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Antonio
Amarú, vestindo seu field jacket americano com distintivo
do 5 Exército
Americano.
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Antonio
Amarú nasceu em 1919 na cidade de Cravinhos, região
da Alta Mogiana, interior do Estado de São Paulo. Seguindo
o exemplo da dedicação ao trabalho comum a muitos dos
descendentes da imigração italiana, logo passou a trabalhar
como colhedor em plantações de café.
Mudou-se com sua família para a cidade de São Paulo
por volta dos anos 30, em busca de uma vida melhor. Situaram-se primeiramente
na Vila Romana, à Rua Duílio. Na época, o bairro
era uma vila de operários com predominância de famílias
de origem italiana. Em 1942, Antonio foi convocado para o serviço
militar. Serviu como atirador de morteiro e metralhadora no III Batalhão
do hoje extinto 4º Regimento de Infantaria. No serviço
militar, um de seus companheiros mais próximos era o soldado
Romeu Casagrande, que morava no bairro do Tatuapé, na zona
leste, onde Antonio acabou se fixando com sua família.
Antonio adaptou-se com facilidade à vida militar. Gostava de
atirar com o Smith & Wesson .45, o que lhe garantiu um título
de campeão de tiro de revólver numa competição
realizada em sua unidade. Era também praticante de boxe.
Numa de suas folgas do quartel, Antonio caminhava fardado pelo Vale
do Anhangabaú, no centro da Capital Paulista. Um acontecimento
chamou-lhe a atenção: viu um jovem de aparência
desleixada que importunava um senhor trajando um elegante terno. Antonio
percebeu que o jovem estava prestes a assaltar aquele cidadão.
Ele se aproximou e advertiu o rapaz para que o deixasse em paz. A
reação do jovem foi ríspida: uma resposta grosseira
seguida de um golpe do qual Antonio se esquivou e respondeu com uma
rápida seqüência de jabs e um direto bem aplicado,
que bastaram para dissuadir o rapaz de quaisquer intenções
que tivesse.
O senhor vestindo terno então se identificou: tratava-se de
um major do Exército Brasileiro, que se mostrou agradecido.
Por sua espontânea atitude em defesa daquele senhor, Antonio
foi elogiado em um boletim de sua unidade.
O III Batalhão do 4º Regimento de Infantaria recebia instrução
no Jardim Japão, bairro da zona norte de São Paulo.
Nos treinamentos, Antonio familiarizou-se com as metralhadoras Madsen
e Hotchkiss, os fuzis metralhadora ZB e o modelo 1929 de origem francesa.
Aprendeu também a lidar com os morteiros Brandt, de 81mm.
Quando o governo criou a FEB e determinou quais unidades deveriam
compor a tropa expedicionária, Antonio passou pela inspeção
de saúde. Considerado apto na categoria especial, foi transferido
com Romeu Casagrande e vários outros companheiros do III/4º
RI. A unidade de destino foi o 6º Regimento de Infantaria, de
Caçapava. Antonio e Romeu integraram-se à 2ª Companhia
de Fuzileiros, do I Batalhão.
Em março de 1944, a 1ª Divisão de Infantaria Expedicionária
foi concentrada na Vila Militar, na antiga Capital Federal. A concentração
era necessária para os preparativos finais de envio do contingente
ao além mar. Por outro lado, os soldados que não residiam
no Rio de Janeiro começaram a sofrer com o distanciamento de
suas famílias. Dessa situação, adveio o peculiar
costume de “acender tochas”.
Tochas eram escapadelas não autorizadas que os soldados paulistas
faziam em direção a suas cidades natais. Antonio foi
um desses soldados. Numa de suas idas ou vindas entre São Paulo
e Rio de Janeiro, ele foi pego por uma patrulha. Como “punição”,
Antonio foi transferido do 6º RI para o 1º Regimento de
Infantaria, o “Sampaio”. De fato, um grande número
de soldados paulistas na mesma situação acabou sendo
designado para o regimento carioca. Previa-se que o Sampaio seria
enviado para a Europa à frente dos demais regimentos, o que
evitaria a realização de mais “tochas”.
No entanto, por questões de preparo dos quadros, o 6º
RI acabou partindo no 1º Escalão.
Os antigos companheiros de Antonio, dentre os quais Romeu Casagrande,
agora promovido a cabo, foram os primeiros brasileiros a se engajarem
em combate contra alemães e italianos na Linha Gótica.
