Cemitério Militar Brasileiro
Pistóia - Itália

Monumento que abriga a chama eterna em homenagem aos soldados mortos.

A “invasão” brasileira na Itália não começou recentemente, com a vinda de brasileiros que buscavam melhores oportunidades na Europa a partir da década de 1970. Começou muito antes, com a vinda dos soldados da Força Expedicionária Brasileira (FEB) no ano de 1944, já no final da II Guerra Mundial. Junto às tropas dos exércitos aliados, estes bravos brasileiros ajudaram a expulsar as tropas nazistas do norte da Itália e a por fim a uma guerra sangrenta que arrasou grande parte da Europa no meio do século passado.

Daqueles 25.334 soldados que deixaram o Brasil para lutar na Europa, 467 não voltaram. Tombaram em combate nas montanhas dos Apeninos, região montanhosa da Itália central, onde se travaram inúmeras batalhas sangrentas entre as tropas brasileiras e as tropas nazistas que controlavam a área.

Em memória a estes heróis nacionais, foi fundado em 1945 nas cercanias da cidade toscana de Pistóia, na Itália, um cemitério militar brasileiro e posteriormente um monumento, que marcarão para sempre a epopéia daqueles brasileiros na Europa.

1945: Sargento Miguel Pereira hasteando a Bandeira Nacional brasileira.

E é neste cemitério que encontramos numa fria manhã do início do outono europeu o Sr. Mário Pereira, que nos contou detalhes muito interessante sobre a passagem daqueles brasileiros nesta região.

Mário Pereira, 49 anos, cidadão italiano nascido em Pistóia, é filho do Sargento brasileiro Miguel Pereira, nascido em 9 de junho de 1918 na cidade de Pulador, RS - arredores da cidade de Passo Fundo, um dos integrantes da FEB na Itália, onde ocupava a função de operador de rádio no Comando Central das tropas brasileiras.

Mário, num português corretíssimo, mas salpicado com o tradicional sotaque italiano, nos disse que seu pai, herói militar brasileiro falecido recentemente, conheceu sua mãe, a jovem italiana Giuliana Menechini, quando tinha 27 anos, em 1944 durante a guerra, ao instalar uma antena de rádio-comunicação militar nas imediações da casa onde ela vivia na época, nesta mesma região da Toscana.

Foi um amor à primeira vista e ambos se apaixonaram, mas com o fim da guerra, o Sargento Miguel Pereira teve que voltar ao Brasil com as tropas onde servia e, portanto, separaram-se.

Os pais de Giuliana, que na época tinha apenas 17 anos, não permitiram que sua filha viajasse ao Brasil junto com outras 54 mulheres italianas que haviam se apaixonado e se ligado aos soldados brasileiros que serviam na região.

Mesmo à distância, os dois decidiram se casar por procuração, mas não demorou muito para que os altos oficiais expedicionários com quem Miguel tinha servido nos campos de batalha na Europa se sensibilizassem com o fato, e convidaram o Sargento Miguel Pereira a retornar à Itália para ser o guardião do Cemitério Militar Brasileiro em Pistóia, logo após o fim da guerra.

Deste reencontro nasceu Mário, nosso contador de histórias, que é um profundo conhecedor dos assuntos ligados ao Brasil em solo italiano.

O Sargento Miguel foi o guardião do “Cemitero dei Brasiliani” até 2003, quando faleceu, passando esta tarefa para o filho Mário Pereira, que desde menino esteve presente nas narrações do pai sobre os acontecimentos durante os anos de guerra.

Mário nos conta que os fortes laços de amizade entre os italianos e brasileiros, na verdade começam com a imigração italiana para o Brasil, no fim dos anos 1800, mas tiveram um grande impulso com a vinda das tropas brasileiras que aqui lutaram, pois, de todos os soldados que aqui passaram, os brasileiros foram aqueles que mais deixaram respeito e amizades.

Conta-nos que, além da bravura demonstrada em campos de batalha, os soldados brasileiros dividiam sua comida juntamente com todos os italianos famintos e castigados pela guerra e pela terra arrasada, numa atitude completamente diferente dos exércitos ingleses e americanos, que simplesmente não dividiam nada, ou dividiam apenas com as mulheres, com intenções escusas...

Por isso, não raro se vêem várias placas de agradecimentos e homenagens aos soldados brasileiros em várias das cidades por onde eles passaram, testemunhado por nossa reportagem em visita pelas cidades da região. Lembranças daquele tempo são ainda narradas pelos habitantes mais antigos desta bonita região da Itália, ia numa grande demonstração de carinho e admiração por nossos combatentes. Estes anciãos de hoje se lembram de seus duros tempos de criança e dizem hoje que devem suas vidas aos soldados brasileiros.

Sr. Mario Pereira. Guardião do "Cemitero dei Brasiliani".

