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Major
Álvaro Duboc Filho Ex-Combatente da 2ª Guerra Mundial 1910 † 2007 I/1º ROAuR - QG/1ª DIE |
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Posto
ou Graduação: Nesta ocasião o então Coronel Waldemar Levy Cardoso, Comandante do I/1º ROAuR o classificou como “um exemplo a todos que desejam fazer carreira no Exército”. Condecorações:
Fotografias de épocas diversas
Se fosse possível gravar e transmitir o que os Febianos desta região de Minas Gerais e possivelmente de todo o Brasil falam quando se reúnem, acredito que ouviríamos comentários sobre o estacionamento do Morro do Capistrano, no Rio de Janeiro e dos aquartelamentos na Vila Militar, Deodoro, Campinho e São Cristóvão; das “tochas” de fins de semana em demanda as cidades de Juiz de Fora, Barbacena, São João del-Rei e outras, nos trens da então Estrada de Ferro Central do Brasil que, com seus atrasos freqüentes de horários, às vezes só nos permitia abraçar nossos familiares e regressar dos combates simulados no Campo de Instrução do Gericinó e das manobras realizadas em Campo Grande e Recreio dos Bandeirantes com a finalidade de despistar o embarque do 1º Escalão de Tropa. Certamente ouviríamos boatos irônicos, depreciativos e impertinentes sobre o valor do soldado brasileiro, com os quais a chamada Quinta Coluna procurava abalar o nosso entusiasmo e que tanto mal causaram às nossas famílias. Haveria comentários sobre o apelido pejorativo de “pracinhas” e o porquê da “Cobra está Fumando”; sobre o embarque nos navios americanos de transporte de tropa e inegavelmente, sobre a imagem do Cristo Redentor no Alto do Corcovado. Presenciaríamos relatos sobre a travessia do Atlântico; dos treinamentos de abandono de navio, do calor a bordo, das dificuldades de adaptação do nosso paladar à alimentação que nos era distribuída e da náusea que as viagens marítimas produzem; do funcionamento do radar, dos alarmes, das manobras realizadas pelos navios componentes da escolta, dos lançamentos de minas de profundidade e da disciplina a bordo que era rigorosa e que deveria ser integralmente observada com a finalidade de resguardar o segredo do deslocamento. Finalmente, sobre o uso do nosso incômodo e inseparável companheiro de viagem: o salva-vidas. Sobretudo nos seriam relatados assuntos referentes à passagem da linha do Equador, ocasião em que recebemos a visita de “Netuno” e fomos “batizados” com a água do mar; da entrada no Estreito de Gibraltar, onde os navios brasileiros que faziam parte da escolta se despediram “desejando-nos boa sorte e breve regresso”. Assim como do desembarque em Nápoles e da impressão desfavorável que ficou gravada em nossa mente daquele porto destruído, com inúmeros navios adernados; do nosso embarque nas barcaças L.C.I (grande lancha para o transporte de 100 homens) para uma viagem através do Mediterrâneo em direção à cidade de Livorno durante a qual, poucos, bem poucos mesmo, honraram o título de “lobo do mar” que julgavam possuir. Sobre o acampamento em San Rossore, comentariam, por exemplo, sobre a miséria e desorganização da família italiana, vítima daquela catastrófica guerra; da maneira chorosa com que os “bambinos” nos pediam chocolate; das destruições que se observava por toda a parte e da apatia que víamos nos semblantes daquele sofrido povo. Das solenidades do hasteamento de nossa bandeira em solo italiano, que todos, assistiam com muita vibração patriótica mas também com muita emoção; da Santa Missa celebrada em Ação de Graça na Catedral de Pisa e da procissão com a imagem de Nossa Senhora Aparecida em torno da igreja. Todavia não deixariam de omitir fatos sobre as ações de combate, sobre as patrulhas, sobre a chuva, a lama, o frio e sobre as dificuldades surgidas em virtude da topografia do terreno; da traiçoeira neve por nós desconhecida, que escondiam as obras de artes, transmudava diariamente o panorama da região, dificultando assim a nossa orientação. Bem como do nosso pavor ao chamado “pé de trincheira” que consistia no congelamento do sangue nas extremidades e da angústia que a brancura dos campos nevados produzia em nossos corações de brasileiros, acostumados aos campos sempre coberto de verde e o céu sempre azul. Não há como esquecer das granadas dos “tedescos” que passavam assoviando sobre nossas cabeças; das missas celebradas nas encostas geladas das montanhas apeninas, principalmente das celebradas na noite de Natal que foram sucedidas de violentos ataques inimigos em todas as frentes; dos ataques fracassados a Monte Castelo e do aperto no coração que sentíamos ao ver tombar, morto ou ferido um querido companheiro. Sem dúvida, comentariam o nosso contentamento ao receber uma carta da família, especialmente quando a carta continha uma fotografia que era, quase sempre, mostrada a todo mundo, como se diz brasileiramente; sobre as vitórias conquistadas pela FEB, principalmente sobre a de Monte Castelo de Castelnuovo, de Montese e sobre a perseguição ao inimigo através do Vale do Pó, do que resultou o envolvimento de uma divisão alemã, a 148ª Divisão de Infantaria e sua rendição incondicional em Fornovo Di Taro; finalmente, sobre o final da guerra e o retorno à Pátria. Entre esses acontecimentos