Sd Antonio Amarú
Ex-Combatente da 2ª Guerra Mundial
Identidade Militar: 1G-290.434

1º RI - Regimento de Infantaria - Regimento Sampaio
Rio de Janeiro, RJ

Antonio Amarú, vestindo seu field jacket americano com distintivo do 5 Exército
Americano.

Antonio Amarú nasceu em 1919 na cidade de Cravinhos, região da Alta Mogiana, interior do Estado de São Paulo. Seguindo o exemplo da dedicação ao trabalho comum a muitos dos descendentes da imigração italiana, logo passou a trabalhar como colhedor em plantações de café.

Mudou-se com sua família para a cidade de São Paulo por volta dos anos 30, em busca de uma vida melhor. Situaram-se primeiramente na Vila Romana, à Rua Duílio. Na época, o bairro era uma vila de operários com predominância de famílias de origem italiana. Em 1942, Antonio foi convocado para o serviço militar. Serviu como atirador de morteiro e metralhadora no III Batalhão do hoje extinto 4º Regimento de Infantaria. No serviço militar, um de seus companheiros mais próximos era o soldado Romeu Casagrande, que morava no bairro do Tatuapé, na zona leste, onde Antonio acabou se fixando com sua família.

Antonio adaptou-se com facilidade à vida militar. Gostava de atirar com o Smith & Wesson .45, o que lhe garantiu um título de campeão de tiro de revólver numa competição realizada em sua unidade. Era também praticante de boxe.

Numa de suas folgas do quartel, Antonio caminhava fardado pelo Vale do Anhangabaú, no centro da Capital Paulista. Um acontecimento chamou-lhe a atenção: viu um jovem de aparência desleixada que importunava um senhor trajando um elegante terno. Antonio percebeu que o jovem estava prestes a assaltar aquele cidadão. Ele se aproximou e advertiu o rapaz para que o deixasse em paz. A reação do jovem foi ríspida: uma resposta grosseira seguida de um golpe do qual Antonio se esquivou e respondeu com uma rápida seqüência de jabs e um direto bem aplicado, que bastaram para dissuadir o rapaz de quaisquer intenções que tivesse.

O senhor vestindo terno então se identificou: tratava-se de um major do Exército Brasileiro, que se mostrou agradecido. Por sua espontânea atitude em defesa daquele senhor, Antonio foi elogiado em um boletim de sua unidade.

O III Batalhão do 4º Regimento de Infantaria recebia instrução no Jardim Japão, bairro da zona norte de São Paulo. Nos treinamentos, Antonio familiarizou-se com as metralhadoras Madsen e Hotchkiss, os fuzis metralhadora ZB e o modelo 1929 de origem francesa. Aprendeu também a lidar com os morteiros Brandt, de 81mm.

Quando o governo criou a FEB e determinou quais unidades deveriam compor a tropa expedicionária, Antonio passou pela inspeção de saúde. Considerado apto na categoria especial, foi transferido com Romeu Casagrande e vários outros companheiros do III/4º RI. A unidade de destino foi o 6º Regimento de Infantaria, de Caçapava. Antonio e Romeu integraram-se à 2ª Companhia de Fuzileiros, do I Batalhão.

Em março de 1944, a 1ª Divisão de Infantaria Expedicionária foi concentrada na Vila Militar, na antiga Capital Federal. A concentração era necessária para os preparativos finais de envio do contingente ao além mar. Por outro lado, os soldados que não residiam no Rio de Janeiro começaram a sofrer com o distanciamento de suas famílias. Dessa situação, adveio o peculiar costume de “acender tochas”.

Tochas eram escapadelas não autorizadas que os soldados paulistas faziam em direção a suas cidades natais. Antonio foi um desses soldados. Numa de suas idas ou vindas entre São Paulo e Rio de Janeiro, ele foi pego por uma patrulha. Como “punição”, Antonio foi transferido do 6º RI para o 1º Regimento de Infantaria, o “Sampaio”. De fato, um grande número de soldados paulistas na mesma situação acabou sendo designado para o regimento carioca. Previa-se que o Sampaio seria enviado para a Europa à frente dos demais regimentos, o que evitaria a realização de mais “tochas”. No entanto, por questões de preparo dos quadros, o 6º RI acabou partindo no 1º Escalão.

