2º Ten Rubens de Andrade
Ex-Combatente da 2ª Guerra Mundial

1º RI – Regimento Infantaria – Regimento Sampaio
Rio de Janeiro - RJ

Natural do Rio de Janeiro - RJ

UNIDADE:
II/1º Regimento de infantaria.

POSTO DE GRADUAÇÃO:
2º Tenente. Foi promovido a 1º Tenente durante o desenrolar da Campanha.
Retornando ao país, reintegrou-se às fileiras do Exército, onde permaneceu até ser
transferido para a reserva remunerada no posto de Coronel.

CONDECORAÇÕES:
Medalhas de Campanha
Cruz de Combate de 2ª Classe
Medalha de Guerra
Mascarenhas de Moraes

UM ACONTECIMENTO QUE FICOU GRAVADO EM SUA MEMÓRIA

“Havíamos chegado a Granaglione, a poucos quilômetros da linha de frente, quando recebi, de meu Comandante de Sub-Unidade. Ordem para me apresentar ao Comandante do Batalhão o então Major Ramagem, para receber uma missão que seria, como foi, a minha primeira missão de guerra. Isto para mim, para ser sincero, se por um lado me entusiasmava, por outro me preocupava porque não tínhamos ainda a experiência do” front “.

A missão que recebi foi a de reunir os grupos de tiro do Batalhão e com eles deslocar-me para a região de Guanela a fim de apresentar-me ao Comandante do III Batalhão (Major Cândido).

Muito cautelosamente iniciei a marcha a marcha pela estrada que seguia em direção a MONTE CASTELO para o cumprimento da missão recebida. À noite já havia caído, coisa que acontece muito cedo no período que antecede ao inverno na Itália. As estradas estavam cobertas de lama, uma lama fria e pegajosa que durante a noite, devido a brusca queda da temperatura, endurece, Não estava chovendo, mas uma névoa densa obscurecia a atmosfera, dificultando-nos a marcha porque escondia de nossas vistas os pontos identificadores “marcado” para segurança da operação.

Depois de caminharmos durante um certo espaço de tempo, resolvi fazer um pequeno alto com a tropa a fim de proceder a um reconhecimento. Acompanhado de meu mensageiro, o soldado FERREIRÃO, parti para o reconhecimento e fui ter ao Posto de Comando do II Batalhão. Prova de que não estávamos desorientados. Apresentei-me ao Major Cândido e voltei imediatamente ao local onde havia deixado a tropa e assustei-me quando verifiquei que a tropa havia desaparecido.

Dirigi-me, então, a Granaglioni e fiquei sabendo que os Grupos de Tiro haviam retornado ao estacionamento e que se encontravam em suas Sub-Unidades.

Novo trabalho para reunir a turma e organizar o combóio. Cheguei, finalmente, ao P.C do III Batalhão com os Grupos de Tiro e assumi a responsabilidade do setor que me fora destinado. Foi uma jornada de trabalho muito longa, pois somente ao clarear o dia dei por finda a minha missão. Estava muito cansado, porém satisfeito comigo mesmo por ter conseguido cumprir, sem acidentes graves, minha primeira missão de guerra.
Sobre o retorno da tropa ao Estacionamento, não falei mais sobre o assunto e também ninguém, sobre ele falou... O que aconteceu, acontece freqüentemente, principalmente em se tratando de uma tropa sem experiência de linha de frente e que ia assumir a responsabilidade de um setor onde tropas experimentadas não haviam conseguido se manter.”


“Havíamos chegado à S.d’Ensa e estávamos fazendo uma refeição quente na praça existente em frente a Igreja, quando recebi ordens para deslocar-me com as minhas viaturas (19 jipes) para Collecchio , a fim de impedir que uma coluna alemã que estava se retirando. Pudesse alcançar os Alpes e fugisse para a Alemanha.

À frente do meu Pelotão que tinha a missão de “ponta de lança” de uma vanguarda constituída pela 5ª Companhia de Fuzileiros do 11º Regimento de Infantaria, desloquei-me pela estrada principal. O sol já começava a se esconder quando atingimos a região de Collecchio.

Nas proximidades da cidade, ao fazer uma curva existente justamente no ponto onde havia uma Igreja. Eram aproximadamente 16 horas quando isto aconteceu.

Imediatamente abandonamos as viaturas e, dentro do menor espaço de tempo, tomamos posições nos barrancos da estrada e abrimos fogo contra a resistência encontrada a fim de permitir que a 5ª Cia. se desenvolvesse pela esquerda com a finalidade de envolver a resistência inimiga. Já havia escurecido quando conseguimos ocupar a elevação e a Igreja. Trocamos tiros durante toda a noite e, ao amanhecer, atacamos a cidade que foi por nós ocupada.

Na entrada da cidade encontramos vários soldados alemães mortos e inúmeros feridos pelo bombardeio de morteiros que fizemos antes do ataque final à cidade. Um Major médico alemão, com as pernas feridas, atendia aos combatentes. Pediu-me permissão para continuar atendendo aos seus feridos e não só atendemos ao seu pedido como determinamos aos nossos padioleiros que o auxiliassem a cuidar dos feridos.

