Cabo João Batista Moreira
Ex-Combatente da 2ª Guerra Mundial


5ª Cia do 11º RI - Regimento de Infantaria - Reg. Tiradentes
São João del-Rei - MG

O Incitamento Inicial

Cabo João Batista Moreira

Quando chegaram as notícias do torpedeamento de navios brasileiros em nossas águas, por submarinos alemães, o povo saiu às ruas liderado pela comunidade universitária, formando uma multidão que saiu quebrando todas as casas comerciais de propriedade dos alemães, italianos e japoneses. Destruindo tudo, pelo Brasil inteiro, pedindo discurso e exigindo a guerra, a turba avançava. Até este momento, o presidente, simpático aos alemães, estava sem uma posição definida. Mas, com a revolta do povo, poucos dias depois, veio a declaração de guerra.

A quebradeira por aqui foi tão violenta, que foram destruídas casas inteiras, com tudo dentro. E era muita gente envolvida. Mas a polícia, parece que se recolheu, e não tomou providências para proteger os imigrantes. Chegou a um ponto, que, na Casa Ermani, na Rua São Paulo com Caetés, uma enorme casa de perfumes, levaram até um burro, no qual deram um verdadeiro banho de perfume e talco, gritando "Quebra, quebra, quebra..."

Mas, depois da declaração de guerra, e feita a convocação, noventa por cento dos estudantes convocados, seja por influência de parentes, amigos ou por outros modos, pediram baixa. Ficou apenas o pessoal da massa, o operariado. Foi esta a representatividade que atendeu ao chamado da pátria.

A Convocação

Meu nome é João Batista Moreira. Mineiro de Contagem, nasci em 1922. Já morando e trabalhando em Belo Horizonte, fui convocado pelo Exército, para a guerra. Minha mãe ligava o rádio todos os dias, na parte da manhã, para ouvir a lista dos convocados. Ficava atenta, pois éramos oito irmãos e estava preocupada que um de nós acabasse sendo convocado. Quando é lá um belo dia, saiu o meu nome, e ela veio correndo, muito séria, falar comigo.

Recebi a notícia com uma emoção positiva, porque, desde que explodiu a guerra, tinha a impressão de que iria participar dela e, vamos dizer a verdade, um pouco de vontade também. Desde o dia em que recebi o chamado oficial e me apresentei, procurei fazer o melhor, aprender o máximo, pois tinha convicção de que aquilo ia me servir no futuro, em operações de guerra. E aí, caprichava nas instruções e fui sendo aprovado em tudo: exame médico, capacidade física e outros. Dedicava-me não só à instrução de armamento, como, também, à parte física, ao futebol, bola militar, corrida.

Após alguns dias, também foi convocado meu irmão, Alysson. Passado mais ou menos um mês, surgiu uma portaria do Ministério da Guerra dispensando um em caso de dois irmãos convocados. Deveria ser eu o dispensado, por ser o mais novo. Acontece que notei que o Alysson estava muito desajeitado, para não falar, com medo. Disse-lhe que poderia requerer sua dispensa, que eu ficaria. Ele ficou chocado, mas, depois de três dias pensando, resolveu pedir baixa. Ficou com peso na consciência e muito preocupado, com medo que eu morresse.

Meu irmão mais velho, Sílvio, morava, nesta época, em Governador Valadares. Era um bicho bravo. Sabendo que minha mãe estava tristonha devido a minha convocação, enviou-lhe uma carta em que, entre outras coisas, dizia: "Mãe, é preferível beijar a fronte do filho herói, a abraçar o peito do filho covarde".

Minha mãe ficou mais conformada, mas atravessou todo aquele período em meio a muita angústia, tinha medo que eu ficasse por lá.

Enfim, fui considerado normal, forte, saúde muito boa... Então, fui seguindo, e não deu outra, deu para mim, mesmo!

Sangue de Escorpião

Cb Moreira

Aquele foi um dia pesado. O quartel parece que estava impedido e eu estava de sentinela no flanco esquerdo, na Rua Uberaba. Estando de guarda, de acordo com as instruções militares, o soldado não pode, de forma nenhuma, abandonar o seu posto. Ele só o abandona ferido ou morto. E lá pela meia-noite, mais ou menos, eu estava sozinho na minha guarita, quando senti uma fisgada forte, que, acabei descobrindo, tinha sido provocada por uma picada de escorpião. Estava doendo muito, muito mesmo, mas eu não podia abandonar meu posto, e, nem me interessava ir para a enfermaria, que lá não tinha nada, não tinha remédio nenhum. Então, fazer o quê? Não obstante a dor, a inchação e algumas manchas vermelhas no local, agüentei firme, sem falar nada com ninguém.

Quando foi pela manhã, chegou-me uma convocação para comparecer ao Hospital São José, logo em frente ao quartel, para fazer uma doação de sangue a um parente que lá estava, mal. Assim, nem tomei café; só comuniquei ao oficial do dia e me dirigi para lá. Nesta época, o serviço de transfusão de sangue estava em seus primórdios, sendo tudo ainda muito precário. Ao chegar, encontrei mais uns seis ou sete primos, todos homens fortes. Nós fomos mandados para um laboratório, na Rua Carijós, onde tiraram uma amostra do nosso sangue. Nesta época, a transfusão somente era feita nos casos em que o doador e o receptor tivessem compatibilidade sangüínea total. Aconteceu que, de todos, somente eu, por ser Rh negativo, acabei considerado apropriado.

Fui mandado de volta ao hospital, com ordem de permanecer em jejum. Estava sem comer, tinha passado a noite em claro devido à picada do escorpião, não podia nem beber água, mas fui agüentando. Lá pelas duas e pouco da tarde, chegou um médico e me retirou mais uns 400 gramas de sangue. Acabou de retirar a agulha e eu levantei da cama. Mas, rodou tudo e caí, me levantando em seguida. Um irmão do doente, fazendeiro, muito rico e muito feio, me encarou, falando:

— Isso é que é soldado que nós vamos mandar para a guerra?

Eu, que já estava muito nervoso, virei-me para ele e respondi:

— Vou provar que soldado eu sou, e vou começar quebrando a sua cara, aqui mesmo, dentro do hospital...

E ameacei partir para cima dele. Houve a pronta intervenção dos demais e dali eu saí direto para a rua. Estava com 200 réis no bolso e uma idéia na cabeça: eu, que nunca fui de beber, cheguei no primeiro bar que encontrei e pedi todo o meu dinheiro em pinga. Achei que aquilo ia me animar. Botaram no meu copo uma puxada boa, tomei aquilo... Imaginem só a minha cabeça, eu sem dormir, debilitado, em jejum, eram umas três da tarde.

Dali, como não tinha dinheiro para pegar o bonde, puxei a pé para a minha casa, perto da igreja do Carlos Prates. O certo é que gastei mais de hora e meia, andando. Ora sentava um pouco, ora escorava numa árvore ou muro, mas, cheguei lá. Como, pela doação de sangue, fui dispensado por dois dias do quartel, eu tinha, além do restante daquele dia, uma terça e uma quarta-feira inteiras, para descansar.

Era para fazer nova doação na quarta, à tarde. Mas, nesse dia, pela manhã, minha mãe foi chamada na porta de casa e logo depois entrou chorando:

— Fulano morreu!

Eu tive uma reação espontânea e exclamei:

— Graças a Deus, estou livre disso... Que beleza...!

Quase apanhei da minha mãe.

Ela é Mais Homem

Alguns soldados choravam de repente, sem razão aparente. Não foram muitos, mas existiram. Na minha companhia teve um caso no qual me envolvi. Aconteceu, com um ex-guarda civil, muito brigador, lutador de luta-livre. Um certo dia, ao entrar no alojamento, encontrei-o em prantos, chorando forte. Não agüentei e perguntei-lhe:

— Quem morreu? Sua mãe morreu?

— Não... mas, nós vamos para a guerra e vamos todos morrer...— ele respondeu.

E recomeçou a chorar. Sacudi o soldado, falando:

— Vai para sua casa e veste esta farda na sua irmã, que ela é mais homem do que você...! Você é um covarde...!

Por ter simulado uma doença, este rapaz acabou por ser dispensado. Depois que nós voltamos da Itália, notei que ele evitava encontrar-se com os velhos camaradas. Quando via um de nós, saía fora, tinha vergonha, por ter-se acovardado.

Garrafinha Milagrosa

Na noite anterior ao embarque para São João del-Rei, saiu do quartel uma turma grande, rumo à cidade, fazendo bagunça por onde passava. Bebendo, brigando, quebrando... A polícia não tomou conhecimento, recolheu todo mundo e a P.E. não tinha condição de coibir a arruaça, já que no quartel só existia um velho caminhãozinho, sem muita condição de rodagem.

Na Av. Santos Dumont, um dos baderneiros gritou, de repente:

— Olha lá...!, um Japonês...!

Logo, rodeado pela turma, caíram no coitado chuvas de pontapés, pescoções e bordoadas, além de xingatório pesado. Mas, quanto mais apanhava, mais o "japonês" ria. Até que um dos recrutas perguntou:

— E aí, Japonês? Você apanha e ainda acha graça?

— Vocês tá tudo inganado, né! Eu é chinês...! Por isso, eu tá rindo, eu é chinês..! Foi sua surpreendente resposta.

Pela manhã, às seis horas, saímos do quartel rumo à estação do Carlos Prates. Os companheiros que não iriam embarcar, foram também, fazendo questão de carregar os nossos pertences pessoais. Encontramos uns 20 carros da Central encostados, e a banda do Regimento, tocando sem parar um dobrado de Batista de Melo. Mal acabava e recomeçava tudo de novo, muito bonito. Eu pedi em casa que não aparecesse ninguém. Havia mulheres desmaiando, noivas chorando, uma babel terrível... Mas, enfim, embarcamos.

Já dentro do carro, na minha frente, sentou-se o meu amigo Tião, de Sabará. Era um touro, grande, bom de bola. De repente, deu nele uma crise de choro, soluçava que só vendo... Como eu tinha levado uma garrafinha de guaraná, cheia de cachaça (isso ainda vai servir para alguma coisa), dei-lhe uma gravata com o braço esquerdo, levantei sua cabeça e despejei todo o líquido goela abaixo. Ele bufou e esbravejou, mas engoliu. Nem vi o trem arrancar da estação.
Embalado pela "garrafinha", lá pelo Barreiro, não é que o Tião descobre um violão e começa a puxar uma boa música? E, assim, na cantoria e na batucada, chegamos a Barbacena. Ali, houve uma baldeação para carros da Rede Mineira de Viação nos quais tomamos o rumo de São João del-Rei.

