2º Ten José da Fonseca e Silva
Ex-Combatente da 2ª Guerra Mundial

11º RI – Regimento Infantaria – Regimento Tiradentes
São João del-Rei - MG

Natural de Ponte Nova - MG


UNIDADE:
III/11º Regimento de Infantaria

POSTO OU GRADUAÇÃO:
3º Sargento:......... Foi promovido ao posto de 2º Tenente pelo Comandante da Força Expedicionária
Brasileira em 16.IV.45 – durante o Combate de Montese, por ter se conduzido de modo excepcional
nas ações de combate em que tomou parte, revelando elevada capacidade de combate. Retornando
ao Brasil reintegrou-se à fileiras do Exército, onde permaneceu até ser transferido no posto de Major.

CONDECORAÇÕES:
Medalha de Campanha
Medalha de Guerra
Cruz de Combate de 2ª Classe
Militar de Bronze
Militar de Prata
Mascarenhas de Moraes

Entrevistado pela professora Janice Cardoso Gomes


UM ACONTECIMENTO QUE FICOU GRAVADO EM SUA MEMÓRIA.

“Não há dúvida – disse – que a promoção a 2º Tenente ainda em combate na Itália, mudou o rumo de sua vida.

Nascido e criado naquela região mineira, jamais pensou durante sua juventude que um dia pisaria em solo europeu, para brigar ou mesmo como turista, pois é de índole calma e preferia o cantinho de seu nascimento a morada que sempre considerou aprazível e acolhedora. Muito menos que veria referência sobre sua pessoa, em duas obras que publicam fatos ocorridos na Campanha da FEB, na Itália (“De São João del-Rei ao Vale do Pó”, de Gentil Palhares e “Heróis Esquecidos” de Paulo Vidal) e, também em alguns Jornais como “Tribuna de Imprensa”, e “Correio da Manhã”, ambos do Rio de Janeiro, “A Gazeta”, de Além Paraíba-MG e “Tuyuty”, órgão do Clube General Sampaio, de Fortaleza-CE, bem como ser distinguido para esta entrevista.

Mas assim quis o destino e os imprevistos de combate que, ainda como 3º Sargento, tivesse que assumir a responsabilidade de comandar um Pelotão, em pleno combate e que sua sorte foi o brioso 2º Batalhão de 11º R.I. era uma fração de tropa fácil de ser comandada pos reunia um punhado de jovens espontâneos e solidários diante da adversidade em combate e, comandar tão bravos companheiros foi privilégio que lhe coube.
Homenageando-os, fez e entrega da composição de seu Pelotão:

- Comandante Efetivo – 2° Ten. José de Oliveira (1)
- Auxiliar – 2º Ten. Oscar Vicente Ferreira (2)
- Orientador – 3º Sargento – José da Fonseca e Silva (3)
- Mensageiros - Soldado - Agostinho Leite de Oliveira
- Mensageiros - Soldado - José Batista do Nascimento.
- Cmt. de GC – 3º Sargento Clério Bortolo (4)
- Sargento Fábio Roque Ciampi
- Sargento Gilberto Ferreira Chaves
- Sargento Evandro Aurelino de Lima (5)
- Auxiliar de GC Cabo Cornélio de Souza Martins
- Cabo Daniel Bernardo (6)
- Cabo José Maria (7)

- Atirador-Municiador – Remuniciador – e Volteador.
Soldado Antero Rosa Saint-Clair
Soldado Antonio de Pádua Inhan
Soldado Arlindo Olímpio da Silva
Soldado Armindo André da Silva
Soldado Benedito Amarante da Silva
Soldado Benedito de Oliveira
Soldado Cândido João de Aquino
Soldado Crispim Falci da Silva
Soldado Ernesto Gonçalves dos Santos
Soldado Estevam Siuta
Soldado Firmo Gomes de Carvalho
Soldado Francisco García
Soldado Francisco Gomes Filho
Soldado Guilherme Antônio da Silva
Soldado Jadir de Carvalho Neto
Soldado João abaeté Gonçalves
Soldado João Ricardo dos Santos
Soldado João Figueiredo
Soldado João Staron
Soldado Jonas de Almeida
Soldado José Bernardo Maciel
Soldado José Francisco dos Santos
Soldado José Manoel Antunes
Soldado Luiz Stroerbel (8)
Soldado Manoel Rosa da Silva
Soldado Orlando Ragazzi
Soldado Oscar Jesus de Almeida
Soldado Oswaldo Ferreira de Oliveira
Soldado Oswaldo Tavares Chagas
Soldado Saturnino Roberto
Soldado Sebastião Thomaz
Soldado Sebastião Vilela Nogueira
Soldado Vicente Kelmer

