Nasceu
em Joaíma – MG. Foi incorporado ao Exército no 10º
Regimento de Infantaria com sede em Belo Horizonte, em março
de 1942, como voluntário. Foi promovido à graduação
de cabo em setembro de 1942 e a 3º Sargento em setembro de 1943.
Transferido para o 11º RI em março de 1944, embarcou para
o Rio de Janeiro como estacionador do Regimento. Em setembro, do mesmo
ano, deslocou-se com o Regimento do acampamento na Vila Militar –
Morro do Capistrano – para bordo do navio americano Gen Meighs
com destino ao Teatro de Operações na Itália.
Em
dezembro, foi ferido em combate, em Abetaia – Monte Castelo, quando
comandava o seu Grupo de Combate, tendo sido, em conseqüência,
internado no hospital de emergência em Livorno. Em março,
foi evacuado para o Brasil e internado no Hospital Central do Exército.
Em junho, foi julgado incapaz para o Serviço do Exército.
Em outubro, o Diário Oficial publicou a sua reforma no posto
de 2º Sargento. Os Diários Oficiais de 29 de março
de 1947, de 22 de abril de 1957 e de outubro de 1973, publicaram respectivamente
suas promoções a 2º Tenente, 1º Tenente e Capitão.
De janeiro de 1946 até o ano de 1961, participou, como fundador,
da Associação dos Ex - Combatentes em Belo Horizonte,
onde exerceu vários cargos inclusive o de Presidente por quatro
mandatos intermitentes. Hoje, pertence a Associação dos
Veteranos da FEB – ANVFEB – Seção de Belo
Horizonte, onde é Diretor. Dentre as condecorações
que lhe foram outorgadas, por sua participação na Segunda
Guerra Mundial, destacam-se: Cruz de Combate de 1ª Classe, Medalha
Sangue do Brasil, Medalha de Campanha e Medalha de Guerra.
Capitão
Divaldo Medrado*
* 3º Sargento Comandante do 1º Grupo de Combate do 2º
Pelotão de Fuzileiros
da 1ª Cia.do I Btl. do 11º Regimento de Infantaria, entrevistado
em 24 de novembro de 2000.
No desenrolar da Segunda Guerra Mundial, o Brasil encontrava-se sob
o regime político do Estado Novo, implantado pelo Presidente
da República Getúlio Vargas, que foi considerado um golpe
que perdurou até 1945. A primeira preocupação de
nosso País, bem como das demais nações do continente
da América do Norte, Central e do Sul foi a de se declararem
neutros. Os países americanos manifestaram sua neutralidade,
no Panamá, em outubro de 1939, sob a liderança do Presidente
dos Estados Unidos, Franklin Delano Roosevelt.
Na Europa, o nazi-fascismo continuava o seu propósito de domínio,
invadindo países. Em conseqüência, houve a capitulação
da França, que provocou uma reação no Brasil e
em todo o mundo. Com o avanço espetacular e surpreendente das
tropas do Eixo, as nações americanas se sentiram ameaçadas,
muito embora se mantivessem em absoluta neutralidade, razão que
provocou uma nova reunião dos chanceleres americanos, no mês
de julho de 1940 em Havana, tratava-se da Organização
dos Estados Americanos. Deliberou-se, então, que todo atentado
ocasionado por Estado não americano que atingisse a integridade
ou a independência política de um dos estados americanos
seria considerado como um ato de agressão a todos os que firmaram
aquela declaração.
O violento e covarde ataque a Pearl Harbor, no Havaí, perpetrado
pelo Japão em 7 de dezembro de 1941, fez com que o governo brasileiro,
honrando as tradições de sua política externa e
ainda na mais justa solidariedade aos Estados Unidos, anunciasse, no
dia 28 de janeiro de 1942, na terceira reunião dos chanceleres,
o rompimento de suas relações com a Alemanha nazista,
Itália fascista e o Japão.
Em virtude dessa ruptura com o eixo nipo-nazista-fascista, surgiu a
necessidade do Brasil resguardar o seu extenso litoral, patrulhando
as costas brasileiras do Sul ao Norte, dando proteção
aos navios mercantes que transportavam produtos, passageiros militares
e civis e outros bens de interesse nacional. Não se pode deixar
de acentuar que nossos navios mercantes singravam desarmados.
O governo brasileiro, por solicitação dos Estados Unidos,
cedeu o litoral da Região Nordeste para instalação
de bases aéreas, enquanto perdurasse o conflito mundial. Os nazi-fascistas
haviam torpedeado dezenove navios mercantes brasileiros, de fevereiro
até agosto de 1942, apesar do nosso esforço na tentativa
de assegurar a proteção das nossas costas.
Esse estopim fez com que a nação brasileira se inflamasse,
agitando-se mais ainda com os afundamentos de cinco navios mercantes
nacionais: Baependi, Anibal Benévelo, Araraquara, Itagiba e Arara,
que ocorreram em apenas três dias, 15 a 17 de agosto de 1942,
nas praias do Estado de Sergipe, com a morte inaceitável de 607
brasileiros que viajavam inocentemente. Essas agressões fomentaram
uma grande revolta em nosso País, trazendo o povo às ruas
com protestos justos e veementes. Exigiam do governo medidas reparadoras
à altura dos atentados recebidos. Essas manifestações
ocorreram em todos os recantos do território nacional.