que são frequentemente lembrados pelos “pracinhas”, principalmente quando se reúnem, vou incluir um que é exclusivamente meu e que não assisti porque aconteceu em Juiz de Fora e eu me encontrava na Itália, mas, mesmo na Itália, fiquei sabendo que, no dia em que foi anunciado, no Brasil, o fim da guerra, a minha filha Zoraydes Izabel, então uma menina de 5 anos, muniu-se de uma bandeira nacional e, juntamente com suas irmãs Débora Zoe e Zilma dos Anjos, respectivamente de 4 e 2 anos, percorreram a Rua Mariano Procópio, onde morávamos gritando alegremente: - Meu pai é um herói!... Ele ganhou a guerra. Assim foi o desabafo dos corações daquelas meninas que não sabiam o que era a guerra, mas sabiam que era coisa boa porque fazia sua mãe chorar freqüentemente e também porque havia afastado para muito longe o seu querido pai. Como se vê através do que foi dito, muitos foram os acontecimentos que ficaram gravados na memória dos veteranos da Força Expedicionária Brasileira e dos quais eles dificilmente esquecerão. Era Natal. Mas que Natal diferente! Durante toda a noite caiu neve e o solo estava coberto de uma camada branca, muito branca, parecendo que havia chovido farinha de trigo. O frio era de doer os ossos, mas mesmo assim gostávamos de sentir a neve caindo carinhosamente sobre nossos corpos. O panorama da região transmudou e tinha um colorido cinzento. As árvores, desfolhadas, com os galhos apontando para o céu, pareciam pedir misericórdia. Na manhã do dia 25 o nosso capelão Militar (Padre Vendelino), um distinto sacerdote católico que não perdia uma oportunidade para levar aos combatentes, o conforto de sua palavra e, desse modo, minimizar a tristeza de seus patrícios, apareceu na nossa Bateria e nos convidar para a Missa de Natal que, tradicionalmente, é celebrada à noite. Que bom seria se pudéssemos conseguir um órgão e um ou dois violinos - disse-nos o bravo sacerdote. A noite já ia alta quando e pelo rádio de campanha, o Padre Veldelino deu o alerta de que estava chegando a hora da Missa. Dirigimo-nos, então, para a encosta do morro onde estava sendo armado o Altar de Campanha. Caminhávamos silenciosamente. Ninguém ousava dizer qualquer coisa porque tinha medo de um embargo na garganta ou uma lágrima lhe traísse e quem nos visse caminhando sobre aquele imenso tapete branco, teria a impressão de ver corpos sem alma caminhar. Sim, ali estavam os corpos... Quem seria capaz de afirmar que as almas não estavam no Brasil junto de seus familiares?... O que podemos afirmar é que aqueles corpos que caminhavam em direção a encosta do morro, atolando os pés na neve, tinham gravadas em suas fisionomias uma profunda tristeza que somente a fé e a esperança amenizavam um pouco. A campainha dando sinal de que a Missa ia começar, veio encontrar-nos nesse êxtase. No mesmo instante o órgão deu início o primeiro compasso da canção Deus Salve à América. Sentindo aqueles
versos, todos cantavam e alguns tinham lágrimas nos olhos: A Missa terminou.
Naquele mesmo instante os alemães desencadearam um tremendo
bombardeio em todas as frentes de combate. Uma granada de artilharia
atingiu a casa onde estava instalado o P.C. (Posto de Comando) da
2ª Bateria do 1º Grupo, mas não atingiu ninguém
porque todos se encontravam na encosta do morro assistindo a Missa
do Galo. Eram irmãos de sangue. Um era sargento e o outro sub-tenente. O sargento era reservista e havia sido convocado para o serviço ativo. Ao ser convocado, pediu para ser incluído na unidade em que servia o seu irmão sub-tenente. - Você é casado e tem filhos. Eu ainda sou solteiro e quero ir em seu lugar - dizia o sargento. O sub-tenente nada disse, mas pouco tempo depois era transferido para outra unidade também expedicionária. Embarcaram no mesmo transporte de guerra e viram juntos o navio afastar-se do porto do Rio de Janeiro assim como as fortalezas formadas e engalanadas de bandeiras, desejarem “Boa viagem e feliz regresso”; assistiram o Cristo no Morro do Corcovado ir diminuindo de tamanho até que, com a distância desapareceu definitivamente. Olharam-se mutuamente e nada disseram. Abraçaram-se emocionados com os olhos inundados de lágrimas. O que estaria se passando na alma daqueles dois bravos irmãos não é difícil de adivinhar e de compreender. Em suas fisionomias estava retratada a tristeza que sentiam pelo afastamento da Pátria, a saudade da esposa, dos filhos, dos irmãos e do velho pai... Foi o sub-tenente que rompeu o silêncio. “- Não é para morrer que vamos à Europa e sim para lutar para que nossos filhos vivam em um mundo melhor sem a violência e o desrespeito humano que o nazi-fascismo está promovendo. A vida só merece ser vivida quando se pode viver condignamente, a Pátria precisa de nós e não podemos faltar”. Por uma feliz coincidência, voltaram no mesmo navio e juntos divisaram aqueles mesmos lugares que haviam visto desaparecer com a distância. Viram o Corcovado ir aumentando de tamanho e o aparecimento do Cristo com os braços abertos... Viram as fortalezas engalanadas e formadas para desejarem “Boas Vindas” e, mais uma vez, sem nada dizerem, abraçaram-se fraternalmente. Eles tinham cumprido o dever para com a Pátria e o dever cumprido enaltece o homem. Eles se sentiram engrandecidos.
