"Os Camaradas"

Sebas Sundfeld *

Andava muito doente o velho soldado. Trazia no ombro direito a cicatriz de um ferimento à bala. As duas medalhas, que recebera com honras militares e estiveram guardadas numa gaveta, serviam agora de brinquedo entre os brinquedos dos netos. Andava muito doente o velho soldado.

Alistara-se numa época beligerante, em continência ao seu jovem entusiasmo cívico. Combateu nas trincheiras e em campo aberto. Assistiu a ronda da morte. Dessa época, porem, não se falava mais.

Andava muito doente o velho soldado.

Quando o termômetro parecia que ia estourar, o enfermo desfalecia. “É assim mesmo”, tranqüilizava o doutor. Mas ninguém sabia que naqueles momentos sua mente visitava em sonhos, pelo inconsciente da memória, o labirinto das trincheiras, o cenário dos terrenos pisoteados por soldados correndo em grupos de combate, sentindo o abalo das bombas e granadas, ouvindo o matraquear rítmico das metralhadoras, de gritos, sentindo o cheiro de sangue nas baionetas, vendo corpos humanos caindo. Era real o medo instintivo do perigo. E seu corpo reagia. Quem estivesse ao lado do enfermo estranhava seus quase imperceptíveis movimentos. Nem sabiam por que. A vez em que levou a mão aos lábios bebia água do seu cantil. Quando mexeu a cabeça e gemeu baixinho, sentia dores no ombro. Às vezes, quando sua garganta parecia gargarejar, o velho soldado cantava o hino da sua Corporação.

Mais de uma vez, os que faziam vigília junto ao leito assustaram-se quando, demonstrando lucidez e de olhos estáticos, tentava erguer-se e apontava para algum lugar dizendo: “O que estes soldados estão fazendo aqui?”. Ao tentarem acalmá-lo insistia: ”São meus camaradas”. Depois adormecia. O médico explicava: “São alucinações”. Mas foi sincero com a família: “Não há mais o que fazer. Resta esperar”.

Naquela manha, pela janela aberta o sol arejou o aposento do soldado enfermo. Havia em sua luz uma tonalidade estranha. “Hoje o ar parece diferente” disseram. “Vejam o céu como está lindo”.

O que ninguém viu foi o velho soldado ergue-se fardado e feliz, para entrar em forma, na ordem unida do seu pelotão agora completo. E todos saírem em marcha, obedecendo ao toque de clarins vindo do alto, rumo ao acampamento do infinito...

“Na alvorada, com sopros de luz o sol apaga as estrela”


FONTE:

Autor: Sr. Sebas Sundfeld - professor, articulista, trovador, autor de 11 livros e obras esparsas. Consta em dezenas de antologias, revistas e dicionários de autores. Detém centenas de troféus literários conquistados em concursos nacionais e internacionais, e láureas oficiais. É considerado “um dos corifeus do Haicai Guilhermiano”. Pertence á União Brasileira de Trovadores e á Academia de Estudos e Pesquisas Literárias.

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