Face a esse grave acontecimento, o governo não teve outra alternativa
e, em 31 de agosto de 1942, declarou guerra à Alemanha nazista
e a Itália fascista. Ainda em virtude desses atentados à
nossa soberania, surgiu, também como resposta, a intenção
de enviar uma força militar ao velho mundo, nascendo, assim,
a 1a Divisão de Infantaria Expedicionária, complementada
por diversos órgãos não divisionários, mas
de capital importância, como o Depósito de Pessoal, denominada
Força Expedicionária Brasileira – FEB, decisão
tomada em conseqüência da visita do nosso Ministro da Guerra,
General Eurico Gaspar Dutra, aos Estados Unidos da América.
A FEB foi organizada nos moldes americanos, com tropa de todas as armas,
serviços e outros órgãos de apoio logístico.
Constituída de uma Divisão de Infantaria Divisionária
e de órgãos não divisionários assim efetivados:
três Regimentos de Infantaria – o 1º Regimento, Regimento
Sampaio, do Rio de Janeiro; o 6º Regimento, de Caçapava,
São Paulo, e o 11º Regimento, Regimento Tiradentes de São
João del-Rei, em Minas Gerais; quatro Grupos de Artilharia, três
do Rio de Janeiro e um de São Paulo; um Batalhão de Engenharia,
um Batalhão de Saúde, um Esquadrão de Reconhecimento
Mecanizado, uma Companhia de Transmissões, uma Esquadrilha de
Ligação e Observação e unidades menores,
além de outros serviços.
Os componentes da FEB eram submetidos a uma rigorosa inspeção
de saúde e seleção física, tantos os militares
da ativa, como os da reserva convocada e, posteriormente, recebiam um
rigoroso e intensivo treinamento para o melhor desempenho no front.
Essa etapa de formação da FEB foi realmente muito difícil
e complexa. Os quartéis ficaram abarrotados e, em conseqüência,
os alojamentos e refeitórios. As instalações sanitárias,
que já se mostravam precárias, rudimentares e insuficientes
às praças da ativa, não atendiam à sobrecarga
advinda da convocação.
As filas intermináveis para o uso das instalações
do rancho e dos banheiros criavam um ambiente de descontentamento, que
só era contido pela rígida disciplina. Era comum encontrar
os convocados amontoados nos alojamentos, com seus pertences espalhados,
por falta de armários para todos e até mesmo alojados
nas estrebarias. Em virtude da confusão existente, os sargentos
e os cabos, diretamente ligados aos convocados para a revista, sentiam
dificuldades em aplicar normas disciplinares. Todos aguardavam com muita
ansiedade o resultado da inspeção de saúde, sendo
muito desejado, por razões inúmeras, a volta às
suas origens.
Os soldados que pertenciam ao nível social mais elevado objetivavam
uma dispensa do serviço militar e lutavam desesperadamente para
obtê-la. Os oriundos do meio rural, de restrito poder aquisitivo,
“ficavam de olho” no rancho, por não terem acesso
aos vendedores ambulantes, que circulavam pelos quartéis oferecendo
comestíveis, normalmente desprovidos de qualidade e higiene.
Face aos problemas anteriormente apontados, não seria difícil
concluir as razões que certamente motivaram desestímulo
e deserções.
Todas essas anomalias perduraram por um tempo em prejuízo da
organização do corpo expedicionário. Muitos convocados
do meio rural que não eram letrados aceitaram humildes e conformados
sua inclusão no contingente da FEB, enquanto a maioria dos bem
situados financeiramente conseguiu desligamento por razões inúmeras
vezes infundadas. Abro um parêntese para cumprimentar a todos
os que, pelo seu serviço, brio e coragem, representaram dignamente
a Pátria querida nos campos da Itália.
Participei de exercícios no 10º RI, depois no 11º RI
em São João del-Rei e, por último, no Rio de Janeiro,
onde prossegui o meu estágio de manejo, com tiro real, do armamento
existente no campo de Gericinó, exercício de desembarque,
em navio improvisado, no parque de instrução e no Morro
do Capistrano, na Vila Militar.
As marchas de grande distância eram realizadas com o equipamento
completo. A que mais me impressionou foi a que ocorreu após o
desfile de despedida na Avenida Rio Branco, quando saímos da
Praia de Botafogo até a Vila Militar. Nesse percurso de 35 km,
recebemos diferentes homenagens e até lanches, servidos pela
população, que sempre nos aplaudia.
O transporte da tropa para o Teatro de Operações ocorreu
em cinco escalões, sendo que os 2º e 3º Escalões
deixaram o Rio de Janeiro praticamente juntos. O embarque do 3º
Escalão, do qual fazia parte o 11º RI, ocorreu no navio
General Meighs, na data de 20 de setembro de 1944 e a partida em 22.
Tudo foi realizado dentro do maior sigilo, para evitar a ação
da Quinta-Coluna que poderia comprometer a segurança do embarque,
como também da própria viagem. No dia do embarque, fomos
surpreendidos com a visita do senhor Presidente da República,
Dr. Getúlio Dorneles Vargas, cujas palavras de estímulo
e encorajamento nos emocionaram. Na ocasião, ele se despediu
dizendo: “Nada vos faltará, nem a vós e nem às
vossas famílias”.
O transatlântico General Meigs transportou cinco mil e quinhentos
homens aproximadamente. A tropa do navio era livre durante o dia, com
práticas esportivas, cinema e outras atividades, porém,
ao anoitecer, era recolhida aos compartimentos, para que o inimigo não
tivesse a oportunidade de localizar o comboio, composto por dois navios
de transporte imensos, ambos com a mesma capacidade.