Cobra Noturna

Talvés seja no Capistrano (não se recorda)

A cidade de São João del-Rei é atravessada pelo rio das Mortes. Naquele tempo, naquela região, havia por lá um tipo de cobra, grande e inofensiva. Algumas moças do lugar andavam com cobras nos braços, era um xodó danado. Mas, a tropa ainda não conhecia aquilo. Já de noite, recolhidos ao alojamento, grande, lotado de camas beliche, nos aparece um soldado com uma das tais cobras enrolada no pescoço, dizendo que a mesma era altamente venenosa, e coisa e tal, mas que não tinha problema algum, que ele dominava a arte do encantamento das cobras. A tropa, admirada, foi-se chegando

De repente, a luz se apaga e o dono da cobra logo dá o grito: "Soltei a bicha...". Foi uma quebradeira só, todo mundo pulando para cima das camas, uma gritaria infernal. Quando o rapaz viu que a coisa estava ficando séria, gritou de novo: "Peguei a bicha...". Quando a luz foi acesa o engraçadinho teve de mudar de alojamento, a turma toda queria bater nele.

A cobra, claro, nunca saiu da sua mão.


E a Tropa Debandou

As moças de São João del-Rei, quando percebiam a aproximação de algum praça, saíam imediatamente das salas e janelas e embrenhavam-se no interior das casas, porque era cantada e piada, na certa.

Em um dia de folga, a turma estava fazendo bagunça e não sabia que ali, em frente, era a residência do major Cândido, que tinha o apelido de "Galo Cego", por que um de seus olhos era meio fechado e, também, por ser muito bruto. Os arruaceiros, uns 10 praças, estavam na maior baderna, quando da casa irrompeu o major e deu voz de prisão para todos. Levando a turma para o alpendre da casa, onde foram colocados em forma, posição de sentido, mandou que aguardassem e entrou, queria buscar papel e lápis para anotar nome e companhia de cada um. Mas, quando retornou, não achou ninguém; a tropa debandou.

O "Galo Cego" esteve, também, envolvido em outro caso famoso, envolvendo as gírias empregadas pela tropa. Depois do final da guerra, durante uma visita do oficialato brasileiro ao Papa, os oficiais estavam se apresentando ao Pontífice e tudo corria bem, até que chegou a vez do Galo Cego, que foi logo dizendo:

— Seu Papa, sou o major Cândido, comandante do 3º Batalhão, do rabo...

Foi uma gozeira enorme, claro.

Bisturi Velho

No Rio de Janeiro, fui acometido de um tumor muito grande no ombro direito e baixei ao Hospital Central do Exército - H.C.E.. Lá chegando, com muita dor, não havia cama na enfermaria e aguardei sentado no chão, sem nenhum atendimento. Depois, andando pelo local, notei que havia um soldado agonizando; fiquei, então, mais animado, sentei-me ao pé da sua cama e aguardei uma ou duas horas, quando notei o mesmo dando o último suspiro e tombando a cabeça de lado. Conferi com o dedo no seu olho e ele não piscou. Fui chamar o sargento-enfermeiro comunicando a morte do soldado e que a cama era minha. O sargento concordou, me acompanhou e retirou o corpo. Não deixei a cama esfriar, deitei-me logo.

À tarde, procurei o sargento-enfermeiro pedindo que me rasgasse o tumor. Ele informou que só tinha água oxigenada e um bisturi velho. Corta assim mesmo — falei. O sargento chamou, então, quatro soldados para me segurarem, o que recusei. Pegando o velho bisturi, completamente cego, com muita grosseria, demorou bastante a cortar, já que a pele estava muito grossa. Para terminar, espetou o bico da seringa, lavando a ferida com água oxigenada. A esta altura, eu já estava vendo estrelas, mas, dali por diante, era só esperar a cicatrização.

Nesse dia, aconteceu um fato muito interessante: Havia desaparecido uma irmã de caridade, assim como um sargento. Depois de muita procura, foi encontrada toda a roupa da irmã e do sargento junto ao muro. Fugiram...

Rebeldia na Caserna

Eu pertencia à Companhia de Petrechos Pesados, lotado no 2º Batalhão, ou seja, nosso negócio eram as metralhadoras. Lá no Morro do Capistrano, o rancho era feito por Companhia, sendo que a comida dos oficiais era confeccionada separadamente da nossa. Recordo-me que os ingredientes eram muito bons, mas a mão-de-obra empregada era péssima. Eu nunca aceitei aquela humilhação, e, um belo dia, combinei com os companheiros para rejeitarmos aquela comida.

Na hora do rancho, eu formando na frente por causa da altura, quando cheguei perto das panelas, virei para trás e falei: "Olhar à direita (para as panelas), marmitas à esquerda! Ninguém pega nada". Apenas os sargentos, que eram profissionais, pegaram aquela comida.

Quando o tenente Dagmar, que era o oficial do dia e uma pessoa que sempre olhava os demais com o semblante carregado, percebeu o que se passava, botou a tropa em forma e meteu a bronca:

— Revoltosos, vão ser expulsos... Isso vai dar Conselho de Guerra... Quem é o líder?.

Ninguém me apontou e a bronca prosseguiu, no mesmo tom:

— Vocês vão é comer capim, no front.

Aí, não agüentei mais e, perfilado, disse que discordava, que no front haviam soldados com anos de frente e que, lá, só morriam por combater o inimigo, nunca devido à comida que ingeriam. Que, com uma comida como a nossa, já teriam morrido, há muito tempo. Acabei preso.

O capitão Sabóia foi chamado e ouviu a representação do tenente contra nós. Éramos uns 180 praças. Cearense, ótima pessoa, o capitão balançou a cabeça e dirigiu-se para a cozinha, onde entrou e permaneceu por uns 10 minutos. Soubemos, depois, que ele, após provar a comida, chamou o sargento Domingos, chefe dos cozinheiros, e deu-lhe ordem para jogar fora toda a comida e preparar outra, decente, em uma hora. E mais, concluída a refeição, todos que ali trabalhavam, estavam presos.

Só sei que quando saiu da cozinha, tomou o comando da tropa, gritando:

— Companhia, ao meu comando! Todos para o alojamento...

Uma hora depois, fomos chamados ao refeitório, para pegar a nova comida, que estava ótima. E, nunca mais tivemos problemas com nossas refeições...

O tenente Dagmar ficou tão desesperado, de raiva, que pediu transferência da companhia.

Patrulha em Bangu

Logo depois da chegada ao Rio de um contingente de gaúchos, mais de 400 homens, que não se misturaram com ninguém, ficando só entre eles, me incluíram numa patrulha, de uns dez homens, que se dirigiu para Bangu. Perambulando por lá, logo vieram nos chamar, comunicando que havia um grupo fazendo muita bagunça em um bar ali perto.

Os soldados eram, em sua maioria, os gaúchos recém-chegados e mais alguns outros, poucos. O local estava em desordem completa. Nós entramos em ação, querendo acabar com aquilo na democracia. Porém, segura daqui, pede dali, a baderna não parava de jeito nenhum. Foi aí que entrou no cabaré um cabo do nosso regimento, o Camargo, capixaba, preto, grande atleta, que, por estar vestido com nossa capa de chuva (não por acaso, apelidada de "Deus-me-livre-de-chuva"), também portava consigo um enorme facão de mato.

Quando ele nos viu naquela peleja com os gaúchos, a arma logo passou para sua mão e ele foi direto para um cabideiro, lotado de cabides de louça, que eram utilizados para pendurar os agasalhos dos clientes. E quebrou todos, provocando um enorme barulho. Aí, com o facão girando sobre a cabeça, avançou para os gaúchos, gritando:

— É agora! Vou arrancar cabeça...

Aquilo foi tão inusitado que todos debandaram. Acabamos por prender um único soldado, carioca, que era quem mais estava insuflando a baderna. Com ele preso, pegamos o trem elétrico e retornamos ao quartel. Durante o trajeto, o preso foi-se chegando para perto da porta, até que em uma das paradas, quando a porta começou a fechar, o safado pulou para fora e nós não tivemos meios de recapturá-lo. Assim, sem o prisioneiro, a patrulha entrou no quartel por volta das 3:00 horas da madrugada.

Logo depois, já no melhor dos sonos, começou uma barulheira danada dentro do alojamento. Era um dos companheiros de patrulha, pareceu-me que sonhou com a briga em Bangu, e, mesmo dormindo, de travesseiro nas mãos, estava batendo em todo mundo. Tivemos que acordar o soldado, para restaurar a normalidade.

Uma Tocha do Rabo

Às vezes, os soldados começavam a empregar determinada palavra com um outro sentido, criando uma gíria, e aquilo pegava mesmo. Um exemplo de gíria que pegou foi "a tocha", que era usada quando se queria fazer um passeio, fora do quartel, para qualquer lugar. Dizia-se: "Hoje, vou fazer a tocha até o Parque Municipal". Outra gíria, muito empregada era "Vem rolando". Para tudo que o sujeito queria ou desejava, ele dizia: "Vem rolando...". Me lembro, também, de "do rabo", uma gíria muito usada para elogiar, fosse uma mulher bonita, um carro novo ou um comandante, tudo era "do rabo".

O caso mais famoso envolvendo o uso das gírias do quartel ocorreu no Rio de Janeiro, quando um pessoal do 6º RI, grupo grande, uns 70 a 80 homens, todos da cidade de Caçapava-SP, desceu certa sexta-feira à noite, rumo à Estação Ferroviária, com a firme intenção de praticar uma tocha rumo à cidade natal, sem pagar a passagem, é claro. Lá chegando, foram ocupando seus lugares, espalhando-se pelo trem. Não é que o chefe-do-trem, muito diplomaticamente, propôs que a tropa se reunisse no último carro, onde poderiam viajar entre camaradas e com muito mais conforto. Alegres, desceram, todos, e se dirigiram para o último vagão. Quando o trem partiu, o carro não se moveu. O esperto chefe-do-trem havia desengatado o vagão do restante da composição e, assim, deixou a turma, feito bobos, sentados por lá...

