Ten Cel Joel Lopes Vieira
Ex-Combatente da 2ª Guerra Mundial

6º  Regimento de Infantaria - Regimento Ipiranga
Caçapava, SP

Nasceu na Cidade de Buenópolis, MG. Incorporou-se no 10º RI, Belo Horizonte, como voluntário, em março de 1939. Foi promovido a cabo em 1939, a 3º Sargento em 1940 e a 2º Sargento em 1943. Em abril de 1944, nos campos de batalha, foi comissionado a 2º Tenente, por estar nas funções de Comandante de Pelotão, em face de ferimento do Comandante efetivo e pela forma com que se houve nas ações de combate. Confirmado no posto de 2º Tenente de Infantaria e incluído no Quadro de Oficiais do Exército. Realizou os cursos de Cabo, de Sargento, de Oficiais da Reserva (COR) e da EsAO. Antes da Guerra, exerceu as funções de Comandante de Esquadra de Grupo de Combate, de Sargento Comandante de Grupo de Combate, Sargento Auxiliar de Pelotão de Fuzileiros, Monitor de Curso de Sargento. Durante a Guerra, embarcou no 1º Escalão e, como integrante da 7ª Companhia do 6º RI, desempenhou as funções de Sargento Auxiliar de Pelotão de Fuzileiros e Comandante desse Pelotão. Tomou parte em todos os combates, desde o Vale do Serchio – de Camaiore a Barga – até Collecchio e Fornovo. Após a Guerra, foi: Comandante de Pelotão de Fuzileiros; Instrutor da EsSA; Comandante de Companhia e Batalhão do 12º RI; Subcomandante do CPOR de Belo Horizonte. Após ser transferido para a Reserva, foi Chefe de Seção do SNI em Belo Horizonte; Chefe do Departamento de Segurança da Rede Ferroviária Federal em Belo Horizonte – MG e Presidente da Seção Regional de Belo Horizonte da ANVFEB. Dentre as condecorações que lhe foram outorgadas, por sua participação na Segunda Guerra Mundial, destacamse: Cruz de Combate de 2ª Classe; Medalha de Campanha e Medalha de Guerra.

Tenente-Coronel Joel Lopes Vieira*


* Comandante de Pelotão de Fuzileiros da 7ª Companhia do 6º Regimento de Infantaria, entrevistado em 23 de novembro de 2000.

Com muita honra e satisfação, aceitei o convite para ser entrevistado pelo Projeto História Oral, importante obra que está sendo realizada pelo Exército, referente à Segunda Guerra Mundial. Como integrante da Força Expedicionária Brasileira, embarquei, com o 1º Escalão, no 6º RI, podendo contribuir, com as minhas observações, ao longo desse depoimento de caráter pessoal, para confirmar outros depoimentos ou trazer fatos novos para a história da FEB.

O ambiente no Brasil, no início da década de 1940, era de expectativa em relação à Segunda Guerra Mundial. Acompanhava-se o desenrolar dos acontecimentos através do rádio e dos jornais e uma grande parte da corporação mostrava-se entusiasmada com a ofensiva desencadeada pela Alemanha, levando de roldão a Polônia e permitindo outras conquistas. O Brasil mantinha a neutralidade.

Porém, a partir de 1942, com o torpedeamento dos nossos navios mercantes que trafegavam, desarmados, em águas territoriais brasileiras, e se viram atacados pelos submarinos alemães, houve uma revolta geral. Em várias cidades, assistimos a depredações e saques de lojas comerciais de proprietários alemães, italianos e japoneses que, apavorados, não tinham condições de reagir e cerravam as portas dos seus estabelecimentos.

Começou, a partir dessa época, o deslocamento de tropas para reforçar a defesa do nosso litoral e ilhas oceânicas, face à possibilidade de um ataque àquelas regiões, não só por submarinos, mas também pelo inimigo que estava instalado ao Norte da costa africana.

