No
meio do fogo do inimigo não havia muito o que pensar. Algumas
trincheiras ofereciam vistas privilegiadas. Dava para ver os fogos da
artilharia cruzando o céu. Dava para ver os alemães correndo.
Dava para as posições amigas sendo bombardeadas. Dava
para ver o deslocamento das tropas tentando desbordar as linhas de defesa.
Sem dúvidas nenhuma, a função do veterano Angélico
de Castro era uma das mais perigosas.
Ser municiador do 6º Regimento de Infantaria
da Força Expedicionária Brasileira não era nada
fácil. Exigia-se precisão, sangue frio, ousadia, fé,
entusiasmo, insistência, rapidez e principalmente coragem para
enfrentar os inimigos e a indesejada morte.
O morteiro era inquietante. O ritual do carregamento da peça
era metódico como uma dança macabra coreografada. Um soldado
regulava o alvo. O municiador pegava a granada cuidadosamente e soltava
na boca do cano. Ambos se abaixavam e numa fração de segundos
ela partia veloz, cortando o vento rumo a um destino ignorado.
A
gravidade se aliava a morte. A dupla se encarregava trazer a granada
de volta a terra. A ironia também comparecia em forma de fragmentos
mortais que desfazia a alegria momentânea de alguns inimigos que
julgavam antecipadamente ter escapado do estouro fatal. Apesar do som
ensurdecedor dos tiros e explosões era possível ouvir
gritos desesperados. Diferente não poderia ser, era uma guerra.
Uma guerra não: era a Segunda Grande Guerra Mundial.
Nascido em 04 de janeiro de 1917, na cidade de Dourados, Estado de Mato
Grosso do Sul, o capricorniano Angélico de Castro
sempre se destacou pela determinação e vontade que tinha
ao desempenhar suas tarefas. Talvez esse ímpeto responda a frase
que o veterano sempre repete quando a situação convém:
- Aproveite a vida em quanto pode, pois não sabemos o dia de
amanhã.
Há 48 anos o herói vive com Selanília Amaral Pinheiro.
A união deu ao casal três filhos, seis netos e três
bisnetos. Quando incorporou no 10º Regimento de Cavalaria, em 1941,
não imaginou que chegaria tão longe. Ainda mais quando
recebeu a notícia do comandante do pelotão que iria compor
a unidade do 6º Regimento de Infantaria e partiria em breve para
Europa. A missão: lutar na segunda guerra mundial contra os alemães.
Partiu para Itália no 1º Escalão. Da viagem só
recordações ruins: “Foi terrível.
Não conseguia dormir. Era muito quente dentro do navio. Toda
a jornada foi muito dura. Foram 14 (quatorze) dias e 14 (quatorze) noites
intermináveis. Não via a hora de desembarcar”,
conta o herói.
Quando chegou o dia de pôr os pés em terra firme começou
uma série de treinamentos com os Americanos:
- Tudo voltado para prática. Agimos de forma que quando encontrássemos
os inimigos, deveríamos agir com rigor para que pudéssemos
nos salvar. Estávamos sempre com as baionetas caladas no fuzil.
A
HORA DA COBRA FUMAR.
Demorou
a acontecer o primeiro combate, mas quando ocorreu a cobra fumou literalmente.
Montese e Monte Castelo
foram às batalhas mais ferozes. Angélico conta que o pior
momento na guerra foi às vésperas do ataque à Monte
Castelo: “não lembro bem como os italianos
chamavam o monte se não estou enganado era Monte Acasso (Um monte
de forma arqueada que os italianos chamavam de nariz do monte por causa
de sua forma). Eu estava de serviço em meu posto, no meu quarto
de hora, quando avistei o fogo inimigo. Quando começou os primeiros
tiros do combate da TOMADA DE MONTE CASTELO, a cena foi impressionante”.
Triste mesmo foi à perda do grande amigo Sebastião
Ribeiro. Eles saíram juntos de Ponta Porã
– MS e fizeram todos os trajetos até a Itália. Na
unidade de origem ambos eram atiradores e no 6º RI assumiram a
função de municiadores. Angélico conta como se
fosse hoje o fatídico episódio:
Estávamos em combate. Eu com a equipe do meu atirador e Sebastião
na equipe do outro atirador. Progredíamos com extrema cautela
praticamente com as equipes lado a lado. O silêncio incomodava.
E incomodava muito. A respiração parecia uma forte ventania.
Os locais dos passos dados eram escolhidos com capricho. Até
que para nosso desespero ouvimos o indesejável som da temida
e incógnita granada cruzar o ar. Preferíamos o som da
tensa respiração. Restava-nos fazer o que o treinamento
e o instinto nos ensinaram. Abrigar-se e torcer para que a maldita caísse
longe de nós. Porém, nem tudo que desejamos se realiza.
Toda a equipe do Sebastião foi atingida, em cheio. A morte foi
precisa e acabou com a vida dos amigos. Depois dos combates retornei
para juntar os restos mortais de meu grande companheiro. Foi triste,
mas como eu disse antes, isso é a guerra, e graças a Deus,
eu não sofri nenhum ferimento.
Mas a guerra não teve somente fatos tristes. Angélico
conheceu os lugares históricos e maravilhosos como, Roma e de
lá guardou grandes lembranças: “São
lugares lindos, mas não tenho vontade de voltar. A impressão
é que lá ainda existe a guerra”, comenta
o veterano. A recepção dos Italianos era sempre calorosa,
mas nada que se comparasse com o que o Brasil lhe reservaria no retorno.
Com um largo sorriso no rosto Angélico relata como foi a volta
ao Brasil:
-
Quando estávamos chegando, quer dizer antes mesmos de avistarmos
a terra, houve uma linda recepção por parte da marinha
brasileira com salvas de tiros. Depois ao chegarmos em terra, sinceramente
eu nunca tinha visto tanta gente. A alegria tomava conta de todos. Comigo
estava somente meu primo Pompilho de Castro,
natural de Ponta Porã.
O Exército Brasileiro reconheceu os feitos do herói na
guerra e o condecorou com a Medalha de Campanha.
Quando o conflito terminou exerceu a função de pedreiro.
A estudante Kelly Christina Pinheiro, 27 anos,
destaca a importância de ser neta do veterano: “Bem,
ele é um herói, e nós da família temos orgulho
de tê-lo na família. Ele é nosso pai, principalmente
para mim que sempre morei com ele. Resumindo, meu avô, o Sr. Angélico
de Castro é o meu maior orgulho”.
Da guerra ficou a lição que o herói divulga de
forma simples:
- Guerra não é brinquedo.
FONTE:
A entrevista e as fotos foram realizadas pelo contador Gledson
Douglas Ferreira Araújo
O texto é do jornalista e colaborador Vanderley Santos
Vieira
Material
gentilmente enviado por
Vanderley Santos Vieira – Jornalista
(Colaborador do site)

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