Havia um alarme que era acionado para os exercícios de abandono
do navio e muitas vezes o alarme funcionava para outras situações,
além das referentes aos exercícios, porém, não
tínhamos o exato conhecimento dos motivos. Com relação
aos primeiros exercícios, houve uma certa apreensão da
tropa, mas no decorrer da viagem, todos nos acostumamos ao referido
alarme e a travessia como um todo, cuja duração foi de
14 dias e 14 noites.
Apesar de todo o preparo, existia sempre uma incerteza sobre a segurança
da viagem, somada a dois aspectos que me preocupavam antes de minha
entrada na linha de frente. A primeira era a incerteza do meu comportamento
diante do inimigo e a segunda, o grande receio de sofrer um acidente
antes de chegar o momento da participação efetiva em combate
para o qual me havia preparado.
A minha participação na FEB foi debaixo da mais viva emoção
e entusiasmo, porque, como muitos outros, orgulhava-me da grande oportunidade
de prestar ao meu país um serviço relevante. Fui à
guerra e dela participei como 3º Sargento, Comandante de um Grupo
de Combate (GC), função considerada da maior importância,
pois era o GC que sempre atuava nas patrulhas, que se tornaram imprescindíveis
aos escalões maiores, sobretudo às companhias e aos pelotões,
antes de qualquer ataque, porque traziam preciosas informações
sobre o inimigo, sobre o terreno a ser palmilhado, sobre campos minados
e sobre meios necessários à ação a ser desencadeada.
Enquanto Comandante do 1º Grupo de Combate, do 2º Pelotão,
da 1ª Companhia do 11º RI, empenhei-me no trabalho, mesmo
quando o frio rigoroso da Itália transformava a água dos
rios em gelo, havendo dificuldades de toda ordem para os deslocamentos,
particularmente pelas características do terreno acidentado dos
Apeninos, problema agravado, no inverno, pela neve que cobria tudo.
A tropa da FEB somente teve um contato maior com o armamento americano
após o desembarque na Itália, mesmo assim, com deficiência,
em virtude da exigüidade de tempo para o treinamento no manejo
das armas que iríamos usar em combate. Os oficiais e sargentos
tiveram melhor oportunidade nesse manuseio, através de aulas
específicas, passando sua experiência aos comandados que
estavam posicionados na linha de frente. Dessa forma, fomos nos familiarizando
com as armas, dia após dia, em plena campanha.
Com a minha entrada na linha de frente, livrei-me dessas duas incertezas,
principalmente pelo meu comportamento correspondendo às expectativas.
Fiquei bastante aliviado quando me ocorreu a aceitação
do que pudesse me acontecer, inclusive a morte como o fato de maior
gravidade, pois, dessa forma, teria cumprido o juramento que um dia
fiz ao meu País: “Morrer, se necessário, em sua
defesa.” Naturalmente, com todo o meu esforço, voltado
não só para minha defesa pessoal, mas, sobretudo, para
a segurança do grupo de combate que eu comandava. Com essa aceitação,
senti-me capaz de realizar com eficiência a minha missão.
O início da Campanha da FEB, no Vale do Rio Serchio, ficou sob
a responsabilidade do 6º RI, o que ocorreu a partir de setembro
de 1944. As dificuldades encontradas eram de uma certa maneira esperadas,
em virtude de se tratar do início de campanha. No entanto, tudo
foi superado com vitórias sucessivas, fruto do correto desempenho
da tropa do 6º RI em sua ação sobre o inimigo que,
surpreso, não teve condições de suportar o ímpeto
da tropa brasileira que foi conquistando, sucessivamente, as posições
que os nazistas não conseguiam manter. A euforia pelas freqüentes
vitórias foram tão contagiantes que despertou na tropa
um sentimento de exagerada confiança.
A minha Unidade, como todas as demais, sofreu igualmente as maiores
dificuldades na execução de suas missões. O rigoroso
inverno coincidiu com o início da campanha para o meu Regimento,
para a 1ª Companhia do I Batalhão do 11º RI. Outro
detalhe é que tínhamos pela frente um terreno minado e
o inimigo fortemente abrigado nas montanhas, com total visão
de nossas posições, que conheciam muito bem.
A 1ª Companhia, a qual eu pertencia, participou do ataque a Monte
Castelo, na madrugada de 12 de dezembro de 1944. Na manhã desse
dia, partimos decididos para atacar e tomar Monte Castelo. Essa era
a missão do meu Regimento, da minha Companhia, do meu Pelotão
e do meu Grupo de Combate. Fizemos um esforço enorme, porque
o sulco das granadas dos canhões inimigos deixavam o terreno
enlameado de tal forma que atolávamos até o joelho. Chovia
e o córrego que por ali passava já estava petrificado.
O terreno e o clima nos trouxeram muita dificuldade para continuar a
nossa caminhada na baixada. Apesar de tudo, esse ataque trouxe um grande
aprendizado, para todos, inclusive para mim, apesar de haver participado
de uma patrulha na noite anterior naquela Região de Abetaia,
de onde havia recolhido italianos que ainda se encontravam por ali.
O inimigo, durante a madrugada, naturalmente havia-se apoderado daquelas
casas que nós, na noite anterior, havíamos vasculhado
na patrulha que fizemos.
