Joel
Silveira, jornalista, escritor, correspondente de guerra, na 2ª
Guerra Mundial, nasceu em Lagarto, Sergipe, no dia 23 de setembro
de 1918, e faleceu no Rio de Janeiro em 15 de agosto de 2007.
Aos 18 anos, abandonou
o curso de direito em Aracaju e transferiu-se para o Rio de Janeiro,
ingressando na imprensa carioca.
Pertenceu ao quadro
de jornalistas dos Diários Associados, Última Hora,
Estado de São Paulo, Diário de Notícias, Correio
da Manhã. Revista Manchete.
Antes de o Brasil declarar guerra às potências do Eixo,
Joel ganhou notoriedade com e reportagens sobre a sociedade paulistana:
“Eram assim os Grã finos em São Paulo” e
“A Milésima Segunda Noite em São Paulo”,
o que lhe valeu o apelido de “Víbora” por Assis
Chateaubriand.
Foi escolhido
por Assis Chateaubriand, dos Diários Associados, para fazer
a cobertura do Conflito Armado. Entretanto, houve restrições
ao seu embarque por parte do Departamento de Imprensa e Propaganda
(DIP), órgão de controle criado durante a ditadura do
Estado Novo, e por parte do então, Ministro da Guerra, General
Eurico Gaspar Dutra, por considerá-lo “comunista’.
Mas, apesar dos protestos teve o aval do presidente Getúlio,
atendendo solicitação de Chateaubriand. Assim, o jovem
jornalista se tornou um entre outros correspondestes brasileiros a
ser integrado à Força Expedicionária Brasileira
nos Apeninos.
“Antes de
embarcar recebeu um “ultimato” de Assis Chateaubriand:
- ”O senhor vai para a guerra, mas não me morra, seu
Silveira! Não me morra! Repórter é para mandar
notícias, não para morrer!”
Embarcou para
a Itália no 1º Escalão da Força Expedicionária
Brasileira. Ao chegar à Europa, Joel tinha 26 anos e era o
mais jovem de todos os Correspondentes de Guerra.
Em seu livro o
“Inverno na Guerra”, um diário de bordo, reeditado,
por ocasião da comemoração dos 60 anos do fim
da 2ª Guerra, Joel faz um emocionante relato da participação
dos nossos “pracinhas” no conflito e o cotidiano de um
correspondente de guerra.
Ao tecer sobre
o papel do jornalista na Itália, rebate críticas feitas
por pessoas mal esclarecidas sobre a atuação da Força
Expedicionária Brasileira: No primeiro capítulo do livro
acima citado.
“A
Guerra não foi um passeio”... “A guerra é
cheia de truques, todos nojentos; e um dos mais nojentos é
fazer com que alguém que com ela conviveu durante meses acabe
sendo condicionado por ela. Por isso é que naqueles dias, véspera
de volta pra casa, eu sentia que não fora apenas a guerra que
havia acabado, mas também uma parte do que eu era antes de
chegar à Itália. Por isto é que costumo dizer
que cheguei à Itália com 26 anos e voltei com 40. A
Guerra, repito é nojenta. E o que ela nos tira (quando não
nos tira a vida) nunca mais nos devolve”
O notável
Correspondente de Guerra acompanhou a luta dos nossos gloriosos pracinhas
de perto, sofrendo com eles as amarguras, dores e privações
que uma guerra pode causar.
Sobre a passagem
do Ano Novo (1944/1945), Joel assim o descreve, no livro de sua autoria
“O Inverno da Guerra” no artigo “O ANO NOVO”
Volto aqui a Roma
depois de 11 dias intensos na frente brasileira. A descrição
detalhada destes últimos dias serviria para desiludir algum
espírito ingênuo e otimista capaz de julgar ser a vida
do correspondente de guerra na Itália ou em qualquer outro
“front” do mundo, um paraíso movimentado e colorido.
Não quero me prolongar muito a respeito, mas quando o leitor
souber que entre o dia 25 de dezembro último e este 2 de janeiro
só me foi possível tomar um banho, apressado e econômico,
poderá por si mesmo tirar outras conclusões a propósito
da vida que levamos aqui. Mas é lógico que isto não
acontece somente com os correspondentes, obrigados a andar de um lado
para o outro, sem pouso certo para dormir ou para comer. A guerra
é, na sua totalidade, uma coisa incômoda, incômoda
para o general, para o coronel, para o pracinha ou para o correspondente.
As noites de 26, 27, e 28 haviam sido terríveis. Sabíamos
mais ou menos o que estava acontecendo, porque o coronal havia chamado
todos nós e, diante de um mapa minucioso, explicado as ultimas
manobras e intenções do inimigo. As últimas informações
de partigiani chegadas ao 5º exército revelavam a marcha
de quatro ou cinco divisões nazi-fascistas do norte italiano
para o sul, e tudo mostrava que os alemães, à semelhança
do que estava fazendo na frente do Ocidente europeu, tencionavam dar
inicio a uma grande ofensiva até o porto de Livorno.
A investida nazista contra uma divisão negra norte-americana
e a reconquista de Barga, num setor que meses atrás estava
sendo defendido pelos brasileiros, não queria dizer outra coisa.
A verdade, porém, é que tudo acabou bem, como devem
ter lido nas noticias telegráficas das agências.
Barga foi novamente libertada pelos aliados e os nazistas empurrados
para além de suas linhas anteriores. Entre a investida nazista
e o contra ataque aliado, que libertou, a pequena cidade medieval
esteve perto de dois dias nas mãos dos alemães. O tempo
foi pouco, mas o suficiente para que os tedescos cometessem contra
a população algumas de suas típicas barbaridades.
