Crônicas de Guerra

A CARTA

Iniciava o mês de novembro de 1944. As estradas na Itália, em conseqüência da guerra e das chuvas que antecedem o inverno, estavam cobertas de lama e as viaturas trafegavam deixando à sua passagem, o rastro do diferencial.

O dia, para nós integrantes da Força Expedicionária, tinha sido de intenso trabalho e, de imprevisíveis emoções. Desde a véspera que estávamos vivendo a expectativa do ataque ao fatídico Monte Castelo e nossa artilharia, desde o clarear do dia, martelava as diversas fortificações inimigas, procurando, com seus fogos, neutralizar as ações dos alemães, facilitando, desse modo, à nossa Infantaria, o cumprimento da missão recebida: conquistar o Monte Castelo.

Castelo é um monte arredondado, situado entre os rios Silla e Reno, tendo de um lado o Monte Belvedere, muito mais alto, com seu cume coberto de neve durante todo o ano e de difícil acesso.

A posse do Monte Castelo era importante para os alemães porque lhes permitia um domínio sobre um extenso vale e, para garantir sua posse, enfrentando o frio intenso e as dificuldades do acesso, ocuparam o Monte Belvedere.

O combate foi travado e a nossa Infantaria, dando mostra de ânimo forte e invejável combatividade, conquistou grande parte do objetivo. A tarde ia morrendo quando a triste notícia de que o ataque havia fracassado e que nossa Infantaria havia recebido ordem de retornar às bases de partida, por se achar exposta ao fogo de flanco que vinham de Belvedere, chegou a nosso conhecimento.

Foi sob este estado de tensão que recebemos uma outra notícia bem alegre. Havia chegado cartas do Brasil.

Encontrar um mensageiro para ir ao P.C. do Regimento buscar a correspondência, não foi difícil. Vários candidatos se apresentaram voluntariamente, embora soubessem das dificuldades que iriam enfrentar através de cerda de 4 quilômetros de estrada coberta de lama e com suas obras de artes destruídas. Além disso, o citado percurso teria de ser transposto às cegas. Acender um farol da viatura naquela região era maior temeridade que fazer o percurso no escuro.

Já era noite fechada quando o mensageiro retornou, trazendo aquele precioso volume que foi entregue ao Comandante da Bateria.

A correspondência era, para o combatente, tão necessária como o alimento. Ela vinha retemperar o bom humor e fortalecer o ânimo.

Entre alegria para uns e tristeza – porque não dizer inveja – para outros, um soldado, acercando-se de seu Chefe de Peça, disse-lhe:

- "Sargento!... Será que o Senhor Permite que eu dê uma voltinha numa de suas cartas que o Senhor recebeu?

Autor: Vet. Álvaro Duboc Filho

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A ORQUESTRA


“A natureza, aqui, perpetuamente em festa”,
È um seio de mãe a transbordar carinhos,
Vê que a vida há no chão! Vê que a vida há nos ninhos,
Que se balançam no ar, entre os ramos inquietos!
Vê que luz, que calor, que multidão de insetos!”


Depois que os alemães, não resistindo a pressão das tropas aliadas, abandonaram Monte Castelo, nossa Bateria foi ocupar posição na região de Vidiciatico, de onde pudemos divisar um belíssimo panorama. Ao sul, como se tivesse sido incrutada na vertente do morro, a cidade de Lizzano de Belvedere, ao longe, na direção sudeste, se podia ver (agora que não havia mais necessidade do funcionamento da “fábrica de fumaça”, instalada naquele extenso vale com a finalidade de dificultar a visibilidade inimiga sobre a estrada que liga Pistoia - Porreta Terma – Bolonha) a cidade de Silla, situada na confluência dos rios Silla e Reno, à esquerda de quem com a frente para a cidade de Silla, a cidade de Gaggio Montano e, na mesma direção, um pouco além, o Monte Castelo.

O sol, procurando romper as nuvens, inundava o ambiente de um colorido cinza-ouro ou azul –ouro e, mui vagarosamente, ia transformando a neve em água e assim, engrossando os córregos e os rios que começavam a aparecer e, de vez em quando aparecia também um ou outro pássaro sondando a terra, tal qual nos conta a História Sagrada, na parte referente ao dilúvio.
A natureza estava acordando, ou melhor, revivendo. Sim, revivendo, porque, para nós, brasileiros acostumados ao verde de nossos campos e ao azul de nosso céu, aquele panorama todo branco, com suas árvores nuas, galhos voltados para o alto como se estivesse pedindo misericórdia, aquelas cidades com suas ruas entulhadas de neve, sem transeuntes e com todas as portas cerradas, mais parecendo cidades fantasmas; a ausência completa de animais, de pássaros e até de insetos, enfim, aquele silêncio enervante, só interrompido pelo canhonear da artilharia e o metralhar da infantaria, dava-nos a impressão de que a natureza estava morta.

