Sd José Maria
Ex-Combatente da 2ª Guerra Mundial

11° RI - Regimento de Infantaria - Regimento Tiradentes
São João del-Rei - MG

Natural de Piau - MG

UNIDADE:
III/11º Regimento de Infantaria

POSTO OU GRADUAÇÃO:
Cabo. Foi promovido a 3º Sargento durante o desenrolar da Campanha. Reintegrou-se às
fileiras do Exército ao retornar ao Brasil até ser transferido para a reserva no posto de 1º Tenente.

CONDECORAÇÕES:
Medalhas de Campanha
Cruz de Combate de 1ª Classe.

Entrevistado pelo aluno Júlio César da Silva Faria.

UM ACONTECIMENTO QUE FICOU GRAVADO EM SUA MEMÓRIA

Interrogado sobre um acontecimento que havia ficado gravado em sua memória, respondeu:

-“ Eu não gosto de falar sobre a minha participação na guerra e, para usar de franqueza, não sei contar os acontecimentos havidos durante a Campanha, porém o Major José da Fonseca e Silva, é uma pessoa bem informada e que foi Comandante do meu Pelotão, poderá melhor do que eu, falar sobre o que você gostaria de saber.”

O jovem entrevistador gravou o que disse o Tenente José Maria e considerou finda a sua missão.

Revendo a entrevista e conhecendo, como conhecemos o José Maria, procuramos o Major Fonseca a fim de obter melhores informações.

O Major Fonseca, atendendo nosso pedido, declarou:

“O então Cabo, José Maria, estimado por todos, especialmente pelos ex-companheiros de seu grupo, era conhecido por todos nós como Zé Maria.

Conheci Zé Maria quando se deu sua inclusão no 2º Pelotão da 9ª Companhia do 11º Regimento de Infantaria. Era um dos elementos do contingente que o 12º Regimento de Infantaria, havia mandado para o nosso Regimento.

Na colina de Capristano, durante o período de instrução e treinamento no CAMPO DE INSTRUÇÃO DE GERICINÓ, era um dos mais aplicados. Vibrava quando nosso Pelotão “ganhava a guerra” travada nos exercícios, mas nas horas de folga, era alegre cantador de samba.

Durante as marchas de estrada, animava a jornada com sua improvisada e desafinada “banda de música” que tinha por únicos instrumentos a boca e a mão.

Na Itália, durante os últimos, treinamentos e preparativos para a entrada em ação, Zé Maria era o mesmo: trabalhava seriamente e brincava nas horas de folga. Sabíamos que era “bom de briga” porque diziam que em algumas disputas em que se envolvera nas guarnições em que servira, deu sobejas provas de que não gostava de apanhar sozinho. No quartel, entretanto, era muito enquadrado, disciplinado e amigo de todos.

Após o nosso “Batismo de Fogo” em Monte Castelo, começou a aparecer como bom combatente. Espontâneo, corajoso, e possuidor de uma liderança inata, passou a ser respeitado e admirado por seus companheiros pelo arrojo e segurança que imprimia nas suas ações durante os combates as posições inimigas.

No combate de Montese, portou-se de tal modo que mereceu ser indicado para promoção a 3º Sargento.

Irrequieto, alegre e brincalhão, Zé Maria mantinha o ambiente sempre descontraído, porém as vezes, algumas de suas brincadeiras eram inconvenientes devido a hora onde nos encontrávamos.

Nas proximidades de Monte Castelo, precisamente em Guanela, recebemos a missão de organizar uma Patrulha para ir a localidade designada por Lá-Cá, no sopé de Castelo. Era uma missão de escuta, devendo caminhar em silêncio e permanecer em Lá-Cá cerca de uma hora.

Como se vê não era uma missão difícil, mas não deixava de ser perigosa porque íamos entrar em “terra de ninguém”, região que era também visitada por patrulhas inimigas e, isto complicava um pouco às coisas porque ainda estávamos sob a terrível tensão nervosa do “batismo de fogo”.

Progredindo com cautela, entramos em Lá-Cá e nos aproximamos do objetivo que nos fora designado que era uma casa que, segundo informações, estava desabitada como desabitado estava o lugarejo. Entretanto, ao aproximar-nos da casa tivemos impressão de que um portão que parecia entreaberto se fechara lentamente. Isto nos dava quase a certeza de que haveria um encontro entre Patrulhas.

