Cap Murilo Paiva
Ex-Combatente da 2ª Guerra Mundial

11º RI - Regimento Infantaria - Regimento Tiradentes
São João del-Rei - Minas Gerais

Cap Murilo Paiva aos 23 anos

Nasceu em Lavras – MG. Apresentou-se como voluntário para servir o Exército em São João del-Rei em 1941. Foi aprovado no Curso de Formação de Cabo e promovido em setembro de 1941. Também aprovado no Curso de Formação de Sargento, foi promovido em janeiro de 1942. Com a declaração de guerra ao Eixo, o seu Regimento – o 11º RI – foi incluído entre as Unidades expedicionárias, embarcando para a Itália em navio americano em setembro de 1944. No front italiano, como Comandante da Seção de Metralhadoras e, depois, como sargento auxiliar da Seção de Morteiros da Companhia de Petrechos Pesados do I Batalhão, esteve em Monte Castelo e tomou parte da Batalha de Montese. Após a guerra, continuou na ativa, levando 15 anos para ser promovido a 2º Sargento. Sua promoção a este posto se deu em agosto de 1954, quando foi classificado no 6º Batalhão de Caçadores e destacado para garantir a ordem em um povoado localizado em São Sebastião, no extremo norte de Goiás. Voltando para o 11º RI, foi, no Regimento de São João del-Rei, promovido a 2º Tenente e classificado na EsSA, onde exerceu a função de Chefe da Seção de Meios Auxiliares, na qual fiscalizava a impressão dos trabalhos para julgamento de todas as Armas, o exame de seleção dos cabos em todo Exército Brasileiro e as provas anuais de seleção dos candidatos a sargento. Posteriormente, foi transferido para a 4ª CSM-SP e, nesta organização, promovido ao posto de 1º Tenente. Classificado na 11ª CSM em Belo Horizonte, foi promovido ao posto de Capitão e transferido para Reserva em maio de 1967. Dentre as condecorações que lhe foram outorgadas, por sua participação na Segunda Guerra Mundial, destacam-se: Medalha Cruz de Combate de 2ª Classe; Medalha de Campanha e Medalha de Guerra.

Capitão Murilo Paiva*

*Comandante da Seção de Metralhadoras e Sargento-Auxiliar da Seção de Morteiros da Companhia de Petrechos Pesados do I Batalhão do 11º RI, entrevistado em 24 de novembro de 2000.


A situação do Brasil no início da década de 1940 era de perfeita calma, descontração e neutralidade, mas de pouco desenvolvimento. Com a chegada da guerra ao Norte do continente africano, houve um esforço de mobilização para ser enviado à Região Nordeste um efetivo de 44 mil homens, logo passando a cinqüenta mil homens, visando à defesa de seu litoral e das ilhas oceânicas. A escassez de estradas dificultou o transporte terrestre, e, dessa forma, passou-se a utilizar o transporte marítimo, aéreo e fluvial.

Para impedir o movimento normal de nossos navios mercantes em toda a nossa costa, sobretudo para atender ao Nordeste, houve uma invasão de submarinos alemães em nossas águas, colocando a pique 31 navios da Marinha Mercante e quatro da Marinha de Guerra, causando, assim, mais de mil mortes, a maioria no ano de 1942, especialmente no mês de agosto. Com o torpedeamento de nossos navios, o povo foi para as ruas, protestando em passeatas constantes, pedindo pela guerra. Além disso, houve muito quebra-quebra em todas as capitais, e os bens dos alemães, italianos e japoneses foram confiscados. Diante desses fatos, o governo mudou sua atitude e estabeleceu um plano de ação, após declarar o estado de beligerância em todo território nacional em 22 de agosto de 1942, ao qual se seguiu a declaração de guerra, assinada em 31 de agosto.