Os antigos companheiros de Antonio, dentre os quais Romeu Casagrande, agora promovido a cabo, foram os primeiros brasileiros a se engajarem em combate contra alemães e italianos na Linha Gótica.

Quando o 6º RI se encontrava avançando pelo Vale do Rio Arno, os 2º e 3º Escalões da FEB embarcaram nos navios da Marinha Americana General Mann e General Meighs.

A viagem de Antonio não foi diferente daquela de milhares de outros expedicionários brasileiros: a rotina do navio, o cruzamento da linha do Equador, e ocasionalmente, lutas de boxe com os marinheiros americanos da tripulação do navio.

Antonio Amarú agora estava agregado a um dos pelotões de fuzileiros da 8ª Companhia do Regimento Sampaio. Pelo seu treinamento no 4º RI, tinha recebido a função de fuzileiro-atirador: manejava um pesado Browning Automatic Rifle – fuzil automático que no Exército Brasileiro era conhecido pela denominação de Fuzil Metralhadora, ou simplesmente FM.

Cada pelotão de fuzileiros era composto por três Grupos de Combate. O poder de fogo desses grupos era garantido pelo FM, que era empregado como uma metralhadora leve, dando apoio ao avanço dos volteadores (soldados armados de fuzis Springfield 1903 A3), que tinham como função assaltar as fortificações inimigas durante os ataques.


Antonio, à essa época, tinha 24 anos de idade e era um rapaz de físico desenvolvido pela prática de esportes e instrução militar. Experiente com armas automáticas, era o homem perfeito para receber a função de fuzileiro-atirador.



Além do armamento, Antonio e seus companheiros receberam também várias peças de equipamento de procedência americana: field jackets, capacetes do modelo M1, grossos sobretudos de lã, galochas de inverno, cigarros das melhores qualidades, como Camel e Lucky Strike.

Na época, não havia a prevenção contra o fumo que é comum nos dias de hoje. Os cigarros eram importantes para os soldados, pois ajudavam a distrair e acalmar os nervos. O tabaco das melhores marcas vinha até mesmo nas latas e caixas das rações dos tipos C e K, que os expedicionários consumiam nas linhas avançadas.

Em meados de novembro de 1944, o batalhão de Antonio (III/1º RI) recebeu sua primeira missão de combate: substituir o esgotadíssimo II/6º RI nas temidas e sinistras posições da Torre de Nerone.

“Abrigo na Torre de Nerone, construído pelo Pelotão de Petrechos da 5ª Cia. do 6º RI”.
Foto cortesia de José Maria Romeu Correa.

Tratava-se de uma elevação cujo topo era encimado por uma antiga torre de vigia do fim do Império Romano ou começo da Idade Média. Os próprios habitantes da região desconhecem a datação correta da fortificação. A posição era um arrojado ponto de observação das linhas alemãs, que se projetava entre uma série de colinas circunvizinhas ocupadas pelo inimigo. Havia sido conquistada há poucas semanas, por elementos da 34ª Divisão de Infantaria americana.

O batalhão do 6º estava em condições muito precárias: havia problemas de remuniciamento, doenças respiratórias e pé de trincheira. Era necessário substituir essa tropa com urgência, e as unidades disponíveis para a substituição deveriam ser escolhidas dentre os batalhões recém chegados do Brasil.

A substituição teve início na noite de 20 para 21 de novembro de 1944: os infantes do Sampaio chegavam e aos poucos, tomavam o lugar dos homens do 6º RI nos fox-holes. Mas mesmo que os soldados tomassem precauções, era dificílimo completar a substituição sem que o inimigo se apercebesse: os mínimos ruídos eram notados, pois a distância entre posições alemãs e brasileiras era de poucas dezenas de metros, e os ecos se propagavam pelas ravinas e encostas de montanhas.

Quando o III/1 RI terminou de ocupar as novas posições, a noite permanecia calma. No entanto, após algumas horas se passarem, os alemães começaram a despejar um intenso bombardeio de morteiros sobre as posições brasileiras.

Antonio encontrava-se dentro de um fox-hole, guarnecendo seu FM. Notou uma patrulha de infantaria alemã se deslocando por alguns grotões e junto com seus companheiros, abriu fogo.

Gastou alguns carregadores sobre os inimigos, sem ter certeza de ter atingido algum alvo, pois logo que os primeiros tiros foram disparados, a patrulha desapareceu na proteção oferecida pelo terreno.