Eu tive a oportunidade de ver passando uma pessoa, que estava descoberta,
de uma casa para outra, e imaginei que pudesse ser um italiano que tivesse
ficado naquele lugar, e que nós não o tivéssemos
recolhido. Entretanto, era realmente um soldado alemão que, de
posse de uma metralhadora, a chamada “lurdinha”, em uma
das janelas desse sobrado, nos fustigou com essa arma de uma maneira
impressionante, não permitindo qualquer movimento nosso.
Nessa altura dos acontecimentos, o meu grupo já se havia derivado
e desviado para o córrego, onde nada mais existia, tudo era somente
gelo. Nesse lugar, procuramos nos acomodar, abrigando-nos. Depois de
trocarmos muitos tiros, do nosso morteiro 60mm e das nossas metralhadoras,
que também cercavam essas casas, realizei um movimento no sentido
de me aproximar de uma posição onde pudesse chegar até
a casa e, nesse momento, quando sinalizava para o meu grupo que se posicionasse
ao meu lado, para que pudéssemos atacar aquela casa, recebi uma
rajada de metralhadora, que me deixou ferido.
Meu Grupo de Combate sofreu um abalo, sem dúvida, com aquela
situação, todavia nós não desanimamos e
tentamos continuar a nossa progressão, mas sem sucesso. Permaneci,
por mais de duas horas, com o meu GC antes de ser removido. Um dos soldados
de meu Grupo ajudou-me, fazendo um curativo individual que cada um de
nós carregava na cintura. De certa maneira, paralisou a hemorragia,
porém, não foi feito o curativo em um tiro de raspão
que recebi no pescoço, o que provocou a perda de muito sangue.
Apesar disso, permaneci dando moral ao Pelotão e ao Grupo.
O comandante do Pelotão, ao aproximar-se de mim, verificou que
eu não poderia mais continuar em combate e deu ordens para que
eu fosse retirado, mas a situação estava tão difícil
que os padioleiros não conseguiam chegar para atender aos feridos
ou para recolher aqueles em estado mais grave ou que já haviam
morrido. Então, eu lhe disse que iria retraindo aos poucos, dentro
da minha capacidade, dispensando qualquer ajuda em face da dificuldade
que atingia a todos. E fui. Algumas vezes caía, em seguida erguia-me,
usando todas as forças para conseguir aproximar-me do lugar onde
estavam médicos e enfermeiros. No posto de saúde, ao ver
os médicos, cheguei a recomendar-lhes a necessidade de que fossem
mais à frente porque havia gente ferida nas pernas, que não
podia se movimentar.
Depois
disso, perdi os sentidos. Quando os recobrei, percebi que estava dentro
de uma ambulância, viajando para Livorno. Nesse lugar, tive um
tratamento muito bom, um atendimento excelente e imediato, leitos confortáveis,
serviço de enfermagem completo, médicos muito atenciosos
e competentes.
Meu retraimento foi uma epopéia, pois estava praticamente sozinho;
abri mão do auxílio de um sargento do Pelotão de
Petrechos, porque entendi que a permanência dele em combate era
necessária. Ele precisava manter o fogo do seu Morteiro 60mm.
Dessa forma, continuei desacompanhado, nessa luta de continuar recuando
em atenção a ordem do Tenente Aloísio, Comandante
do Pelotão, que me impediu de prosseguir à frente do meu
GC, mandando-me retrair de imediato.
Tive a preocupação de permanecer em meu posto o tempo
que foi possível, a fim de encorajar o Grupo, para não
deixar que perdessem o entusiasmo de prosseguir na missão, porque
a situação era muito difícil. O Tenente Aloísio,
ao determinar o meu retraimento, talvez, tenha, com essa decisão,
salvado minha vida.
Não fui o primeiro a ser ferido, havia muitos companheiros feridos
e mortos, inclusive o sargento Lourenço, que estava ao meu lado,
atingido por um tiro mortal no peito. Esse companheiro não possuía
família no Brasil, nem pai, nem mãe e nem esposa. Recordo-me
que, ao datilografar a declaração de herdeiros desse companheiro,
verifiquei que ele não tinha para quem deixar qualquer importância
que, por ventura, viesse a ganhar na guerra.
Com a finalidade de ser submetido a tratamento no Hospital Central do
Exército, fui evacuado para o Brasil, em uma situação
muito melhor. O tratamento no HCE foi muito bom, dando-se uma atenção
especial àquelas pessoas que haviam sido feridas em combate.
Entretanto, no hospital, o atendimento estava, ainda assim, aquém
daquele que nós havíamos recebido na Itália, onde
o pessoal era muito qualificado e dispunha de todos os meios para assistir
os pacientes.
Quanto ao apoio à saúde da tropa brasileira, foram altamente
positivos o carinho, o trato, o conforto, somados à competência
dos médicos e enfermeiras, tanto brasileiros quanto americanos,
tudo muito importante no processo de recuperação dos combatentes.
Comentava-se que aquele que fosse evacuado de imediato do front, chegando
ao hospital, certamente estaria salvo. O socorro aos feridos e acidentados
era realizado com dedicação e desvelo. O serviço
de emergência, com barracas próximas ao front, onde eram
prestados os primeiros atendimentos, proporcionava aos combatentes muita
tranqüilidade.
Em minha permanência como paciente do Hospital Central do Exército
até setembro, tive a oportunidade de assistir à chegada
do 1º Escalão na Avenida Rio Branco, quando estava em plena
recuperação, ainda sem todas as condições.
Apesar disso, tive o prazer de ver o retorno, uma festa apoteótica.
Por minha solicitação, o próprio hospital conduziu-me
à Avenida, e também outros companheiros baixados que participaram
da luta no Teatro de Operações da Itália.