Houve, também, movimentação de tropas da região Centro-Sul para o Nordeste e Norte, feita preferencialmente por via férrea até o porto fluvial de Pirapora, e daí, via fluvial, pelo Rio São Francisco, evitando-se, assim, o perigo de torpedeamentos e perdas de vidas humanas e materiais.

Diante da situação de beligerância, imposta pelos alemães, afundando os nossos navios mercantes em nossa costa, houve uma forte pressão dos estudantes, de entidades de classes e do povo em geral para que o Brasil declarasse guerra às potências do Eixo.

Entretanto, julgamos que o fato mais importante para que o Brasil entrasse em guerra, foi a pressão exercida pelos Estados Unidos, face à necessidade de instalar bases aéreas e navais em nosso território, naquelas regiões para poder reabastecer os seus navios e aviões.

Com a declaração de guerra, em 31 de agosto de 1942, que veio logo após o governo declarar o estado de beligerância em 22 de agosto, foi iniciada a mobilização, isto é, a convocação das classes dos reservistas que iam constituir o contingente a ser enviado ao Teatro de Operações. Foi uma fase difícil e trabalhosa, pois aqueles entusiasmados jovens que apedrejavam lojas, que faziam passeatas e que gritavam pedindo a guerra e que realmente apresentavam melhores condições de saúde e de discernimento, empregavam todos os meios possíveis para não serem convocados.

Esses jovens, procedentes das classes média e alta, usavam influências políticas, psicológicas ou mesmo de saúde para evitar a incorporação e, na maioria das vezes, conseguiam o seu objetivo. Conseqüentemente, a maior porcentagem dos pracinhas na FEB foi constituída de convocados das classes menos favorecidas, semi-analfabetos de procedência do interior, que não tinham instrução suficiente e nem gozavam de boa saúde, devido principalmente às suas precárias condições de vida e regime alimentar. O exame de seleção, que inicialmente era bastante rigoroso, foi abrandado e, somente reprovados, nos exames médicos e físicos, aqueles que realmente não possuíam as mínimas condições exigidas.

Nessas circunstâncias, foi organizada a Força Expedicionária Brasileira integrada por brasileiros de todos os rincões dessa nossa imensa pátria e a concentração processou-se na Cidade do Rio de Janeiro, para onde se deslocaram o 6º RI e o III Grupo, ambos do Estado de São Paulo; o 11º RI, de São João del-Rei, Minas Gerais, e demais tropas que iriam constituir a 1ª Divisão de Infantaria Expedicionária.

Quando o Brasil declarou guerra ao Eixo, eu já era militar da ativa, 2º sargento, servindo no 10º RI, localizado na Cidade de Belo Horizonte. Após a seleção médica e física, fui transferido para o 11º RI, de São João del-Rei. E, com esta Unidade, segui para o Rio de Janeiro, onde se deu a concentração da 1ª Divisão de Infantaria Expedicionária. Para integrar o 1º Escalão e completar o efetivo do 6º RI, foram designadas duas Companhias do 11º RI: a 4ª Companhia de Fuzileiros, à qual eu pertencia, e a Companhia de Obuses que, naquela ocasião, era comandada pelo Capitão Domingos Ventura, hoje General.

Assim, fiz toda a campanha como integrante da 7ª Companhia do 6º RI. A nossa preparação se deu inicialmente ainda em São João del-Rei, através de exercícios mais voltados para a preparação física, marchas prolongadas, ataques a inimigos figurados em elevações etc.

Posteriormente, no Campo de Instrução de Gericinó, na Vila Militar, no Rio, tivemos oportunidade de realizar exercícios em pistas de combate, semelhantes às situações que iríamos enfrentar.

Foi construída no Morro do Capistrano uma grande armação de madeira para a prática de exercícios de salvamento em navios. Esse treinamento que foi realizado, se bem que não espelhasse realmente a situação a enfrentar, serviu, ao menos, para dar uma sacudidela nos velhos conceitos da escola francesa e alertar-nos para um novo método de combate que nos aguardava.

O transporte do 1º Escalão para o Teatro de Operações foi no navio americano General Mann. Uma experiência nova para quase todos os pracinhas, que nunca haviam viajado num navio e se deram mal, enjoando a bordo.