Homens e rapazes válidos foram mandados para o trabalho forçado
no norte italiano, alguns elementos partigiani presos e torturados.
Sigo amanhã cedo para lá, juntamente com alguns outros
correspondentes estrangeiros, o que significa dizer que dentro de
poucas horas a história da curta ocupação de
Barga poderá ser revelada em todos os seus detalhes.
A notícia de que os alemães estavam avançando
na Itália lançou o pânico nas populações
vizinhas à frente de batalha. Os civis nos seguravam nas ruas
para saber das últimas notícias. Um medo angustioso
e desesperado estava estampado nos rostos aflitos que nos indagavam
se era verdade que os tedescos estavam vindo de volta. Por alguns
instantes, nas estradas e caminhos da frente noroeste aliada, podia-se
contemplar um dos espetáculos mais comuns desta guerra fria:
filas de civis, com pertences às costas, fugindo de um inimigo
que parecia retornar com a mesma fúria e implacabilidade dos
seus primeiros avanços, naqueles distantes dias em que a guerra
era uma coisa sua.
Lembrei-me, então, de muitos dos muros pichados nas cidades
e povoados livres dos nazistas, e fiquei a imaginar comigo mesmo qual
seria a reação das SS ou da Gestapo diante de frases
como estas: “Viva a Inglaterra!” “Viva a Rússia!”,
“Morte aos fascistas!”. “Os tedescos precisam ser
eliminados!”. “A América toda poderosa nos salvará!”.
Possivelmente, os muros pichados de Barga terão justificado
os dois dias de crueldade nazistas, se é que o alemão
necessita de qualquer justificativa para praticar os seus crimes.
A revelação de que os tedescos foram derrotados e estavam
fugindo para os seus montes e casamatas nos chegou numa madrugada,
quando tentávamos adormecer sob o tiroteio que visava o quartel
avançado das tropas brasileiras. Voltamos a descer pelos Apeninos,
até nosso Quartel general avançado, e o último
dia de 1944 nos encontrou aboletados num jipe a caminho do que Roma
representava para nós, esgotado por noites intranqüilas
e atormentados pela neve e pela poeira de mil caminhos: um bom banho
quente, uma cama macia e confortável, uma luz regular com a
qual é possível ler alguma coisa, informações
e noticias em dia do mundo.
Mas o triste é que vim encontrar o Hotel de la Ville, “o
lar dos correspondentes”, como explica uma de suas tabuletas
na porta da frente, inteiramente tomado, sem um único quarto
para o povero brasiliano rovinato.
Tenho que passar esta última noite de 1944 no quarto de um
colega neozelandês, comprido e falador, pois que só amanhã
o aflito gerente me conseguirá uma cama e um banheiro meus.
Esfrego o rosto apressado, e ainda com os olhos ardendo de poeira
vou lá para baixo, para o bar, onde uma multidão complexa
e diferente canta e dança como componentes de uma só
família. O ano de 1945 me encontra cochilando numa poltrona,
defronte uma lareira apagada e diante de um conhaque vermelho e sem
gosto. Foram as badaladas do Big Bem, irradiadas de Londres para os
correspondentes do Hotel de la Ville, que me despertaram, e aqui eu
faço votos para que nunca mais aconteça, em toda a minha
vida,uma outra passagem de ano semelhante.
Não devo esquecer também o gesto espontâneo e
gentil da bela correspondente sul-africana (ela se chama Norinha).
Meia noite, ela me bateu no ombro e ergueu uma taça de champanhe.
Suas faces estavam coradas, a luz brilhava nos seus cabelos pretos
e sua voz veio até mim como uma coisa inesperada, mas muito
desejada:
- Feliz Ano Novo para os brasileiros.
Foi um pequeno instante de felicidade que fico devendo à África
do Sul
Joel, assim como
Rubem Braga, também correspondente brasileiro são nomes
dos mais conhecidos e admirados dentro do jornalismo brasileiro.
Publicou mais de 40 livros
Sobre a Força
Expedicionária Brasileira no Teatro de Operações
na Itália, escreveu:
A Luta dos Pracinhas e a Força Expedicionária
Brasileira
O Brasil na Segunda Guerra
História de Pracinhas
O Inverno da Guerra
Em seu livro “II
Guerra: Momentos Críticos”, Joel faz um comentário
sobre a Força Expedicionária Brasileira:
“Quanto
à inclusão da campanha da nossa Força Expedicionária
Brasileira, na Itália, justifica-se foi de importância
secundária, na enormidade da II Guerra, o papel desempenhado
pelos nossos pracinhas, tarefa que cumpriram com tanto sacrifício
e bravura. Mas, ganha ele significado maior quando se sabe que foram
os êxitos da FEB nos Apeninos e no Vale do Pó, que determinaram
o fim da Ditadura do Estado Novo de Getúlio Vargas, que após
a derrota do Eixo Totalitário, perdera por completo sua razão
de ser. Em escala menor, a FEB deu sua brava contribuição
para a derrota do nazi-fascismo na Europa: e, em escala maior para
a derrubada no Brasil, de uma ditadura fascista que já demorava
anos”
2 de junho de 1995.
Joel Silveira
recebeu os seguintes prêmios como jornalista:
Premio Machado de Assis, o mais importante da Academia
Brasileira de Letras
Premio Libero Badaró
Premio Esso especial
Premio Jabuti
E o Golfinho de Ouro
FONTE:
Matéria gentilmente
enviada por
Zenaide Duboc
(Colaboradora do Site)
Fotografias:
Acervo Roberto R. Graciani
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