O
jornalista, cronista e Correspondente de Guerra na Campanha
da FEB na Itália, Rubem Braga,
nasceu na cidade serrana do Estado do Espírito Santo, Cachoeiro
do Itapemirim no dia, 12 de janeiro de 1913 e faleceu
em 19 de dezembro de 1990 no Rio de Janeiro. Filho de Francisco
Carvalho Braga e de Raquel Coelho Braga.
Em sua cidade
natal o filho ilustre é sempre lembrado e homenageado. Na bela
Cachoeiro do Itapemirim, ainda existe a
“A Casa dos Braga”, onde o escritor
viveu sua infância e parte de sua adolescência. Lá
demonstrou sua vocação literária e seu amor pela
natureza. Escreveu um livro, lançado em 1997, intitulado “Casa
dos Braga”, dedicado ao público infantil,
onde escreve suas memórias de infância.
Transformada em Centro de Cultura é mantido pela Prefeitura
do Município situada no centro da cidade, o local abriga também
a Biblioteca Pública Municipal
Rubem
Braga é considerado o maior cronista brasileiro
por todos aqueles que apreciam uma obra literária de valor.
Na opinião da critica especializada é o maior cronista
desde o grande escritor Machado de Assis.
Ingressou nas
fileiras da Força Expedicionária Brasileira
como correspondente de guerra do “Diário
Carioca”, contrariando a posição
adotada pelo presidente Getúlio Vargas
de só enviar jornalistas contratados pela “Agência
Nacional”.
Atuou no “front”, com outros
jornalistas brasileiros e concretizou laços de amizade com
o seu companheiro Joel Silveira, dos “Diários“
Associados, laços que durou até seu falecimento. Fumante
inveterado na campanha da Itália ganhou uma frase de Joel
Silveira em seu livro “O Inverno da
Guerra”. Joel relata que Rubem “antes
de deixar seu aconchego, (slleeping-bags), já estava fumando
o primeiro dos seus não sei quantos cigarros”...
”Comia pouco, quase nada”
Sua
participação na guerra lhe rendeu o livro “Com
a FEB na Itália” constituído de
ricas narrativas da guerra, desde o embarque no navio General
Meigs no segundo escalão da Força
Expedicionária Brasileira, em setembro de 1944,
no porto do Rio de Janeiro, até o final da Campanha Brasileira
em solo italiano.
Antes, de seu
embarque para compor o quadro de Correspondentes de Guerra brasileiros
demonstrava sua aversão contra o nazi-fascismo.
Em seu livro “O Morro do Isolamento’
escrito antes do embarque para a Itália, faz uma longa dedicatória
a Hitler: “Ao grande cão escandaloso e àqueles
que trabalham mesquinhamente contra o amanhã, aos carniceiros
prudentes e às velhas aves de rapina barrigudas e aos vendedores
de água podre, aos que separam os homens pela raça e
pelos privilégios; aos que aborrecem e temem a voz do homem
simples e o vento do mar; e aos urubus, aos urubus!“.
Sobre a
FEB traça alguns comentários sobre sua formação,
recrutamento, treinamento da tropa, despreparo físico e psicológico.
Mas, tece elogios a bravura, determinação, coragem do
“Pracinha“ brasileiro.
Suas crônicas
durante ao Conflito Armada destacam-se: “A Menina
Silvana” e “O Cristo Morto”.
Na última descreve um bombardeio a uma igrejinha, localizada
próxima à Gaggio Montano,
em seu livro “Crônicas de Guerra”
CRISTO
MORTO
“Depois
de uns vinte minutos você vai à frente à
esquerda, um morro com uma casinha branca isolada, bem no
cimo. Ali você sai da estrada e pega a mulateira que
tem à sua esquerda. Dobre logo antes da capelinha arrebentada.
Tome cuidado com o carro porque ali o campo está minado.
Ouvindo essas indicações, saí pensando
comigo mesmo que “uma capelinha arrebentada” é
uma das indicações mais vagas que se pode dar
a um viajante nesta região da Itália. È
costume plantar igreja no alto dos montes. Quando vem a guerra,
essas igrejas são freqüentemente usadas como Posto
de Observação, e um PO é sempre um alvo
freqüentado pelas granadas de Artilharia.