Durante o dia, podíamos permanecer no convés, porém, à noite, tínhamos que ficar em nossos beliches. A disciplina era rigorosa e precisávamos portar durante todo o tempo o colete salva-vidas e era expressamente proibido jogar qualquer objeto ao mar como papéis, pontas de cigarro etc. Os exercícios de abandono do navio eram diários, feitos durante a viagem inteira, que levou 14 dias. As ameaças de submarinos, como aviões do inimigo, eram constantes, apesar da eficiente cobertura que nos proporcionava a escolta.

No dia 16 de julho, chegamos ao Porto de Nápoles e ficamos no subúrbio de Bagnole, numa cratera extinta do vulcão Astrônia. No dia 1º de agosto, foi iniciado o deslocamento da tropa para a Região de Tarquínia, onde recebeu as dotações orgânicas e, daí, prosseguiu para Vada, a fim de submeter-se ao intenso período de treinamento, que teve a duração de três semanas. Aprendemos o emprego, montagem, desmontagem e o funcionamento dos novos armamentos e realizamos os tiros reais e exercícios de combate. Os oficiais norte-americanos pertencentes ao V Exército, que cooperavam no adestramento da tropa, ficaram admirados pela rapidez com que os brasileiros se adaptaram aos novos materiais e a seus processos de emprego. O soldado brasileiro, inicialmente, estranhou bastante a alimentação, mas, com o passar dos dias e a sua versatilidade, adaptou-se ao novo sabor.

O meu batismo de fogo foi no dia 6 de outubro, no Vale do Serchio, após a conquista de Camaiore-Monte Prano. A minha Companhia atacava na direção de Castelnuovo di Garfagnana. Em Bolognana, o meu Pelotão repeliu uma patrulha alemã composta de quinze homens, sendo que quatro desses elementos morreram e um ficou ferido, sendo aprisionado.

No prosseguimento da ação pelo Vale do Serchio, a nossa 7ª Companhia cerrou à frente, porém, ao penetrar na Cidade Gallicano, foi hostilizada por intensos fogos de morteiro e metralhadora, tendo o meu Comandante de Pelotão, o Tenente Oswaldo Pinheiro, sido ferido e eu tive que assumir o comando do Pelotão, o 3º, ainda como 2º sargento auxiliar. Esse Tenente, ao retornar ao Brasil, fez o curso técnico e chegou em sua carreira a ser promovido a General.

Tinha assumido temporariamente o comando do Pelotão, mas, em seguida, passei para o Tenente Poti, que também foi ferido, e eu tive que reassumi-lo. Lá no Vale do Serchio, quero salientar que as ações não deixaram de servir de um alerta para as tropas brasileiras, porque nós estávamos combatendo numa frente de menor expressão e, com as conquistas iniciais, a tropa brasileira estava muito eufórica, com excesso de otimismo. A confiança reinante pela ocupação de Camaiore e Monte Prano e a falta de reação mais efetiva por parte do inimigo faziam com que considerássemos a guerra já vencida. No entanto, quando menos esperávamos, sofremos um terrível contra-ataque alemão, vindo de Castelnuovo di Garfagnana para Barga, onde nos encontrávamos, e tivemos, pela primeira vez, que retrair, bastante pressionados.

Apesar desse insucesso, o saldo foi positivo no Vale do Serchio, tanto que fomos rocados para a Região dos Apeninos, no Vale do Reno, pelo Comandante do V Exército, onde as ações da FEB tornaram-se extremamente difíceis, vindo, realmente, glorificar o soldado brasileiro. O pracinha, já amadurecido, consciente da sua responsabilidade e do seu valor, pôde empregar-se a fundo, igualar-se e ombrear-se aos melhores soldados do mundo.

Foi ali que ele enfrentou a lama, o frio e a neve e soube suportar, com estoicismo, os fracassados ataques a Monte Castelo, até que atacou e conquistou o referido objetivo, que se tornara uma questão de honra para o soldado brasileiro.