Quando o 6º RI se encontrava avançando pelo Vale do Rio
Arno, os 2º e 3º Escalões da FEB embarcaram nos navios
da Marinha Americana General Mann e General Meighs.
A viagem de Antonio não foi diferente daquela de milhares de
outros expedicionários brasileiros: a rotina do navio, o cruzamento
da linha do Equador, e ocasionalmente, lutas de boxe com os marinheiros
americanos da tripulação do navio.
Antonio Amarú agora estava agregado a um dos pelotões
de fuzileiros da 8ª Companhia do Regimento Sampaio. Pelo seu
treinamento no 4º RI, tinha recebido a função de
fuzileiro-atirador: manejava um pesado Browning Automatic Rifle –
fuzil automático que no Exército Brasileiro era conhecido
pela denominação de Fuzil Metralhadora, ou simplesmente
FM.

Cada pelotão de fuzileiros era composto por três Grupos
de Combate. O poder de fogo desses grupos era garantido pelo FM, que
era empregado como uma metralhadora leve, dando apoio ao avanço
dos volteadores (soldados armados de fuzis Springfield 1903 A3), que
tinham como função assaltar as fortificações
inimigas durante os ataques.

Antonio,
à essa época, tinha 24 anos de idade e era um rapaz
de físico desenvolvido pela prática de esportes e instrução
militar. Experiente com armas automáticas, era o homem perfeito
para receber a função de fuzileiro-atirador.

Além
do armamento, Antonio e seus companheiros receberam também
várias peças de equipamento de procedência americana:
field jackets, capacetes do modelo M1, grossos sobretudos de lã,
galochas de inverno, cigarros das melhores qualidades, como Camel
e Lucky Strike.

Na época, não havia a prevenção contra
o fumo que é comum nos dias de hoje. Os cigarros eram importantes
para os soldados, pois ajudavam a distrair e acalmar os nervos. O
tabaco das melhores marcas vinha até mesmo nas latas e caixas
das rações dos tipos C e K, que os expedicionários
consumiam nas linhas avançadas.
Em meados de novembro
de 1944, o batalhão de Antonio (III/1º RI) recebeu sua
primeira missão de combate: substituir o esgotadíssimo
II/6º RI nas temidas e sinistras posições da Torre
de Nerone.
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“Abrigo
na Torre de Nerone, construído pelo Pelotão de
Petrechos da 5ª Cia. do 6º RI”.
Foto cortesia de José Maria Romeu Correa. |
Tratava-se de
uma elevação cujo topo era encimado por uma antiga torre
de vigia do fim do Império Romano ou começo da Idade
Média. Os próprios habitantes da região desconhecem
a datação correta da fortificação. A posição
era um arrojado ponto de observação das linhas alemãs,
que se projetava entre uma série de colinas circunvizinhas
ocupadas pelo inimigo. Havia sido conquistada há poucas semanas,
por elementos da 34ª Divisão de Infantaria americana.
O batalhão do 6º estava em condições muito
precárias: havia problemas de remuniciamento, doenças
respiratórias e pé de trincheira. Era necessário
substituir essa tropa com urgência, e as unidades disponíveis
para a substituição deveriam ser escolhidas dentre os
batalhões recém chegados do Brasil.
A substituição teve início na noite de 20 para
21 de novembro de 1944: os infantes do Sampaio chegavam e aos poucos,
tomavam o lugar dos homens do 6º RI nos fox-holes. Mas mesmo
que os soldados tomassem precauções, era dificílimo
completar a substituição sem que o inimigo se apercebesse:
os mínimos ruídos eram notados, pois a distância
entre posições alemãs e brasileiras era de poucas
dezenas de metros, e os ecos se propagavam pelas ravinas e encostas
de montanhas.
Quando o III/1 RI terminou de ocupar as novas posições,
a noite permanecia calma. No entanto, após algumas horas se
passarem, os alemães começaram a despejar um intenso
bombardeio de morteiros sobre as posições brasileiras.
Antonio encontrava-se dentro de um fox-hole, guarnecendo seu FM. Notou
uma patrulha de infantaria alemã se deslocando por alguns grotões
e junto com seus companheiros, abriu fogo.
Gastou alguns carregadores sobre os inimigos, sem ter certeza de ter
atingido algum alvo, pois logo que os primeiros tiros foram disparados,
a patrulha desapareceu na proteção oferecida pelo terreno.
