![]() |
Cap
Murilo Paiva |
![]() |
||
Nasceu em Lavras – MG. Apresentou-se como voluntário para servir o Exército em São João del-Rei em 1941. Foi aprovado no Curso de Formação de Cabo e promovido em setembro de 1941. Também aprovado no Curso de Formação de Sargento, foi promovido em janeiro de 1942. Com a declaração de guerra ao Eixo, o seu Regimento – o 11º RI – foi incluído entre as Unidades expedicionárias, embarcando para a Itália em navio americano em setembro de 1944. No front italiano, como Comandante da Seção de Metralhadoras e, depois, como sargento auxiliar da Seção de Morteiros da Companhia de Petrechos Pesados do I Batalhão, esteve em Monte Castelo e tomou parte da Batalha de Montese. Após a guerra, continuou na ativa, levando 15 anos para ser promovido a 2º Sargento. Sua promoção a este posto se deu em agosto de 1954, quando foi classificado no 6º Batalhão de Caçadores e destacado para garantir a ordem em um povoado localizado em São Sebastião, no extremo norte de Goiás. Voltando para o 11º RI, foi, no Regimento de São João del-Rei, promovido a 2º Tenente e classificado na EsSA, onde exerceu a função de Chefe da Seção de Meios Auxiliares, na qual fiscalizava a impressão dos trabalhos para julgamento de todas as Armas, o exame de seleção dos cabos em todo Exército Brasileiro e as provas anuais de seleção dos candidatos a sargento. Posteriormente, foi transferido para a 4ª CSM-SP e, nesta organização, promovido ao posto de 1º Tenente. Classificado na 11ª CSM em Belo Horizonte, foi promovido ao posto de Capitão e transferido para Reserva em maio de 1967. Dentre as condecorações que lhe foram outorgadas, por sua participação na Segunda Guerra Mundial, destacam-se: Medalha Cruz de Combate de 2ª Classe; Medalha de Campanha e Medalha de Guerra. Capitão Murilo Paiva*
A FEB foi organizada com três Regimentos de Infantaria, quatro Grupos de Artilharia, Unidades de Cavalaria, Engenharia, Comunicações, Saúde e outros Serviços, além da 1ª ELO - Esquadrilha de Ligação e Observação, que era constituída por pessoal das Forças Aérea e Terrestre. A FAB constituiu, também, o 1º Grupo de Aviação de Caça, o Senta a Pua, que operou juntamente com os americanos. Do Exército, foram embarcados para a Itália 25.334 homens. O preparo da tropa, através de exercícios físicos, exames de saúde e até mesmo de manobras, teve início nos próprios Regimentos. No Morro do Capistrano, Rio de Janeiro, onde ficou o 11º RI, recebemos treinamento físico permanente e, no Campo de Instrução de Gericinó, fizemos pista de aplicação e realizamos muito tiro real. Houve, também, vários treinamentos de embarque e desembarque em um navio improvisado. Creio eu que sem esses exercícios talvez não obtivéssemos os êxitos que alcançamos.
Na Itália, antes de sermos enviados ao front, recebemos novos armamentos, inclusive alguns ainda desconhecidos, com os quais realizamos exercícios de tiro. A adaptação foi rápida e proveitosa. Antes de enfrentar os alemães, ouvimos as palavras do General Clark, acompanhado do General Zenóbio da Costa: “Brasileiros, vocês estão prestes a enfrentar o alemão e colocar em prática o que aprenderam. Sejam determinados e fortes, pois o alemão não é manteiga! Poupem suas vidas! Metralhadoras e canhões fazemos milhares num dia, mas homens como vocês precisamos de vinte anos para fazer!” Levei um dia inteiro,
eu e meus homens, para chegar à posição no front.
O sargento que eu substituiria estava aflito e apavorado. No entanto,
o dia amanheceu e tudo estaria muito tranqüilo, não fosse
alguns tiros esparsos. Passamos o dia comendo ração
K e C. À tardinha, apareceu um avião alemão fazendo
vôos rasantes, lançou uma bomba de grande porte, abrindo
uma cratera perto das posições dos próprios tedescos.
Por volta das 20 horas, iniciou-se o cruzamento do feixe de projetores
(holofotes), clareando toda a base do Monte Castelo. Isso foi em Guanela,
onde estava o 1º Batalhão do 11º RI. Às 21
horas, as metralhadoras inimigas começaram a atirar, provocando
uma pronta resposta do nosso Batalhão. Dois carros-decombate
americanos, posicionados a uns duzentos metros à minha direita,
foram deslocados até a base do Monte Castelo e atiraram ininterruptamente.