Na sexta-feira seguinte, um número ainda maior de soldados naturais de Caçapava rumou para a Estação Ferroviária, todos prometendo realizar uma tocha memorável. Esparramaram-se pelo trem inteiro, em cada carro tinha uma boa turma. Assim que o trem partiu, tomaram a composição. Entre os convocados, havia elementos de todas as profissões e especialidades. Naquela turma, havia, inclusive, um maquinista, que assumiu o controle da locomotiva. Correndo muito, sem parar em nenhuma das estações durante o percurso, obrigaram o chefe-do-trem a telegrafar, desesperado, para pedir que os comboios vindos em sentido contrário dessem passagem. O trem só se imobilizou em Caçapava, onde todos os envolvidos foram presos e imediatamente devolvidos ao Rio de Janeiro.

Pancadaria em São Januário

Houve um jogo de futebol, no campo do Vasco da Gama, entre as seleções do Brasil e do Uruguai, exclusivamente para diversão da tropa. Lá compareceram três Regimentos. Assim, o 1º, 6º e 11º RI foram ocupando seus lugares nas arquibancadas, separados por pequeno espaço onde se postaram os elementos da Polícia do Exército.

Parece-me que o efetivo da PE era de um batalhão, o qual havia sido formado aproveitando-se os quadros da guarda civil de São Paulo. Mas, como os praças nunca se deram bem com a guarda civil, os PE vieram para o jogo prepotentes, brutos e mal-educados, julgando-se superiores a todos.

Enquanto estiveram chamando a atenção dos praças do 1º e do 6º RI, nada de mais sério ocorreu, porém, quando um policial, com o dedo em riste, chamou a atenção de um segundo sargento do 11º RI, dizendo-lhe:

— Abotoe esta gola, você não conhece o regulamento...?

Após responder: — Conheço sim... — o sargento pregou-lhe um soco no rosto, com o que, o PE caiu nocauteado.

Nesse momento, todo o Regimento partiu para o espancamento dos policiais. Aparecendo o major comandante PE, gritando que parássemos com aquela bagunça, recebeu de um praça um violento soco que abriu-lhe o supercílio, fazendo com que, tonto, tivesse de sentar-se nos degraus da arquibancada, com o rosto sangrando. Faltavam quinze minutos para o jogo terminar, quando foi suspenso pelo árbitro, já que a tropa, descendo para o gramado, foi arrancando cadeiras, que passaram a ser o instrumento utilizado para o espancamento dos policiais.

O presidente Getúlio Vargas e sua comitiva saíram do estádio em desabalada carreira. Os elementos da Polícia do Exército também fugiram, deixando para trás seus companheiros feridos. Não havendo mais em quem bater, a tropa dirigiu sua fúria para a Polícia Especial, os chamados "Cabeças Vermelhas", devido ao gorro que utilizavam:

— Agora é a Polícia Especial...!

Providencialmente, naquela hora, a banda começou a tocar o Hino Nacional, com o que, a tropa inteira parou e entrou em forma, como se nada tivesse acontecido. A Polícia Especial aproveitou o momento e saiu em acelerado. Segundo informações, naquele dia morreram três policiais dentro do campo.

No regresso, dentro do trem elétrico, foi descoberto um pobre policial que estava de folga. Agarrado por alguns elementos, foi jogado para fora do trem em alta velocidade, pela janela, aumentando, assim, para quatro, o número de vítimas. Nunca mais o pessoal envolvido neste episódio foi aceito pelo restante da tropa.

Parece-me que estes acontecimentos ajudaram a abreviar o nosso embarque para o desconhecido.

Sapo no Brejo

Dias após o incidente no campo do Vasco com a polícia do exército, compareceu ao quartel da Vila Militar o General Zenóbio da Costa e alguns oficiais da polícia, com o objetivo de apresentarem-se à tropa e acalmarem os ânimos. Com o Regimento em posição de sentido, o Coronel Delmiro, comandante do 11º RI, apresentou o General Zenóbio, que começou a discursar.

Mas, o 11º RI. tinha um assobio, imitando sapo no brejo, que era emitido quando não estavam satisfeitos. Imediatamente, começou um assobio curto, por parte de todos os praças, forçando o general a parar de falar, enquanto os oficiais procuravam identificar os culpados, o que era impossível, já que os assobios só soavam onde eles não se encontravam.

Assim, com 4.000 homens assobiando sem parar, o general, furioso, foi embora. E, nunca mais voltou ao Regimento.

Telegrama Repeteco

Chegou um tempo em que ninguém era dispensado para ir em casa. Mas, o soldado é um bicho terrível. Logo, alguém descobriu que uma licença era concedida nos casos de falecimento na família (pai, mãe ou irmão). Havia na companhia Canhão Anti-Carro, um soldado, apelidado Meia-Noite, que escreveu para casa pedindo que lhe fosse enviado um telegrama comunicando algum falecimento. Assim que chegou o mesmo, com a cara mais triste do mundo, Meia-Noite se apresentou ao capitão-comandante da companhia e entregou o papel. Solidário com a morte de sua mãe, o capitão deu-lhe os pêsames e autorizou, em seguida, sua dispensa, por oito dias. Mais de mês depois do seu retorno, Meia-Noite recebe outro telegrama de falecimento. Toda a cena se repetiu: ele fez uma cara de enorme tristeza e se apresentou ao capitão, a quem entregou o telegrama.

Só não esperava a reação imediata do capitão:

— O Pilantra!, pai você pode ter muitos, mas mãe, é uma só. Mãe não morre duas vezes... Te dei oito dias de dispensa, agora você vai ganhar é oito dias de xadrez... Tá preso...

O que não faz um soldado por uma folga!

Rodeado de Gente

Quando Frei Orlando chegou ao 11º RI, 2º Batalhão, mostrou-se uma pessoa muito culta, humilde, enfim, uma pessoa formidável. Mas, enfrentou um sério problema: ninguém queria saber nada de nenhuma religião. Quando ele celebrou a primeira missa campal, lá no Rio de Janeiro, quase não havia ninguém.

A forma como ele conseguiu se aproximar, se enturmar e se fazer querido e respeitado pelos soldados foi interessante: onde tinha uma turminha conversando, ele chegava. Normalmente, eles debandavam de imediato. Mas, o Frei chamava-os para trás, oferecia um cigarro, puxava conversa... Todo mundo sem dinheiro, pegavam um cigarrinho aqui, outro ali, e se deixavam ficar, proseando um pouco com o Frei. Rapidamente, estava sempre rodeado de gente e suas missas admitiam quase que o Regimento inteiro. Quando morreu, foi um grande pesar para toda a tropa...

Rumo à Itália

Já em alto-mar, houve um treinamento da artilharia do navio. Um avião, com um grande balão sendo rebocado por um longo cabo, passou pelo navio. Quando o balão foi enquadrado, recebeu disparos dos canhões de 105 mm e das metralhadoras antiaéreas de bordo, quatro metralhadoras ponto 50, ligadas em série. Com um homem fazendo a pontaria, eram necessários quatro municiadores. O avião continuou em direção ao navio-escolta brasileiro "Duque de Caxias", onde, com a primeira salva de tiros, explodiram o balão. Foi um delírio para toda a tropa...

A refeição era servida duas vezes ao dia. Os homens tinham um cartão numerado, pendurado no pescoço, correspondendo cada número a uma refeição. A perfuração do cartão ocorria na entrada do refeitório, cuja fila nunca acabava, persistindo durante as 24 horas do dia.

No convés do navio, foram espalhados diversos tambores de 200 litros, para recolher o que era vomitado, já que não era permitido, por razão de segurança, vomitar pela amurada. Todo mundo a bordo estava enjoado e, em volta de cada tambor, sempre existia uma roda de homens vomitando ou esperando uma vaga na beirada do mesmo. O cabo Vicente, com a boca cheia de vômito, não conseguiu segurar-se e vomitou em rajada, sujando todo mundo. Neste momento, chegou também o capitão Rodarte, que tinha sido apelidado pela tropa como "Quem peidou aí?", devido a sua maneira de andar, com o nariz empinado para cima, dizendo: — Que porcaria. — e vomitou também, em cima de todo mundo. Não deu tempo nem de dizer "porcaria", de tão enjoado que ele estava.

Quanto às diversões a bordo, nossa preferida eram as lutas de boxe, coordenadas por um sargento americano apelidado "Cachaça", que era a única palavra em português que ele falava. Às vezes, as lutas eram às cegas, com a platéia tomando partido deste ou daquele lutador, orientando aos gritos. O "Cachaça", para dificultar ainda mais, colocava uma luva em um pedaço de pau e acertava os oponentes, de longe.

Entretanto, a diversão era pouca. Partíamos para a guerra...

Saraivada de Palavrões

Recebemos um livreto com instruções para o caso de torpedeamento do navio. Lido e relido, concluí que, caso viesse a se concretizar, ninguém se salvaria. Um belo dia, pela madrugada, ouvi o toque da sirene de alarme indicando a aproximação de submarino alemão. Veio, então, a ordem para entrarmos em forma e nos prepararmos para abandonar o navio.

Eu, que estava deitado no beliche, imaginei: Morrer aqui ou na água, prefiro aqui. Ocorreu, então, uma contagem dos homens e o tenente deu pela minha falta. Veio ao meu beliche e perguntou-me se eu não tinha ouvido a ordem. Eu respondi que sim, mas que preferia morrer deitado, e dei um grito: "— Manda fogo, alemão!". Recebi uma saraivada de palavrões como resposta, mas, o torpedo não veio.

Escorregador de Navio

Quando fui promovido a cabo, acabei transferido da Companhia de Petrechos Pesados para a 5ª. Lá chegando, tratei de me apresentar ao sargenteante, 1º sargento Humberto, que, mal-humorado e nervoso, me recebeu muito mal, gritando comigo. Como respondi no mesmo tom, gritando também, acabou surgindo uma inimizade entre nós. Na viagem para a Itália, a bordo do navio, o sargento Humberto foi uma das pessoas que mais passou mal. Foi impressionante, ele quase morreu, amarelou, vomitou uma semana inteira, sentado num cantinho do alojamento, virou um caquinho. E eu, passeando para lá e para cá, quando passava por ali ficava olhando para a cara dele e pensava no escorregador do navio, que é por onde são lançados ao mar, num grande caixão de ferro, aqueles que, por qualquer motivo, vêm a falecer durante a viagem. E pensava: "Vai conhecer o escorregador de perto, tomara...".