Aquela atitude dos alemães, no entanto, não foi gratuita:
consistiu, na verdade, de uma provocação para testar
o grau de experiência da tropa nova que acabava de tomar posse
do terreno. Em alguns pontos do tiroteio desencadeado pela patrulha
alemã, várias das armas automáticas do batalhão
foram identificadas pelas chamas de boca emanadas dos canos.
O bombardeio alemão recrudesceu, com maior eficácia.
Após a identificação das posições
das armas automáticas brasileiras, as granadas caíam
com maior precisão. Uma delas caiu próxima ao abrigo
onde Antonio se protegia. Nas proximidades de Antonio, foi morto o
soldado Otelo Ribeiro.
O soldado foi encoberto pela terra que o deslocamento de ar trouxera.
Sentiu o ar se esvair de seus pulmões. Não conseguia
respirar. Fora afetado pelo “blast” da granada. Um tanto
atordoado, o sargento de seu Grupo de Combate determinou que Antonio
descansasse por algumas horas no posto de comando da 8ª Compahia.
Após permanecer por um tempo na segurança relativa do
PC e expelir algumas golfadas de sangue, Antonio retornou às
posições de seu pelotão.
As granadas haviam matado alguns homens e ferido vários outros.
Um deles foi o sargento Yacovo, um dos expedicionários que
mais estilhaços de granada recebeu em seu corpo. A 8ª
Companhia fora bastante desfalcada, e José Serafim, um dos
atiradores de morteiro do Pelotão de Petrechos, havia morrido.
O III/1º RI iria permanecer na Torre de Nerone por um período
relativamente curto. Aquelas posições seriam novamente
ocupadas pelo II/6º RI, e o III Batalhão do Regimento
Sampaio, após período de ajustamento, logo receberia
nova missão, marcada para o dia 12 de dezembro de 1944. Seria
o quarto dos ataques da FEB ao Monte Castelo.
Nesse meio tempo, Antonio ofereceu-se para cobrir o claro deixado
pelo atirador de morteiro de 60mm que havia morrido na Torre de Nerone.
Passou então ao efetivo do Pelotão de Petrechos da 8ª
Companhia de Fuzileiros e outro soldado assumiu sua função
de fuzileiro-atirador de seu antigo pelotão.

No dia 12, o III/1º
RI partiu para o ataque logo pela manhã. A 7ª Companhia
avançava pelo flanco esquerdo, a 9ª Companhia cobria o
flanco direito e a 8ª permanecia no centro, em posição
recuada. Era a clássica formação de ataque em
triângulo com o vértice à retaguarda.
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| Nesta
Foto feita após algumas semanas de front, o desgaste
físico de Antonio Amarú é evidnte pelo
cansaço estampado em se rosto.
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A reação
alemã logo deteve as duas companhias que avançavam mais
à frente, causando um ligeiro recuo de ambas. A 8ª Companhia,
até então continuava a progressão relativamente
imune ao fogo das MG42 e morteiros alemães posicionados nas
casamatas de Monte Castello. Antonio avançava, com a placa
base do morteiro presa às costas. A peça pesava 19,5
kg, e precisava ser transportada desmontada durante os avanços.
Quando a guarnição do morteiro encontrava um ponto favorável
que pudesse oferecer uma posição de disparo, a arma
era rapidamente montada e colocada em ação.
Logo, a companhia de Antonio Amarú encontrou-se no centro do
dispositivo, em posição mais avançada que as
demais. Os tedescos então começaram a concentrar seus
fogos sobre os homens da 8ª Companhia. A seção
de morteiros de Antonio, após efetuar alguns disparos, foi
obrigada a se proteger numa vala lamacenta que cortava o terreno.
Balas alemãs cortavam o ar, estilhaços pontiagudos e
incandescentes voavam para todos os lados enquanto os brasileiros
procuravam diminuir suas silhuetas ao máximo, colando seus
corpos ao chão.
Mais horas se passaram e o comando da divisão brasileira decidiu
interromper o ataque, que havia causado centenas de baixas entre a
tropa, sem no entanto obter êxito no avanço.
Exaustos, tristes, enlameados, com muitos feridos, os homens do III/1º
RI retornaram às posições da base de partida.
Logo, tomariam parte no longo período de atividade de patrulhas
e golpes de mão que ficaria conhecido como “Defensiva
de Inverno”.