A atuação do soldado brasileiro em combate esteve acima
da expectativa. Possuía criatividade, iniciativa, poder de decisão
no momento exato, tudo aliado à disciplina e à coragem.
Possuía virtudes importantes para um bom desempenho em todas
as missões que lhe eram confiadas, como a resistência à
fadiga e a força de vontade, confirmadas diuturnamente.
Muito embora os nossos profissionais, oficiais e graduados, não
tivessem participado de um longo período de treinamento, apresentaram
um desempenho notável e não encontraram maiores dificuldades
para a correta utilização do armamento e equipamento,
passando aos seus comandados os conhecimentos necessários.
O soldado brasileiro, muito ao contrário do que se poderia esperar,
adaptou-se bem ao inverno italiano, final do ano de 1944 e início
de 1945, e através de sua criatividade, conseguiu superar a baixa
temperatura e o congelamento de pernas e pés, com os recursos
que estavam ao seu alcance. As conseqüências foram sentidas
e reveladas com maior intensidade no período pós-guerra.
Os brasileiros foram recebidos pelos italianos como os seus libertadores.
O povo italiano tinha carência de tudo, de alimentos, segurança
e até mesmo de respeito e consideração. Os italianos
sentiam confiança no soldado brasileiro, o mesmo não acontecendo
com relação ao alemão pelo qual eram tratados com
dureza e pouco caso. O fato dos nossos idiomas terem muito em comum
pela origem na língua latina nos aproximava bastante, facilitando
o nosso relacionamento.
Na medida do possível, os soldados brasileiros colaboravam com
os italianos dando-lhes alimentação, roupas, cigarros
e por que não dizer carinho. Por sua vez, os italianos nos recompensavam,
fazendo referência a nós até em suas canções,
atitude que nos enternecia. Tinham medo, plenamente justificado, do
alemão, do “tedesco”.
A recordação que eu tenho dos soldados nazistas é
de homens usurpadores, que carregavam tudo que representasse valor,
destruíam tudo na retirada imposta pelos vitoriosos. Os “tedescos”
tratavam os italianos de maneira bárbara.
Inicialmente, temos que reconhecer que o soldado alemão fora
preparado por Adolfo Hitler, desde o início da década
de 1930, para uma guerra de conquista. A mente dos soldados foi trabalhada
para que se considerassem uma “raça superior”, idéia
que eles, com grande orgulho, procuravam alimentar e divulgar. Nos seus
campos de treinamento, os oficiais e praças nazistas desenvolveram
e manusearam armamentos fabricados para o domínio do mundo. Possuíam
uma tecnologia avançada, desenvolvida pela indústria bélica
nazista, fato que contribuía para que os militares se sentissem
engrandecidos e capazes de se impor pela força aos demais povos.
Debaixo dessa vivência incômoda e difícil, aprendemos
a lidar com a astúcia e a audácia do nosso inimigo. Tantos
foram os acontecimentos importantes que ocorreram na árdua campanha
dos Apeninos, que a tropa da FEB se mostrou amadurecida e competente
na realização dos seus objetivos. Os destaques a serem
exaltados estão evidentes nas grandes conquistas de Monte Castelo,
após três reveses, de Castelnuovo, de Montese e de Collecchio-Fornovo,
que valorizaram, sobretudo, as Armas brasileiras. Da Itália,
retornamos com resultados concretos, mensuráveis, que apontam
a FEB como vitoriosa sob todos os aspectos.
A campanha dos Apeninos foi, sem dúvida, de grande importância
para a FEB. Cercou-se de bastante dificuldade, em virtude do terreno
muito difícil a ser palmilhado e da falta de experiência
de combate da maioria das tropas da 1ª DIE, que aí foram
receber o seu batismo de fogo, inclusive o meu Regimento. Para agravar
as condições em que operamos, a campanha coincidiu, em
boa parte, com o período de inverno cuja temperatura chegava
a 20 graus negativos. O alemão, aferrado e bem instalado em suas
casamatas, descortinava as nossas posições à sua
frente com grande facili dade e a olhos nus. Na desocupação,
minava todo o terreno e destruía tudo que pudesse servir de abrigo
ou trazer conforto ao novo ocupante.
Diante desse quadro, e para combater o inimigo, precisávamos
de um forte apoio logístico. Em 9 de março de 1943, o
General João Baptista Mascarenhas de Moraes foi convidado a assumir
o comando da 1a Divisão Expedicionária. Ao aceitar prontamente
a indicação, passou, de imediato, a dedicar-se ao apoio
logístico que foi desenvolvido, montado e executado pelo seu
Estado-Maior, contando, desde o início, com a participação
dos Estados Unidos da América, a qual ganhou uma enorme dimensão
a partir do transporte da FEB para Itália, realizado em grandes
navios norte-americanos e, daí para frente, durante toda a campanha.
A minha subunidade, a 1ª Companhia do 11º RI, onde exerci,
como disse, as funções de Comandante de um Grupo de Combate,
recebeu missões bem difíceis. Como as demais tropas, passou
por sérias dificuldades para se adaptar e mostrar um bom desempenho,
superando inúmeras deficiências na medida em que surgiam.
Muitas situações tiveram solução devido
à coragem, à inteligência e ao brilho dos nossos
combatentes. Cumprimos, sem falsa modéstia, com eficácia,
as missões recebidas.