Nesse dia, somente a tropa sob meu comando fez 119 prisioneiros que, por incrível que pareça, foram conduzidos ao P.C do batalhão, pelo soldado mensageiro. Um dos prisioneiros, um soldado que tinha no peito uma medalha “CRUZ DE FERRO”, notando que eu olhava a medalha, arrancou-a do peito e entregou-me dizendo qualquer coisa que eu não entendi, mas que parecia um oferecimento. Esta passagem está consignada nas páginas 190 e 191 do livro: “O 11º RI na 2ª Guerra Mundial”, do General Delmiro Andrade.

Guardo esta medalha até hoje como lembrança. “


Numa noite, durante o rigoroso inverno europeu de 1944, eu me desloquei com meu Pelotão da região de Sila, onde estávamos acantonados em descanso, para a região de La Casena, a fim de reforçar aquele ponto da nossa defensiva, que estava ocupado por um Pelotão de fuzileiros da 5ª Companhia.

Ao deixarmos a estrada para subirmos uma picada em direção à La Casena, ouvimos uma explosão bem próxima de nós. Imediatamente nos abrigamos (deitamos no solo) e, segundos depois, ouvi gemidos. Levantei-me e, passando revista nos homens sob meu comando que permaneciam deitados, localizei o soldado que gemia.

Na escuridão, apalpando-lhe o corpo, percebi que o soldado ARMITAGE DE SOUZA (esse era seu nome) havia sido ferido na região abdominal e tinha as vísceras expostas. Duas granadas de mão que ele transportava dentro do bolso, explodiram e dilaceraram o ventre.

Com os padioleiros do Pelotão, tomei a providência de colocar o ferido em uma improvisada padiola feita com dois fuzis, depois de enfaixar-lhe o ventre com ataduras. A seguir, fiz transportar o ferido para a estrada e procurei enfrentar em ligação com o comandante da Companhia para que mandasse recolher o ferido no ponto que foi indicado.

Sobre o soldado Armitage de Souza, a única coisa que fiquei sabendo é que havia sido transportado para o Hospital em Livorno ate o dia que - muitos anos depois – li num jornal a notícia de que um expedicionário pedia auxílio por não poder trabalhar.

Era o ex-Soldado ARMITAGE DE SOUZA...”

O ataque a Castelnuovo deu-se durante o dia. Às 10 horas da manhã, ainda estávamos tomando posição na base de partida, na beira da estrada que vai ter a Bologna, bem nas “barbas do alemão”.

Dado o sinal de ataque, os alemães que ocupavam posições dominantes, passaram a nos caçar como se fossemos ratos. Logo após, dezenas de brasileiros tombaram feridos ou mortos.

Com o Pelotão de Metralhadora Pesada, tomei posição nos barrancos da estrada e numa vala ao lado da estrada. Os alemães nos atacavam com metralhadoras e morteiros e de tal modo que mal podíamos colocar a cabeça fora da vala para respirar, obrigando-nos a assim permanecer até o escurecer do dia, quando conseguimos sair para atacar e tomar as casamatas que eles defendiam.

Nesse dia, um Pelotão (o do Tenente Rocha Loures) ficou reduzido a três homens. Faltou-lhe o apoio da artilharia e os carros de combate americanos que vieram em nosso auxílio estavam atirando com alça curta e, assim, atingindo nossos combatentes.

Num dos deslocamentos que fiz com meu Pelotão (não me lembro mais a região), ao atravessarmos uma baixada entre duas elevações, fui surpreendido pelo grito do meu mensageiro que caminhava logo atrás de mim:

- Cuidado Tenente!...

Ao olhar para o chão, verifiquei que onde haveria de pisar existia uma mina anti-pessoal que certamente havia sido colocada durante o inverno e, que, com o desaparecimento da neve se tornava visível.

Imediatamente determinei alto e que ninguém saísse de onde estava. Providenciei a neutralização da armadilha da dita mina e, depois que os mineiros “limparam” o caminho, prosseguimos a marcha.

Surgiram, então, vários comentários sobre o caso e entre eles o do meu mensageiro, o soldado Ferreirão, justamente aquele que, com seu grito, salvou minha vida. Ele disse que naquele momento desejou ser uma ave para sair dali voando, ao que os demais soldados disseram: “uma galinha, por exemplo”.

Nenhum comentário fiz no momento. Mas esse acontecimento ficou gravado em minha memória.

Depois que regressamos ao Brasil, nunca mais tive notícias do meu bravo companheiro, o Ferreirão. Eu gostaria muito de revê-lo para abraçar-lhe cordialmente.

FONTE:
Do livro "Histórias de Pracinhas" Contadas por eles mesmos
Autor: Vet Maj Álvaro Duboc Filho

Matéria gentilmente enviada por
Zenaide Duboc
Filha do Vet Maj. Álvaro Duboc Filho
(Colaboradora do site)