Mas, quis o destino que ambos chegássemos à Itália, onde, com o desenrolar dos acontecimentos, a animosidade sumiu e acabamos ficando muito amigos. Um belo dia, ele me diz:

— Sabe, Moreira, quando você se apresentou na companhia, eu não fui com a sua cara...!"

Nem deixei ele acabar de falar:

— Pois é, `tamos pagos', que eu também não fui com a sua e torci muito para você andar no escorregador do navio...
Ele só riu e respondeu:

— Ô miserável, sô...!

Terra Brasileira

Nós já estávamos há mais de 10 dias viajando, só sol, mar e algumas baleias. Cada um procurava alguma forma de se distrair, para fazer passar o tempo mais rápido. Houve dois casos curiosos, durante estes dias tediosos. No primeiro, de repente, gritos:

— Terra Brasileira...! Terra Brasileira...!

Todos correram para fora, procurando o horizonte. Mas, a verdade é que um soldado havia levado consigo um bom punhado da nossa terra, num embrulhinho. O desfecho deste episódio foi rápido, muito rápido: cada qual pegou um pouquinho e acabamos com a terra do embrulhinho.

Chorei duas vezes

Na Itália - Cb Moreira abaixado

Da convocação à desmobilização, confesso que chorei duas vezes. A segunda vez em que fui levado às lágrimas, aconteceu ao ser desmobilizado, durante a despedida dos colegas e companheiros, na certeza de que, muitos, não encontraria nunca mais...

Quanto à primeira vez que chorei, aconteceu quando chegamos ao porto de Nápoles, onde embarcamos nas pequenas barcaças L.C.I., de desembarque, com capacidade para mais ou menos trinta a quarenta homens. Totalmente fechadas, o destino de cada uma das aproximadamente oitenta barcas era o porto de Livorno. Como o mar estava muito agitado, as barcas pareciam caixas de fósforo na correnteza, jogando demais, com a água passando por cima de nós, que, trancados, só podíamos nos segurar para não cair. Os alemães, quando tomaram conhecimento do desembarque do Regimento, lá pelas dezoito horas, prepararam-nos uma recepção: um bombardeio. Mas, o serviço de contra-informação americano foi mais inteligente, fazendo com que o desembarque fosse retardado para o amanhecer do dia seguinte. Ficamos parados no mar, na escuridão, por várias horas.

Depois, a barca em que viajávamos ficou parada pertinho da mureta de proteção de algumas casas, em cujo quintal se viam diversas macieiras, carregadas de lindas maçãs, vermelhinhas, de dar água na boca. Como a maçã, no Brasil, era toda importada e quase não se comia, fiquei com uma vontade enorme de provar algumas delas. Fiz gestos para um italiano, em terra, propondo a troca de um maço de cigarros por maçãs. Recebi umas dez, e comi logo umas seis de uma vez, deliciosas. Mas, logo, com o reinício da viagem, fiquei enjoado e acabei vomitando tudo o que havia comido.

Pudemos ver que Livorno era cercada por inúmeros balões presos por cabos de aço, a dois mil metros de altura. Era uma forma de impedir ou dificultar o bombardeio do local pelos aviões inimigos. Ali chegamos, no início da manhã, sem nada acontecer. Depois do desembarque, o Regimento foi formado e procedeu-se, então, ao hasteamento da Bandeira Nacional. Ao som do Hino Nacional, tocado pela banda do Regimento, olhando a Bandeira do meu Brasil, não agüentei a emoção e chorei.

Mais um Tenente...

Em San Rossore, local para onde fomos levados para recuperação da viagem e treinamento com novas armas, fomos instalados em uma espécie de parque florestal, reserva de caça do Rei Vitor Emanuel. Lá, havia uma enorme clareira, rodeada por uma capoeira fina. Na parte inferior da mesma, havia uma praia onde a água do mar morria sem nenhum obstáculo.

Temendo um desembarque no local, os alemães haviam minado toda a extensão da praia e as duas laterais da clareira. Dos animais ali mantidos, restavam apenas uns dez camelos, vagando pelo mato. Logo que chegamos, à noite, ouvimos uma explosão muito forte. Pela manhã, ficamos sabendo que um camelo fora morto devido à explosão de uma mina. Curiosamente, as explosões continuaram, e, a cada explosão, mais um camelo era encontrado morto. Foi só questão de tempo. Rapidamente, a cada detonação, o regimento inteiro berrava para a escuridão da noite:

— Mais um camelo...!

O campo minado foi aproveitado para treinamento dos pelotões de mina, um deles comandado pelo primeiro tenente Márcio Pinto, de Belo Horizonte, muito bom jogador de futebol. Ao final de um dia de treinamento, no final da tarde, já no meio do regresso ao acampamento, o tenente Márcio lembrou-se de haver deixado um determinado objeto no local da instrução. Mandando o pelotão prosseguir, retornou para recuperar o objeto esquecido. Com o cair da noite, acabou por errar a trilha de retorno, entrando em marcha batida por um caminho ainda não liberado.

Uma vez mais, a tradicional explosão noturna foi ouvida. Anoiteceu de vez e o tenente Márcio não apareceu. Pela manhã, o pessoal do pelotão de mina encontrou o corpo, ou o que restou dele: a cabeça, ligada a um dos braços. A partir daí, sempre que ocorria uma explosão de mina, o Regimento inteiro bradava em conjunto:

— Mais um tenente...!

"Recuperando" as Perdas

Os veículos que nós recebemos ao chegar na Itália tinham a chave fixa na ignição. Rapidamente, perdemos diversos deles. Na primeira semana, foram aproximadamente uns 10 carros. Para impedir isto, para fazer com que todos os veículos fossem bem guardados por seus motoristas, foi dada ordem para que, em se achando um veículo abandonado, o mesmo fosse trazido para nossa unidade. Quinze dias depois, além de termos "recuperado" nossas perdas, tínhamos uns 30 carros a mais. "Acharam" ambulância, blindados, caminhões. Bastava algum americano se afastar alguns metros do seu carro que a gente subia nele e trazia para a companhia. Não deu outra: suspenderam a ordem, senão os gringos iriam ficar a pé.

Viagem ao Front

Transportando um capitão e dois tenentes, em um jeep, saí dirigindo, logo após o café da manhã, rumo ao front. A estrada, passando próximo ao topo das mais altas montanhas, tinha sido feita de forma emergencial, coberta com cascalho grosso. Era grande o movimento de tropas indo e vindo, e, também, de civis fugindo da frente, com aquilo que podiam carregar, assim como trouxas, carneiros, cavalos, carroças, etc.

A estrada era perigosíssima, mas os passageiros, a falar continuamente: "— Olha o paisano, olha o tanque, olha o caminhão..."

— o tempo todo da viagem, até que me encheram tanto o saco que explodi, parei o jeep, desci e disse aos tenentes:

— Os Srs. estão querendo sentar aqui? Os Srs. vêm dando palpites o tempo todo. Podem pegar o volante que fico por aqui e não dirijo mais. Não agüento mais! Vim aqui para morrer! Pelas mãos de brasileiros ou alemães é a mesma coisa...

Cb Moreira - 1º a esquerda

Foi quando o capitão, amigo, me pediu calma. Um dos tenentes quis falar alguma coisa e o capitão mandou que ele se calasse. Foi quando eu comentei com o capitão que não se devia confiar naqueles dois tenentes, que eles iriam se acovardar na linha de frente, pois estavam mostrando muito medo de morrer.

Acalmados os ânimos e com o pedido do capitão, resolvi continuar a viagem, com a ressalva de que não dessem palpites. O restante da viagem, de mais ou menos uma hora, transcorreu inteiramente em silêncio.

À tardinha, quase chegando ao acampamento, começou uma tempestade. Como, normalmente, o jeep não tinha capota, ficando a mesma guardada debaixo do banco do motorista, parei o veículo para retirá-la, mas a mesma havia ficado no acampamento. Neste momento, o tenente Rocha Loures quis reclamar, mas o capitão novamente interferiu:

— Cala a boca, que estamos em guerra e somos superiores a tudo.

Chegando ao acampamento, ao final da viagem, mais ou menos às dezenove horas, estávamos totalmente molhados. Fui a minha barraca, bufando de raiva, troquei a roupa e, meia hora depois, já à noite e sem comer desde cedo, fui chamado por um soldado e ele dizia que o tenente estava me chamando. Eu disse a ele que não iria.

Minutos depois, veio o soldado, novamente me chamando e respondi a mesma coisa. Tornou a me procurar dizendo que o capitão estava me chamando. Então, apanhei o meu fuzil, conferi as balas e pensei: "Se me xingar, morre"!

Chegando à cozinha, o capitão disse que mandou me chamar para tomar um chocolate com pão. Eu informei que já estava alimentado e ele perguntou o que tinha comido. Respondi:

— Raiva! — Respondi!

Ele, bom amigo, me entregou um copo de chocolate e me acalmou. Passados uns quinze dias, o tenente me procurou perguntando se eu estava com raiva dele e eu respondi que não. Então, ele me entregou uma metralhadora de mão e disse que íamos a Pisa para um trabalho. Fomos e voltamos sem nenhum problema.

"Ó o Bode!"

Na Itália - Cb Moreira o 2º da direita p/ esquerda

Certo dia, tive de ir à cidade de Pisa. Na volta, eram umas seis horas da manhã, ao passar pelo posto avançado encontrei a guarda, que era de quatro soldados e mais o tenente Elbert, do meu pelotão, retornando ao acampamento. Havia uma ordem segundo a qual o jeep só poderia transportar três passageiros. O tenente disse que iriam todos naquele veículo. Eu informei que só poderia levar três passageiros.

— Vamos todos, que é minha ordem! — foi sua resposta.

Porém, ainda antes de rodarmos, parou um jeep na minha frente, com o coronel sub comandante, que tomou nota do número do veículo e foi embora.

— "Ó o bode!" — eu disse ao tenente.

Lá pelas nove horas, apareceu um soldado dizendo que fosse ao comando, que o coronel queria falar comigo. Comuniquei o fato ao tenente e fui lá. Apresentei-me e ele indagou:

— Por ordem de quem você transportava cinco passageiros?