OBSERVAÇÕES:

(1) - Deixou o Pelotão no período de 01.05.45 a 26.04.45, fazendo curso de combinação de armas.
(2) - Baixou ao Hospital por motivo de doença
(3) - Assumiu o Comando do Pelotão, em 01.05 a 26.05.45.
(4) - Morto em ação.
(5) - Excluído por doença adquirida em ação – Dezembro de 1945.
(6) – Promovido em Combate por ação desenvolvida em Montese
(7) – Promovido em Combate por ação desenvolvida em Montese
(8) – Morto em ação. Teve seu nome retificado após a Campanha de Luiz Stobl para Luiz Stroerbol.


Embora com sacrifício os homens se adaptaram ao clima, ao terreno desconhecido e principalmente a dureza dos combates à medida que o tempo ia passando. Já no Combate de Montese notava-se que aquela fração de tropa já havia dominado a “arte” de brigar, principalmente contra um inimigo bem adestrado como eram nossos opositores. Já naquela altura dos acontecimentos, com cerca de 5 anos de combates continuados. E foi neste combate o maior feito do Pelotão que, após dura refrega, assaltou o Posto de Comando do Batalhão que defendia a linha MONTESE – SERRETO – PARAVENTO e que se achava situado na encosta Norte de Serrento, ocupando este ponto cotado às 15:15 horas do dia 14 de abril. Esta ação rendeu ao Pelotão, além da conquista das posições inimigas, o aprisionamento de 66 combatentes inimigos, entre os quais o próprio Comandante do Batalhão e mais 4 oficiais; mas teve a lamentar 25 baixas entre mortos e feridos do nosso lado. Entre os 66 alemães aprisionados havia cerca de mais de 20 feridos.

É interessante, ressaltar, os números e seus percentuais do levantamento feito após a “limpeza” da área ao término do combate, evidentemente numa homenagem justa aqueles “pracinhas” não profissionais de guerra. Iniciou as ações em Montese com o Pelotão com um efetivo de 42 homens e perdeu 25 o que equivale cerca de uns 60% do efetivo e se comparado as baixas totais do Regimento (255 homens), representando mais de 10 e cerca de 6% de um total de 465 sofridas pela Divisão. Quanto aos prisioneiros, representava cerca de 61% de um total de 107 capturados no primeiro dia de combate ou cerca de 14.50% de 453 capturados em toda a ação. Assim, nada mais podia ser exigido de um punhado de bons brasileiros. Mesmo assim, o Pelotão de 17 homens estropiados de uma ação que começou no dia 14 de abril de 1945, permaneceu mantendo o terreno conquistado até às 23 horas de abril, quando foi substituído por um Pelotão da 7ª Companhia Comandada pelo tenente Vergueiro.

Segundo o ritual militar houve gratificação, pelo feito, pois todo o efetivo foi condecorado com a Medalha de Campanha; foram condecorados com a Medalha Sangue do Brasil um grande número condecorado com a Medalha Cruz de Combate de 1ª Classe e ele, o Comandante, com a de 2ª Classe, sendo estas duas últimas as maiores condecorações militares brasileiras, embora a Medalha Sangue do Brasil, confira a seu portador um profundo respeito e admiração entre os demais camaradas.

Houve, ainda, três promoções: de um 3º Sargento a 2° Tenente e de dois Cabos a 3º Sargento.