O
apoio religioso foi de grande importância. Permanentemente, contamos
com a assistência religiosa, desde a formação do
Corpo Expedicionário, como durante a travessia oceânica,
nos acampamentos, na linha de frente, nos hospitais. As visitas dos
capelães eram constantes e benéficas, o que nos ajudava
a enfrentar as dificuldades de diversas ordens e, sobretudo, o soldado
alemão.
A campanha da FEB foi constituída de fatos e emoções
inesquecíveis. Reporto-me ao nosso sucesso nos primeiros combates
no Vale do Sercchio; à grande capacidade de adaptação
da nossa tropa; às adversidades e reveses enfrentados; à
inexperiência, à realidade da guerra, à aclimatação,
às ações e reações de um inimigo
com larga experiência de campanha, à luta para impor-lhe
a nossa vontade, às grandes vitórias que vieram após
a escola das patrulhas no inverno e a outros momentos difíceis
e felizes que marcaram a trajetória da FEB. Reporto-me, ainda,
à conquista da população local, pois a maioria
dos integrantes da FEB manteve forte relacionamento com a família
italiana.
Em sua fulgente trajetória, o pracinha brasileiro, humilde e
despretensioso, aniquilou a arrogância e a propalada superioridade
“tedesca”.
As recordações dos chefes e colegas que pertenceram à
minha Subunidade são muitas. Uma referência especial devo
ao Comandante da 1ª Companhia do 11º RI, o Capitão
João Garcia Bueno. Ele havia assumido o comando uma semana antes
do ataque de 12 de dezembro de 1944 a Monte Castelo. O bravo e destemido
Capitão Bueno colocou-se à frente da Companhia e iniciou
o ataque às posições inimigas. Por algumas vezes,
o adverti do risco ao qual estava-se expondo, até que tomou como
seu objetivo uma das casas existentes na Região de Abetaia, o
chamado “corredor da morte”. Como o meu objetivo era uma
outra casa, à sua esquerda, perdi-o de vista. Tomei conhecimento,
posteriormente, que o nosso valoroso Capitão havia sido gravemente
ferido por rajadas de metralhadoras que lhe perfuraram os pulmões.
Na
madrugada do dia 13 de dezembro, meu valente Capitão foi recolhido
pelo seu leal e incansável ordenança, que passou a noite
toda procurando o seu Capitão. Eu ignorava as razões pelas
quais o Capitão Bueno havia sido destacado para o comando da
1ª Companhia. Só muito tempo depois, entendi que ele, Capitão
Bueno, Ajudante-de-Ordens do General Zenóbio da Costa, viera
para levantar o moral da Subunidade, cujo desempenho deixou a desejar
durante o seu batismo de fogo em Casa Guanella, pela falta de controle
emocional do seu primeiro Comandante, o Capitão Cotrim, que,
por esse motivo, foi substituído. Esse fato por si só,
justifica a imensa responsabilidade que repousava sobre os ombros do
nosso Capitão Bueno.
Anos depois, em Belo Horizonte, tomei conhecimento que o Capitão
Bueno se encontrava hospitalizado em um sanatório em Belo Horizonte,
onde fui visitá-lo. O seu estado de saúde era grave, mas
o seu moral e humor estavam sadios. Indaguei ao próprio Capitão
as razões de seu impressionante avanço à frente
de nossa Companhia, naquele fatídico 12 de dezembro. Prontamente,
o Capitão me respondeu que tinha como missão elevar o
moral da Companhia e que havia sido vítima da péssima
atuação do Comandante a quem substituíra.
A nossa conversa foi longa e abordamos diferentes assuntos. Acabei entendendo
exatamente os intentos do bravo e saudoso Capitão Bueno, relacionados
àquela atitude a que eu havia assistido estupefato. Ele tentou
resgatar a imagem negativa deixada pelo seu antecessor na retirada de
Guanella em 2 de dezembro de 1944.
Capitão Bueno foi uma figura exponencial da FEB! Um homem que
teve uma missão difícil: resgatar o moral da 1ª Companhia
do 1º Batalhão do 11º RI. Com a ajuda de Deus, que
é brasileiro, foi retirado da “terra de ninguém”
pelo seu ordenança, praticamente morto, depois de uma noite inteira
caído, na frente de combate, moribundo.
Devo, agora, referir-me a um aspecto importante: a necessidade de assistir
e confortar meus subordinados em horas difíceis, o que era constante
e recíproco. Algumas vezes, com um simples gesto, ação
ou olhar entendíamos que podíamos contar com alguém
ao nosso lado sempre, que nos daria amparo ou estímulo. Percebíamos
com toda a certeza que não estávamos sozinhos. Formamos
um ambiente de enorme confiança, porque sabíamos da existência
entre nós de uma interdependência muito forte e bastante
positiva durante todo o tempo.
Houve muito trabalho com relação à utilização
da propaganda durante a Segunda Guerra Mundial na Itália, creio
que visando a reduzir o moral dos combatentes. Porém, o que foi
feito, na realidade, desconheço, pois estava acima das minhas
observações. Percebia que éramos incentivados,
psicologicamente, à proporção que os êxitos
eram alcançados.
Eu não tive um contato com as outras unidades, pois a minha atuação
se dava apenas no âmbito de meu Regimento. Os comentários
de comemorações eram efetuados no âmbito da Companhia.
Não tive ligação com o 1º Grupo de Caça,
o Senta a Pua, comandado pelo Coronel Aviador Nero Moura. Tomei conhecimento
que esse Grupo realizou um trabalho extraordinário. Tendo sido
muito bem treinado no canal do Panamá e nos Estados Unidos da
América. Esse Grupo recebeu pelo seu excepcional desempenho na
guerra uma honrosa Citação do Congresso norte-americano.