Em posição de sentido, respondi que a ordem era minha, que os homens estavam deixando a guarda da noite anterior e que estavam muito cansados. O coronel disse, então, que se a ordem era minha, eu estava desrespeitando ordens superiores, e, por isso, eu iria ficar preso por seis dias. Respondi que, em igual circunstância voltaria a proceder da mesma maneira.

— E ficará preso até aprender a cumprir ordens — ele respondeu.

De volta ao pelotão, o tenente me perguntou o que o coronel queria. Eu contei-lhe a conversa e que ele tinha ordenado que eu pegasse seis dias de cadeia. O tenente, então, perguntou por que eu não tinha dito que foi dele a ordem de transporte irregular. Respondi que esta pena, para mim, não valia nada, e para ele, tenente de carreira, iria atrapalhar futuras promoções. Agradeceu-me muito e acabamos ficando bons amigos.

Força de Trabalho

Os alemães usavam seus prisioneiros como força de trabalho. Russos, franceses, italianos, tinham, inclusive, de combater e acompanhavam as tropas, sob ameaça de morte. Um belo dia, nós aprisionamos uns oito alemães e, entre eles, um lourinho, que imediatamente se destacou, devido ao seu ar de felicidade e satisfação. Perguntado, em italiano, sobre o que estava ocorrendo, informou que era um prisioneiro russo, capturado pelos alemães e, contra sua vontade, obrigado a combater ao lado deles. Após ser definitivamente libertado, acabou recebendo um fuzil, que teve de ser retomado de pronto por nossos homens, já que virou uma fera e queria porque queria, bater e matar os prisioneiros restantes.

Bolsa Completa

A FEB estava subordinada ao V Exército Americano. Em um dos nossos lados, no front, ficava a 10ª Divisão de Montanha. Já no outro lado foi alocada a 92ª Divisão de Infantaria Americana, formada única e exclusivamente por soldados negros. Um certo dia, perto de Gagio Montano, encontrei um grupo desses soldados negros, trocando o pneu furado de um jeep. Levantado o veículo, não tinham chave de roda e vieram pedir emprestada a minha. Eles trocaram o pneu, montaram no jeep e saíram chutados, gozando minha cara e sem devolver a chave de roda. Só pensei: "Ah, criolada, vocês ainda vão me pagar...".

Dias depois, nossas tropas chegaram juntas ao mesmo lugarejo onde, logo em seguida, começamos a receber intenso bombardeio. Uma das explosões arremessou um estilhaço contra meu jeep, provocando um grande rombo no seu assoalho. Todos correram, buscando melhor abrigo e, nesse momento, vi o jeep dos negros americanos, abandonado. Aproveitei a deixa, fui até lá e peguei a bolsa de ferramentas, completa. Quando o canhonaço melhorou, fomos cada qual para o seu lado e eu comuniquei o ocorrido ao capitão Henrique, que só comentou:

— Foi uma boa lição, fez muito bem...

Confusão com a Senha

A 5ª Cia. foi designada para substituir um batalhão de negros americanos, bons de bagunça e ruins de linha de frente. Com a frente de batalha muito extensa, o capitão Henrique solicitou ao Alto Comando, o reforço de duas seções de metralhadoras pesadas. Cada seção possuía duas peças que eram comandadas por um cabo. Todo o pessoal era do 1º RI, cariocas, portanto.

Questionados sobre as senhas a serem utilizadas, os cabos responsáveis informaram que suas senhas seriam, Flamengo e Botafogo, respectivamente. Em seguida, foram posicionados na frente de batalha. À noite, sob lua clara, a seção Botafogo comunicou ao capitão a aproximação de uma patrulha inimiga, informando também que seriam entre doze e quinze homens.

O capitão mandou que esperassem a patrulha chegar um pouco mais perto, encerrando o contato. Quando, alguns instantes depois, tentou comunicar-se com o cabo comandante da seção, o mesmo não atendeu ao chamado. Insistentemente, o capitão começou a gritar:

— Alô, Botafogo...! Alô, Botafogo...!

Acabou sendo ouvido pelos praças, que gritaram para seus artilheiros:

— O capitão está ordenando: "Mete Fogo! Mete Fogo..."!

Em instantes, toda a frente estava disparando suas armas, e quanto mais o capitão gritava, mais tiros davam. Até que foi enviado um mensageiro a pé, mandando suspender o fogo.

Foi lançado um very-light (dispositivo para iluminação noturna, normalmente arremessado por morteiro a grande altura, onde se abre então, um pequeno pára-quedas para retardar a descida) que iluminou uma área de mais ou menos cem metros. Constatou-se, então, que havia um único alemão morto, tendo o restante da patrulha escapado, apesar do intenso tiroteio.

Foi enorme a confusão. Choveram telefonemas das demais companhias e do batalhão, todos querendo saber sobre "o violento ataque dos alemães".

É uma sorte a fartura de munição...

Lenha Humana

A 10ª Divisão de Montanha era um pessoal altamente especializado que servia ao nosso lado, no front. Homens de físico avantajado, muito bem treinados, com armamento e equipamento mais leves, eram uma Divisão de Elite, muito bem preparada, ao contrário de seus compatriotas negros, nossos vizinhos do outro lado.

Nós ficamos na reserva quando a 10ª atacou perto de Pietra Colore. A luta foi de uma enorme violência. Quando tudo terminou, os dois lados retiraram-se para recompor as tropas.

Eu assisti, de perto, os caminhões americanos se retirando, repletos de cadáveres, empilhados igual lenha. Foram, mais ou menos, uns dois mil e quinhentos homens, de ambos os lados. Depois, fui ao local da batalha, para olhar: o terreno estava todo destruído, todas as árvores, desabadas.

Bomba de Barro

A bomba do canhão de 155 milímetros fazia um buraco de aproximadamente um metro de largura, por metade disto de profundidade. Um certo dia, retornando com o sargento Chitara de alguma missão, ao passar por uma pracinha, recebemos bombardeio pesado. Encostei em um barranco e ficamos por lá, quietos, esperando o movimento passar. Porém, uma das granadas de 155 milímetros caiu a uns 10 metros de nós. Com o barulho, o sargento quase entrou para dentro do próprio capacete. Em mim, bateu um bolo de barro na boca, que, com o impacto e num primeiro momento, me fizeram pensar: "Arrebentaram minha boca...". Mas, era só barro. Esta explosão também prejudicou, e prejudica até hoje, meu tímpano do ouvido esquerdo.

Sangue e Neve

Deslocamo-nos para Gagio Montano. Junto ao pé do monte Castelo, a neve acumulada já estava próxima dos oitenta centímetros e eu seguia lentamente até a cozinha do acampamento. A estrada era extremamente perigosa, batida pela artilharia alemã. Expliquei ao Frei Orlando, que tinha pedido uma carona (o que era bom, pois se eu fosse ferido, ele poderia me confessar), as instruções sobre os bombardeios que estavam começando. Parando o veículo, informei que as bombas que estavam passando por cima não eram para nós e disse que, quando eu gritasse, era para se deitar imediatamente. Minutos após, dei o grito e deitamos. A bomba explodiu a poucos metros de nós, atingindo dois muares que estavam amarrados, arrancando a cabeça de um e partindo o outro ao meio. Do que arrancou a cabeça esguichava sangue, como uma mangueira furada, fazendo um contraste bonito de sangue e neve.

— Olha que beleza! — disse ao frei.

— Nossa Senhora! — ele respondeu, tampando os olhos.

Seguimos nosso caminho e ele, com muito medo, pedia para correr. Eu, brincando, falava:
— Vamos é devagar, que não quero morrer correndo.

E terminamos a viagem sem nada acontecer.

Massa na Boca

Os partisans italianos, às vezes, apareciam e se ofereciam para trabalhar junto às companhias. Um dia, surgiu entre nós um italianinho, cuja família fora dizimada pelos alemães, em Lago Bagio, sendo ele, o único sobrevivente. Louco por vingança, ficou por ali, fazendo pequenos serviços. Perto de Pietra Colore, em frente ao lugar em que acampamos, havia um terreno grande e limpo, plano e descampado. Foi quando surgiu um alemão, perdido, andando neste terreno, a uns 300 metros de nós. Um avião de caça americano o avistou e metralhou antes que pudéssemos fazer qualquer coisa. O soldado alemão ficou caído e nós não tomamos mais conhecimento dele. Mas o italianinho, correndo, foi até lá e encontrou o alemão agonizando, deitado de costas. Não é que o rapaz tirou as próprias calças e mandou massa na boca do outro? E voltou, pulando de alegria:

— Tedesco non morrire, e io carcarre in boca. Estoi felice.

Morto Minado

Existia um pelotão de sepultamento na Divisão, que era encarregado de recolher os cadáveres. Eles vinham e ensacavam o infeliz, colocavam no caminhão e levavam para enterrar, pendurando uma das plaquinhas de identificação na cruz. Mas, na frente onde estávamos, em Pietra Colore, após o recolhimento dos corpos, acabaram restando, ainda, uns quatro cadáveres. Com o passar do tempo, já com alguns dias do falecimento, o capitão me chamou e mandou que eu recolhesse os mesmos. Peguei um padioleiro, Paraíba, e fomos até lá.

Mas, era necessário muito cuidado, pois os alemães costumavam minar os mortos, que, quando iam ser removidos, provocavam a explosão da mina. Por isso, propus ao Paraíba:

— Vamos amarrar este cabo de aço neles e arrastar. Se explodir mina, estaremos longe.

Assim, quando chegamos lá, encostei o jeep e amarrei o cabo no primeiro. Mas, quando puxei o carro, uma parte do corpo se soltou da outra. Desisti e voltei ao capitão, a quem comuniquei que o estado de decomposição dos corpos não permitia que fossem recolhidos, sem risco, por pessoal não treinado.

O capitão, então, acabou solicitando o comparecimento, novamente, do pelotão de sepultamento, para se encarregar dos corpos.

