APESAR DO INCÔMODO,
A MISSÃO TINHA QUE SER CUMPRIDA!
História contada pelo Vet
Manoel Castro Siqueira do 6º RI

Durante a 2ª Guerra Mundial, em solo italiano, havia algumas coisas que nos incomodavam constantemente: o frio intenso, a saudade insuportável, os tiros contínuos, a ração fria, os malditos morteiros com seus assobios e granadas invisíveis, o conflito intolerante, a abstinência obrigatória, o ódio cego, a mortes inevitáveis, a impaciência crescente e a sempre presente incógnita do amanhã. Apesar de tudo, a missão tinha que ser cumprida. E isso, cada soldado, fazia questão de executar da melhor maneira.

Seguíamos em frente conquistando cada palmo de terreno. As vitórias acumulavam-se. Escrevíamos nosso nome na história com suor, sangue e lágrimas. O suor derramado nos quilômetros de patrulhas e combates; o sangue de heróis que não se furtaram aos perigos e a sede mortífera dos inimigos e, as lágrimas de amigos, mães, filhos e esposas que perderam seus entes queridos na batalha.

“Dificuldade”, essa palavrinha se incorporou no vocabulário da tropa com extrema facilidade. E tecnicamente falando, isso foi muito bom, pois a cada obstáculo que surgia, encontrávamos uma nova solução. Estas soluções vinham carregadas de atributos que surpreendiam os aliados, os inimigos e nós mesmos. Ora ousadia, ora criatividade. Ora estratégia, ora força. Ora entusiasmo, ora determinação. Ora persistência, ora rapidez. Ora sabedoria, ora equilíbrio. Ora fé, ora coragem.

E foi exatamente um ato de coragem que me fez lembrar de uma passagem na guerra. Estávamos em progressão quando nos deparamos com uma linha de defesa alemã muito bem montada. O comandante da Companhia ordenou:

- Precisamos avaliar a situação antes de prosseguirmos. Quero trincheiras e muito cuidado nos deslocamentos!

Na cota a nossa frente, havia uma ou várias trincheiras que de vez em quando cuspiam inquietantes rajadas de metralhadora seguidos de incômodos tiros de morteiros.

- Detesto este assobio após o disparo do morteiro. Disse um soldado.
- Pior é que nunca se sabe onde a M... da granada vai cair. Respondeu o outro.

Por mais que tentássemos não conseguíamos identificar a origem exata dos disparos. O tempo passava e com ele aumentava a sensação de impotência. Até que o cabo chefe de peça interrompeu aquela espera inacabável:

- Permissão para falar capitão!
- Diga cabo.
- Sou voluntário para comandar um patrulha e acabar de vez com esse incômodo.

Mal o cabo fechou a boca outra rajada de metralhadora zuniu sobre nossas cabeças fazendo toda companhia buscar proteção nas trincheiras e abrigos. Segundos depois da rajada, outro longo e temido assobio que cessa num estouro. Tínhamos perdido as contas de quantas granadas haviam sido disparadas, porém, até aquele momento ninguém tinha sido atingido. A sorte acompanha os audazes!

Bastou o silencio tomar conta região defensiva para o capitão levantar-se decidido e questionando os soldados:

- Tá com tosse?
- Sim senhor.
- Tá com tosse?
- Não. Respondi.
- Tá na patrulha!
- Ta com tosse?
- Sim!
- E você, soldado?
- Não!
- Tá na patrulha! Mais algum voluntário?

Mais dois soldados se apresentaram. Com isso, éramos cinco ‘kamikazes brasileiros rumo a uma cota cujo número de inimigos desconhecíamos. Após um rápido ressuprimento de munição e água partimos cautelosamente pela única via de acesso existente. Ali, todos os ensinamentos de progressão em combate foram utilizados. Os sinais convencionados eram os únicos meios de comunicação. No trajeto, o silêncio macabro permitia que ouvíssemos a mais leve brisa balançar os arbustos e as folhas das árvores.

- Bum! Bum! Bum! Bum! Bum! Bum!

As batidas dos nossos corações pareciam às de um bumbo da banda de música. A cada sinal de alto, a tensão retesava os músculos. O dedo inquieto ansiava por apertar o gatilho do fuzil. Os segundos pareciam minutos. Os minutos horas. Quando de repente:

- Ratatatatátatátatá!

Uma surpreendente e mortal rajada de metralhadora rompeu o silêncio. Retraímos frustrados sem a metralhadora, sem o morteiro, sem os inimigos e sem um dos nossos.

Ao chegarmos ao local onde a companhia estava abrigada, o sargento Onofre Rodrigues de Aguilar pediu permissão ao capitão para buscar nosso colega. Os mesmos integrantes da primeira fracassada patrulha fizeram questão de participar da segunda. Então voltamos.

A situação tinha evoluído. Agora sabíamos a localização dos inimigos. O fator surpresa mudara de lado. Enquanto o bravo sargento seguia na frente, procurávamos o corpo do soldado brasileiro.

- Cuidado sargento! Estamos bem próximo.
- Xiiiiiii! Já os enxerguei! Continuem procurando. Respondeu sussurrando!

Passaram alguns minutos e do nada começou Uma verdadeira chuva de disparos, assobios e estouros de granadas de morteiros. No meio da fumaça e da poeira surgiu o sargento conduzindo três alemães e a maldita metralhadora.

- Retrair! Retrair! A coisa ta feia! Ordenou o sargento.

De volta à companhia percebemos que a saraivada de tiros de morteiros continuou por incontáveis minutos. Se tivéssemos ficado, provavelmente seríamos atingidos. A captura da metralhadora e dos três inimigos foi vital para o sucesso da tomada daquela cota. Os prisioneiros informaram exatamente como havia sido montada a linha de defesa alemã naquele ponto.

Infelizmente nosso companheiro não foi encontrado. O preço da vitória foi alto. Uma vida arrancada, mas não em vão, pois sua morte significou a manutenção da vida de muitos.

Aquele dia foi ‘normal’ como todos os outros, e a morte inevitável, aliada às outras coisas, fez questão de nos incomodar como sempre, apesar de tudo, a missão tinha que ser cumprida. E isso, cada soldado, fazia questão de executar da melhor maneira.

***

Quem conta a história acima é o ex-combatente da 2º Guerra Mundial Manoel Castro Siqueira. Nascido em 29 de julho 1923, na cidade de Amabai – MS, hoje com 83 anos, o herói integrou o 6º Regimento de Infantaria (Regimento Ipiranga), na função de atirador de morteiro do Pelotão de Petrecho da 5ª Companhia.

FONTE:
Matéria gentilmente enviada por
Vanderley Santos Vieira
(Colaborador do site)