Aquele sol frio – que alguns classificavam de “Sol Desmoralizado” – estava fazendo reviver a natureza e fazendo voltar à alegria à fisionomia dos “pracinhas”.

A folhinha marcava... Bem, a data pouco importa. O que vai nos interessar é a circunstância de ser dia de aniversário de um dos nossos tenentes.

Logo pela manhã, o nosso tenente recebeu a visita de um seu irmão, sargento, de outra unidade de artilharia. Ao saltar de sua viatura, com a franqueza que lhe era peculiar, disse o sargento:

- Olha aqui, “Seu Caxias”. Eu arranjei um jeito de vir lhe trazer o meu abraço. E vai ser o único ouviu?... e abraçaram-se muito fraternalmente.

Quem eram aqueles dois irmãos? Pelo que soubemos, o tenente era um ex- sargento que, como tantos outros, havia sido transferido para a reserva e convocado como 2º tenente a fim de completar o quadro de subalterno em virtude do aumento do efetivo decorrente da decretação de guerra e o sargento, um sargento reservista, convocado para o serviço ativo, também em conseqüência do aumento do efetivo em virtude do estado de beligerância.

Depois do torpedeamento de nossos navios e da declaração de guerra, o sargento, então civil, chegou a unidade em que servia o tenente.

- Você não pode ir a guerra. Você é casado e tem três filhas. Eu irei em seu lugar- dizia o sargento.

O tenente nada dizia, mas. Dias depois era transferido para outra unidade, também expedicionária.

Agora que, de modo sutil, fizemos a apresentação dos dois irmãos, vamos voltar ao assunto que deu razão a esta desprentesiosa crônica.

Depois que o sargento se foi, o nosso tenente ficou um tanto pensativo. Em que estaria pensando o pobre tenente? Julgando por nos mesmos, “acreditaríamos que estivesse pensando na Pátria distante”.Talvez estivesse pensando no velho pai, um homem de mais de 60 anos, que poderia não ter força para resistir à provação, que estava passando seu filho. Ter um filho na guerra “não é sopa”, como de diria na gíria. Dois, então, com toda certeza deveria ser bem pior.. Você já pensou como encararia uma situação idêntica?...È militar não deveria se casar! Coitada da mulher do tenente... Ela deve estar sofrendo muito pensando no que poderá acontecer ao marido e no que será o futuro de suas filhas...E as meninas? Elas que, tantas vezes, ajoelhadas, mãos postas, rezaram “pru papai mão ir pra guerra...” e a guerra não vale nada!

Não vamos afirmar que este devaneio que sugerimos porque conhecemos muito bem os dois irmãos, tenha sido o do tenente. A verdade, entretanto, é que a visita do irmão havia lhe aumentado a tristeza. Alegre só o vimos enquanto o irmão estava presente.

Em sua barraca, deitado de dorso, mãos sobre a nuca o nosso tenente procurava certamente uma razão para justificar-se da tristeza que o seu patriotismo, o seu acentuado sentimento de responsabilidade e até mesmo a sua maneira de amar a família, havia ocasionado a todos os seus entes queridos, razão que facilmente encontraria, quando se lembrasse que sua família estava no Brasil, onde não havia guerra, graças a Deus...

Nesse momento, com a liberdade que a situação permitia, um grupo de soldados “armados de improvisados instrumentos” entraram em sua barraca e, um deles, com ares de chefe disse:

- “Seu tenente! Estamos sabendo que hoje é dia de seu aniversário e desejamos prestar-lhe uma homenagem. O Senhor lá das Alterosas, razão porque vamos presentear-lhe com uma música que lhe transporte à aquelas montanhas verdejantes.

- Boa idéia!...Boa idéia!...- disse o tenente já um tanto agradecido por aquela intromissão.

- Atenção! (comandou o “regente improvisado”) – Saudade de Ouro Preto!...

- Primeira parte!... Já...

O que se ouviu, então, foi um TIM...TIM...TIM... Infinitamente desarmonioso e destituído de qualquer som que se pudesse classificar de melodioso. E o “regente” continuava a comandar:

- Segunda Parte!...Voltem a 1ª Parte!... Terceira parte!...

Em dado momento a audição foi interrompida e o “regente” perguntou:

- Parece que o senhor não está gostando?