Em combate, um Pelotão de Infantaria ocupa uma área relativamente pequena de terreno, ficando os seus componentes ali reunidos como se fossem partes de uma grande família. No dia-a-dia de convivência por longo tempo, é natural que seu Comandante fique conhecendo todos os Comandados nos mínimos detalhes ou, melhor dizendo, como se fosse o pai ou um irmão mais velho, chegando até mesmo a identificar, à noite, o lugar onde todos dormem, um companheiro pela tosse, tal como acontecesse na casa da gente entre parentes. Esta é a razão porque guardou de cada um dos companheiros uma lembrança, um ato de bravura, um fato pitoresco ou curioso.

Sem idéia de destacar este ou aquele companheiro, pois todos merecem o seu respeito e gratidão, relatou à entrevistadora as ocorrências seguintes:

- do 3º Sargento CLÉRIO BORTOLO, natural de Juiz de Fora – MG; glória e honra do 12º Regimento de Infantaria, sua unidade formadora nos anos de 1942/43; lembra que era dotado de um gênio alegre e língua solta. Honesto, trabalhador e amigo de todos. Não teve dificuldades de conquistar a liderança de seu Grupo de Combate. Seus comandados tinham por ele verdadeira admiração e respeito. Se alguém fracassava, não hesitava em bradar em italiano “paura” (o que quer dizer, medo), mas imediatamente procurava ajudá-lo. Era um grande Soldado.

Certa feita, quando ainda no período de treinamento nas proximidades da cidade de Pisa, numa folga, foram a cidade de Lucca, onde se realizaria uma partida de futebol entre duas equipes do 5º e do 8º Exército.

Quando na cidade de destino, notou que o maior interesse do Sgt. Clério não era o futebol e sim o de visitar um asilo de crianças órfãs, enquanto que o seu era o realmente o futebol, mas para não contrariar o amigo, foi até ao asilo também e pode observar o carinhoso tratamento que dispensava as crianças. A cada uma passava-lhe a mão pela cabeça e entregava um tablete de chocolate. Observou também que a irmã Superiora já o conhecia pelo nome, sinal de que aquela não era a sua primeira visita ao orfanato, o que era confirmado pela intimidade com um garotinho de uns 5 anos mais ou menos, bastante carrancudo e de olhos grandes e arregalados que ele apelidara de Mussolini ou Docce.

Terminada a visita ao orfanato, ele se dirigiu a um fotógrafo para tirar uma fotografia que ele não foi apanhar, pois embora não sendo supersticioso, tinha em mente que tirar retrato em véspera do “batismo de fogo” seria um bom pretexto para deixar lembrança. Foi isso que pensou na época.

Após a visita ao fotógrafo, rumaram para o estádio aonde o futebol já ia pela metade, mesmo assim, Clério torceu por um combinado de jogadores brasileiros misturados com os americanos (estes ruim de bola) como tivesse torcendo pela seleção brasileira, aplaudindo as boas jogadas com alegria e espinafrava com os “pernas de pau” e, as vezes, com o juiz. Era, evidentemente, uma partida monótona entre o combinado 8º Exercito que contava com alguns elementos de times da Inglaterra e o combinado do 5º Exército que dispunha dos brasileiros PERÁCIO, GENINHO, E BIDON e, com uma infinidade de “pernas de pau”.

De outra feita, quando já se encontravam em ação, precisamente em Primarella no Monte Belvedere, permitiu que o Clério fosse a Porreta Terme para tomar um banho programado. Havia ordem para que os comandantes de pelotões permitissem a saída de 3 a 5 homens por dia para um ligeiro lazer e tomar banho a fim de evitar doença por falta de higiene.

Não havia passado muito tempo e o Sgt. Clério já estava de volta. Estranhando o rápido regresso e desacompanhado dos demais, perguntou-lhe a razão e ele respondeu que havia encontrado em Porreta Terme um colega saído do front por motivo de surdez, com um violão na mão, cercado de companheiros e de “ragazzas” italianas. Irritado por verificar que tal colega “surdo” afinava o “pinho” de modo suave e baixinho, não agüentou e, pedindo-lhe o violão um pouquinho, deu motivo para o infeliz surdo perguntar: - Você toca, Clerinho?...