Antonio Amarú lembrava-se bem daqueles três meses:
"Quando ficávamos de guarda nos fox-holes mais avançados,
durante os meses de inverno, cada um de nós tirava uma hora
de serviço e descansava três, pois uma hora era o máximo
que se podia agüentar com todos os sentidos em alerta total.
Para este tipo de serviço era necessário estar sempre
em alerta total. O soldado de serviço portava sempre uma arma
automática".
"As três horas de descanso, gastávamos em qualquer
canto que pudéssemos encontrar, ali mesmo nas posições,
sem camas ou qualquer tipo de conforto. Para me agasalhar, eu usava
seis blusas de lã por baixo do field jacket americano, um par
de luvas de lã e por cima um par de luvas impermeáveis,ou
perderia a mobilidade nos dedos, por causa do frio intenso".
Antonio chegou a tomar parte num golpe de mão no auge do inverno.
Junto com seus companheiros, todos vestindo as capas brancas de camuflagem
para a neve apelidadas de “véu de noiva”, avançaram
para assaltar uma casamata inimiga. O inimigo percebeu a aproximação
dos brasileiros de antemão, e frustrou a tentativa de capturar
prisioneiros.
Em janeiro de 1945, o batalhão de Antonio Amarú guarnecia
a localidade de Bombiana, um pequeno vilarejo face a Monte Castello.
Daquela posição, Antonio enviou uma carta a seu tio
no Brasil:
“Itália;
em 15 – de –1- de 1945
Saudações.
Bom Titio Antonio.
Espero que ao receber esta; o sr. e todos estejam gozando a mais perfeita
saúde.
Quanto eu aqui vou indo bem graças ao bom Deus.
Titio estamos passando uma temperatura bem diferente do Brasil. Aqui
há muita neve: É para nós um tanto esquisito
ver a terra coberta de neve: mas quanto à temperatura que ela
causa; devido nossos bons agasalhos nós não a sentimos.
Também já andei em diversos lugares da Itália;
alguns muito interessantes; mas não tão belo como o
Brasil.
Termino enviando abraços aos primos e prima.
Ao Titio e Titia abraços; e abençoem o sobrinho.
Antonio Amarú.”
Essa carta oferece
poucas informações sobre a real situação
em que se encontravam os expedicionários na Itália.
A parcimônia de dados é uma conseqüência da
necessidade de evitar ao máximo informações que
pudessem ser aproveitadas pelo inimigo, caso a correspondência
fosse capturada.
As semanas vividas nas encostas das montanhas iam se passando. Como
agora Antonio cumpria a função de atirador do morteiro
60, ele havia recebido uma pistola 1911 A1, que usava em seu cinturão
juntamente com uma faca de trincheira. Ocasionalmente, o comandante
do pelotão perguntava aos soldados se desejavam receber algum
item em particular, por meio do Quartermaster Corps – o serviço
de Intendência do Exército Americano. Antonio pediu um
cachimbo e tabaco. Os objetos chegaram depois de uns dias, embora
Antonio não tenha se habituado a fumar cachimbo. De qualquer
maneira, este episódio é interessante, pois ilustra
como os exércitos modernos procuravam dar certos tipos de conforto
aos soldados.

Procurava manter
o moral de seus companheiros elevado, por meio de piadas: “se
esses tedescos aparecerem por aqui, acabo com eles na base do sopapo”.
Realmente, Antonio tinha uma bela “patola”, embora soubesse
muito bem que os inimigos eram soldados experientes, de grande perícia.
Mas naquela situação quase animalesca de extremo desconforto,
de imundície impensável, de constante medo da morte
e medo de matar, o bom humor, às vezes forçado, era
uma das poucas válvulas de escape existentes.
Um exemplo da perícia dos alemães pode ser encontrado
a partir do seguinte testemunho de Antonio: “eu nunca vi os
alemães em combate, vi-os apenas já com as mãos
para cima, quando vinham se render”. Nessas situações,
Antonio viu também alguns companheiros mais exaltados cobrindo
os prisioneiros de tapas. Os alemães faziam uso extremamente
efetivo de suas sofisticadas fortificações e conhecimento
de técnicas de camuflagem. O inimigo tornava-se “invisível”
no campo de batalha.
Com o fim do inverno, a divisão brasileira passou à
fase de ajustamento de suas unidades para, juntamente com as unidades
que compunham o IV Corpo de Exército, dar início à
Operação Encore, plano esboçado pelo comando
para tomar posse da linha de elevações com as quais
brasileiros e americanos vinham se defrontando desde fins de 1944.