No período do inverno, as ações tornaram-se apenas defensivas, mas as patrulhas eram ofensivas e empregadas como rotina. Podemos, entretanto, destacar a ação de uma das patrulhas empregadas nesse período, que foi a do nosso Pelotão, comandada pelo 3º sargento Noraldino Rosa dos Santos, realizada no dia 24 de janeiro.

Em pleno inverno, ele conseguiu atingir as posições inimigas, surpreendendo os alemães e causando-lhes mortes e ferimentos, mas sofrendo duas baixas. No dia 5 de fevereiro, logo após a ação da nossa patrulha, os alemães, em revide, atacaram os nossos postos avançados, particularmente em nossa frente, apoiados por fogos de Artilharia, morteiros e armas automáticas, porém foram repelidos, deixando grande quantidade de material, duas bazucas, metralhadoras beretta e cargas de trinitrotolueno (TNT), o conhecido trotil. Ficaram, ainda, um morto e vários feridos, sendo que um foi aprisionado e os demais recolhidos no dia seguinte pela própria tropa alemã, que veio com a bandeira branca; nós permitimos que eles recolhessem os elementos que estavam caídos no terreno, entre as nossas posições e as deles.

Como falamos anteriormente, Monte Castelo estava atravessado na goela de todos os brasileiros; era uma questão de brio conquistá-lo. Foi realmente um dos combates mais difíceis. Realizamos quatro ataques e, no quinto, pelo 1º RI, foi conquistado Monte Castelo, após uma luta extremamente dura, mas conseguimos vencer.

O alemão estava muito bem posicionado, ocupando a parte de cima da elevação com total comandamento de vistas e de fogos sobre as nossas tropas, exigindo muita vontade e competência para desalojá-lo.

Posteriormente, partiu-se para a Ofensiva da Primavera com as operações em Montese, que culminaram com uma histórica vitória obtida sobre os alemães, que não queriam abrir mão dessa posição pois, se o fizessem, possibilitariam o aproveitamento do êxito através do Vale do Pó.

Sofremos muitas baixas, mas suportamos. O homem brasileiro viveu momentos de terror e tensão, mas superou a tudo e conquistou os objetivos determinados: Monte Castelo e Montese – os mais difíceis – Serreto, Paravento, Montebuffone e Montello, partindo na direção do Rio Pó.

O soldado brasileiro demonstrou bravura, confiança em seus comandantes, companheirismo e solidariedade, sobretudo para com o colega ferido, em situação difícil, nunca o deixando abandonado no campo de batalha. Essa era uma das características do nosso pracinha, empenhando tudo para não deixar o companheiro sem ser assistido.

O nosso Comandante, o então Capitão Helio Portocarrero, foi ferido em Montese, quando teve que nos deixar definitivamente, pela enorme gravidade de seu estado de saúde. Felizmente, sobreviveu e continua entre nós.

De Montese, tenho outra recordação muito amarga. Um companheiro, já antigo, não acreditava em fazer fox hole. Dizia ele: “Se a granada vier com o meu endereço, me atingirá em qualquer lugar.” Mas, nesse ataque a Montese, viu que estava caindo muita granada, e cavou um fox hole ao lado da minha trincheira. Durante o dia, ele não podia colocar a cabeça para o lado de fora, pois o alemão estava marretando mesmo. Quando escureceu, sentamos na beira dos próprios abrigos. Nisso, veio uma granada e caiu entre nós dois. Eu ainda tive a oportunidade de jogar-me dentro do fox hole e ele, que havia feito o primeiro abrigo durante a campanha da Itália, foi atingido e morreu ali na hora, sem ter podido utilizá-lo ou vir a receber algum atendimento médico. Isso aconteceu com o Noraldino Rosa dos Santos, o mesmo da patrulha do meu Pelotão, cujo fato já narrei, e que consta do livro do Coronel Castello Branco.

Aquela patrulha ficou numa situação crítica, porque atacaram a casa central e as outras duas laterais, alertadas, cerraram fogo sobre eles, que não podiam retrair. Eu tive que apoiá-lo com um outro grupo para que pudesse realizar o retraimento.