No momento em que soubemos da notícia do término da guerra,
apesar de estar no HCE, no Rio de Janeiro, eu e, com certeza, toda a
Força Expedicionária Brasileira explodimos de alegria
e contentamento, sentindo que, com sacrifício, havíamos
colaborado para a conquista da paz. O contentamento pela conquista da
vitória final, era muito grande, assim como a saudade de todos
os companheiros mortos que jaziam no cemitério de Pistóia.
A tropa queria, sem dúvida, o retorno imediato ao Brasil, como
também ao seio da família. Rever os amigos e, através
deles, voltar as suas origens, ou seja, relembrar de onde havia saído
para atender ao chamamento da Pátria.
O regresso da FEB ao Brasil constou de vários contingentes, de
julho até setembro de 1945, com o desembarque no Rio de Janeiro.
Fiquei em terras italianas até março daquele ano, um mês
antes da campanha realmente terminar. Os últimos combates foram
de 26 a 30 de abril, nas localidades de Collecchio – Fornovo.
Na chegada da FEB, aconteceu uma recepção apoteótica.
O povo compareceu à Avenida Rio Branco, onde ocorreram vários
desfiles, em que os ex-combatentes foram aplaudidos freneticamente.
Muitos pais, esposas e demais parentes estavam desejosos de abraçar
os filhos e interrompiam, por várias vezes, o desfile dos pracinhas.
Esta emoção atingia a todos que se encontravam em volta.
Os feitos da FEB na Segunda Guerra Mundial foram admiráveis e
posso dizer que o Exército Brasileiro tinha um comportamento
antes da guerra e adotou outro, após o regresso da FEB, em virtude
da humanização dos chefes em todos os níveis, conseqüência
natural e benéfica da campanha.
Não apenas no Exército, como também nas Forças
Armadas em geral, processou-se uma enorme transformação,
um gigantesco passo no sentido da evolução da doutrina,
do material que passamos a dispor, dos conhecimentos adquiridos em todos
os níveis. A projeção dos febianos que permaneceram
na ativa provocou muitas vezes mal-estar naqueles que não participaram
do conflito por várias razões, inclusive por injustificado
ciúme. O tempo fez com que essa diferença fosse se apagando,
só desaparecendo por completo, a partir dos anos 1980, com a
maioria dos participantes da FEB já fora do serviço ativo
do Exército. Nas duas últimas décadas, a comunhão
existente entre os febianos e os demais integrantes das Forças
Armadas tem sido a mais completa possível.
Minha participação na Segunda Guerra Mundial não
pode ser avaliada de maneira individualizada. Primeiro, pelo fato de
ter sido ferido, o que me deu a oportunidade de receber o amparo da
Força, apesar de algumas incompreensões.
Atrevo-me, dessa maneira, a fazer referência aos febianos que,
desconvocados, retornaram à vida civil. Ao chegarmos ao Rio de
Janeiro, a desmobilização dos combatentes ocorreu sem
a devida cautela, provocando uma verdadeira catástrofe. Hoje,
sei que a principal razão pela qual a FEB foi apressadamente
desmobilizada deve-se ao fato de que representava, mobilizada, uma força
política autêntica, podendo influir na queda do governo
de então e na formação do novo governo democrático,
o que, obviamente, afetaria a outros grupos políticos detentores
do poder no País. Esse foi o motivo maior do descaso para com
a FEB.
Não resta dúvida de que todos estávamos interessados
em regressar o quanto antes ao seio de nossas famílias. Todavia,
se os convocados, para participar do contingente expedicionário,
foram submetidos a rigorosos exames de saúde, físico e
psíquico, igual procedimento deveria ter sido adotado na dispensa,
com o mesmo rigor. Infelizmente, isso não aconteceu. Os febianos
que retornaram a vida civil foram largados a sua própria sorte.
Uma ingratidão imperdoável!
O Presidente Getúlio Vargas, por ocasião do nosso embarque
para o front, garantiu categoricamente que todas as providências
haviam sido tomadas para que nada faltasse à tropa durante a
campanha, como também à nossa família, até
o retorno vitorioso. A pressa em fazer com que os febianos regressassem
a seus lares não deveria constituir motivo para o descumprimento
das cautelas prometidas. O febiano após 30 dias ou mais, voltou
com sua família às capitais, aos comandos militares em
busca de solução para os seus problemas de saúde
e de amparo que o governo lhe havia prometido.
O febiano, para tratamento de saúde, foi obrigado a idas e vindas
ao HCE e a outros hospitais militares, sofrendo muitas vezes por falta
de recursos, descaso de médicos e enfermeiras ou mesmo de funcionários.
Tudo isso acontecendo devido à desvalorização e
à improvisação de algo que deveria estar esquematizado.
A legislação criada em benefício do febiano: dezenas
de decretos-leis, leis e portarias tiveram objetivos corretos, porém
foram inócuos por não atenderem aos interesses dos pracinhas.
O sargento febiano que, por necessidade de serviço, fosse desligado
do Exército, ao retornar, encontrava os seus subordinados já
promovidos com graduação superior a dele, o que provocava
um grande descontentamento.