Já de madrugada, e ainda sob fogo cerrado, recebi a visita
do Comandante de Batalhão, Major Jacy Guimarães, o qual
mandou que nos preparássemos para recuar na direção
do primeiro morro à retaguarda. Havia boatos da existência
de pára-quedistas alemães atrás de nossas linhas. Em Monte Castelo, tínhamos a impressão de que o morro derreteria, pois a Artilharia brasileira atirava com uma intensidade impressionante. Os alemães encontravam-se em casamatas profundas e, quando dávamos um intervalo, eles vinham à frente e atiravam de metralhadora. Pude ainda observar a ação do morteiro alemão quando estava em Casa M. di Bombiana com o Capitão Meira Mattos, que substituiu o Capitão Schleder no comando da 2ª Companhia de Fuzileiros, e sentimos que já havia algumas falhas, pois certas granadas não explodiam. Essas granadas eram de fabricação italiana, e, nessa fase, os italianos já estavam sabotando os alemães. Tanto é que eu estava com o espaldão da metralhadora pronto, sem muito tempo para preparar meu fox hole, quando percebi que as granadas estavam explodindo cada vez mais próximas. Não tínhamos um recurso sequer para sair daquela posição, nem onde nos abrigar, quando fomos atingidos por uma granada de morteiro, mas esta não explodiu. Se tivesse explodido, teria matado toda a guarnição. Devo ressaltar o fato de que não tendo para onde correr, abri meu breviário de preces espíritas, que guardo até hoje, e balbuciei uma prece que se diz quando a morte é iminente. Logo em seguida, a granada caiu sem explodir. Esse é um episódio que conto com muita emoção, ocorrido na Casa M. di Bombiana, acima de Abetaia. Houve casos de
perdas por causa dos fogos alemães e do mau posicionamento
de algumas de nossas metralhadoras. Na Batalha de Montese, por exemplo,
há o fato da morte do sargento Orlando Randi. Ele, ao sair
da casamata, trazendo uma bandeira nazista, que acabara momentos antes
de conquistar, foi atingido por uma rajada Sendo a C.P.P.l
a Companhia das Metralhadoras e Morteiros, elementos dos seus Pelotões
eram cedidos às Companhias de Fuzileiros, na base de uma Seção
para cada Companhia. No entanto, após Montese, minha Companhia
marchou em direção ao Vale do Pó com seu efetivo
total em perseguição ao inimigo. Assim, após Montese, as Companhias empenharam-se na perseguição ao inimigo, casa por casa, para eliminar toda e qualquer resistência. Os alemães fugiam chegando a matar cavalos, deixando-os, muitas vezes, nas estradas minadas. Em certas colônias por onde passávamos, éramos informados de que os tedescos haviam saído duas horas antes. Assim, estivemos sempre nos calcanhares dos alemães, até a rendição incondicional de duas de suas Divisões e uma italiana. Com relação
ao clima europeu, os soldados brasileiros, saídos de um país
tropical, sentiram o frio rigoroso do inverno, mas os casos de pé-de-trincheira,
congelamento dos vasos sanguíneos e hospitalização,
foram muito poucos. Os soldados procuraram defender-se, tirando o
coturno e colocando dentro da galocha capim de feno triturado com
pó antisséptico e meia de lã, uma ação
aprovada por todos no front, porque permitia a movimentação
dos dedos e uma boa circulação do sangue nos pés. Os alemães eram muito astutos, atiravam muito bem de morteiro e chegavam sempre tentando envolver o soldado brasileiro. O aspecto físico e a aparência, no entanto, deixavam a desejar. Percebia-se uma má nutrição, uniformes já em mal estado, cenho franzido, enfim, o alemão era um soldado triste. Mantinham-se sempre dentro de suas casamatas profundas, para se defender da nossa Artilharia e das patrulhas brasileiras, que eram constantes, bem equipadas e armadas. Tratava-se, no entanto, de um inimigo experimentado, instalado em posições dominantes, pronto e ansioso para matar. Embora já conhecido de muitos, um fato marcante foi quando se encontrou uma cruz erguida pelos próprios alemães, bem junto das suas posições, em covas rasas, com os dizeres: “Aqui jazem três heróis brasileiros.” Eram integrantes do 11º RI, soldados