- Não, respondeu o Clério, ao mesmo tempo em que lhe metia violentamente o violão na cabeça, não afundando mais porque as cordas vibrando impediram. A seguir, pressentindo a intervenção da Polícia Militar (P.R) caiu fora e regressou ao Pelotão.

Estava acabando de relatar o acontecimento quando o telefone tocou e foi transmitida uma ordem ora mandar o Clério se apresentar ao Comandante da briosa (P.E), em Porreta Terme, naturalmente para ser ouvido a fim de ser aplicada uma punição justa e devida.

Na qualidade de seu comandante, decidiu informar que naquele momento era impossível atender, pois as posições e suas imediações estavam sendo bombardeadas, razão pela qual pedia que alguém da P.E fosse lá ouvir o Sargento. O expediente deu certo, pois ate agora está aguardando a P.E.

Não é justo – disse – mas a verdade é que o pessoal da linha de frente tem uma má vontade danada com aqueles que prestam serviço na retaguarda, embora reconheça a utilidade de seus trabalhos para ajudar a vencer a guerra. Isto ocorre, sem exceção. Com todos os Exércitos do mundo.

Durante uma consulta médica, lembrando-se do fato, perguntou ao médico especialista se uma pessoa com problemas de audição poderia ouvir sons baixos de afinação de violão e a resposta do médico foi “que sons metálicos com certas vibrações, telefonemas etc, são, as vezes, captadas por pessoas com sérias limitações auditivas.” Pensou, então com seus próprios botões: - aquele companheiro apanhou de graça... O Clério não sabia disso.

Na véspera do ataque a Montese, o Pelotão acantonou em uma casa isolada nas imediações de Montarigela, zona de reunião da Companhia e onde passaram a noite de 13 para 14 de abril de 1945.

Deitados pelo chão dos cômodos da casa, não conseguiam afastar do pensamento as dificuldades que haveriam de enfrentar no dia seguinte. Sargento Clério, preocupado com as minas e armadilhas que certamente iriam encontrar, não cessava de recomendar a todos sobre os cuidados que deveriam ter.

Vendo que ele estava sendo repetitivo, resolveu intervir, pois precisava do pessoal descansado e para isso era necessário dormir ou, pelo menos, cochilar. Mas, para atenuar a recomendação, tornando-a amistosa para não mago-a-lo, usando de um refrão popular, disse-lhe:

- Clério, deixa o pessoal dormir. “Quem não encheu ao comer, não adianta lamber”. Todos foram instruídos sobre as minas e armadilhas.

Obediente, deitado ali pertinho, o Sgt. Clério virou para o canto e dormiu como um justo.

No dia seguinte, durante o combate, o Sgt. Clério conduziu muito bem o seu Grupo de Combate. Neutralizou várias armas automáticas inimigas que barravam a progressão do Pelotão. Na contra-encosta de Serreto invadiu o Posto de Comando de um Batalhão alemão, havendo, na ocasião, um corpo-a corpo no qual o Grupo de Combate do Clério foi de uma aplicação incomum.

Terminado o assalto, vendo-o ligeiramente ferido, determinou que ajudado por mais alguns soldados mais renitentes em continuar brigando, conduzissem os prisioneiros para a retaguarda e aproveitassem para uma passagem no Posto de Saúde do Batalhão para tratamento dos ferimentos. Tinha certeza de que, com este expediente, eles cumpririam a missão e passariam no Posto de Saúde, de onde não os deixariam sair, pois a guerra termina ou é interrompida para cuidar de um bravo combatente ferido. Assim, ele e os soldados Firmo, Leite e Kelmer que se encontravam feridos, e mais outros soldados que se encontravam “inteiros” foram escalados para escoltar os prisioneiros, sob o comando do Sargento Clério.

Após ultrapassar a crista de Serreto em direção à retaguarda, próximo a uma casa isolada por onde haviam passado quando atacaram, um prisioneiro pisou numa mina anti-carro que ao explodir acionou outras anti-pessoal.