Após Montese, em direção ao Vale do Pó, a campanha se caracterizou pelas conquistas de Zocca, Vignola, Collecchio e, finalmente, o combate de Fornovo, quando foi aprisionada a 148ª DI alemã, comandada pelo General Otto Fretter Pico, com o efetivo de 14.700 militares, grande quantidade de armamento, viaturas e animais.

Releva citar que o meu Batalhão, o III do 6º RI, comandado pelo Major Silvino Castor da Nóbrega, primeiro a entrar em combate na Itália, esteve, coincidentemente, também na última batalha em Fornovo, quando a Vanguarda da FEB, aprisionou
a 148ª Divisão alemã.

Gostaria de destacar ainda que o soldado brasileiro sentiu o rigoroso inverno de até dezoito graus abaixo de zero, porém o suportou devido, principalmente, a sua juventude, idade variando entre vinte e 24 anos no máximo, e ao material que lhe foi distribuído; tínhamos bons agasalhos, inclusive a cama de dormir, tipo saco, às vezes, eu preferia sentir frio, mas não dormia ali dentro para não ser surpreendido. O jeitinho brasileiro também foi importante naquela eventualidade. Enquanto o americano sofria o problema do pé-de-trincheira, o brasileiro praticamente não o enfrentou; eles ficaram preocupados em saber por que baixava tanto americano com pé-de-trincheira e o brasileiro, não. Aquele galochão passou a ser usado sem o coturno, que apertava o pé e dificultava a circulação. A nossa gente enfiava os pés diretamente na galocha e completava com feno para esquentar e permitir o movimento dos dedos.

Honra seja feita. Os oficiais e os graduados da FEB mostraram-se responsáveis e capazes no desempenho de suas atividades. Os militares integrantes do 1º Escalão tiveram três semanas de treinamento rigoroso e intensivo, e da maneira como a FEB foi inicialmente empregada (Destacamento FEB), em frente não muito violenta, obteve-se a adaptação da tropa, mormente dos comandantes, em diversos níveis, ao campo de batalha.

Os demais escalões que foram chegando se favoreceram dos conhecimentos já adquiridos por seus colegas do 1º Escalão, além do treinamento que receberam. Os raros casos de insucesso que ocorreram, como os ataques fracassados a Monte Castelo, parece-nos que foi mais um incorreto emprego da tropa, cumprindo determinação do IV Corpo de Exército norte-americano, do que um mau desempenho dos seus oficiais, graduados e soldados.

Nos ataques de 29 de novembro e de 12 de dezembro de 1944 ao Monte Castelo, foi empregada tropa recém-chegada e, portanto, sem a menor experiência de combate e desprotegida em seu flanco esquerdo (Belvedere, Gorgolesco, Cappela di Ronchidos), o que não aconteceu no ataque vitorioso de 21 de fevereiro de 1945.

Posso concluir, afirmando que tanto os oficiais como os graduados cumpriram a missão com denodo e desprendimento.

Os pracinhas se superaram, sem dúvida, pois a FEB, na sua maioria, foi constituída de soldados de pouca instrução, subnutridos, físicos frágeis e procedentes de cidades do interior ou do campo; isso nós não podemos negar, porque é uma realidade.

Entretanto, à proporção que iam recebendo alimentação mais apropriada, uma instrução adequada, conhecimento e relacionamento com novos amigos, transformaram-se completamente. Tornaram-se soldados conscientes, responsáveis, disciplinados, resistentes à fadiga, respeitadores e amigos dos seus chefes e de uma solidariedade ímpar para com os seus colegas. Tudo faziam para não abandonar os seus companheiros feridos nos campos de batalha. Nos ataques, arremessavam-se como feras indomáveis na conquista dos objetivos determinados. Enfim, tornaram-se verdadeiros soldados sob todos os aspectos, sabendo elevar bem alto o nome do Brasil e de nossa gente.

