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No
dia de 15 de novembro 1922, nascia, em Campo Grande – MS, Américo
Zeolla. Um homem predestinado a se tornar herói. Quem se encarregaria
de tornar esse fato realidade, seria uma guerra provocada por Adolf
Hitler. Para lutar contra um dos melhores exércitos do mundo
era necessário que o soldado fosse dotado de excelente preparo
físico, disciplina, responsabilidade e conhecimento de suas atribuições
no combate; era imprescindível determinação, abnegação,
agilidade e coragem; era preciso saber sobreviver num campo de batalha,
e, muitas vezes, dentro de uma fria trincheira. Militares eram obrigados
a matar para não morrer, afinal, era uma guerra.
Zeolla sabia que precisava de todos esses atributos, por isso, preparou-se
subjugando sentimentos de ansiedade, tensão, expectativa e medo.
Quando partiu no 2º Escalão da F.E.B., integrando o 9º
Batalhão de engenharia e Combate, o soldado Sapador Mineiro,
Américo Zeolla, fez o que tinha que ser feito nas ofensivas à
Monte Castelo, Montese, Sobrassasso, Castelnuovo, Zocca, Fornovo e Camaiore.
Em Porreta Terme trabalhou exaustivamente na equipe de destruição
de pontes:
“Eu tinha chegado do front. Estávamos alojados num hotel
abandonado. Cansado tomei um banho e fui dormir. Por volta das 8 horas
acordei coberto de poeira e estilhaços. Levantei e fui em direção
ao rancho e encontrei o cabo Valdemar e perguntei-lhe:
- Valdemar, o que foi que aconteceu ontem à noite?
Disse Valdemar
- A artilharia alemã bombardeou isso aqui noite inteira. Você
não ouviu?.
E Zeolla
- Eu estava tão cansado não ouvi e nem senti nada. Ainda
bem que por pouco eles erraram o alvo.
Em Collecchio, a rendição da 148º Divisão
Alemã - menina dos olhos de Hitlher - impressionou o veterano:
“Uma rendição é algo extraordinário,
principalmente quando se trata dos melhores soldados do mundo. Apesar
de arrogantes os alemães foram tratados dignamente. Lembro que
uma Divisão Americana quis tirar o êxito da conquista da
F.E.B. para evitar que isso acontecesse recebemos um aviso para ficarmos
de prontidão, pois, se necessário fosse, haveria confronto
com os americanos. Felizmente isso não aconteceu e a bandeira
aprisionada nessa rendição encontra-se na Associação
dos Veteranos de Curitiba, PR”.
Américo conta que antes de entrar em ação a F.E.B.
recebeu 15 dias de treinamento na Itália. Pouco tempo, mas suficiente
para aprender lidar com novas armas e novas técnicas. Para um
País que não é tradicionalmente beligerante, um
feito exemplar. “Adaptamos-nos muito bem no Teatro de Operações.,
eu sentia a intensidade do patriotismo vibrando na gente”, ressalta
Zeolla.
- Quando retornamos ao Brasil fiquei decepcionado com o governo brasileiro.
Eu era estudante e fiquei jogado às baratas. Não houve
acompanhamento psicológico. Não consertaram aquilo que
eles estragaram na minha vida. Eu queria ser medico e com a guerra meu
sonho acabou. Recordo que na ida fomos submetidos a duas inspeções
médicas. Uma junta de 36 médicos, 18 brasileiros em Campo
Grande, e 18 americanos no Rio de Janeiro. Na volta, não houve
a mesma atenção, ou seja, foram negligentes conosco. Depois
de muitos anos, saíram leis beneficiando veteranos. O Presidente
João Goulart determinou que todos os pracinhas desempregados
fossem aproveitados nos quadros federais. Nos anos 70 houve uma reaproximação
do Exercito e hoje somos devidamente reconhecidos pela nação.
– Relatou Zeolla.
Hoje Zeolla vive tranqüilamente em Campo Grande com a esposa Zailda
Rocha Zeolla, com a qual tem oito filhos, que conseqüentemente,
lhe deram 11 netos e 1 casal de bisnetos. O veterano possui várias
condecorações: Medalha de Campanha, de Guerra, Mascarenhas,
Marechal Machado Lopes e Mérito da Força Expedicionária
Brasileira, todas em reconhecimento aos feitos na Itália. Quando
perguntado qual a lição que a guerra lhe trouxe Zeolla
responde com a experiência de 85 anos de vida:
-
Antes de se envolver em qualquer conflito, é necessário
buscar insistentemente o acordo, o diálogo, o debate e a paz.
Não existem palavras que possam descrever os males que causam
uma guerra. Tampouco, não existem palavras que possam descrever
os benefícios da paz. Como vivi as duas situações,
digo que a paz é infinitamente melhor.
“A
vida por um passo”
Veterano
da Força Expedicionária Brasileira relata uma das piores
noites de sua vida na 2ª Guerra Zeolla!
Tenho uma péssima notícia para você. Sussurrou o
soldado esclarecedor interrompendo a progressão para o pico do
Monte Castelo.
Quando Zeolla viu os olhos arregalados e o suor descer na testa de seu
companheiro naquela fria noite na Itália, tentou ainda iludir-se
perguntando o que já sabia.
- O que foi?
- Acho que perdi....
- Perdeu o que homem?
- Perdi a faixa de segurança. Não a vejo.
Zeolla por um instante emudeceu. Naquele momento a última coisa
que eles tinham a fazer era ficar ali parados a mercê dos alemães.