Coube ao III/1º RI novamente tomar parte no ataque final ao Monte
Castello. A 8ª Companhia de Fuzileiros faria novamente um ataque
frontal. Mas desta vez, a operação havia sido planejada
de forma mais completa. Houve apoio da FAB, um número maior
de granadas de artilharia fora reservado para o ataque e principalmente,
as elevações vizinhas aos objetivos dos brasileiros
seriam objetivos primordiais da 10ª Divisão de Montanha
americana.
Nas tentativas anteriores de ataques, alguns dos fogos que causaram
tantas baixas entre os brasileiros não tinham sido disparados
de Monte Castello, mas sim, de posições vizinhas, como
Mazzancana.
Assim sendo, depois de um ataque coordenado em várias fases
de avanço, os brasileiros poderiam começar a dura subida
até as posições alemãs de Monte Castelo
sem se preocupar com fogos vindos dos morros que flanqueavam os itinerários
de avanço. Mesmo assim, as bem localizadas posições
de metralhadoras e morteiros alemães no próprio Castello
e à sua retaguarda ainda representavam um risco mortal. Parte
do problema estaria solucionado com a tomada das posições
de flanco pelos americanos e pelo I/1º RI. No flanco direito,
para o lado de Valle e Abetaia, o II/11º RI (unidade sediada
em São João del-Rei, Minas Gerais) recebeu o encargo
de realizar um ataque diversionário, para dividir os esforços
dos alemãs na defesa.
Antonio Amarú e seus companheiros começaram a escalada
final de Monte Castelo na manhã de 21 de fevereiro de 1945.
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| Antonio
Amarú de capacete e sobretudo americano ao lado do compamheiro
ivan, do Regimento Sampaio. |
Os pelotões
de fuzileiros de sua companhia avançavam, e à medida
que recebiam fogos de metralhadoras dos alemães, procuravam
por as casamatas fora de combate por meio de granadas de mão,
granadas de fuzil, disparos de lança rojão ou de morteiro.
A seção de morteiro 60mm de Antonio recebeu solicitação
de efetuar disparos contra um espaldão de metralhadora. O apontador
da peça calculou o primeiro tiro e Antonio, que era atirador,
deixou cair a granada dentro do tubo de disparo. A primeira granada
alcançou as proximidades da posição inimiga,
mas não a atingiu em cheio.
O apontador recalculou o tiro, e as granadas voltaram a ser disparadas.
Desta vez, atingiram a posição inimiga com precisão.
Depois de alguns disparos, a arma foi silenciada.
Algumas das casamatas ainda resistiam. No antigo pelotão de
Antonio, o soldado que assumira a função de fuzileiro-atirador
foi atingido por uma rajada. Antonio lembra-se do 3º sargento
Benevides Valente do Monte, comandante de um dos grupos de combate
da 8ª Companhia, durante os lances de assalto a uma das fortificações
alemãs em Monte Castelo:
“No 21 de fevereiro, um alemão que estava com uma Lurdinha
numa casamata matou o sargento Benevides. Quando acabou a munição
dele, o caboclo pediu o penico, mas a turma não deu colher
de chá e passou fogo”.
Antonio refere-se com honestidade ao estado de espírito em
que se encontravam os infantes durante os avanços. Se os prisioneiros
que se entregavam espontaneamente ou feitos durante as patrulhas foram
bem tratados imediatamente após sua captura em muitas ocasiões,
foi também comum que no calor do combate a disposição
da tropa atacante fosse pouco inclinada a aceitar rendições.
Isso podia ocorrer pelo nervosismo, risco que a guarda de prisioneiros
poderia oferecer durante o combate, ou simplesmente porque muitos
dos soldados consideravam que era impróprio para os inimigos
que haviam resistido duramente oferecerem rendição exatamente
para os soldados que até pouco tentavam matar.
Essa era uma das passagens da guerra cuja recordação
apresentava-se dolorosa para Antonio. Anos depois do conflito, muitos
veteranos ainda recordavam-se vivamente do custo em vidas que a guerra
havia causado. Se nos momentos próximos aos combates essas
atitudes eram encorajadas, toleradas ou vistas com naturalidade, o
distanciamento temporal causava a reflexão a respeito da condição
em que todos haviam se encontrado anos antes, e como a violência
e brutalidade da guerra haviam se insinuado para dentro dos combatentes,
adaptando-os e amoldando seu comportamento para responderem a todas
as situações com a mesma violência e brutalidade.