A FEB foi organizada com três Regimentos de Infantaria, quatro Grupos de Artilharia, Unidades de Cavalaria, Engenharia, Comunicações, Saúde e outros Serviços, além da 1ª ELO - Esquadrilha de Ligação e Observação, que era constituída por pessoal das Forças Aérea e Terrestre. A FAB constituiu, também, o 1º Grupo de Aviação de Caça, o Senta a Pua, que operou juntamente com os americanos. Do Exército, foram embarcados para a Itália 25.334 homens. O preparo da tropa, através de exercícios físicos, exames de saúde e até mesmo de manobras, teve início nos próprios Regimentos. No Morro do Capistrano, Rio de Janeiro, onde ficou o 11º RI, recebemos treinamento físico permanente e, no Campo de Instrução de Gericinó, fizemos pista de aplicação e realizamos muito tiro real. Houve, também, vários treinamentos de embarque e desembarque em um navio improvisado. Creio eu que sem esses exercícios talvez não obtivéssemos os êxitos que alcançamos.

Nesta época, eu já estava na ativa do Exército, integrando o 11º RI, como 3º sargento Comandante da Seção de Metralhadoras da Companhia de Petrechos Pesados do I Batalhão (CPPI). Aprovado nos exames de saúde, passei a pertencer à FEB na mesma função.

O transporte da tropa para o Teatro de Operações da Itália começou entre o Capistrano e o Cais do Porto, por via férrea, sob grande sigilo. Já no navio, a vida foi tranqüila, mas muitos sofreram enjôos, além da natural preocupação pelo fato de estarmos indo para a guerra por via marítima, onde os submarinos inimigos tinham possibilidade de nos atacar. Durante a noite era pior, com as ameaças sempre presentes e os treinamentos inesperados de abandono do navio. Em cada compartimento, havia uma escala de serviço, fiscalizada diariamente por uma comissão de oficiais brasileiros e americanos. A viagem durou quatorze dias.

Na Itália, antes de sermos enviados ao front, recebemos novos armamentos, inclusive alguns ainda desconhecidos, com os quais realizamos exercícios de tiro. A adaptação foi rápida e proveitosa. Antes de enfrentar os alemães, ouvimos as palavras do General Clark, acompanhado do General Zenóbio da Costa: “Brasileiros, vocês estão prestes a enfrentar o alemão e colocar em prática o que aprenderam. Sejam determinados e fortes, pois o alemão não é manteiga! Poupem suas vidas! Metralhadoras e canhões fazemos milhares num dia, mas homens como vocês precisamos de vinte anos para fazer!”

Levei um dia inteiro, eu e meus homens, para chegar à posição no front. O sargento que eu substituiria estava aflito e apavorado. No entanto, o dia amanheceu e tudo estaria muito tranqüilo, não fosse alguns tiros esparsos. Passamos o dia comendo ração K e C. À tardinha, apareceu um avião alemão fazendo vôos rasantes, lançou uma bomba de grande porte, abrindo uma cratera perto das posições dos próprios tedescos. Por volta das 20 horas, iniciou-se o cruzamento do feixe de projetores (holofotes), clareando toda a base do Monte Castelo. Isso foi em Guanela, onde estava o 1º Batalhão do 11º RI. Às 21 horas, as metralhadoras inimigas começaram a atirar, provocando uma pronta resposta do nosso Batalhão. Dois carros-decombate americanos, posicionados a uns duzentos metros à minha direita, foram deslocados até a base do Monte Castelo e atiraram ininterruptamente. Já de madrugada, e ainda sob fogo cerrado, recebi a visita do Comandante de Batalhão, Major Jacy Guimarães, o qual mandou que nos preparássemos para recuar na direção do primeiro morro à retaguarda. Havia boatos da existência de pára-quedistas alemães atrás de nossas linhas.

Logo em seguida, o nosso Tenente retornou dizendo que o Batalhão já não se encontrava no front e que a ordem era “salve-se quem puder”. Mediante tal ordem, abandonamos a posição, levando apenas armas e granadas para a nossa defesa. Próximo aos tanques, vi um americano gravemente ferido. Vi também o Capitão Cotrim, Comandante da 1a Companhia de Fuzileiros, com uma venda nos olhos. Ambos estavam protegidos por soldados da Polícia do Exército. Mesmo sem conhecermos o caminho, fomos em direção a Silla... Havia soldados caídos e cansados por toda a parte. O Batalhão só pôde se recompor por volta das dez horas da manhã, quando nos deslocamos até Granaglione para recuperação, antes de retornarmos ao front.