Fuzilada

Ainda em Gagio Montano, certa noite, mais ou menos às oito horas, fui chamado pelo capitão Henrique, dizendo para eu escolher três soldados de minha confiança e fosse na posição do sargento Rabelo, buscar uma moça, que estava espionando a nossa frente. Obviamente, ela não sabia que fora descoberta e que seria presa. O capitão disse que tivesse todo o cuidado, pois poderia encontrar patrulhas inimigas, uma vez que iria passar pela terra de ninguém. Se houvesse encontro de patrulhas, a primeira coisa a fazer era matá-la e pegar sua pasta, a qual continha documentos de espionagem. Lá chegando, o sargento Rabelo nos apresentou a uma bela moça, de nome Eva, e que deu beijinhos em todos nós. Já sabendo que ela portava vários documentos de espionagem em favor dos alemães, convidei-a a voltar conosco. Coloquei um soldado dez metros à frente, outro a cinco, ela na minha frente, a dois metros, e um soldado à minha retaguarda, a cinco metros. Eu, com a arma engatilhada. Durante o percurso de volta, um dos soldados propôs forçá-la, com o que não concordei. Chegando a vinte metros do posto de comando do capitão, ela se despediu, dizendo que iria para a casa de uma tia. Convidei-a, então, para ir ao comando tomar um leite quente, o que ela recusou.

Neste momento, tomei-lhe a pasta e informei que estava presa. Chegando ao posto de comando, o capitão solicitou os serviços de um intérprete e procedeu ao interrogatório. Confessando que era espiã, foi então encaminhada ao comando americano, juntamente com as anotações da pasta. Finalizando o depoimento, o capitão inseriu um pedido onde solicitava o resultado final daquele processo. Dois dia depois, chegou a resposta: Fuzilada.

Fiquei para trás

Cabo Moreira e seu Jeep

Fizemos um deslocamento à noite, havia nevado e estava chovendo. As poças de água no chão, se quebravam como se fossem vidro, ao serem pisadas. Fui o último a sair, sozinho, com o jeep e um reboque carregados de material. Sem poder ligar os faróis, fiquei para trás e acabei caindo em um buraco. Assim, atrasei-me ainda mais, liberando o veículo.

Recomeçando a rodar, logo em seguida encontrei um soldado caído pelo caminho, semimorto. Agarrei o distinto e, sendo bastante forte, acabei colocando-o sobre o reboque, onde amarrei suas pernas e braços para que não caísse. Sem mais perda de tempo, toquei para a frente.

Para conseguir chegar na posição a ser ocupada, tínhamos que passar por um trecho de estrada asfaltada, com curvas em forma de "S", muito bombardeada durante o dia pelos alemães, que, do alto do Monte Castelo, controlavam a movimentação da estrada. Toda a companhia passou bem pelo local, já que ali chegaram pela madrugada.

Quando cheguei a mais ou menos dois quilômetros depois deste local perigoso, fui interceptado pelo capitão Goulart que, muito prepotente, gritou comigo:

— Isto são horas? Pode encostar, não vai continuar a subir...!

Tentei explicar o que havia acontecido comigo, mas não adiantou. Então, desamarrei o soldado desmaiado, que coloquei no chão, e voltei a entrar no jeep, dizendo ao capitão:

— Fique com esta porcaria aí, que eu vou subir...!

Com ele ainda gritando comigo, acelerei o veículo e fui embora. Chegando ao meu destino, imediatamente relatei o ocorrido ao meu capitão que, após me elogiar, entrou em contato com o Goulart, dizendo-lhe que não voltasse a interferir com seu pessoal.

Número Pintado

Cb Moreira - 1º a esquerda

Recebemos um alerta de que dois alemães altos teriam matado dois oficiais americanos e roubado seu jeep. Tendo vestido suas fardas, estes elementos estavam com livre trânsito em todos os setores onde, além de matar alguns soldados aliados, estavam colocando veneno nas marmitas térmicas dos mesmos.

Com esta notícia na cabeça, saí com o sargento Gustavo Pancrácio, da cozinha de Lago Bagio, com uma carga noturna de comida para a 5ª Cia., já que a estrada era muito batida pela artilharia alemã durante o dia. Mesmo na escuridão, pude perceber que o motor do jeep estava superaquecido. Constatando que a água do radiador estava congelada, disse ao sargento que, ou ele ficava tomando conta do jeep ou voltava a pé até a cozinha para buscar água fervendo, para descongelarmos o radiador.

Tendo o sargento optado por ir buscar a água, olhei em volta do local onde estacionamos. Na estrada deserta, a neve estava com mais ou menos 40 cm. Havia apenas algumas árvores e uma pequena mureta ao lado da pista, sob a luz intensa do luar. Posicionei-me, imóvel, debaixo de uma das árvores, perto do carro. Minutos depois, um outro jeep parou próximo ao meu e dele desceram dois homens altos e fortes. Destravei meu fuzil pensando: "São os alemães... Se ficarem um atrás do outro, pego os dois com um tiro só...". Fazendo pontaria, fiquei aguardando que mexessem nas marmitas.

Um dos soldados rodeou o jeep e, tendo observado o número pintado no pára-choque, olhou para os lados e me chamou pelo nome:

— Ô Moreira!

Mandei que se identificassem. Falaram que eram da 4ª Cia. e estavam perdidos.

— Cheguem mais perto, para vocês verem do que escaparam!

Foi pura sorte.

Rádio Berlim

É com tristeza e vergonha que não podia deixar de relatar o fato a seguir, nestes escritos. Estávamos em Gagio Montano, aos pés do Monte Castello, que ainda se encontrava em poder dos alemães. A temperatura beirava os 18 graus abaixo de zero e a neve chegava aos oitenta centímetros de altura. Eram meses sem notícias de casa e sem esperança de voltar ao Brasil. Imobilizados pelas condições climáticas, ouvíamos rádio. Lá pelas dez horas da manhã, todos os dias, transmitia-se a música "Luar do Sertão", na rádio Berlim. Terminada a música, os locutores (um tenente brasileiro desertor e uma mulher catarinense, filha de alemães) pegavam o microfone e falavam aos brasileiros, nos seguintes termos:

— Bom dia, brasileiros! Vocês estão aqui para ganhar 105 dólares. Fiquem sabendo que, neste momento, suas filhas, noivas e esposas, estão nos braços dos americanos, em Copacabana, ou nas suas camas. Fiquem sabendo que nenhum de vocês voltará, pois aquele que resistir ao inverno, não resistirá às balas dos soldados do glorioso exército de nosso Hitler.

E emendavam, mandando um aviso aos soldados alemães:

— Atenção, soldados do III Reich: Aqui estão os brasileiros, portadores de armas perigosíssimas, tais como a sífilis e a tuberculose.

Terminada a guerra, foram presos pelas tropas russas e entregues às autoridades brasileiras, visto ser o Brasil aliado, para julgamento. Os traidores foram condenados a 30 anos de prisão. Porém, passado pouco tempo, o Presidente Eurico Dutra entrou de licença assumindo o seu vice, Nereu Ramos. Um de seus primeiros decretos foi anistiar os dois.

No governo Juscelino, o traidor foi nomeado oficial de gabinete do Ministro da Agricultura, Barros de Carvalho, com altíssimo vencimento.

A nomeação provocou intensa reação dos praças, sendo que, apenas o jornal "Estado de São Paulo", noticiou a atitude dos colegas da FEB do Rio de Janeiro, que reuniram várias medalhas e as colocaram em um penico, o qual mandaram para o Sr. Presidente Juscelino, com uma carta explicando que aquelas medalhas estavam colocadas em peitos errados, e que lhes desse o destino que bem entendesse.

Sentinela Aplicada

Em Lago Bagio, estava alojado o comando da 5ª companhia sob a responsabilidade do capitão Henrique, em um castelo velho e mal conservado, com um porão na entrada, e uma escada à esquerda, onde ficava um sentinela, pois era de fácil acesso ao comando e o lugar era muito perigoso. Certa noite, o capitão e um sargento saíram em vistoria da posição de um pelotão. Pouco tempo depois, foi trocado o sentinela e o segundo não foi avisado da saída do capitão e do sargento. Ao regressarem, quando passaram pelo sentinela, este gritou:

— Alto.

Mas, ou o capitão não ouviu ou queria experimentar o sentinela, que era o soldado Osvaldo Catalão. Muito bom soldado, apontou a metralhadora de mão, mas, para sorte do capitão, mudou de idéia e lançou uma granada sobre os dois, que, sentindo o estalo da espoleta, deitaram-se imediatamente. A sorte os protegeu novamente, pois a granada explodiu sobre um barranco de 70 centímetros e, por isso, não os aleijou. O capitão deu um jeito, dizendo quem era. O soldado explicou que tinha ordenado: Alto!

— Não me obedeceram, mandei fogo.

Osvaldo Catalão foi elogiado.

Sino Inconveniente

Porreta Terme, sede do nosso Alto Comando, era um lugar pequeno, com muitas casas bonitas e banhos termais. Enquanto existiu por lá um certo padre, aliado dos alemães, foi muito bombardeada. Sempre que este padre via um aglomerado de soldados, o sino da igreja tocava e logo em seguida a cidade sofria bombardeio pesado. Mas, foi apanhado e, claro, recebeu "muito carinho" de nossa parte.

Foi durante uma dessas ocasiões de bombardeio, que cheguei em Porreta Terme com o tenente Hélio, baiano, a quem fui buscar para substituir o tenente Robson, que tinha sido ferido. Conosco, veio de carona também um major, muito branco e muito arrumado, que era da retaguarda. Eu não estava dirigindo, vim sentado atrás, de lado. Quem estava ao volante era o capitão Magalhães. Quando ele estacionou o veículo, os passageiros desceram e começou o bombardeio. O major, sem saber o que fazer, ficou dançando sozinho, pulando para lá e para cá. A areia das explosões acabou pegando seu rosto, que ficou sangrando, sem muita gravidade. Tão assustado estava, que não ouvia ninguém, todos mandando que se deitasse.

Um grande estilhaço furou o pneu do jeep. Outro, atravessou a lataria, acima do pneu, passou entre as minhas duas pernas e atravessou, também, a lata do outro lado, onde caiu, cheio de fumaça, no chão.

Porreta Terme era um lugar muito perigoso.

Majestade e Pinto Gordo

Certo dia, houve um ataque da 5ª Cia. mal planejado, às 7:00 horas da manhã. A companhia ficou detida em uma ravina até a noite, sob rajadas de metralhadoras pesadas localizadas na parte alta, além de bombardeada por morteiros. Neste lugar, ocorreram algumas cenas interessantes, protagonizadas pelos companheiros da companhia.