Com a violenta explosão havida o Sargento Clério foi apanhado pelo deslocamento de ar e morreu sem um único ferimento proveniente da explosão da mina; os soldados Firmo e Leite que também sofreram o impacto da explosão, certamente contarão o fato em seus depoimentos com melhores detalhes.

O bravo Sargento Clério, além de receber o impacto da explosão da mina, apresentava nas costas, na sua parte superior, uma grande mancha arroxeada parecendo haver levado ali uma violenta pancada.

Será que – pensou o entrevistado – o Sargento Clério na noite anterior, quando recomendava repetitivamente aos seus comandados sobre o perigo das minas, estava profetizando, o seu encontro com uma?... Foi ele o único elemento do Pelotão que faleceu por uma ação de mina, embora fosse bastante apto para localizá-la e neutralizá-las.

Como seu Comandante de pelotão, tinha certeza que o comando daquela escolta para conduzir prisioneiros para a retaguarda seria a sua última missão, de combate e isto porque, certamente, não regressaria do Posto de Saúde do Pelotão por motivo dos ferimentos anteriores; mas nunca poderia supor que aquela missão de tão pouco risco, em direção á retaguarda e ate como pretexto para forçá-lo com os demais feridos a receberem um tratamento hospitalar fosse antecipar de forma brutal o fim do grande Soldado que o Brasil perdeu e reverencia.


3º SARGENTO DANIEL BERNARDO
Natural de Juiz de Fora - MG

“Este bravo companheiro era de cor parda, inteligente, olhar vivo e um tanto místico. Era espírita e possuía um sexto agudíssimo o que era bom no dia-a-dia em combate. Calmo, sereno e disciplinado. O seu tipo e modo de ser dava impressão que era um típico guerreiro, mas enganava porque logo, logo todos do pelotão ficaram sabendo que ele era bom de briga.

Desde o nosso “batismo de fogo” começou a demonstrar liderança e disposição diante de imprevistos e isto provocou do nosso Comandante de Companhia a seguinte citação:”No ataque inimigo às nossas posições em Guanella, demonstrou extraordinário sangue frio e bravura como Cabo do último grupo a esquerda da Companhia (9ª), em estreita ligação com o Batalhão que recuara, mantendo com grande calma sua posição, apesar da situação crítica em que se encontrava.

Na região de Monte Belvedere integrou diversas patrulhas, demonstrando sempre grande bravura pessoal e espírito de sacrifício”.

Mas, não parou aí. No ataque de 14 de abril de 1945 a Montese, impulsionou, seu grupo de combate, pois nessa altura, embora Cabo, já estava no exercício do do comando do Grupo de Combate por aptidão e liderança. Com decisão e bravura pessoal, se tornou verdadeiro exemplo para seus comandados no assalto às posições inimigas onde funcionava o Posto de Comando do Batalhão que defendia a linha de MONTESE – SERRETO – PARAVENTO.

Ferido na contra-encosta Norte de Serreto, foi evacuado para o Posto de Saúde do Batalhão e, após receber os primeiros socorros médicos, recusou baixar ao Hospital e retornou a luta quando ainda era intenso o bombardeio inimigo. Por este motivo foi promovido a graduação de 3º Sargento.

O Sargento Daniel Bernardo nasceu em Juiz de Fora, no dia 13 de setembro de 1920. Era filho de Bernardo e Apolinária Maria Daniel. Casado com Hercília Ferreira Bernardo, na época uma filhinha.

Retornando ao Brasil, foi licenciado e voltou ao seu antigo emprego na Estação de Ferro Central do Brasil e, pouco tempo depois, sua saúde estava comprometida seriamente devido ao desgaste físico e possivelmente pelas intempéries do clima hostil que enfrentou durante a Campanha.

Começou, então a luta pela sobrevivência, mas...a doença venceu.”

“Um fato curioso que merece ser contado e que faz justiça ao verdadeiro soldado do Exército regular alemão, ou melhor, ao bom tedesco que aqui mesmo em nossa terra encontramos milhares, sendo que alguns ajudaram tanto a comunidade onde viveram, que emprestam seu nome a logradouros públicos de nossas cidades e aqui deixaram seus descendentes que ajudam a construir uma grande Pátria sem discriminação de qualquer espécie.