Não podiam acender lanternas e nem gritar para não denunciar
suas posições. Nem podiam continuar a progressão
sem o auxílio da faixa que limitava e os guiavam sãos
e salvos no terreno minado. No alto do morro uma divisão de inimigos
alemães entricheirados aguardava prontos para contra atacar.
A situação não era nada agradável. Na escuridão
da noite, ambos perderam-se do pelotão e estavam sem comunicação.
Cada minuto ali parados aumentava a indecisão.
Quando eles, ainda estáticos pensavam no que fazer, o indesejável
acontece. Vozes, gritos, rajadas de metralhadoras, tiros de fuzis, pistolas
e revolveres, salvas de canhões e morteiros. Era o início
da temível confusão da guerra.
- Abriguem-se! Abriguem-se! Fomos descobertos! Gritou outro soldado
antes de sair voando ao pisar numa das minas do campo.
A menos de 10 metros, Zeolla se deu conta da força brutal de
um daqueles conjuntos de mecanismos simples guardados dentro de uma
latinha mostrados nas instruções do 6º Regimento
de Infantaria.
Sem poder se mover, agacharam-se para evitar a balas zunindo sobre suas
cabeças, no entanto, para os tiros de morteiros não havia
proteção e cada explosão era mais perto.
“É terrível a sensação de impotência,
fragilidade e inutilidade. Estávamos na frigideira e tínhamos
que decidir se pulávamos para o fogo”. Lembra o veterano.
Olhou para o companheiro deitado ao seu lado. Seus olhos refletiam o
mais puro medo. Para não ser contaminado pelo desespero abaixou
a cabeça e segurou forte o capacete de aço. Naquele instante
parecia ser a única coisa capaz de resistir aquela feroz salva
de tiros, mas, infelizmente, ele não cabia ali dentro.
Após um longo período de intenso ataque o cessar fogo
cala as armas, mas não consegue fazer o mesmo com os gemidos
dos feridos. Zeolla e seu companheiro permaneceram impotentes ouvindo
os pedidos de socorro de seus amigos.
O que parecia ruim tornou-se pior, o horror não tinha cessado.
Aos poucos os gemidos eram abafados por tiros e gargalhadas. Um batalhão
de alemães descia o morro para terminar o serviço.
Zeolla chamou o amigo e disse.
- Temos que optar: as minas ou um tiro seguido de uma gargalhada nazista?
- Não sei.
- Pois eu prefiro arriscar.
- Mas temos munição. Nossos fuzis estão carregados
e ainda nos restam oito granadas!
- Mas o que temos não é suficiente para derrotarmos um
batalhão homem! Não temos nenhuma proteção!
É suicídio! Vou tentar voltar pelo mesmo caminho. Você
vem?
- Não, vou lutar até o último cartucho!
- Pois que Deus esteja com você.
- Zeolla! Se eu não aparecer amanhã na base, por favor,
volte para buscar meu corpo.
Naquele instante Zeolla lembrou da canção do expedicionário:
“Por mais terra que eu percorra, não permita Deus que eu
morra, sem que eu volte para lá”.
Abraçou o amigo, desceu o morro correndo e no terceiro passo...
Gritos e disparos. Zeolla sem olhar para trás continuou sua corrida
kamikase. A cada passo sentia a morte murmurando extasiada em seu ouvido.
- Mina ou Tiro? Mina ou tiro?
Lembrou-se novamente da canção do expedicionário...
“não permita Deus que eu morra...” Até que
os tiros e as vozes cessaram.
Parou atrás de uma árvore exausto, sentou esbaforido e
observou. Viu alguém correndo em sua direção. Engatilhou
sua arma, fez a pontaria e percebeu que seu perseguidor estava tão
desesperado quanto ele. Na escuridão não quis arriscar
e deu o primeiro disparo. Errou. Fez nova pontaria e quando estava prestes
a apertar o gatilho, ouviu:
- Zeolla ! Zeolla! Não atire!
Era o seu amigo.
- Caramba Zeolla... Não era um batalhão não...
Acho que a divisão inteira desceu o morro para terminar o serviço...
Eu sou corajoso, mas não sou trouxa, e nem tenho peito de aço.
Ambos caíram na risada e resolveram esperar a chegada do sol
para continuar à caminhada. A sorte já havia feito o suficiente
por uma noite. Quando amanheceu, ironicamente, perceberam que passaram
o resto da noite ao lado da faixa de segurança.
61 anos depois do término do conflito os vestígios da
guerra ainda permanecem em Zeolla.
- O clarão, a explosão, o grito de dor e a imagem do soldado
sendo jogado a metros dali permanecem nítidos em minha memória
até hoje. A batalha de Monte Castelo foi à prova de fogo
e a mais árdua missão. Deus permitiu-me sair ileso e não
foi por acaso. Precisei de 30 anos para aceitar e entender que naquele
dia Américo Zeolla nasceu de novo”, refletiu o Veterano.
Quando enfim caiu as defesas alemã, o dia 21 de fevereiro transformou-se
numa das datas mais importantes para Zeolla e os outros veteranos, pelo
simples motivo de terem sobrevivido à batalha que mais vitimou
brasileiros na 2ª Guerra Mundial. A Tomada de Monte Castelo consolidou
o valor e transformou definitivamente em heróis os soldados brasileiros
que ali lutaram, alguns tombaram, mas no final, venceram.
FONTE:
Matéria gentilmente enviado
por
Vanderley Santos Vieira – Jornalista
(Colaborador do site)

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