O Ítalo-brasileiro Mário Pereira guarda muitas lembranças do Brasil, sua segunda pátria, terra de seu pai-herói. Quer tornar mais abrangente a presença da cultura brasileira em solo italiano e preservar a memória dos bravos combatentes. Para isto está investindo na montagem de um museu sobre a participação brasileira na II Guerra Mundial e está colecionando peças e objetos de soldados brasileiros da FEB, como armas, botões, divisas, objetos pessoais, capacetes, uniformes etc. Além do museu, Mário quer também promover um evento cívico no dia 7 de Setembro e convidar todos os brasileiros da Itália e da Europa a participarem, pois, segundo ele, a FEB deixou uma marca muito forte na Itália, que tem que ser preservada.

A história da participação da FEB na II Guerra Mundial está documentada e divulgada em vários livros, revistas e filmes, e também no site oficial da FEB na internet no endereço www.anvfeb.com.br. Quem quiser visitar o cemitério e prestar suas homenagens aos soldados brasileiros tombados na Itália tem que fazer algum esforço para chegar ao local, pois fica numa região afastada do centro da cidade, onde uma vez era tudo campo e plantações.

Mas, com um telefonema para nosso guardião em Pistóia tudo será mais fácil, pois além de ser atendido em português, o visitante poderá ouvir muitas outras histórias interessantes como esta.

Mário Pereira
Telefone: +39 (0) 573 452754
E-mails: mariopereira@tiscali.it ou
monumento.brasileiro.pistoia@gmail.com

FONTE:
Matéria publicada na Revista BRASIL ETC - Novembro/2008 - Edição 28
(A revista dos brasileiros na Europa//Inglaterra, Bélgica, França, Itália,
Alemanha, Irlanda, Espanha, Holanda, e Escandinávia.

Falando do Cemitério de Pistóia


Austregésilo de Athayde (*)

“Os brasileiros que visitam Florença estabeleceram um novo itinerário. Depois de verem as belezas clássicas da cidade, as galerias de arte, os palácios, as igrejas, tomam o rumo de Pistóia. Vão pela estrada de rodagem, correndo entre campos e aqui e ali, à distância sombra de montanhas no horizonte nevoento. Porque fiz a viagem, em dezembro, com o sol pálido de uma tarde de bruma.

Um pequeno cemitério de guerra, que não e como um oceano de cruzes brancas, como se vêm tantas na Europa de hoje, mas apenas um quadrado de terra, em cujo centro se eleva num mastro a Bandeira do Brasil.

Já de muito longe, no caminho, começam a aparecer os sinais dando a direção da metrópole. Não é preciso perguntar a ninguém onde fica situado o cemitério.

Já se sabe que nenhum brasileiro passará pela Itália sem cumprir o dever cívico desta visita àquelas quatro centenas de mortos e tendo feito para facilitar-lhes esse encontro sentimental e patriótico. E em Pistóia a mais inocente criança poderá dar indicações precisas, pois a singela morada daqueles heróis é agora, não um monumento da cidade, porque tudo lhe falta para tão alta categoria, mas um lugar querido e reverenciado pela população. Um testemunho cujo significado todos compreende.

Ao Chegarmos, o crepúsculo do inverno estava nas últimas luzes. Por todo o vale do Arno começara a descer a noite prematura e estando-se na grande estrada, mal se viam os túmulos em forma de feiras e os símbolos cristãos designando, cada um dos mortos, com seus nomes, o lugar de nascimento e a idade. O ímpeto primário foi cair de joelhos, tanto era a dignidade do silêncio e o mistério das névoas que um vento gélido fazia passear lentamente sobre as sepulturas. Fomos devagar lendo os nomes enquanto o guarda italiano queria que viesse o sargento que ocupa da vigilância do cemitério. Dissemos-lhe que não era necessário.

Trouxe-nos o livro de visitas e deixamos as assinaturas sem nenhuma importância, uma formalidade sem significado, em face da grandeza religiosa do local, do profundo sentido dos montes de terra, pequeninos e infantis, cobrindo o resto da juventude que pereceu pela liberdade.

Todos vieram de tão longe, de lugares tão diversos, movidos pelo mesmo ideal de servir à Pátria. O guarda italiano recorda as ações de guerra em que tombaram muitos deles e os episódios de heroísmo, devotamento incrível e senso de responsabilidade da representação do seu povo. De repente, em tudo igual às outras, e diz-nos: “Ali estão os alemães”. Sim, dezenas de jovens alemães, que, no tempo, eram os inimigos, repousavam ao lado dos demais. Ninguém repararia em qualquer diferença. A morte igualou-os. A morte gloriosa.

Enfrentaram-se sem ódio, levados pelas fatalidades do mundo na tormenta do próprio destino. O sol, a lua, as estrelas, e a luz da manhã e o clarão amarelado do crepúsculo e as rosas que desabrocham na primavera. Tudo igual para todos, que a morte não distingue entre os homens. Quanto pensamento acode de tropel. Mas ali estávamos para sentir. Para sentir o indefinido, algo sem nenhuma expressão possível que domina todo o ser, quando no último olhar, junto à grande saída, vimos apenas um lençol branco, cobrindo tudo, flutuando no vento álgido, antes de fechar-se tudo com a morte...”

(*) Escritor, Jornalista e Presidente da Academia Brasileira de Letras por 34 anos.
Natural de Caruaru, Pernambuco
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FONTE:

Acervo Roberto R. Graciani