Aquela atitude dos alemães, no entanto, não foi gratuita: consistiu, na verdade, de uma provocação para testar o grau de experiência da tropa nova que acabava de tomar posse do terreno. Em alguns pontos do tiroteio desencadeado pela patrulha alemã, várias das armas automáticas do batalhão foram identificadas pelas chamas de boca emanadas dos canos.

O bombardeio alemão recrudesceu, com maior eficácia. Após a identificação das posições das armas automáticas brasileiras, as granadas caíam com maior precisão. Uma delas caiu próxima ao abrigo onde Antonio se protegia. Nas proximidades de Antonio, foi morto o soldado Otelo Ribeiro.

O soldado foi encoberto pela terra que o deslocamento de ar trouxera. Sentiu o ar se esvair de seus pulmões. Não conseguia respirar. Fora afetado pelo “blast” da granada. Um tanto atordoado, o sargento de seu Grupo de Combate determinou que Antonio descansasse por algumas horas no posto de comando da 8ª Compahia. Após permanecer por um tempo na segurança relativa do PC e expelir algumas golfadas de sangue, Antonio retornou às posições de seu pelotão.

As granadas haviam matado alguns homens e ferido vários outros. Um deles foi o sargento Yacovo, um dos expedicionários que mais estilhaços de granada recebeu em seu corpo. A 8ª Companhia fora bastante desfalcada, e José Serafim, um dos atiradores de morteiro do Pelotão de Petrechos, havia morrido.

O III/1º RI iria permanecer na Torre de Nerone por um período relativamente curto. Aquelas posições seriam novamente ocupadas pelo II/6º RI, e o III Batalhão do Regimento Sampaio, após período de ajustamento, logo receberia nova missão, marcada para o dia 12 de dezembro de 1944. Seria o quarto dos ataques da FEB ao Monte Castelo.

Nesse meio tempo, Antonio ofereceu-se para cobrir o claro deixado pelo atirador de morteiro de 60mm que havia morrido na Torre de Nerone. Passou então ao efetivo do Pelotão de Petrechos da 8ª Companhia de Fuzileiros e outro soldado assumiu sua função de fuzileiro-atirador de seu antigo pelotão.

No dia 12, o III/1º RI partiu para o ataque logo pela manhã. A 7ª Companhia avançava pelo flanco esquerdo, a 9ª Companhia cobria o flanco direito e a 8ª permanecia no centro, em posição recuada. Era a clássica formação de ataque em triângulo com o vértice à retaguarda.

Nesta Foto feita após algumas semanas de front, o desgaste físico de Antonio Amarú é evidnte pelo cansaço estampado em se rosto.

A reação alemã logo deteve as duas companhias que avançavam mais à frente, causando um ligeiro recuo de ambas. A 8ª Companhia, até então continuava a progressão relativamente imune ao fogo das MG42 e morteiros alemães posicionados nas casamatas de Monte Castello. Antonio avançava, com a placa base do morteiro presa às costas. A peça pesava 19,5 kg, e precisava ser transportada desmontada durante os avanços. Quando a guarnição do morteiro encontrava um ponto favorável que pudesse oferecer uma posição de disparo, a arma era rapidamente montada e colocada em ação.

Logo, a companhia de Antonio Amarú encontrou-se no centro do dispositivo, em posição mais avançada que as demais. Os tedescos então começaram a concentrar seus fogos sobre os homens da 8ª Companhia. A seção de morteiros de Antonio, após efetuar alguns disparos, foi obrigada a se proteger numa vala lamacenta que cortava o terreno. Balas alemãs cortavam o ar, estilhaços pontiagudos e incandescentes voavam para todos os lados enquanto os brasileiros procuravam diminuir suas silhuetas ao máximo, colando seus corpos ao chão.

Mais horas se passaram e o comando da divisão brasileira decidiu interromper o ataque, que havia causado centenas de baixas entre a tropa, sem no entanto obter êxito no avanço.

Exaustos, tristes, enlameados, com muitos feridos, os homens do III/1º RI retornaram às posições da base de partida.
Logo, tomariam parte no longo período de atividade de patrulhas e golpes de mão que ficaria conhecido como “Defensiva de Inverno”.