Somente com a Constituição de 1988, o Congresso Nacional
concedeu a pensão especial, nos termos do ato das disposições
constitucionais transitórias, Artigo 53, inciso 2, sem, contudo,
atender a milhares de companheiros que pereceram no decorrer desses
43 anos após o término da guerra. Fui testemunha ocular
do sofrimento daqueles com os quais convivia. Hoje, mais tranqüilo,
lembro bem dos meus amigos vítimas daquele abandono.
Minha mensagem final é dirigida a três figuras que me vêm
sempre à mente com ternura e gratidão. A primeira é
àquela criatura simpática, acolhedora, sincera e desprendida,
que foi amiga do pracinha. Refiro-me a então primeira-dama do
País, a digníssima senhora Darci Vargas, criadora e presidente
da Legião Brasileira de Assistência, que tinha como finalidade
atender aos expedicionários e suas famílias. Lastimo por
ela não ter tido a oportunidade de continuar prestando aos febianos
a sua bondosa, carinhosa e necessária colaboração
por razões que ninguém desconhece. A ela dedico o agradecimento
do pracinha da FEB.
A segunda figura é a do pracinha de hoje, em sua maioria octogenário,
que, apesar das tristes ocorrências do passado, mantém-se
firme no seu amor à Pátria, desfilando com todo o garbo,
a despeito da idade, nas comemorações de 7 de Setembro
e, com humildade e alegria, recebendo os aplausos do povo. O febiano,
hoje chamado Veterano da FEB, encontra-se diariamente na sede de suas
entidades, promove o encontro entre eles e a sociedade, mantendo o mesmo
relacionamento fraterno e solidário do front. Por solicitação
de estabelecimentos colegiais e até universidades, fazem palestras
sobre a participação do Exército na Segunda Guerra
transmitindo à juventude brasileira um pouco da extraordinária
atuação da FEB, do seu respeito e amor à Pátria.
Parabéns, pracinhas!
Para finalizar o meu depoimento, destaco o cidadão que se constituiu
na maior e mais importante figura da Força Expedicionária
Brasileira, o Marechal João Baptista Mascarenhas de Moraes. Comandou
a FEB com muita simplicidade, inteligência, eqüidade, senso
de justiça, segurança e determinação. Foi
com equilíbrio e energia, prudência e destemor que honrou
o Brasil na luta e poupou o quanto pôde a vida e sangue dos seus
comandados.
O Marechal Mascarenhas de Moraes foi grande General na guerra e maior
ainda na paz, tinha direito de possuir ambições políticas,
mas preferiu manter-se fiel servidor do seu País. Escreveu a
história da FEB e cuidou de seus subordinados. Lutou bravamente
para a construção do monumento que foi erguido no Aterro
da Glória, no Rio de Janeiro, transportando para o Brasil os
restos mortais daqueles que não puderam voltar à sua pátria
vivos. O Congresso Nacional o homenageou, dandolhe o posto de Marechal,
permanecendo no serviço ativo enquanto viveu. Colocou-o, com
muita justiça, em um pedestal pelo que havia conquistado ao longo
de sua brilhante carreira militar.
Lastimo que não lhe foram oferecidos os meios necessários
para que pudesse lutar, em melhores condições, pelo bem-estar
de seus comandados da Força Expedicionária Brasileira.
A imagem do Marechal João Baptista Mascarenhas de Moraes continua
para cada um de nós da FEB sempre presente, imagem de chefe respeitado
e, como cidadão e militar, será sempre reverenciado. Figura
ímpar, simples, atuante, o amigo de seus subordinados, não
só na guerra como Comandante, mas também na paz. Não
descansava, preocupado conosco. Essa foi uma missão que ele tomou
para si e a cumpriu com perseverança, empenho e de forma marcante,
possibilitando que nossos febianos mortos no Teatro de Operações
da Itália viessem para o Brasil e tivessem um repouso digno,
em sua pátria. Foi uma luta difícil, mal entendida por
muitos, mas que ele deu prosseguimento e a cumpriu com todo denodo e
dedicação.
Profundamente emocionado, dou meu depoimento ao Projeto História
Oral do Exército na Segunda Guerra Mundial, declarando que todos
os nossos insucessos se apagaram quando examinamos o resultado positivo
da campanha. O ótimo desempenho da Divisão brasileira,
a capitulação final do inimigo, assim como o somatório
de esforços das forças aliadas, trouxeram ao mundo a paz
desejada. Aprendi muito no nosso tradicional 11º RI, e, em particular,
na 1ª Companhia do I Batalhão, onde vi homens abnegados
e conscientes, inteiramente voltados para o cumprimento da importante
e patriótica missão reservada ao Exército.
Arquivo
Fotográfico
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| 12
anos |
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30
anos |
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| Cap
Medrado fazendo entrega de Cestas da Associação
( esquerda para a direita)
Rolindo - Hilton Guerra
- Vicente Martins - Vicente
Barcelos |
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| Venerável
Mestre
Loja Maçônica - Fé e Perseverança |
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| Carteira
de Identidade Militar |
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| Carteira
de Identidade Militar |
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| Carteira
do Informativo
"A Cobra Fumando" |
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| Verso
da Carteira do Informativo
"A Cobra Fumando" |
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| Carteira
da Associação dos
Ex-Combatentes do Brasil |
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| Verso
da Carteira da Associação dos
Ex-Combatentes do Brasil |
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| Carteira
do Clube Militar de Belo Horizonte - 1954 |
FONTE:
História Oral do Exército na Segunda Guerra Mundial
FOTOGRAFIAS:
Acervo Cap Divaldo Medrado
e de Roberto R. Graciani

Página
Principal - www.anvfeb.com.br

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