Entre os inúmeros prisioneiros feito em Montese, durante o assalto ao ponto cotado de Serreto, encontra-se um médico que ao se entregar, ofereceu seus préstimos para atender nossos feridos pois havia notado que o enfermeiro que acompanhava o Pelotão estava ferido.

Como os feridos do pelotão ainda não haviam recebido os primeiros socorros, aquele altruísmo do médico alemão foi aceito de imediato. Ele inicialmente atendeu um soldado que estava com a abertura no tórax e com o ombro deslocado. Para este,assim que tratou seus ferimentos determinou, não pediu nem sugeriu, que fosse levado para o Hospital o mais depressa possível. Tal determinação foi absorvida com interesse e providenciada com urgência. A seguir, passou a atender a um soldado que estava em estado de choque (desacordado) e com uma fratura exposta em um dos braços. Ao ser erguido pelo médico alemão que preferiu atendê-lo numa sombra projetada por uma casa ali existente, a uns dez metros mais ou menos, voltou a si e, sentindo-se nos braços do inimigo, “botou a boca no trombone” espinafrando, pensando que estava sendo aprisionado. Foi um custo para convencê-lo do contrário.”

“Após a substituição do Pelotão, depois de quatro dias de renhidos combates, com o efetivo reduzido a 17 homens, sentiu que era necessário procurar evitar que seus bravos comandados tivessem a amargar mais outras baixas. Fez as recomendações de praxe e deslocou, morro abaixo, em coluna.

Omo já era noite e das escuras, determinou que mantivessem uma distancia razoável para evitar que um mesmo estilhaço ferisse dois homens ao mesmo tempo, mas que tivessem o cuidado necessário de manter a ligação.

À testa da coluna, ao chegar próximo de uma estrada asfaltada que havia no itinerário (rota 64), constatou que o inimigo ainda bombardeava o lado de baixo da mesma. Rapidamente saltou para a estrada ao que foi acompanhado pela coluna e procurou abrigo no ângulo morto existente junto a rampa e o leito abaulado. Ali permaneceu cerca de uns 20 minutos. Cessando o bombardeio, reiniciou o movimento e caminhou até à casa que lhe servia de zona de reunião antes do ataque. Parado na porta, após contar os homens verificou que faltava um, justamente o cerra-fila que era conhecido pelo apelido de Bené.

Certo de que ele deveria ter ficado lá na tal estrada e possivelmente ferido, acompanhado do Cabo Zé Maria, voltou ao local e gritou:

-B E N È É É É...

A resposta não tardou: SENHOR...

-O que você ficou fazendo aí?

-Uai, estou esperando o da frente levantar e andar retorquiu-lhe o Bené.

Aí a coisa ficou preta, pois eram 17 e já havia na casa 16. O retardatário Bené ali estava. E o outro quem era?

Por instinto de defesa, deitado e em posição de tiro, acendeu uma pequena lanterna italiana de que dispunha, ao mesmo tempo em que recomendava ao Bené e ao Zé Maria o máximo de cuidado, pôde constatar que o outro era o cadáver de um soldado de outra unidade morto em ação.

Fazendo uma inspeção em redor, verificou a existência de muitos outros cadáveres no local. O Bené, quando pulou na estrada, caiu justamente atrás de um deles que estava parado e por lá ficou esperando que o seu companheiro de frente se movimentasse para acompanhá-lo...”

No dia seguinte ficaram sabendo que o Pelotão de Sepultamento havia reunido todos os mortos em combate ali naquele trecho da estrada para facilitar o transporte em viaturas para o Cemitério Brasileiro de Pistóia.

Em guerra acontece cada uma...

FONTE:
Do livro "Histórias de Pracinhas" Contadas por eles mesmos
Autor: Vet Maj Álvaro Duboc Filho

Matéria gentilmente enviada por
Zenaide Duboc
Filha do Vet Maj. Álvaro Duboc Filho
(Colaboradora do site)