Tenho visitado muitas igrejas. Nos dois últimos dias
visitei três. A primeira está situada num dos
lugares mais belos do mundo, e não foi muito arrebentada:
mas uma formação de partigiani se instalou lá
dentro, onde dorme e faz comida. As imagens não tinham
grande interesse, mas os livros em latim do padre (que sumiu)
eram todos de 1700. No alto de um confessionário encontrei
um quadro a óleo, pintado sobre madeira, que era um
ex-voto. Representava toda a família ajoelhada, com
velas acessas na mão diante de virgem. A um canto estava
escrito: 1601. Tirei o quadro da parede para vê-lo melhor,
e logo dois partigianis se apressaram a dizer que se eu quisesse
poderia carregar. Não o fiz – menos por escrúpulo
do que pelo peso do quadro.
Ali como em tantas igrejas da Itália e mesmo do Brasil,
chocou-me o contraste entre o bom gosto às vezes maravilhoso
da construção e decoração antiga
e o mal gosto escandaloso e ofuscante do clero e dos devotos
destes últimos 100 anos. Isso faz com que os altares
em funcionamento sejam com freqüência, os lugares
mais desagradáveis das Igrejas, com aquela trapalhada
de dourados e vermelhos à luz de velas.
Há tempos me levaram para ver um milagre: a Capela
dos Ronchidos, ou Ronchidosso, perto de Gaggio Montano a 1045
metros de altitude. Essa capela era um PO alemão que
devassa incrivelmente as nossas linhas. Os americanos da 10ª
Divisão de Montanha a ocuparam, mas antes disso a Capela
recebeu fortes chacoalhadas de 105. Ficou completamente destruída,
mas a santa foi encontrada intacta; com uma granada aos pés,
uma granada que não explodira.
Mas depois, desse milagre, vi um não-milagre que me
pareceu mais impressionante. Uma granada, não sei se
“nossa” ou “deles”, atingira uma capelinha
poucos quilômetros à direita de Monte Castelo,
e pouco mais ao norte. Apenas duas paredes ficaram em pé:
o teto e as outras paredes ruíram. Havia uma tela com
uma imagem de uma santa que não identifiquei: e no
fundo havia uma grande cruz de madeira onde estava pregado
um cristo em tamanho natural- refiro-me ao tamanho de Cristo,
feito homem, naturalmente.
A
cruz pintada de preto, não parecia ter sido atingida.
Mas o Cristo de massa cor de carne, fora decapitado por um
estilhaço. A mão direita da imagem despregara-se
do braço da cruz. E aquele corpo sem cabeça,
pendurado a uma só mão, com os joelhos curvados,
parecia querer cair a qualquer momento sobre o monte de escombros.
Entre as pedras e os tijolos alguém plantara como legenda
do quadro, um cartaz simples: “Perigo – Minas”.
E então me ocorreu que não há minas somente
para a imprudência dos pés, senão também
da cabeça. Não basta andar com todo cuidado.
Lembrei-me de um verso de um poema que um amigo fez há
tempos – “Vou soltar minha tristeza no pasto da
solidão”. Não se deve soltar: o pasto
da solidão é cheio de minas. Tudo isso, podem
ser idéias à toa, mas aquele Cristo decapitado
depois de crucificado me pareceu mais cristão que a
Madona intocada sorrindo com a granada aos pés, entre
as ruínas de sua capela. Aquele pobre Cristo de massa,
sem cabeça, pendendo para um só lado da cruz
me pareceu mais irmão dos homens, na sua postura dolorosa
e ridícula. Igual a qualquer morto de guerra. Irmão
desses cadáveres de homens arrebentados que tenho visto,
e que deixam de ser homens, de ser amigos ou inimigos para
ser pobres bichinhos mortos, encolhidos e truncados, vagamente
infantis, como bonecos destruídos.
O boneco de Deus estava ali. Perdera não apenas a cabeça,
ainda mais. Perdera até a majestade que costuma ter
Cristo na sua Cruz, do alto do Seu martírio, dominando-nos
do alto de Sua dor.
Não dominava mais nada. Era um pobre boneco arrebentado
e mal seguro, numa postura desgraçada e grotesca. Era
um morto da guerra.
E aí dos mortos! Que faremos com os mortos? Podem rezar
missas aos potes para que as almas deles se salvem, mas eles
não querem isso. Eles morreram muito jovens, quando
ainda queriam viver mais; por isso não gostaram da
guerra.