O primeiro ataque da 1ª Cia do 11º RI a Monte Castelo foi em 12 de dezembro. Não tenho certeza se o 11º RI estava substituindo o 6º RI, porque havia gente do 1º, do Sampaio, além do pessoal do 6º RI. O Capitão Thório de Souza Lima continuou como meu comandante na C.P.P.I, mas os comandantes das 1ª e 2ª Companhias de Fuzileiros – Cotrim e Schleder – foram substituídos, ficando o Capitão Hésio de Melo e Alvim, que comandava a 3ª Cia. A substituição se processou porque problemas ocorreram nessas duas Subunidades.

Em Monte Castelo, tínhamos a impressão de que o morro derreteria, pois a Artilharia brasileira atirava com uma intensidade impressionante. Os alemães encontravam-se em casamatas profundas e, quando dávamos um intervalo, eles vinham à frente e atiravam de metralhadora. Pude ainda observar a ação do morteiro alemão quando estava em Casa M. di Bombiana com o Capitão Meira Mattos, que substituiu o Capitão Schleder no comando da 2ª Companhia de Fuzileiros, e sentimos que já havia algumas falhas, pois certas granadas não explodiam. Essas granadas eram de fabricação italiana, e, nessa fase, os italianos já estavam sabotando os alemães. Tanto é que eu estava com o espaldão da metralhadora pronto, sem muito tempo para preparar meu fox hole, quando percebi que as granadas estavam explodindo cada vez mais próximas. Não tínhamos um recurso sequer para sair daquela posição, nem onde nos abrigar, quando fomos atingidos por uma granada de morteiro, mas esta não explodiu. Se tivesse explodido, teria matado toda a guarnição. Devo ressaltar o fato de que não tendo para onde correr, abri meu breviário de preces espíritas, que guardo até hoje, e balbuciei uma prece que se diz quando a morte é iminente. Logo em seguida, a granada caiu sem explodir. Esse é um episódio que conto com muita emoção, ocorrido na Casa M. di Bombiana, acima de Abetaia.

Houve casos de perdas por causa dos fogos alemães e do mau posicionamento de algumas de nossas metralhadoras. Na Batalha de Montese, por exemplo, há o fato da morte do sargento Orlando Randi. Ele, ao sair da casamata, trazendo uma bandeira nazista, que acabara momentos antes de conquistar, foi atingido por uma rajada
de metralhadora.

Sendo a C.P.P.l a Companhia das Metralhadoras e Morteiros, elementos dos seus Pelotões eram cedidos às Companhias de Fuzileiros, na base de uma Seção para cada Companhia. No entanto, após Montese, minha Companhia marchou em direção ao Vale do Pó com seu efetivo total em perseguição ao inimigo.

A nossa Companhia atuou em Montese e lá obteve a grande vitória. Eu já havia sido transferido para o Pelotão de Morteiros, e os morteiros ficam um pouco recuados, em posições diferentes das ocupadas pelas metralhadoras. Por essa razão, o morteiro atirava durante toda a noite nos objetivos já enumerados na carta. Cabia-me realizar o remuniciamento e fiscalizar as peças. Os morteiros da C.P.P.I eram acionados constantemente, ficando conosco a missão de atender a todos os pedidos de tiro da linha de frente. Com desempenho similar ao da Artilharia, o morteiro, que teve uma ação decisiva em Montese, integrou, com muito bons resultados, a base de fogos para apoio aos fuzileiros.

Depois das operações da nossa Companhia em Monte Castelo e em Montese, partimos em perseguição ao inimigo, na direção do Vale do Pó até Turim. A vanguarda, composta pelo 6º RI e outros elementos (de Cavalaria, Artilharia e Engenharia), tomou a direção de Collecchio e Fornovo.

Assim, após Montese, as Companhias empenharam-se na perseguição ao inimigo, casa por casa, para eliminar toda e qualquer resistência. Os alemães fugiam chegando a matar cavalos, deixando-os, muitas vezes, nas estradas minadas. Em certas colônias por onde passávamos, éramos informados de que os tedescos haviam saído duas horas antes. Assim, estivemos sempre nos calcanhares dos alemães, até a rendição incondicional de duas de suas Divisões e uma italiana.