Antonio Amarú lembrava-se bem daqueles três meses:

"Quando ficávamos de guarda nos fox-holes mais avançados, durante os meses de inverno, cada um de nós tirava uma hora de serviço e descansava três, pois uma hora era o máximo que se podia agüentar com todos os sentidos em alerta total. Para este tipo de serviço era necessário estar sempre em alerta total. O soldado de serviço portava sempre uma arma automática".

"As três horas de descanso, gastávamos em qualquer canto que pudéssemos encontrar, ali mesmo nas posições, sem camas ou qualquer tipo de conforto. Para me agasalhar, eu usava seis blusas de lã por baixo do field jacket americano, um par de luvas de lã e por cima um par de luvas impermeáveis,ou perderia a mobilidade nos dedos, por causa do frio intenso".

Antonio chegou a tomar parte num golpe de mão no auge do inverno. Junto com seus companheiros, todos vestindo as capas brancas de camuflagem para a neve apelidadas de “véu de noiva”, avançaram para assaltar uma casamata inimiga. O inimigo percebeu a aproximação dos brasileiros de antemão, e frustrou a tentativa de capturar prisioneiros.

Em janeiro de 1945, o batalhão de Antonio Amarú guarnecia a localidade de Bombiana, um pequeno vilarejo face a Monte Castello. Daquela posição, Antonio enviou uma carta a seu tio no Brasil:

“Itália; em 15 – de –1- de 1945
Saudações.
Bom Titio Antonio.
Espero que ao receber esta; o sr. e todos estejam gozando a mais perfeita saúde.
Quanto eu aqui vou indo bem graças ao bom Deus.
Titio estamos passando uma temperatura bem diferente do Brasil. Aqui há muita neve: É para nós um tanto esquisito ver a terra coberta de neve: mas quanto à temperatura que ela causa; devido nossos bons agasalhos nós não a sentimos.
Também já andei em diversos lugares da Itália; alguns muito interessantes; mas não tão belo como o Brasil.
Termino enviando abraços aos primos e prima.
Ao Titio e Titia abraços; e abençoem o sobrinho.

Antonio Amarú.”

Essa carta oferece poucas informações sobre a real situação em que se encontravam os expedicionários na Itália. A parcimônia de dados é uma conseqüência da necessidade de evitar ao máximo informações que pudessem ser aproveitadas pelo inimigo, caso a correspondência fosse capturada.

As semanas vividas nas encostas das montanhas iam se passando. Como agora Antonio cumpria a função de atirador do morteiro 60, ele havia recebido uma pistola 1911 A1, que usava em seu cinturão juntamente com uma faca de trincheira. Ocasionalmente, o comandante do pelotão perguntava aos soldados se desejavam receber algum item em particular, por meio do Quartermaster Corps – o serviço de Intendência do Exército Americano. Antonio pediu um cachimbo e tabaco. Os objetos chegaram depois de uns dias, embora Antonio não tenha se habituado a fumar cachimbo. De qualquer maneira, este episódio é interessante, pois ilustra como os exércitos modernos procuravam dar certos tipos de conforto aos soldados.

Procurava manter o moral de seus companheiros elevado, por meio de piadas: “se esses tedescos aparecerem por aqui, acabo com eles na base do sopapo”. Realmente, Antonio tinha uma bela “patola”, embora soubesse muito bem que os inimigos eram soldados experientes, de grande perícia. Mas naquela situação quase animalesca de extremo desconforto, de imundície impensável, de constante medo da morte e medo de matar, o bom humor, às vezes forçado, era uma das poucas válvulas de escape existentes.

Um exemplo da perícia dos alemães pode ser encontrado a partir do seguinte testemunho de Antonio: “eu nunca vi os alemães em combate, vi-os apenas já com as mãos para cima, quando vinham se render”. Nessas situações, Antonio viu também alguns companheiros mais exaltados cobrindo os prisioneiros de tapas. Os alemães faziam uso extremamente efetivo de suas sofisticadas fortificações e conhecimento de técnicas de camuflagem. O inimigo tornava-se “invisível” no campo de batalha.

Com o fim do inverno, a divisão brasileira passou à fase de ajustamento de suas unidades para, juntamente com as unidades que compunham o IV Corpo de Exército, dar início à Operação Encore, plano esboçado pelo comando para tomar posse da linha de elevações com as quais brasileiros e americanos vinham se defrontando desde fins de 1944.