Aguçado ficou, então, o nosso instinto de conservação, começando a travar em nossas mentes uma tremenda luta entre o espírito de conservação e o brio. Felizmente, como quase sempre acontecia, o brio venceu a luta.

Com muito cuidado, porém com decisão firme, invadimos a casa e vasculhamos canto a canto, como manda o “figurino militar”, nada encontrando de importante. Mas isto não nos agradava porque não afastava a possibilidade de uma desagradável surpresa.

Procurando decifrar a charada analisamos as duas hipóteses:

1- Não havia ninguém na casa e o fechamento do portão fora obra da imaginação devido à tensão nervosa;

2- Havia um único elemento que, a com a nossa aproximação, retraira-se para ir avisar a seus companheiros de nossa presença no local.

Ao ocupar a casa, tivemos o cuidado de posicionar parte da Patrulha no seu interior e parte fora, em improvisados abrigos bem disfarçados, para garantir a defesa em caso de necessidade. Eram 4 horas da manhã quando demos por finda a missão. A nossa “briga” com o relógio havia sido grande porque a nossa permanência prevista era de uma hora.

-Vamos retornar – disse - pois o dia já começa a clarear.

Notei, nesse momento, que o cabo Zé Maria, ajudado pelo soldado Guilherme, avançou para o interior da casa e se dirigiu para o local onde havia visto um peru e, em lá chegando, agarrou o “bicho” pelas pernas. Ocasionando-nos um grande susto porque o peru bateu as asas e deu piados de susto. Foi um corre-corre danado. Lembro-me perfeitamente que, dentro da casa saiu dois ou três homens por passagens que normalmente caberia uma única pessoa. De minha parte, em ato de reflexo, lancei-me ao chão, derrubando inúmeras garrafas cheias e vazias que ali se encontravam. Verifiquei, então, que me encontrava numa adega e não num porão como pensava. A escuridão, entretanto, era grande, e por isto, não consegui encontrar o meu capacete que por lá ficou.

Nosso retorno se deu sem acidentes. Durante o mesmo, ”dei uma bronca” no Zé Maria e no Guilherme. Nenhum dos dois quisera assumir a responsabilidade da “caçada”, mas comeram o peru assado com muito apetite.”

De outra feita, em Primarela, frente a Monte Belvedere, foi entregue ao Cabo José Maria, uma arma nova. Era um THOMSON novinha em folha. Zé Maria ficou encantado com a arma que, segundo ele, só faltava falar. Quis experimentá-la mas não consentimos porque o “front” estava calmo. O jeito era esperar por uma oportunidade e esta logo chegou, pois tivemos que sair em Patrulha de Reconhecimento com a finalidade de localizar o inimigo.

Saímos para o cumprimento da missão recebida e entramos na “terra de ninguém”. O dia ainda não tinha escurecido completamente e aquela quietude, aquela expectativa de que a “coisa” se definisse a qualquer momento. Era enervante. Zé Maria, alisando a sua Thompson, dava demonstração de sua euforia.

Procurando conservar aquela quietude que tanto nos enervava, caminhávamos cautelosos e silenciosamente sem conseguirmos, localizar o inimigo.

Foi sob esta terrível expectativa que ouvimos, atrás de nós, duas rajadas de arma automática e a seguir uma conhecida gargalhada. Era o Zé Maria experimentando a sua arma na ponta de um galho de árvore.

-Que foi, Ze Maria? – perguntei um tanto transtornado.

-Experimentei a minha Thompson. A nossa missão está finda e o “tedesco” não aparece. Não estou agüentando mais este silêncio.

Ali mesmo chamei sua atenção. Você será responsável – disse – se alguma coisa de mal nos acontecer.

Compreendendo o seu erro, cabeça baixa e oprimida, Zé Maria ouviu a reprimenda e por fim disse:

-Desculpe-me Comandante. O senhor está certo e eu errado. Mereci a reprimenda e o castigo que por acaso o senhor queira me dar. Daqui para frente vou procurar fazer tudo para me controlar.