Numa, o capitão Joaquim Quadros de Magalhães fez um abrigo individual que lhe coube o corpo inteiro, com uma faca, em cinco minutos. O aperto faz sapo pular.

O segundo fato curioso ocorreu com o soldado apelidado Majestade que, dentro de seu abrigo individual, deitado de costas, acendeu o cachimbo e, com o sabre na mão, chamou atenção do sargento falando:

— Quer ver como eles estão bravos?

E elevava o capacete de aço na ponta do sabre. Os alemães disparavam as metralhadoras, fazendo o capacete rodar enquanto o Majestade morria de rir.

Um evento marcante aconteceu com o soldado Pinto Gordo, que teve a sua perna decepada na altura do joelho, e atirada a mais de cinco metros, por uma granada de morteiro. Nesse momento, o sargento Judson, amigo do soldado, rastejou em meio ao tiroteio e apanhou a perna.

— Ô Pinto, ó, a sua perna! — voltou dizendo.

— Joga ela fora, ô sargento, ela não presta mais.

À noite, os alemães se retiraram. A companhia avançou e fez alguns prisioneiros. O soldado Félix, filho de alemães, entrou numa casinha velha e voltou com um alemão de mãos para cima, dando-lhe tapas e pontapés e chamando-o de vagabundo.

Um Dia Agitado

Num lugarejo chamado Pietra Colore, estavam uns 15 homens numa casa, já há vários dias. Lá, também estavam o proprietário, seu filho grandalhão e duas filhas, sendo que uma delas estava com uma grande úlcera na perna, de uns 10 centímetros, em péssimo estado.

Os nossos enfermeiros vinham tratando a ferida, que estava melhorando muito. O terreno era bastante grande, a estrada passava junto: um beco calçado de pedras grandes e mal colocadas, impedindo a passagem de qualquer carro. Os alemães fizeram uma incursão por dentro do terreno em virtude de um ataque do regimento na madrugada seguinte. Devido a este fato, fui encarregado de transportar munição para a companhia.

Na segunda viagem ao depósito de munição, a 2 quilômetros da casa, com 250 quilos de carga, encontrei uma cerca impedindo a passagem. Desci do jeep e, com o sabre que tinha o corte de um facão, comecei a desmanchar a referida cerca. Neste momento, apareceram os dois italianos, pai e filho, muito grandes e muito fortes, com duas foices nas mãos, xingando e ameaçando. Peguei meu fuzil, coloquei uma bala na agulha, apontei para eles e disse no grito:

— Lancha fora os cortelos, manes na testa o morrire!

Eles jogaram fora as ferramentas e puseram as mãos na cabeça. Mandei um soldado, que estava comigo, pegar o fuzil e escoltar os dois até o comandante. Mas que mantivesse os italianos na frente, a cinco metros. Caso eles se rebelassem, que matasse os dois. Chegando ao comando, relatei o acontecido ao capitão, e ele deu-lhes alguns tapas e ameaçou mandá-los para o campo de concentração, como fascistas.

Gastão e a Fossa

Na terceira viagem, como eu passava no alto de um morro e os alemães estavam do outro lado da ravina, dava para vê-los em movimento, a uma distância de menos de seiscentos metros.

Convidei o Gastão, padioleiro, para ir comigo, para que pudesse observá-los. Chegando no topo do morro, num lugar limpo, eu os mostrei para ele. Próximo a nós, havia um agrupamento de três casas grandes, destelhadas e com algumas paredes arrebentadas. Neste ponto, haviam estado alojados anteriormente 40 homens de meu pelotão, por uns 20 dias. Em situações como esta, é feita uma vala sanitária coletiva.

Quando atingimos o ponto junto às casas, os alemães começaram a nos bombardear com morteiros e o Gastão ficou apavorado e ameaçou saltar do jeep. Eu, apontando um barranco próximo como o lugar mais seguro, disse que seria perigoso descer. Mas ele não me ouviu, pulou e correu diretamente para uma das casas. Como caíram vários morteiros próximos, ele, com medo do fogo da explosão, correu e deitou-se dentro da vala sanitária.

Parei o carro e joguei-me ao chão, protegido de um lado pelo barranco e do outro pelo jeep. Passados alguns minutos, parou o bombardeio e fui chamar o companheiro, pensando que estivesse morto ou ferido. Encontrei-o inteiro, mas o Gastão se encontrava ainda deitado na vala sanitária.

Comigo rindo muito, falando o tempo todo que ele estava todo sujo de bosta, voltamos para o jeep. Depois que descarreguei, retornei ao acampamento onde ele estava baseado, quando pôde tomar banho e jogar fora a roupa imunda.

O Partisan e a Pedra

Na quarta viagem, quando descia, alguém me gritou. Vi logo que era o Frei Orlando, querendo saber para onde iria, pedindo uma carona. Entrou no jeep e foi logo perguntando o que eu iria fazer lá em Docce, que era o lugarejo onde estava o depósito de munição. Respondi que estávamos transportando chocolate, para o baile da madrugada. Ele informou que estava percorrendo as companhias, preparando as tropas para a luta.
Chegamos em Docce, onde ele desceu me dizendo que iria primeiro até a quarta companhia, que estava sendo atacada e onde já havia mortos e feridos. Neste momento, um jeep, com um capitão, um cabo, e um partigiani (patriota da resistência italiana) passou por nós a caminho da quarta companhia e o frei fez sinal de parada, me agradecendo e correndo para a nova carona. Eu andei mais uns trinta metros e fui pegar minha carga. Poucos instantes depois, ouvi um tiro, mas não tomei conhecimento. Vi uma pessoa sendo carregada, também não liguei. Mas, durante o carregamento do jeep, acabei perguntando a um colega que passava o que tinha acontecido e ele contou-me que o jeep onde estava o Frei Orlando tinha agarrado uma das rodas em uma pedra, e que o partigiani, com o cabo da arma bateu com a mesma na pedra, procurando soltar a roda. A arma disparou e atingiu o frei no peito. Soube que ele colocou a mão na ferida e disse que não tinha jeito. Ao lhe ser retirada a mão direta do bolso, ela segurava um terço. Chegando à companhia, relatei o acontecido para o capitão Magalhães, que deixou uma lágrima rolar dizendo que havia sido uma grande perda para o batalhão.

A Queda na Chuvarada

Nós, brasileiros, povo religioso, chegamos na Itália com total respeito pelos lugares santos. O inimigo não tardou a perceber tal fato, e dele tirou vantagem, passando a tomar posição nas igrejas e cemitérios, territórios que nossa tropa, habitualmente, evitava atacar. Devido a esta atitude dos alemães, não tivemos alternativa e começamos a mandar bala também naqueles lugares...

Em Collecchio, aprisionamos mais de 400 homens dentro de uma igreja, alguns deles italianos, facistas, que, quando foram descobertos pelos alemães, só pararam de apanhar quando nossa tropa, finalmente, interferiu.

Já em Santa Maria, encontramos uma igrejinha, uma capela, que possuía um Cristo na Cruz, em tamanho natural. Esta igrejinha veio abaixo, após um bombardeio e aquele Cristo ficou lá, de pé, sozinho, sem cabeça, desmembrado.

Engatilhar de Metralhadora

Deslocamo-nos ainda mais para o norte, chegando ao rio Pó à tardinha, na cidade de Cremona, muito antiga, com ruas muito estreitas e calçamento muito ruim. Fomos para um quartel abandonado. Voltei para buscar o resto do material que ficara à margem do rio por ocasião do desembarque, mas, na noite muito escura (e não se podia usar farol), perdi-me nas ruelas e parei para conseguir orientação. Como não se encontrava ninguém na rua, acabei parado na escuridão, até que ouvi o engatilhar de metralhadora e uma voz me mandando colocar as mãos na cabeça. Falei apenas: "Brasiliano". Eram dois partigianos italianos, que me abraçaram dizendo: "Brasiliano salvatore...".

Enquanto um ficou tomando conta do jeep, o outro conduziu-me ao interior de um velho casarão mal arrumado. Descemos uma escadinha e lá estavam uns 15 partigianos reunidos. Todos vieram me abraçar e beijar, um me presenteou com um canivete "recordo de Cremona" e outro me deu queijo e um pedaço de salame. O chefe abriu uma porta que estava fechada a cadeado, onde havia presos fascistas amarrados. Convidado para assistir ao fuzilamento no dia seguinte, às 10 horas da manhã, prometi que iria, mas partimos às seis horas e perdi a execução.

"Brasiliano Libertatore"

Certo dia, depois de uma viagem de 15 quilômetros por uma estrada com mais de um palmo de poeira, chegamos a uma pequena cidade. O povo voltava do cemitério, vindo do enterro do único médico do lugar, adorado por todos. Os alemães o prenderam, amarraram a um poste e, treinando tiro ao alvo, às gargalhadas, deram mais de 50 tiros no infeliz. Com a nossa aproximação, fugiram. Os moradores nos receberam chorando e gritando: "Brasiliano libertatore". Beijaram-nos, limpando a poeira dos nossos rostos e braços. Mal começamos a nos organizar para o pernoite, chegaram dois italianos correndo, informando que os alemães ainda estavam na cidade. Foram organizados vários grupos de combate de treze homens e saímos vistoriando todas a casas.

O meu grupo, comandado pelo sargento Osvaldo Matuk, um paulista, chegou a um cemitério, que vistoriamos sem encontrar nada. Demos busca, também, em uma igreja, sem sucesso. Foi quando apareceu um italiano meio velho e com muito medo, que nos indicou um abrigo antiaéreo fechado com portões de grade, deixando só uma abertura de 60 centímetros na parte alta. Atrás, havia uma pilha de fardos de feno. Com o italiano dizendo que os alemães estavam lá dentro, eu falei ao sargento para entrarmos lá, mas ele disse que não iria de jeito nenhum. Eu insisti com ele, que nós não poderíamos afinar, para irmos lá dentro. Permanecendo o impasse, pedi para ele me dar cobertura, que eu iria entrar. Peguei a lanterna, pois, na parte interna, estava muito escuro. Subi pela grade e saltei lá dentro, com a lanterna acima da cabeça e uma granada na outra mão. A distância do portão até o fundo era de mais ou menos oito metros. Passeei o foco da lanterna pelo prédio, não tinha nada, sendo que o abrigo continuava para a esquerda, em forma de "L". Deitado, mirei o foco da lanterna no local e enxerguei alguns montes de material, mas pessoas, não havia. Encontrei neste abrigo várias marmitas com comida ainda quente. Imagino que, no máximo uns vinte minutos antes, os alemães teriam se retirado dali.