Entretanto o nosso Primeiro Escalão já se encontrava na Europa e os preparativos para o embarque do Segundo Escalão estavam sendo ativados. Os submarinos inimigos continuavam patrulhando os mares e de vez em quando, torpedeavam um navio nosso. Mais de trinta navios brasileiros haviam sido afundados pelos submarinos nazi-fascistas, sendo o último o navio Vidal de Oliveira, de nossa Marinha de Guerra, sob o comando do Capitão de Fragata João Batista de Medeiros Guimarães Roxo, no dia 19 de julho do ano em foco, entre Vitória e Rio de Janeiro. Ninguém afirmava naquela época, que nossos pracinhas atravessariam o Atlântico sem acidentes a lastimar e as previsões souberam mais tarde - de se perder, no mínimo, dez por cento do efetivo. Aconteceu, entretanto, o imprevisto. Fizemos, graças a Deus, boa viagem e nenhuma notícia tivemos sobre alterações substanciais nos efetivos de nossas tropas em virtude da travessia, razão porque - diziam - o serviço Religioso da FEB ia promover uma solenidade em Ação de Graças. Posteriormente ficamos sabendo que ia haver uma Missa na Catedral de Pisa e após, uma procissão com a imagem de Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil, que havia seguido conosco. Se a fé e o entusiasmo cívico eram suficientes para nos levar a desejar assistir aquela missa, a circunstância de ser ela celebrada na Catedral de Pisa, ampliava grandemente o nosso desejo, pois iríamos conhecer a belíssima Igreja, construída com material trazido da Terra Santa e possuidora de inúmeras obras de artistas célebres. Foi, pois, com muita satisfação que, naquela tarde de 21 de outubro de 1944, em nosso acampamento em San Rossore, obtivemos licença para no dia seguinte pela manhã, ir a Pisa assistir aquela solenidade sacra. Estávamos na Igreja. A nave ficou inteiramente ocupada por brasileiros e o colorido verde-oliva que os nossos uniformes emprestavam ao ambiente levou-nos a divagações. Passou por nossos pensamentos, entre outras coisas, o acontecimento do Rio de Janeiro, após a notícia dos torpedeamentos de nossos navios Baependy, Araraquara, Aníbal Benévolo e Itagiba; a agonia dos náufragos, vítimas inocentes e indefesas daqueles covardes atos; a nossa declaração de guerra e o sofrimento de nossas famílias que não conseguiram compreender o porquê da nossa designação para aquela missão de juntamente com outros que ali se encontravam, revidar as afrontas feitas à nossa Pátria, torpedeando nossos navios em nossas próprias águas. Naquele momento, parece-nos um misto de orgulho e de humildade se apoderou de nosso espírito. Orgulho da grandeza de nosso País; das suas riquezas naturais; do seu céu sempre azul e de seus campos sempre verdes; de ser um entre aqueles que, “por não terem pulado da escala de serviço”, haviam atravessado o oceano e ali estavam para representar a Pátria e finalmente, o nosso grande e rico país era subdesenvolvido, habitado por um povo valoroso e bravo, mas sem indústrias e recursos materiais que nos permitissem enfrentar aquela campanha sem precisar do apoio dos Estados Unidos e também porque, na Itália, tínhamos que aceitar a tese de que nosso sistema de governo não era democracia e que nosso Getúlio era um ditador assim como Hitler e Mussolini. A Missa começou naquela bela igreja, com seus inúmeros lustres de cristais, onde pareciam refletir as vozes dos cantores; aquela acústica que nos permitia ouvir a voz do celebrante; aquele coral maravilhoso, enfim um esplendor de arte a magnetizar o nosso espírito. Foi sob a ação
desse magnetismo, que a campainha, alertando-nos de que estava se
aproximando o ponto culminante da missa, veio encontrar-nos com a
contrição que o ambiente nos inspirava, elevamos nossos
pensamentos a Deus e, pensando em nossos entes queridos no Brasil,
recitamos mentalmente: De repente, ouvimos os primeiros compassos do nosso Hino Nacional e a seguir, como se tivesse havido uma voz de comando, todos os brasileiros, de pé, cantavam e muitos cantavam e choravam ao mesmo tempo. Ouviram do Ipiranga
as margens plácidas, A Missa terminou como normalmente terminam todas as missas. Se naquele momento alguém nos perguntasse se a nossa fé era maior que o nosso entusiasmo cívico ou se o nosso patriotismo era superior à nossa fé, não saberíamos responder.
FONTE:
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