Arlindo da Silva, Geraldo Baeta e Geraldo Rodrigues. Cercados, não se entregaram; lutaram até a morte. Tanto no inverno, com a temperatura a vinte graus negativos, quanto na primavera, o procedimento dos soldados foi o mesmo, com muita bravura. Enfrentaram, no inverno, o frio e a neve, realizando, com êxito, patrulhas difíceis, valendo-se de capa e capuz brancos para conviver com aquela situação completamente nova. A neve caía por toda parte, nas árvores desfolhadas, nos abrigos gelados, nos uniformes dos homens e no leito das estradas, que precisavam ser mantidas em condições de tráfego. O Capitão Adhemar Rivermar de Almeida, S3 do I Batalhão do 11º, hoje Coronel, em seu livro Montese – Marco Glorioso de uma Trajetória, diz textualmente: “Por mais que a neve caísse, não conseguia transformar em todo branco o cenário principal da frente de batalha, pois a Artilharia e os morteiros, de ambos os lados, continuavam, quase sem interrupção, a escurecê-lo com as crateras deixadas pelas explosões de suas granadas.” Releva citar que, tanto para oficiais e sargentos como para cabos e soldados, a vida era a mesma. Comandantes de Batalhão, capitães e tenentes viviam com seus homens nas mesmas condições. Essa foi a realidade! O relacionamento
com a população local foi o melhor possível.
Por onde passávamos, éramos recebidos carinhosamente.
Houve diversos comentários na Itália de que preferiam,
no caso de uma intervenção temporária por tropa
estrangeira, que fosse por brasileiros em primeiro lugar e, em segundo,
pelos americanos. O apoio logístico prestado às tropas brasileiras não podia ter sido melhor, com equipamentos novos e transporte sempre à mão. Os jipes mostraram-se indispensáveis, pois eram rápidos e próprios para qualquer terreno, inclusive para realizar, em boas condições, a evacuação na frente de combate. O apoio de saúde à tropa foi completo: qualquer problema no front, inclusive ferimentos de não-combatentes e prisioneiros de guerra, todos eram imediatamente recolhidos aos hospitais mais próximos, onde recebiam apoio de médicos e enfermeiras brasileiros e americanos. O apoio religioso
foi constante. Os capelães iam ao front prestar os serviços,
principalmente antes das grandes patrulhas e dos combates. Não
poderia deixar de mencionar a morte do Capitão-Capelão
Frei Orlando, do nosso Regimento, que morreu baleado acidentalmente
por um partisan, quando se deslocava para o front. Eu me encontrava
em segunda linha, próximo de onde ocorreu o acidente, entre
Guanela e Silla. Vi o corpo do Frei Orlando sendo retirado pela retaguarda
de um caminhão, quando este fez uma pequena parada. Foi uma campanha
rica em resultados concretos, que obteve o reconhecimento dos aliados
e do mundo por tudo que o Brasil e o glorioso Exército Brasileiro
realizaram. A FEB lutou ombro a ombro com as grandes nações
pela liberdade dos povos. Os italianos colocaram em cima de cada casa
uma bandeira branca, simbolizando a paz tão desejada após
tanto sofrimento. Nós comemoramos emocionados, pois tínhamos
agora a certeza de nosso regresso à Pátria querida e
aos braços de nossas famílias. A chegada da FEB ao Brasil foi uma apoteose, com muitos aplausos pelo povo nas ruas. Ao desembarcarmos, fomos recepcionados pela primeira-dama do País, Senhora Darci Vargas, que distribuía sanduíches para os soldados antes do início do desfile, que começou em coluna por seis e terminou em coluna por um, com a invasão do povo na ânsia de aplaudir e abraçar os combatentes que voltavam. Creio que houve
uma modificação no procedimento e na disciplina dentro
do Exército como conseqüência de sua participação
na Campanha da Itália. Antes, quando vivíamos sob o
regime francês, era muito cruel. Ouvíamos os sargentos
dizerem durante as instruções que poderíamos
quebrar nossas cabeças, mas de jeito algum deixar o fuzil cair.
No entanto, os americanos diziam para pouparmos nossas vidas, pois
valíamos muito mais que qualquer tipo de material. FONTE: FOTOGRAFIAS: Página Principal - www.anvfeb.com.br
|
||||