Com relação ao clima europeu, os soldados brasileiros, saídos de um país tropical, sentiram o frio rigoroso do inverno, mas os casos de pé-de-trincheira, congelamento dos vasos sanguíneos e hospitalização, foram muito poucos. Os soldados procuraram defender-se, tirando o coturno e colocando dentro da galocha capim de feno triturado com pó antisséptico e meia de lã, uma ação aprovada por todos no front, porque permitia a movimentação dos dedos e uma boa circulação do sangue nos pés.

Apesar das profundas modificações ocorridas com a guerra, o respeito, a comunhão e a disciplina entre os oficiais, sargentos, cabos e soldados não foram alterados. A convivência permanente, em situação difícil, contribuiu para maior união, solidariedade e camaradagem entre todos. Os homens, que integraram a FEB, desempenharam suas funções com destemor, coragem e bravura, destacando-se também pela resistência e senso de responsabilidade. Na formação de patrulhas, a base era constituída sempre de elementos voluntários. As informações obtidas com as patrulhas facilitavam os ataques posteriores. Os oficiais estavam sempre à frente e, na tomada dos objetivos, agiam com desprendimento e autoridade, mantendo a coesão,para melhor enfrentar o inimigo.

Os alemães eram muito astutos, atiravam muito bem de morteiro e chegavam sempre tentando envolver o soldado brasileiro. O aspecto físico e a aparência, no entanto, deixavam a desejar. Percebia-se uma má nutrição, uniformes já em mal estado, cenho franzido, enfim, o alemão era um soldado triste. Mantinham-se sempre dentro de suas casamatas profundas, para se defender da nossa Artilharia e das patrulhas brasileiras, que eram constantes, bem equipadas e armadas. Tratava-se, no entanto, de um inimigo experimentado, instalado em posições dominantes, pronto e ansioso para matar.

Embora já conhecido de muitos, um fato marcante foi quando se encontrou uma cruz erguida pelos próprios alemães, bem junto das suas posições, em covas rasas, com os dizeres: “Aqui jazem três heróis brasileiros.” Eram integrantes do 11º RI, soldados Arlindo da Silva, Geraldo Baeta e Geraldo Rodrigues. Cercados, não se entregaram; lutaram até a morte.

Tanto no inverno, com a temperatura a vinte graus negativos, quanto na primavera, o procedimento dos soldados foi o mesmo, com muita bravura. Enfrentaram, no inverno, o frio e a neve, realizando, com êxito, patrulhas difíceis, valendo-se de capa e capuz brancos para conviver com aquela situação completamente nova. A neve caía por toda parte, nas árvores desfolhadas, nos abrigos gelados, nos uniformes dos homens e no leito das estradas, que precisavam ser mantidas em condições de tráfego.

O Capitão Adhemar Rivermar de Almeida, S3 do I Batalhão do 11º, hoje Coronel, em seu livro Montese – Marco Glorioso de uma Trajetória, diz textualmente:

“Por mais que a neve caísse, não conseguia transformar em todo branco o cenário principal da frente de batalha, pois a Artilharia e os morteiros, de ambos os lados, continuavam, quase sem interrupção, a escurecê-lo com as crateras deixadas pelas explosões de suas granadas.”

Releva citar que, tanto para oficiais e sargentos como para cabos e soldados, a vida era a mesma. Comandantes de Batalhão, capitães e tenentes viviam com seus homens nas mesmas condições. Essa foi a realidade!

O relacionamento com a população local foi o melhor possível. Por onde passávamos, éramos recebidos carinhosamente. Houve diversos comentários na Itália de que preferiam, no caso de uma intervenção temporária por tropa estrangeira, que fosse por brasileiros em primeiro lugar e, em segundo, pelos americanos.

Com relação às tropas aliadas, pouco temos a dizer. Mais próximos estivemos dos americanos e dos seus tanques, que atiravam em Monte Castelo. A 10ª Divisão de Montanha americana manteve maior contato com os brasileiros, todavia bem mais com o pessoal do Regimento Sampaio. Os ingleses só os víamos quando passávamos pelas baterias antiaéreas, bem tratadas, mas esparsas naquela grande área.