Coube ao III/1º RI novamente tomar parte no ataque final ao Monte Castello. A 8ª Companhia de Fuzileiros faria novamente um ataque frontal. Mas desta vez, a operação havia sido planejada de forma mais completa. Houve apoio da FAB, um número maior de granadas de artilharia fora reservado para o ataque e principalmente, as elevações vizinhas aos objetivos dos brasileiros seriam objetivos primordiais da 10ª Divisão de Montanha americana.

Nas tentativas anteriores de ataques, alguns dos fogos que causaram tantas baixas entre os brasileiros não tinham sido disparados de Monte Castello, mas sim, de posições vizinhas, como Mazzancana.

Assim sendo, depois de um ataque coordenado em várias fases de avanço, os brasileiros poderiam começar a dura subida até as posições alemãs de Monte Castelo sem se preocupar com fogos vindos dos morros que flanqueavam os itinerários de avanço. Mesmo assim, as bem localizadas posições de metralhadoras e morteiros alemães no próprio Castello e à sua retaguarda ainda representavam um risco mortal. Parte do problema estaria solucionado com a tomada das posições de flanco pelos americanos e pelo I/1º RI. No flanco direito, para o lado de Valle e Abetaia, o II/11º RI (unidade sediada em São João del-Rei, Minas Gerais) recebeu o encargo de realizar um ataque diversionário, para dividir os esforços dos alemãs na defesa.

Antonio Amarú e seus companheiros começaram a escalada final de Monte Castelo na manhã de 21 de fevereiro de 1945.

Antonio Amarú de capacete e sobretudo americano ao lado do compamheiro ivan, do Regimento Sampaio.

Os pelotões de fuzileiros de sua companhia avançavam, e à medida que recebiam fogos de metralhadoras dos alemães, procuravam por as casamatas fora de combate por meio de granadas de mão, granadas de fuzil, disparos de lança rojão ou de morteiro. A seção de morteiro 60mm de Antonio recebeu solicitação de efetuar disparos contra um espaldão de metralhadora. O apontador da peça calculou o primeiro tiro e Antonio, que era atirador, deixou cair a granada dentro do tubo de disparo. A primeira granada alcançou as proximidades da posição inimiga, mas não a atingiu em cheio.

O apontador recalculou o tiro, e as granadas voltaram a ser disparadas. Desta vez, atingiram a posição inimiga com precisão. Depois de alguns disparos, a arma foi silenciada.

Algumas das casamatas ainda resistiam. No antigo pelotão de Antonio, o soldado que assumira a função de fuzileiro-atirador foi atingido por uma rajada. Antonio lembra-se do 3º sargento Benevides Valente do Monte, comandante de um dos grupos de combate da 8ª Companhia, durante os lances de assalto a uma das fortificações alemãs em Monte Castelo:

“No 21 de fevereiro, um alemão que estava com uma Lurdinha numa casamata matou o sargento Benevides. Quando acabou a munição dele, o caboclo pediu o penico, mas a turma não deu colher de chá e passou fogo”.

Antonio refere-se com honestidade ao estado de espírito em que se encontravam os infantes durante os avanços. Se os prisioneiros que se entregavam espontaneamente ou feitos durante as patrulhas foram bem tratados imediatamente após sua captura em muitas ocasiões, foi também comum que no calor do combate a disposição da tropa atacante fosse pouco inclinada a aceitar rendições. Isso podia ocorrer pelo nervosismo, risco que a guarda de prisioneiros poderia oferecer durante o combate, ou simplesmente porque muitos dos soldados consideravam que era impróprio para os inimigos que haviam resistido duramente oferecerem rendição exatamente para os soldados que até pouco tentavam matar.

Essa era uma das passagens da guerra cuja recordação apresentava-se dolorosa para Antonio. Anos depois do conflito, muitos veteranos ainda recordavam-se vivamente do custo em vidas que a guerra havia causado. Se nos momentos próximos aos combates essas atitudes eram encorajadas, toleradas ou vistas com naturalidade, o distanciamento temporal causava a reflexão a respeito da condição em que todos haviam se encontrado anos antes, e como a violência e brutalidade da guerra haviam se insinuado para dentro dos combatentes, adaptando-os e amoldando seu comportamento para responderem a todas as situações com a mesma violência e brutalidade.