Após a conquista de Monte Castelo, o III/1º RI continuou
empreendendo mais missões de guarda de posições,
patrulhas, golpes de mão, recebendo algumas oportunidades de
descanso.
Na continuidade da Operação Encore, o I/6º RI foi
encarregado de atacar o morro Soprassasso, próximo à
área da Torre de Nerone. Romeu Casagrande, um dos velhos companheiros
de Antonio, continuava servindo na 2ª Companhia do 6º RI.
Ao escalar o Soprassasso com os homens de seu pelotão, Casagrande
foi morto em combate ao pisar em uma mina.
Mais algumas semanas se passaram e a guerra chegou ao fim. O quadro
que os expedicionários agora testemunhavam era de euforia,
vinganças entre a população italiana, colunas
de milhares de prisioneiros marchando em direção ao
cativeiro, seguido de um curto período de tempo em que a tropa
da FEB serviu em tarefas de ocupação do território
inimigo recém capturado. Sua companhia encontrava-se na localidade
de Ca Orso, ao norte do Rio Pó. A miséria espalhada
pela guerra havia causado fome e desespero na população
italiana. Junto com um companheiro, Antonio encheu um bornal de ração
e doces. Ambos saíram em busca de aproveitar aquele suprimento
na obtenção de companhia feminina.
Logo que começaram a caminhar, foram acossados por algumas
crianças italianas em estado aparente de subnutrição.
Os dois soldados brasileiros tiraram algumas latas de ração
de seus bornais, e as entregaram para as crianças. Afinal,
ambos tinham um bom estoque e seu intento de conseguir companhia agradável
para afogar e esquecer a quantidade de desgraças pelas quais
haviam passado na guerra recém terminada não seria frustrado
pela falta de algumas latas de comida e alguns doces.
Andaram mais alguns quilômetros entre vilarejos e novamente
encontraram o mesmo quadro pela frente: mais crianças e mulheres
com fome. Pela segunda vez, tiraram parte das rações
de seus bornais e as repassaram para as crianças.
Ao colocarem os pés para dentro de mais um vilarejo, a cena
se repetiu: crianças pedindo comida nas ruas. Os dois soldados
brasileiros se entreolharam, e esvaziaram seus bornais em benefício
da população civil. Voltaram para seu acantonamento,
pensando que afinal, haviam feito a coisa certa.
No segundo semestre de 1945, toda a FEB já havia retornado
ao Brasil. A maioria esmagadora dos expedicionários era composta
de civis convocados, que receberam baixa do Exército mesmo
antes de retornar à terra natal.
Para muitos, o emprego de antes da guerra não estava mais garantido.
Os antigos membros da FEB começaram então a perambular
pelas ruas do Brasil, em busca de trabalho.
Por volta de 1947, Antonio decidiu trabalhar na Guarda Civil de São
Paulo. Naquela corporação, iria encontrar muitos antigos
expedicionários, que haviam participado da guerra integrando
a Military Police, além de outros veteranos da Infantaria e
outros serviços que também haviam tomado a mesma opção
profissional. Um de seus instrutores foi Vacílio Ganacevitch,
policial experiente que também tomara parte da FEB.
Antonio começou a trabalhar no policiamento de trânsito
no centro de São Paulo. Nas ruas da cidade, não demorou
muito para começar a encontrar outros participantes da FEB
que haviam tido dificuldades de readaptação e problemas
em suas recolocações profissionais. Quando possível,
Antonio procurava ajudar seus antigos companheiros de campanha. Apesar
de também relembrar com freqüência seus próprios
dramas da guerra, Antonio trabalhou por muitos anos como Guarda Civil.
Ocasionalmente, comparecia às comemorações realizadas
pela Associação dos Ex-Combatentes do Brasil –
Seção de São Paulo. Casou-se com Catarina e o
casal teve dois filhos e duas filhas.
Antonio sempre foi consciente de que a guerra trouxe nada além
de sofrimento e miséria para milhões de famílias
ao redor do planeta. Mas sentia um merecido e digno orgulho em ter
participado da FEB com a finalidade de erradicar a ideologia que motivara
o conflito.
Deixou-nos no dia 20 de janeiro de 1999.
FONTE:
Matéria
gentilmente enviada pelo Sr. Cesar Campiani Maximiano,
sobrinho de vet Antonio Amarú.
Autor dos livros "Onde Estão Nossos Heróis"
e "Irmãos de Armas"
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