O apoio logístico prestado às tropas brasileiras não podia ter sido melhor, com equipamentos novos e transporte sempre à mão. Os jipes mostraram-se indispensáveis, pois eram rápidos e próprios para qualquer terreno, inclusive para realizar, em boas condições, a evacuação na frente de combate.

O apoio de saúde à tropa foi completo: qualquer problema no front, inclusive ferimentos de não-combatentes e prisioneiros de guerra, todos eram imediatamente recolhidos aos hospitais mais próximos, onde recebiam apoio de médicos e enfermeiras brasileiros e americanos.

O apoio religioso foi constante. Os capelães iam ao front prestar os serviços, principalmente antes das grandes patrulhas e dos combates. Não poderia deixar de mencionar a morte do Capitão-Capelão Frei Orlando, do nosso Regimento, que morreu baleado acidentalmente por um partisan, quando se deslocava para o front. Eu me encontrava em segunda linha, próximo de onde ocorreu o acidente, entre Guanela e Silla. Vi o corpo do Frei Orlando sendo retirado pela retaguarda de um caminhão, quando este fez uma pequena parada.

Minha Companhia, tanto sob o comando do Capitão Otávio, como do Capitão Thório, foi sempre eficiente. Era uma equipe brilhante de oficiais, acompanhada por muito bons graduados e soldados. Tive a felicidade de conhecer bem o meu Comandante de Companhia, o Capitão Thório Benedro de Sousa Lima, para afirmar que ele era um homem de grande envergadura moral e muita coragem. Mas o meu contato com ele não foi grande, pois o Capitão Thório distribuía as Seções dos Pelotões para as Companhias de Fuzileiros, e nós passávamos a apoiá-las diretamente sob controle das mesmas. Tive também o prazer de conhecer o Capitão Hésio, que era cunhado do Capitão Thório, e o Capitão Meira Mattos, em minha passagem pelo mesmo front onde ele estava. O Capitão Hésio era uma pessoa muito valente, destemida e simples. Estive com ele em Gaggio Montano, quando perdemos um elemento nosso e alguns americanos foram feridos por uma granada de morteiro. No mesmo instante, o Capitão Hésio deu toda cobertura a eles, demonstrando grande espírito de iniciativa e solidariedade humana.

O Capitão Meira Mattos era um homem inteligente, muito corajoso, de atitude marcante e decidida, era um bravo, que nunca deitava diante dos tiros. Ele e eu estivemos juntos pelo apoio que eu tinha que dar a Casa M. di Bombiana. Numa certa hora da noite, ouvi um burburinho saindo de uma casa e levei o fato ao seu conhecimento, que, na mesma hora, foi verificar do que se tratava. No entanto, era apenas um problema entre os próprios italianos, sem presença alguma de alemães.

Impressionou-me muito na campanha da FEB o desprendimento e a coragem dos soldados brasileiros. Além disso, a capacidade de apoio dos americanos, principalmente na alimentação, armamento, saúde e transporte. Fiquei impressionado também com a tomada de Belvedere pela 10ª Divisão de Montanha, um dia antes da tropa brasileira tomar Monte Castelo.

Quando me encontrava em Gaggio Montano, em apoio à 3ª Cia, ocorreu um fato que trouxe muito ensinamento. Como a neve era muito forte, abrigamo-nos em um depósito de feno, com paredes de pedra sem reboco. À noite, recebi a visita do Capitão Comandante da Companhia, acompanhado do Tenente Subcomandante. No escuro, mesmo avisado por mim, o Tenente acendeu uma lanterna perto das metralhadoras e, com esse procedimento, fomos atingidos por uma granada de morteiro, ferindo seriamente o cabo Chefe de Peça. Por pouco mais, a granada não causou danos ainda maiores. Vejam a importância da disciplina de luzes!

Algumas vezes precisei confortar meus subordinados. Na noite de nosso batismo de fogo, um de meus soldados, que estava na função de Cabo Chefe de Peça, perdeu o controle emocional e precisou ser evacuado. Um outro soldado de remuniciamento, quando nos encontrávamos ocupando posição em Gaggio Montano, também perdeu o controle e começou a gritar pedindo socorro e chamando por sua mãe. Ao tentar o suicídio, eu o segurei até que o médico, Dr. Murilo, viesse buscá-lo.