- Estou gostando sim, respondeu o tenente.

- Então vamos bisar, pessoal! O tenente está gostando...

Uma boa gargalhada ecoou na barraca.

Aquele tenente, hoje oficial superior da reserva do Exército, disse-nos que gostaria de enviar uma mensagem à àqueles queridos companheiros e esta mensagem seria mais ou menos assim:

“OBRIGADO AMIGOS! VOCÊS ME FIZERAM UM GRANDE BEM”

Autor: Vet. Álvaro Duboc Filho

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EMBAIXADORES DE CARA SUJA


O nosso comandante de sub-unidade era um jovem e valoroso capitão.

Educado, inteligente, estudioso e entusiasta da profissão que abraçara, sabia como poucos conduzir aqueles homens que lhe haviam confiado.

Cônscio de suas responsabilidades procurava orientar seus comandados de modo a bem representarem a Pátria distante.

“Aqui estamos-costumava dizer-para representar e representar bem nossa Pátria. Precisamos mostrar que, a par de nossa missão militar, isto é, de combatentes, somos homens educados. Não admito-asseverava-a menos por parte de meus comandados que provoquem escândalos e que dêem margem a interpretação de falta de civilização de nosso povo”.

Sei que o hábito não faz o monge. Mas um indivíduo vestido de monge tem muita probabilidade de ser um monge. A educação de um homem se reflete através do cuidado pessoal e da maneira pela qual se apresenta. Estamos em guerra, é verdade. Mas ela não justifica a falta de cuidado pessoal nem a falta de cuidado com o fardamento e o equipamento. Um homem barbudo e sujo pode não ser um bárbaro, mas dá má impressão e amedronta. Por isso, não quero “barbudos” em minha bateria e faço absoluta questão de boa apresentação pessoal de cada um.

Possivelmente que essas não eram as palavras do nosso Comandante de Bateria. Mas verdade é que ouvimos muitas vezes recomendações como esta e, por isso, não temos muita dificuldade de reproduzir.

No horário do café da manhã, nosso Capitão costumava fazer sua revista. Quem não estivesse uniformizado e barbeado a contento, teria que sair de forma para ir se cuidar primeiro.

A FEB, além de sua missão militar, tinha também a missão de bem representar a civilização brasileira.

Bem orientados por seus chefes, aqueles bravos “pracinhas” procuravam se adaptarem a dupla personalidade de “combatentes” e de “embaixadores” do Brasil.

Como combatentes, honraram a tradição do soldado brasileiro, merecendo honrosas referências até do próprio inimigo e, como “embaixadores” elevaram bem alto o nome do Brasil e a prova disso é o elevado conceito do brasileiro na Itália.

A Itália é um país curioso. Menor que a nossa Minas Gerais e, entretanto diferente em suas regiões. Observam-se hábitos definidos que caracterizam os habitantes da região. Assim é que os habitantes do Norte da Itália falam um dialeto diferente do falado no Sul.

A região de Toscana, onde mais tempo permanecemos é habitada por um povo muito educado. De Florença e Pistoia, guardamos a belíssima delicadeza de seu povo. Nem mesmo a brutalidade da guerra conseguiu banir do modo de falar e de agir daquela gente, a finura do trato e a delicadeza das expressões.

Quando estávamos para regressar ao Brasil, tivemos um serviço a fazer em Nápoles, e ao seguir para lá fomos alertados:

- Cuidado!...Não deixem a viatura só porque são capazes de roubarem até os pneus.

Tendo que almoçar em Nápoles, deixamos o motorista tomando conta da viatura e, ao regressarmos para “render” o motorista para que ele pudesse almoçar, ouvimos um resto de conversa entre o nosso “pracinha” e um italiano que, possivelmente, começava a se interessar pelo Brasil e talvez até estivesse pensando em se transferir para cá.

Com a maneira própria de falar do italiano, dizia mais ou menos o seguinte:

- Belo Brasil!...Muito grande!...Muito café...Muito trabalho...e muitas possibilidades...

- Sim concordava o nosso valente soldado.

- Cidades principais...São Paulo, Rio de Janeiro. Montevidéu...Neste ponto o nosso “pracinha” interrompeu:

- Não!...Montevidéu não é no Brasil. É na Argentina.

O nosso querido “pracinha” o nosso “embaixador” também não sabia onde ficava Montevidéu.

Autor: Vet. Álvaro Duboc Filho

FONTE:
Matéria gentilmente enviada pela
Jovem Livia Maria Assunção de Paiva
e Zenaide Duboc - Barbacena, MG