O relacionamento com a população local foi o melhor possível. Não há dúvida de que o povo italiano sofreu muito, porque, quando o alemão ia recuar, procurava destruir tudo o que era possível na região que deixaria, com enormes prejuízos para os seus habitantes. Mas o soldado brasileiro, ao contrário, os tratava com respeito e humanidade e, com a sua maneira alegre e descontraída, angariava a simpatia de todos, estando sempre pronto a oferecer um cigarro, que era coisa dificílima naquela ocasião, e uma barra de chocolate para atenuar a fome daqueles que não tinham coisa alguma para comer. Entretanto, mantinha-se sempre alerta para obter dados sobre o inimigo e não deixar vazar informações que lhe pudessem ser úteis.

Em relação ao apoio de saúde, contávamos no pelotão com um cabo enfermeiro, o cabo Rocha, que eu encontrei com muita satisfação em reunião recente que fizemos em Salvador. Ele prestava, com grande eficiência e rapidez, o primeiro socorro aos feridos. Estava sempre pronto para assistir os feridos, inclusive aqueles que se encontravam lá na frente de combate, prestando o primeiro atendimento e os recolhendo ao Posto de Socorro (PS) do Batalhão. Mostrou-se um graduado de muito valor, realizando muito bem o que lhe cabia.

Quanto à assistência religiosa, tínhamos de, quando em vez, a visita do capelão. Porém, o que mais nos impressionava e nos comovia era a atitude do nosso soldado. Todas as noites eles se reuniam no fox hole, ou numa parte qualquer, para fazer as suas orações, e me chamavam para rezarmos juntos.

Sobre o soldado alemão, pode-se dizer que a FEB enfrentou nos campos de batalha da Itália um inimigo tradicionalmente guerreiro, que já estava há bastante tempo lutando na Segunda Guerra Mundial, acostumado ao clima e ao terreno.

Por estar na defensiva há muito tempo, conhecia bem o terreno, o que representava uma grande vantagem. Era um soldado fanático, brioso e que tinha disposição tanto nas ações defensivas como nas ofensivas.

Por essas qualidades, era um soldado respeitado, mas não que o brasileiro o temesse. Entretanto, como se dizia por lá, “não pode dar sopa na crista, para não ser abatido”.

Sobre as tropas aliadas, minhas observações se restringem ao ataque de que participamos ao lado da 10ª Divisão de Montanha americana, quando nós atacamos o Monte Castelo. Eles atuaram no flanco da 1ª DIE com muita correção, pois foram preparados exclusivamente para combater em regiões montanhosas; eram fortes e treinados. O ataque por eles realizado, em 20 de fevereiro, a Belvedere, Gorgolesco e à Cappela di Ronchidos, onde, inclusive, ficaram, momentaneamente, detidos, ajudou bastante o nossa ação sobre Castelo no dia seguinte.

Gostaria de destacar alguns aspectos sobre o apoio logístico, prestado basicamente pelo americano, através dos nossos escalões competentes, que podemos classificar de muito bom. Éramos atendidos a tempo e a hora, tanto na questão de remuniciamento e armamento, como na alimentação, não deixando nada a desejar. Todos os dias recebíamos aquele suprimento necessário, e, quando na defensiva, recebíamos a ração quente, se bem que essa ração só pudesse chegar aonde estávamos à noite e lá a gente esquentava. À tarde, recebíamos a ração K ou a ração C, que também alimentava suficientemente. A ração C vinha numa latinha e não era tão gostosa; nós a esquentávamos e tínhamos a impressão de que estávamos comendo uma ração quente. No princípio, pensávamos que era uma ração insuficiente para a alimentação do brasileiro, mas logo vimos que satisfazia perfeitamente.

Já a ração K, numa caixa de papelão hermeticamente fechada, era fornecida para os ataques, sem a possibilidade de ser aquecida. Essa é a diferença principal de uma para outra.

A respeito do relacionamento entre nós, desejo destacar o espírito de solidariedade e companheirismo que sempre existiu no seio da nossa Companhia e tenho certeza de que em toda a FEB. Nos momentos difíceis, podíamos estar certos de que sempre teríamos um companheiro ao nosso lado. Essa é a razão principal que levava a nossa subunidade a cumprir as missões recebidas.