Para tentar reduzir o nosso moral, os alemães usavam panfletos lançados por foguetes que explodiam sobre nossas posições, espalhando-os por uma grande área. Um desses panfletos estava escrito em português. Trazia um soldado americano na praia de Copacabana, hasteando a bandeira dos Estados Unidos e fazendo a bandeira brasileira de tapete. Um outro panfleto trazia no lugar da cabeça da águia, símbolo americano, a cabeça do Presidente Roosevelt que, com suas garras, levava nossa borracha, nosso ouro e nossas riquezas. Os soldados brasileiros não deram a menor importância a esses panfletos.

O contato com a Esquadrilha de Ligação e Observação (1ª ELO) se deu quando eu estava em 2ª linha, em Silla, e o Regimento Sampaio se preparava para partir para a tomada de Monte Castelo. Como me encontrava em 2ª linha, de posse de um binóculo, fui sozinho para o morro que estava defronte ao Monte Castelo. Bem camuflado, escondi-me dentro da vegetação e vi a aproximação do 1º Grupo de Caça, o Senta a Pua, em coluna por três. Ao aproximar-se do Monte Castelo, o Grupo de Caça tomou a posição em coluna por um, e todos os aviões desceram metralhando os objetivos com seu armamento, além de lançarem bombas. Repetiram isso por duas ou três vezes. O Senta a Pua brilhou nos céus da Itália, e os pilotos foram elogiados pelos americanos. Um avião da 1ª ELO voava constantemente sobre as posições inimigas, para informar à Artilharia qualquer movimento dos inimigos...

Foi uma campanha rica em resultados concretos, que obteve o reconhecimento dos aliados e do mundo por tudo que o Brasil e o glorioso Exército Brasileiro realizaram. A FEB lutou ombro a ombro com as grandes nações pela liberdade dos povos. Os italianos colocaram em cima de cada casa uma bandeira branca, simbolizando a paz tão desejada após tanto sofrimento. Nós comemoramos emocionados, pois tínhamos agora a certeza de nosso regresso à Pátria querida e aos braços de nossas famílias.

Após o término da guerra, em 2 de maio de 1945, no Teatro de Operações (TO) italiano, nós do 11º RI ficamos em Alessandria por um bom tempo, para, em segui
da, viajarmos para Francolise, a cinqüenta quilômetros de distância de Nápoles. Nesse local, onde a FEB ficou acampada, havia muitas disputas de vôlei entre os Regimentos, até a ordem de embarque para Nápoles e de lá para o Brasil.

Aqui chegando, fui surpreendido com um grande número de promoções de graduados, sem que se respeitasse a antigüidade daqueles que estiveram no front. Isso foi motivado pela desincorporação imediata da FEB, redundando na saída do Exército Brasileiro para a vida civil de muitos graduados, gerando uma tremenda injustiça com os que enfrentaram toda sorte de perigos e incertezas em combate. Registro, com tristeza, essa mazela difícil de cicatrizar!

A chegada da FEB ao Brasil foi uma apoteose, com muitos aplausos pelo povo nas ruas. Ao desembarcarmos, fomos recepcionados pela primeira-dama do País, Senhora Darci Vargas, que distribuía sanduíches para os soldados antes do início do desfile, que começou em coluna por seis e terminou em coluna por um, com a invasão do povo na ânsia de aplaudir e abraçar os combatentes que voltavam.

Creio que houve uma modificação no procedimento e na disciplina dentro do Exército como conseqüência de sua participação na Campanha da Itália. Antes, quando vivíamos sob o regime francês, era muito cruel. Ouvíamos os sargentos dizerem durante as instruções que poderíamos quebrar nossas cabeças, mas de jeito algum deixar o fuzil cair. No entanto, os americanos diziam para pouparmos nossas vidas, pois valíamos muito mais que qualquer tipo de material.

Finalmente, destaco que a FEB trouxe grandes vitórias, que deram ao Brasil o respeito e o aplauso das Nações Unidas.

FONTE:
História Oral do Exército na Segunda Guerra Mundial

FOTOGRAFIAS:
Roberto R. Graciani

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