nos deixou marcas indeléveis, a maior delas a dor da
saudade dos nossos companheiros que tombaram em campos italianos,
enlutando centenas de famílias brasileiras.
Foram 13 oficiais da FEB, 8 oficiais da FAB, centenas de sargentos,
cabos e soldados, num total de 451 combatentes que perderam a vida
na luta contra o nazi-facismo, e hoje descansam no Panteão
dos Heróis, no Rio de Janeiro.
A eles, a nossa mais emocionada homenagem póstuma.
Também aos nossos companheiros da Associação
dos Ex-Combatentes, Seção Barbacena, que já nos
deixaram, queremos prestar aqui o nosso preito de imorredoura saudade.
Éramos, na época da fundação da nossa
Associação, cerca de uma centena de expedicionários.
Hoje, somos apenas 15 companheiros, todos octogenários, alguns
muito próximos do marco dos noventa.
Nós, sobreviventes de tempos de guerra e paz, seguimos a estrada
do nosso destino, confiantes no futuro do Brasil, e honrados por termo
dedicado à Pátria a nossa contribuição.
Auguramos, de todo coração, que no futuro das nossas
gerações, os homens alcancem a sabedoria necessária
para evitar os horrores da guerra, e saibam encontrar soluções
para os seus conflitos nas mesas de negociações, preservando
o inestimável tesouro da Paz.
Muito
obrigado pela atenção.
O VETERANO CORNÉLIO GROSSI FALECEU EM NOVEMBRO DE 2005.
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Matéria
gentilmente enviada por
Zenaide Duboc
Barbacena, MG
(Colaboradora do site)
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