O que mais me impressionou na campanha da FEB foi justamente essa solidariedade e a forma pela qual o soldado se adaptou... Ele se agigantou no terreno, no manuseio do armamento e até no destemor em enfrentar um inimigo tarimbado,
astuto e pertinaz.

Cada um procurava cumprir com a sua obrigação, constituindo um time preparado para bem cumprir a missão. Desde o Comandante da nossa Companhia, que nos dava todo o apoio, até o soldado mais humilde, todos tinham consciência dos seus deveres e os cumpriam com firmeza.

Todavia, era preciso confortar o subordinado na hora difícil. Sempre que ia haver um ataque, saía conversando com um e com outro. Como Comandante do Pelotão, eu estava sempre presente, junto aos meus comandados, na certeza de que o exemplo é a melhor maneira de se comandar, de conhecê-los melhor e de adquirir a sua confiança.

Por isso, numa situação de perigo, todos os comandados ficam com a atenção voltada para o seu chefe. Se o chefe vai à frente e mostra disposição em cumprir a missão que foi recebida, o subordinado o acompanha.

A ação da propaganda alemã se restringia ao emprego de alto-falantes voltados para a nossa tropa. Eles tocavam músicas brasileiras e procuravam nos induzir a pensar que a guerra estava perdida, que estávamos sendo explorados pelos americanos. Também lançavam panfletos sobre as nossas posições. O elemento que fazia essa propaganda falava o português corretamente e depois fiquei sabendo que realmente era uma “Quinta-Coluna”. Da nossa parte, não tomei conhecimento de como a propaganda se realizava.

Há que se ressaltar a ligação com elementos da 1ª Esquadrilha de Ligação e Observação, a ELO, através do nosso Comandante de Companhia. Quando as nossas posições estavam sendo bombardeadas pela Artilharia inimiga, solicitávamos o apoio da ELO e logo a seguir lá estavam eles procurando localizar as posições de tiro do inimigo para as devidas providências. Eles faziam um trabalho eficiente e rápido e dávamos graças a Deus quando os víamos voando, na busca das coordenadas das posições inimigas para a nossa Artilharia entrar em ação.

Quanto ao 1º Grupo de Caça, a sua atuação foi por todos reconhecida como destemida e eficaz. Nas ocasiões em que eles tiveram a possibilidade de cooperar conosco nos Apeninos, o fizeram de uma maneira muito objetiva, de modo que nós devemos esse reconhecimento pela atuação deles na retaguarda do inimigo e quando cooperavam com a FEB durante o ataque, particularmente, em 21 de fevereiro de 1945, na tomada do Monte Castelo.

Com orgulho, gostaria de afirmar que a campanha da FEB na Segunda Guerra Mundial foi realizada com muito sacrifício, destemor, resignação e vontade de levar a bom termo a missão recebida, contribuição efetiva do Exército, no século XX, para o enriquecimento da História Militar do Brasil.

O espírito de corpo e a responsabilidade de bem representar o Brasil junto às nações aliadas fizeram com que o soldado brasileiro superasse as deficiências e se ombreasse com os melhores soldados do mundo.

As vitórias conquistadas, o número de brasileiros que honraram o compromisso assumido perante o Pavilhão Nacional, derramando o seu sangue e morrendo na defesa da Pátria, os companheiros que voltaram com ferimentos ainda sangrando dos últimos combates e os que, ainda hoje, apresentam seqüelas físicas ou psíquicas da campanha são provas insofismáveis de que o soldado brasileiro que integrou a FEB ofereceu um exemplo magnífico às novas gerações.

Ao término da guerra, com a rendição da 148ª Divisão, vimos desfilar, perante nosso Regimento, todos aqueles alemães temidos, mas derrotados pelo valor da Força Expedicionária Brasileira. Tivemos um momento de descontração, de alívio e de esperança de um breve retorno a nossa Pátria.

