3° Sgt José de Alencar Duarte
Ex-Combatente da 2ª Guerra Mundial

11º RI - Regimento de Infantaria - Regimento Tiradentes
São João del-Rei - MG

Natural de Guarani - MG

UNIDADE:
III/11º Regimento de Infantaria

POSTO OU GRADUAÇÃO:

3º Sargento. Permaneceu nas fileiras do exército ao retornar
à Pátria, sendo transferido para a reserva no posto de Major

CONDECORAÇÕES:
Medalhas de Campanha
Cruz de Combate de 2ª Classe.

Entrevistado por um Membro da Diretoria da Anvfeb/JF

UM ACONTECIMENTO QUE FICOU GRAVADO EM SUA MEMÓRIA

Para atender a dedicada solicitação, meu caro companheiro da gloriosa Campanha da FEB na Itália, vou contar um pouco do que vi e observei.

Levar as linhas telefônicas aos Pelotões do Batalhão, na frente de combates, não era tarefa fácil. Os Pelotões se posicionavam distantes uns dos outros, em virtude da frente de combate ser muito extensa. Além disso, para ficarem ocultas das vistas do inimigo e também para atender a rapidez do serviço, as linhas eram estendidas no solo e isto ocasionava uma certa confusão porque outras unidades, em posição na mesma frente, passavam suas linhas pelo mesmo local, isto é, aproveitavam o itinerário. Acontecia que, quando uma granada ou outra coisa qualquer cortava os fios, havia muita dificuldade em testar a linha.

Outra inconveniência era o fato de que a neve umedecia as emendas dos fios e fechava em curto-circuito e,aí tornava difícil localizar onde se encontrava o defeito, mas esse trabalho era realizado com muito entusiasmo pela turma de comunicação.

No dia 14 de abril de 1945 – Combate de Montese - o III/Batalhão do 11º R.I; que progredia em Direção a Paravento, estava com dois Pelotões da 9ª Cia. (Capitão Hugo) detidos, quando entrou uma voz no meu rádio “Rádio de Comunicação com Batalhão), com a seguinte mensagem:

- Alô, Quadro (Quadro era o prefixo da minha Cia. 9ª). Peço dar sua posição exata, neste momento.

Respondi imediatamente:

- Não posso dar minha posição pelo rádio. Enviarei um mensageiro ao Batalhão com os dados.

- Aqui é o Coronel Castelo Branco, do Estado Maior, quem fala!

- É o Sargento das Transmissões de Quadro. Desligo.

Até hoje não sei se era realmente o então, Coronel Castelo Branco que havia falado comigo. Mandei um mensageiro ao P.C do Batalhão informando sobre o recebimento de tal mensagem. Nada mais fiquei sabendo sobre o assunto.

Ao amanhecer do dia 19 de abril de 1945, no P.C da Companhia instalada em uma casinha velha, semidestruída por bombardeios, situada no Morro de Paravento, me foram entregues, quatros prisioneiros alemães para que eu os encaminhasse ao P.C. do Batalhão.

Coloquei-os com as mãos na nuca, com a frente voltada para a parede, para uma revista.

Quando ia iniciar a revista, o meu Capitão, chamou-me e disse que precisava falar com um Pelotão, mas não conseguia. Parece-me – disse - me que a linha está partida.

Como não havia quem fosse capaz de correr a linha, saí, imediatamente e logo a pouca distância encontrei e corrigi o defeito. Voltei rapidamente ao P.C e fiquei surpreendido em encontrar os prisioneiros com as mãos na nuca e virados para a parede.

- Puxa vida!...Isto que é disciplina militar comentei.

Quando estávamos na defensiva em MONTE BELVEDERE, realizamos muitas patrulhas e tomei parte em algumas delas. Numa que foi, comandada pelo Sargento Chaves, fomos até a uma pequena elevação e lá ficamos durante algum tempo observando o horizonte, procurando localizar uma casamata alemã que tinha uma metralhadora que muito nos hostilizavam. Em dado momento tivemos a impressão de que um soldado alemão observava os nossos movimentos. O Sargento Chaves pensou em atirar e chegou mesmo a pegar no fuzil; achou, entretanto, melhor não atirar para não provocar uma reação.

- Vamos retornar. Nossa missão está cumprida, disse.

Quando iniciamos o retorno, aquele soldado que de longe parecia observar nossos movimentos levantou os braços e nos acenou com um adeus.

Até hoje não compreendi a razão daquele adeus. Será que era realmente um adeus ou ele pensou que era uma patrulha alemã?... É possível que tenha pensado que era uma patrulha alemã. O nosso uniforme, principalmente o de inverno, era bem parecido com o uniforme dos alemães e esta semelhança deu origem a desagradáveis ocorrências.

NOTA: Sobre um acontecimento que – pareceu-nos causado pela semelhança do uniforme, o Marechal Lima Brayner, que foi Chefe do Estado Maior da FEB; em seu livro “ A VERDADE SOBRE A FEB” – página 355, conta-nos:

“Inexplicavelmente ocorreu um grave incidente que ficou bem esclarecido. Uma Companhia Americana, da 10ª Divisão de Montanha, sob a alegação de ter perdido a direção da zona de ação de sue Batalhão, dirigiu-se de Mazzancana para Fornace, onde encontrava uma Companhia do 1/1º Regimento de Infantaria, e abriu fogo sobre a mesma, matando um soldado nosso e ferindo outros além de gerar tremenda confusão.

Alegou o Capitão americano que confundira a tropa brasileira com a alemã. A justificativa não ficou bem clara, pois o ataque suspeito dentro da zona de ação da 1ª D.I.E, foi feito pelas costas da nossa tropa”.

FONTE:
Do livro "Histórias de Pracinhas" Contadas por eles mesmos
Autor: Vet Maj Álvaro Duboc Filho

Matéria gentilmente enviada por
Zenaide Duboc
Filha do Vet Maj. Álvaro Duboc Filho
(Colaboradora do site)