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Você sabe de onde eu venho?
Venho da roça, do engenho,
Dos pastos, dos seringais,
Venho da terra da maninha,
Da terra que não é minha
Como não foi de meus pais.
Venho
lá do alto do moro,
Venho do meio do mato,
Venho da beira do rio,
Venho da praia do mar,
Das febres, do carrapato,
De uma vida de cachorro
Venho da chuva, do frio,
Sem casa pra morar.
Eu
venho das grupiaras,
Do calorão das coivaras,
Da friagem dos garimpos,
Meus pés não estão mui limpos
Que andei sobre tejucais,
Que caminhei noite e dia
Na areia, nos cipoais.
Que corri muitas estradas,
Que catrepei num gravatá,
Que andei levando topadas
Nas ladeiras da Bahia,
Nas ruas de Sabará.
Venho
de Ilhéus, da Laguna,
Das margens do Paraunas,
Das fazendas de café,
Comi bem de manhãzinha,
Rapadura com farinha
E andei dez léguas a pé.
Venho
de longa viagem,
Vim da estação de Triagem
Vim da Rua do Bonfim,
Engoli a gororoba,
Bebi por cima a cachaça,
Vim no “Maria Fumaça”,
Tomei o bonde taioba
Depois do almoço no China.
Vim
do Mangue, das restingas,
Das espinhentas caatingas,
Do cume do Bom Conselho.
Venho de perto do inferno,
Venho do serviço interno
Da mina do morro Velho,
Onde trabalho a porfia,
Tirando ouro pro inglês,
A três desastres por dia,
Duzentos mil réis ao mês.
Vim
do Rio de Janeiro,
De uma pensão familiar,
Do calor de fevereiro,
Capaz de fundir estanho,
Sem água pra tomar banho,
Nem camisa pra trocar.
Vim
já nem sei mesmo de onde
Tanto lugar que nem sei,
Venho do estribo do bonde,
Do guarda-noite solene,
Na fila do querosene,
Que leite nunca comprei.
Venho
das noites de Cana,
Das mãos de um tira bacana,
Dos dez mil do carceragem;
Dos “truques” da malandragem,
Da borracha do agrião.
Venho do xadrez molhado,
Dos berros do delegado,
Dos gritos do prontidão. |
Vim
do “truque” do boteco,
Do samba, do reco-reco,
Venho da forja e do malho,
Vim da farra e do trabalho,
Do quartel e da prisão,
Vim da oficina e da “zona”
Tive até de pedir carona,
Porque não deu o pavão.
Eu
donde venho não minto:
Sou da plebe, sou da arraia,
Venho do Pindura Saia,
Venho do Morro do Pinto,
Venho das farras baratas,
Do cordão das gafieiras,
Vim dos braços das mulatas,
Das crioulas bagageiras.
Venho
do Brasil inteiro:
Sou jeca, sou jornalista,
Alfaiate, ascensorista,
Sou bacharel sem dinheiro,
Estudante sem vintém,
Já tive uma padaria,
Não sou pouca porcaria,
Sou chefe: chefe de trem.
Venho
do Brasil inteiro.
Sou capiau, sou vaqueiro,
Venho do cabo da enxada,
Dos chacos do Corumbá,
Da maleita, da geada,
E da seca do Ceará.
Mas
não venho dos cassinos
Onde os rapazes granfinos
Têm fortunas pra gastar.
Não venho da Quitandinha
Onde a classe igual a minha
Não tem direito de entrar.
Vim
do Bangu, do Santana
Do Braz, da Aldeia Campista,
Vim a pé, não vim num “jeep”,
Não vim de Copacabana
Nem da Avenida Paulista,
Não vim do D.A.S.P ou do D.I.P.
Não
vim pra Quinta Avenida,
Não vim da Coordenação.
Não vim de empregos polpudos,
Vim pra ariscar minha vida,
Vim pra brigar com alemão.
Não
venho da “Pátria Amada”,
Não venho do “Céu de Anil”,
Vim do sertão, da queimada,
Do verdadeiro Brasil.
Vim dos brejos e dos rios.
De cercanias agrestes
Eu venho do casarão
De horrores, misérias, pestes
Que é a casa de Correção.
Venho
de dores ingentes,
Seguindo um caminho longo,
Buscando melhores dias.
Sou da Arraia, sou da plebe,
Sou neto de Cunhambebe,
Sou neto de Tiradentes,
Sou neto de Manoel Congo
Não sou neto de Caxias.
É
melhor que eu não reclame.
Que acabam por me chamar
De “Quinta-Coluna” infame
Se por acaso eu voltar.
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