Porém, não houve uma euforia descontrolada que se poderia esperar. O que se observou foi que cada soldado fazia as suas preces, as suas orações, agradecendo ao Criador a ventura de ainda estar com vida e com saúde e, brevemente, poder retornar ao convívio dos seus entes queridos.

Passamos a desencadear os preparativos para a volta ao Brasil. Após a rendição da 148ª Divisão alemã e da Divisão Bersaglieri italiana, o nosso 6º RI deslocou-se, em 3 de maio, para as cidades de Tortona, Castelnuovo e Voghera, onde ficou estacionado. Em princípio de junho, foi para a região de Francolise, nas proximidades de Nápoles.

No dia 6 de junho, o Regimento Ipiranga seguiu para o Porto de Nápoles, embarcando no navio General Meighs, que zarpou com destino ao Brasil, onde chegou em 18 de junho, atracando no Porto do Rio de Janeiro.

A recepção à FEB foi verdadeiramente apoteótica. Os brasileiros prestaram aos pracinhas muitas homenagens pelas glórias obtidas na Itália, não só por ocasião da chegada ao Rio de Janeiro, mas também em todas as cidades do interior que receberam muito bem e com muito orgulho os seus filhos, demonstrando o reconhecimento, a alegria e a satisfação em tê-los de volta.

No seio do Exército, os que pertenciam ao serviço ativo foram normalmente reincorporados e classificados pelas diversas unidades do País. Não houve a menor manifestação de apreço e consideração pela Força, por nós que chegávamos de uma dura campanha. Consta que muitos militares tinham receio de que, com o regresso da FEB, fossem preteridos em suas carreiras. Houve ciúmes, injustiças, sem chegar a configurar-se retaliações.

Somos de opinião que a participação da FEB na Segunda Guerra Mundial trouxe para o Exército conseqüências altamente positivas. Houve a reformulação da doutrina de guerra já ultrapassada, a modernização do armamento até então utilizado, dos meios de comunicação e de transporte e, principalmente, da mentalidade.

Como conseqüência da guerra, o militar adquiriu a disciplina consciente, melhorou o tratamento para com o subordinado, que passou, dentro dos princípios da disciplina, a ser tratado pelo superior com mais humanidade, merecendo maior apreço e atenção. O subordinado respeita o superior, não pelo medo de ser punido, mas pelo respeito natural que lhe deve, o que é extremamente louvável!

Por sua vez, a FEB teve uma importância muito marcante na minha vida pessoal, pois foi, a partir daí, que realizei os cursos necessários para continuar a carreira militar. Considero o Exército uma das instituições mais confiáveis desse nosso País e tenho orgulho e satisfação de ter sido um dos integrantes dessa modelar organização, onde, com trabalho, disciplina, responsabilidade e força de vontade, o homem consegue realizar as suas aspirações.

E mais, o Brasil é um País de formação e orientação política eminentemente pacífica, amante da paz e da liberdade. Porém, quando ameaçado na sua liberdade e nos seus princípios mais sagrados, sabe reagir à altura das ofensas recebidas.

Foi o que aconteceu por ocasião da Segunda Guerra Mundial, quando a Força Expedicionária Brasileira, constituída por brasileiros de todos os seus recantos, soube elevar bem alto o nome e o pavilhão da nossa Nação! Esse é um feito que jamais poderá ser esquecido!

Nós, seres mortais, amanhã não mais existiremos, porém a memória da FEB terá que permanecer viva, para que as futuras gerações possam se orgulhar de que o nosso País concorreu para que a liberdade neutralizasse a opressão, a democracia sobrepujasse a tirania e os atacados pudessem revidar a ofensa, como fizemos com relação àqueles que torpedearam os nossos navios, tirando a vida de mais de mil brasileiros no nosso litoral.

Embora não seja o nosso desejo, se houver, no porvir, a necessidade de o Brasil defender a sua soberania e o bem-estar de sua população, temos a certeza de que as novas gerações saberão cumprir a sua missão como cumprimos a nossa na Segunda Guerra Mundial.

FONTE:
História Oral do Exército na Segunda Guerra Mundial

FOTOGRAFIAS:
Acervo Roberto R. Graciani

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