Após a conquista de Monte Castelo, o III/1º RI continuou empreendendo mais missões de guarda de posições, patrulhas, golpes de mão, recebendo algumas oportunidades de descanso.

Na continuidade da Operação Encore, o I/6º RI foi encarregado de atacar o morro Soprassasso, próximo à área da Torre de Nerone. Romeu Casagrande, um dos velhos companheiros de Antonio, continuava servindo na 2ª Companhia do 6º RI. Ao escalar o Soprassasso com os homens de seu pelotão, Casagrande foi morto em combate ao pisar em uma mina.

Mais algumas semanas se passaram e a guerra chegou ao fim. O quadro que os expedicionários agora testemunhavam era de euforia, vinganças entre a população italiana, colunas de milhares de prisioneiros marchando em direção ao cativeiro, seguido de um curto período de tempo em que a tropa da FEB serviu em tarefas de ocupação do território inimigo recém capturado. Sua companhia encontrava-se na localidade de Ca Orso, ao norte do Rio Pó. A miséria espalhada pela guerra havia causado fome e desespero na população italiana. Junto com um companheiro, Antonio encheu um bornal de ração e doces. Ambos saíram em busca de aproveitar aquele suprimento na obtenção de companhia feminina.

Logo que começaram a caminhar, foram acossados por algumas crianças italianas em estado aparente de subnutrição. Os dois soldados brasileiros tiraram algumas latas de ração de seus bornais, e as entregaram para as crianças. Afinal, ambos tinham um bom estoque e seu intento de conseguir companhia agradável para afogar e esquecer a quantidade de desgraças pelas quais haviam passado na guerra recém terminada não seria frustrado pela falta de algumas latas de comida e alguns doces.

Andaram mais alguns quilômetros entre vilarejos e novamente encontraram o mesmo quadro pela frente: mais crianças e mulheres com fome. Pela segunda vez, tiraram parte das rações de seus bornais e as repassaram para as crianças.

Ao colocarem os pés para dentro de mais um vilarejo, a cena se repetiu: crianças pedindo comida nas ruas. Os dois soldados brasileiros se entreolharam, e esvaziaram seus bornais em benefício da população civil. Voltaram para seu acantonamento, pensando que afinal, haviam feito a coisa certa.

No segundo semestre de 1945, toda a FEB já havia retornado ao Brasil. A maioria esmagadora dos expedicionários era composta de civis convocados, que receberam baixa do Exército mesmo antes de retornar à terra natal.

Para muitos, o emprego de antes da guerra não estava mais garantido. Os antigos membros da FEB começaram então a perambular pelas ruas do Brasil, em busca de trabalho.

Por volta de 1947, Antonio decidiu trabalhar na Guarda Civil de São Paulo. Naquela corporação, iria encontrar muitos antigos expedicionários, que haviam participado da guerra integrando a Military Police, além de outros veteranos da Infantaria e outros serviços que também haviam tomado a mesma opção profissional. Um de seus instrutores foi Vacílio Ganacevitch, policial experiente que também tomara parte da FEB.

Antonio começou a trabalhar no policiamento de trânsito no centro de São Paulo. Nas ruas da cidade, não demorou muito para começar a encontrar outros participantes da FEB que haviam tido dificuldades de readaptação e problemas em suas recolocações profissionais. Quando possível, Antonio procurava ajudar seus antigos companheiros de campanha. Apesar de também relembrar com freqüência seus próprios dramas da guerra, Antonio trabalhou por muitos anos como Guarda Civil. Ocasionalmente, comparecia às comemorações realizadas pela Associação dos Ex-Combatentes do Brasil – Seção de São Paulo. Casou-se com Catarina e o casal teve dois filhos e duas filhas.

Antonio sempre foi consciente de que a guerra trouxe nada além de sofrimento e miséria para milhões de famílias ao redor do planeta. Mas sentia um merecido e digno orgulho em ter participado da FEB com a finalidade de erradicar a ideologia que motivara o conflito.

Deixou-nos no dia 20 de janeiro de 1999.

FONTE:
Matéria gentilmente enviada pelo Sr. Cesar Campiani Maximiano, sobrinho de vet Antonio Amarú.
Autor dos livros "Onde Estão Nossos Heróis" e "Irmãos de Armas"