Enquanto um homem foi dono deste campo e mais daquele campo,
e outro homem se curvar jornada após jornada, e não
tiver seu nem o chão onde cair morto - esperem a guerra.
O homem rico lutará contra outro menos rico, ou não
quer ficar ainda menos rico; e o homem pobre lutará
por ele, ou contra ele. E os homens subirão até
as igrejas, não para ver Deus, mas para ver os outros
homens que eles precisam matar. E o Cristo de massa perderá
a cabeça outra vez, e não perderá grande
coisa, porque o Cristo – Deus, o Cristo – Rei,
esse já a perdera há muito tempo”.
Itália – Abril - 1945
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Segundo o critico Afrânio Coutinho,
a marca registrada dos textos de Rubem Braga
é “crônica poética, na qual
alia um estilo próprio a um intenso lirismo, provocado pelos
acontecimentos cotidianos, pelas paisagens, pelos estados de alma,
pelas pessoas, pela natureza.”
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Em
pé: da Esquerda p/ direita: Rubem Braga,
do Diário Carioca; Frank Norall, da Coordenação
de Assuntos Interamericanos; Thassilo Mitke, da Agência
Nacional; henryBagley, da Associated Press; Raul Brandão,
do Correio da Manhã, e Horácio Gusmão Coelho,
fotografo da FEB. Abaixados: Allan Fisher (autor da foto), fotografo
da Coordenação de Assuntos Interamericanos; Joel
Silveira, dos Diários Associados; Egydio Squeff, de O
Globo e Fernando Stamatoi, cineastra. |
A chave para entendermos
a popularidade de sua obra, toda ela composta de volumes de crônicas
sucessivamente esgotadas, foi dada pelo próprio escritor. Ele
gostava de declarar que um dos versos mais bonitos de Camões:
“A grande dor das coisas que passaram”
fora escrito apenas com palavras corriqueiras do idioma. Da mesma
forma, suas crônicas eram marcadas pela linguagem coloquial
e pelas temáticas simples.
Como jornalista,
Braga exerceu funções de
repórter, redator, editor e cronista em jornais e revistas
do Rio, de São Paulo, Belo Horizonte, Porto Alegre e Recife
Além disso, foi correspondente do jornal “O
Globo”, em Paris, e, posteriormente do “Correio
da Manhã”.
Em 1953 foi nomeado
Chefe do Escritório Comercial do Brasil em Santiago, no Chile.
No período de 1961 a 1963 foi Embaixador do Brasil no Marrocos.
Mas o guerreiro correspondente de guerra brasileiro o cronista Rubem
Braga jamais se afastou do jornalismo. Escreveu artigos
sobre assuntos culturais, econômicos e políticos na Argentina,
nos Estados Unidos, em Cuba e em diversos outros países.
Antes de falecer trabalhava junto à equipe de jornalismo da
TV Globo.
Deixou mais de
15 mil crônicas escritas em mais 62 anos de brilhante jornalismo.
É
ainda do consagrado cronista o texto do livro “Caderno
de Guerra”- cerca de 100 desenhos produzidos pelo
artista plástico Carlos Sclair,
durante seu percurso junto à FEB como correspondente de guerra.
Ressalto que somente dois exemplares deste livro se encontram disponíveis
em um sebo de livros raros, na internet e constituem objetos de desejo
desta modesta cidadã barbacenense, que sentiu muito orgulho
em poder estar prestando homenagem ao correspondente de guerra Rubem
Braga, e a todos os Veteranos da Força
Expedicionária Brasileira.
Enfim, um fato
simples narrado em suas crônicas, me toca profundamente, como
barbacenense, o encontro de Rubem Braga com
o “Pracinha” de Barbacena, Nelson
Neves, na Itália, em outubro de 1944, cujo encontro
impressiona o cronista.
“Ah, isso aqui, perto de Barbacena daquele tempo (referindo-se
a famigerada e histórica rivalidade entre as famílias
Bias Forte e Andradas),
é um sossego”
FONTE:
Com a FEB na Itália - Rubem Braga
Crônicas de Guerra - Rubem Braga
O Inverno da Guerra - Joel Silveira
Anotações:
Arquivos da autora do texto
Artigo
gentilmente enviado por
Ivone Maria Rezende Curi
Barbacena - MG