Andava
muito doente o velho soldado. Trazia no ombro direito a cicatriz de
um ferimento à bala. As duas medalhas, que recebera com honras
militares e estiveram guardadas numa gaveta, serviam agora de brinquedo
entre os brinquedos dos netos. Andava muito doente o velho soldado.
Alistara-se
numa época beligerante, em continência ao seu jovem entusiasmo
cívico. Combateu nas trincheiras e em campo aberto. Assistiu
a ronda da morte. Dessa época, porem, não se falava
mais.
Andava
muito doente o velho soldado.
Quando
o termômetro parecia que ia estourar, o enfermo desfalecia.
“É assim mesmo”, tranqüilizava o doutor. Mas
ninguém sabia que naqueles momentos sua mente visitava em sonhos,
pelo inconsciente da memória, o labirinto das trincheiras,
o cenário dos terrenos pisoteados por soldados correndo em
grupos de combate, sentindo o abalo das bombas e granadas, ouvindo
o matraquear rítmico das metralhadoras, de gritos, sentindo
o cheiro de sangue nas baionetas, vendo corpos humanos caindo. Era
real o medo instintivo do perigo. E seu corpo reagia. Quem estivesse
ao lado do enfermo estranhava seus quase imperceptíveis movimentos.
Nem sabiam por que. A vez em que levou a mão aos lábios
bebia água do seu cantil. Quando mexeu a cabeça e gemeu
baixinho, sentia dores no ombro. Às vezes, quando sua garganta
parecia gargarejar, o velho soldado cantava o hino da sua Corporação.
Mais
de uma vez, os que faziam vigília junto ao leito assustaram-se
quando, demonstrando lucidez e de olhos estáticos, tentava
erguer-se e apontava para algum lugar dizendo: “O que estes
soldados estão fazendo aqui?”. Ao tentarem acalmá-lo
insistia: ”São meus camaradas”. Depois adormecia.
O médico explicava: “São alucinações”.
Mas foi sincero com a família: “Não há
mais o que fazer. Resta esperar”.
Naquela
manha, pela janela aberta o sol arejou o aposento do soldado enfermo.
Havia em sua luz uma tonalidade estranha. “Hoje o ar parece
diferente” disseram. “Vejam o céu como está
lindo”.
O
que ninguém viu foi o velho soldado ergue-se fardado e feliz,
para entrar em forma, na ordem unida do seu pelotão agora completo.
E todos saírem em marcha, obedecendo ao toque de clarins vindo
do alto, rumo ao acampamento do infinito...
“Na
alvorada, com sopros de luz o sol apaga as estrela”
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