Felizmente nada nos aconteceu de mal e o castigo ao Zé Maria foi somente à reprimenda. A verdade é que foi um castigo tão grande que até hoje, quando nos encontramos, relembrando a “tesa”, Zé Maria repete:

- O senhor estava certo, comandante, e eu errado...

“Um outro acontecimento que nos permite avaliar a personalidade do Zé Maria aconteceu após o combate de Montese.

Com o efetivo bastante reduzido pelas baixas havidas, o meu Pelotão foi substituído na noite de 17 para 18 de abril de 1945, ocasião em que recebi ordem para conduzi-lo a região de CAMPO DEL SOLE, justamente onde havia sido estabelecido a nossa base de partida para o ataque no dia 14, às fortificações nazistas de Montese.

Chegamos ao local na madrugada do dia 18, por sinal ainda escura, depois de uma marcha cansativa e de imprevistos acontecimentos que só quem esteve em uma campanha idêntica poderá compreender.

Cada um dos meus 17 “gatos pingados”, que era o que restou do meu Pelotão, assim que chegou “foi desabando” pelo chão de um dos cômodos da casa que nos foi destinada, tal era o cansaço da marcha e dos dias de duros combates.

Quando o dia clareou, ouvi um barulho fora da casa e fui ver o que se passava. Notei um movimento de padioleiros e verifiquei que ali colocavam os feridos das diversas unidades ainda em combate para serem apanhados pelas ambulâncias, que deveriam transportá-los para os hospitais na retaguarda. Via-se perfeitamente que os feridos haviam recebido os primeiros socorros, porém o visual não era agradável, tanto pelas manchas de sangue nos curativos como pelos diversos tipos de ferimentos”.

Somos um povo curioso e os meus bravos comandados não fugiam da regra. A medida que iam despertando, iam iniciando o reconhecimento dos arredores e deram com a improvisada enfermaria, passando a tomar conhecimento de fatos e comentários bastantes desagradáveis: - “viu o peito de Fulano...etc,etc.”

Foi nesse momento que avisaram que o café estava sendo servido e que havia um colosso de coisas apetitosas para quem, há vários dias, não comiam rações quentes (mingau de aveia, ovos mexidos, leite, café, etc).

Apesar disso o meu pessoal não arredou pé de onde se encontrava. Eu estava sentado numa pedra e ali mesmo fiquei. O que havia visto naquele curto espaço de tempo me levou a refletir sobre os acontecimentos do dia 14 e perdi completamente o apetite.
Nesse exato momento comecei a ouvir um som de batida em caixa de fósforos e uma voz cantando, bem alto, “baiana que entra na roda etc, etc.”

-Quem será esse “cabra” que num ambiente como este consegue dar expansão a sua alegria? – perguntei a mim mesmo.

Levantei e fui ver quem era. Voltei à casa e deparei com o Zé Maria com trejeitos de baiana, sambando e rebolando entre os feridos que riam e alguns comprimiam seus ferimentos para “aliviar a barra”. Era um quadro trágico-cômico que eu não sabia classificar, mas que certamente interessam aos estudiosos sobre o comportamento do ser humano diante do caos e do sofrimento.

O encarregado da distribuição da refeição gritou:

-Olha o rancho, pessoal!...

Pensei em chamar a atenção do Zé Maria, mas desisti. Lembrei-lhe apenas que não deveríamos atrasar o serviço da distribuição da “bóia” e limitei-me em dizer com certa energia:

- Vamos pegar a “bóia”. O pessoal do rancho não pode ficar “toda vida” esperando.

Saindo dali peguei a minha marmita e dirigi-me para o local da distribuição. Coloquei-me na fila e, quando me aproximei do vasilhame da distribuição, olhei para trás. Na fila estavam os meus 17 bravos companheiros inapetentes. Zé Maria, com aquela exibição em hora e local que pareciam indevidos havia tirado todos os companheiros da “fossa”, inclusive o seu Comandante de Pelotão.

Ao recordar este acontecimento, o que me vem ao pensamento é um sincero agradecimento:

- "OBRIGADO, ZÉ MARIA!...”

FONTE:
Do livro "Histórias de Pracinhas" Contadas por eles mesmos
Autor: Vet Maj Álvaro Duboc Filho

Matéria gentilmente enviada por
Zenaide Duboc
Filha do Vet Maj. Álvaro Duboc Filho
(Colaboradora do site)