Neste momento, ouvimos alguns tiros pouco abaixo. Nossos companheiros prenderam um major e onze praças. Quando chegaram com os prisioneiros no vilarejo, o povo se reuniu com foices, paus e pedras e queriam a todo custo fazer justiça com as próprias mãos. Os prisioneiros foram imediatamente levados para o campo de concentração.

Facas tortas e Orelhas

Havia na Itália a tropa hindu, um pessoal magro, moreno puri, com o cabelo muito liso, bigode de ponta fina e turbante. Totalmente desorganizados, seu acampamento mais parecia um curral cheio de bois, com sujeira por todos os lados. Não tendo organização militar, agiam em bandos, da seguinte forma: sem roupas, passavam um repelente contra mosquitos e, com facas tortas e muito afiadas, aproveitavam a noite escura caindo neve e atacavam acampamentos ou alojamentos alemães, sangrando os que podiam e cortando suas orelhas que eram entregues aos americanos, os quais pagavam um dólar por orelha. Mas, começaram a cortar as duas e os americanos passaram a remunerar só pela orelha direita.

Ataque ao Castelo: 12 de dezembro.

Na tática de combate daquela época, a artilharia vai disparando a mais ou menos quatrocentos metros adiante dos homens da frente, mas, ocorreu um erro dos artilheiros ou do pelotão, que avançou muito além do combinado. Nesta situação, os homens ficaram no fogo cruzado de nossa artilharia e das metralhadoras inimigas. Pelo telefone de campanha, o sargento Assunção comunicou-se com o capitão, sobre os disparos de oito tanques americanos que estavam a duzentos metros de distância do comando. Neste momento, me chamou o capitão e falou:

— Moreira, você vai morrer ou salvar o pelotão do Assunção.

Ele disse-me que eu iria levar uma mensagem aos tanques, mas que a praça estava sendo bombardeada sem parar. Eu respondi calmamente que, salvando o pelotão, é o que importava. Desci correndo, parei antes da praça que estava sendo bombardeada, e, conforme instruções recebidas de como proceder nestes casos, parei para decidir para onde ir, como ir, por onde ir, quando ir...

Pensei e corri sob intenso bombardeio. Como onde cai uma granada de artilharia não cai outra no mesmo lugar, fui aproveitando cada cratera, ainda saindo fumaça, até chegar aos americanos que estavam morrendo de rir do meu aperto. Entreguei o recado e fiquei perto dos tanques até dar uma trégua, quando voltei correndo, sujo de barro, mas satisfeito, pelo cumprimento da missão. Apresentei-me ao capitão e ele agradeceu.

Minutos depois, outro telefonema dizia que a situação continuava a mesma. Os americanos não entenderam o inglês do capitão. Foi, então, redigida outra mensagem. O capitão entregou-a a mim, comentando que, daquela vez eu não escaparia. Eu respondi que qualquer coisa estava boa. Refiz o percurso e nada me aconteceu. A artilharia alemã não disparou. Por essa e por outras, o capitão recomendou-me ao Alto Comando para receber a condecoração da Cruz de Combate 1ª Classe.

Cabeças Misturadas

Depois do ataque ao monte Castelo, voltamos para um lugar chamado Sila, onde ficamos alguns dias, pois, perdemos gente e material e precisávamos recompor a tropa. Em um destes dias, o tenente Garcia me pediu para levá-lo a Porreta Terme, para tomar um banho. Eu disse a ele que tinha ordem para estar de volta às 16:00 h, pois o capitão precisaria de mim. Assim combinados, lá fomos nós, mais ou menos oito quilômetros de estrada.

Quando faltavam 10 minutos para as 16:00 h, vendo que o tenente continuava a bater papo, eu pedi licença e disse a ele que tinha de estar de volta às 16:00 h e que faltavam dez minutos. O tenente, com uma cara muito ruim, entrou no jeep juntamente com um sargento. Na estrada, de dedo em riste, disse para mim que era meu superior, que era quem mandava, berrando comigo. Neste momento, parei o jeep, apanhando uma granada de mão. Enfiando o dedo no grampo de segurança, encostei a granada entre as nossas cabeças e disse que, se ele falasse mais alguma coisa, nossas cabeças iam se misturar. Que ele tinha prendido e mandado de volta para o Brasil o Antônio Nemízio, mas ele era paulista e, eu, mineiro, e que eu o matava.

Ao chegarmos, fui procurar o datilógrafo da companhia e lhe pedi que, se o tenente Garcia desse parte de mim, me informasse, que eu resolveria. Mas, ele ficou caladinho e nós dois com a cara torcida um para o outro.

Saudade de Dirigir

Eu saí a serviço e levei comigo o cabo Clodoaldo, pernambucano, bom amigo. Já na estrada, no meio do mato, disse-me que estava com saudade de dirigir, e deixei que tomasse a direção do jeep.

Mal começamos a rodar e o carro capotou. Ficamos, os dois, espremidos lá embaixo, até que alguns companheiros passaram e levantaram o veículo.

O pára-brisa, que era de encaixe e andava ensacado com uma lona, para não dar reflexo, quebrou-se todo e lá mesmo, o joguei fora. Rodei com o jeep, por um bom tempo, sem pára-brisa, porém, certo dia, já em Montese e de noite, chegou ao acampamento um carro igual ao meu, transportando dois oficiais de ligação entre o exército brasileiro e o americano. Eu vim olhando, olhando e, rápido, peguei o pára-brisa deles e encaixei no meu carro. Não demorou muito, os oficiais voltaram e, sem darem pela falta do equipamento, partiram.

Salada de Frutas

Em Montese, ficamos na reserva, enquanto outra companhia atacava porque, quando terminou o combate anterior, tínhamos perdido vários companheiros. Após descansar, continuamos para a frente. Quando chegamos em Montese, lá pelas 17 horas, um padioleiro me disse que estavam com um tenente de minha companhia ferido no jeep-ambulância e fui verificar quem era. Encontrei o tenente Robson, com um corte atravessado nas nádegas até o osso. Eu perguntei se estava doendo muito e ele me respondeu que não, mas que estava morrendo de fome, pois estava só com o café da manhã. Caminhei até meu veículo e peguei uma lata de salada de frutas de um quilo, de ótima qualidade. Abri com o sabre e apanhei uma colher. Ele se encontrava amarrado à padiola de barriga para baixo, então tive de ir colocando a salada na boca dele. Comeu tudo e me disse:

— Obrigado Moreira, agora eu estou bom.

Plantação de Feijão

Pela manhã, o capitão Magalhães e eu fomos nos juntar à companhia, em Montese. Ainda por serem recolhidos, encontravam-se vários cadáveres, já em avançado estado de decomposição. Pouco adiante de Montese, em uma estradinha de terra, parei, e disse ao capitão que parecia que haviam plantado feijão naquele lugar.

— Não é isto não, é mina! — falou o capitão.

Eu ponderei ao capitão para ficar ali, que eu ia passar sozinho.

— Toca! — ele respondeu.

Insisti para que me deixasse passar sozinho. Se eu morresse, morria um cabo e não faria falta, pois o RI tinha muitos, mas, oficiais, poucos. Ele respondeu para eu tocar, que era ordem dele, que tínhamos vindo juntos até ali e, se morrêssemos, morreríamos juntos. Pensei comigo mesmo: "Aqui é na sorte". Arranquei e não explodiu nenhuma mina, mas, tendo rodado uns oitenta metros, ouvimos uma explosão naquele ponto. Paramos, e voltamos a pé para verificar o que tinha acontecido. Encontramos um jeep que trazia três soldados récem-recuperados do hospital, porém, agora, todos em pedaços. O cabo-motorista tinha sido atirado a mais ou menos seis metros de distância. Estava inerte e com muito sangue no rosto. Olhamos um para o outro e comentamos:

— Vamos embora, que estão todos mortos.

Porém, quando acabou a guerra, soube que o motorista não havia falecido. Tinha desmaiado, ficado semimorto. Deu uma declaração ao jornal agradecendo a uma santa o milagre de estar vivo. Apenas, ficou completamente surdo.

Santos de Capacete

Continuando a nossa marcha para a frente, chegamos ao norte da Itália. Fomos pernoitar em uma igreja grande e muito bonita. Naquele tempo, as igrejas tinham em seu interior imagens do tamanho de um homem. Achando engraçado, fui ver todos os santos. Tinham capacetes de aço, e fuzil ou metralhadora pendurados no pescoço. Na sacristia, três muares amarrados.

Chegamos a uma pequena cidade, denominada São Paulo D'Enza, quando deram a falsa notícia do término da guerra. Os Italianos, festejando o "finito de la guerra", apareceram com vários garrafões de vinho. Os soldados disparavam suas armas para o ar, bebendo muito vinho.

Ouvi o capitão Magalhães comentar, em meio à festividade, que a Inteligência tinha informado que havia um grupo de uns 200 alemães com intenção de se renderem. Foi quando chegaram os Generais Mascarenhas de Moraes e Zenóbio da Costa, com cinco caminhões vazios, convocando o capitão comandante, urgentíssimo. O general Mascarenhas comunicou-lhe que teria 5 minutos para embarcar a companhia, pronta para o combate. Durante a viagem, os praças, que ainda estavam de ressaca, foram todos cantando e batucando.

Generais na frente de batalha? Só pude concluir que os mesmos haviam decidido colher os "louros" da captura. Chegamos a Collechio à tardinha. Cidade pequena, mas boa, a companhia entrou na linha de combate. Porém, ao invés de rendição, o que os generais encontraram foi o fogo do inimigo.

Eu me encontrava junto de um barracão, com meu fuzil encostado na parede quando apareceu o general Mascarenhas e me deu uma ordem direta, para que ficasse com a minha arma na mão. A noite chegou junto com uma chuva fria e um tiroteio cada vez maior.

Vi o General Zenóbio pegando um padre pelo peito e, apontando para a igreja, dizer-lhe que, se tivesse alemão lá dentro, ele o arrebentava.

— Cosa dire! — respondia o padre, não entendendo nada.

Minutos depois, ouviu-se uma rajada de metralhadora inimiga contra alguns galhos de árvore, perto do General Zenóbio.

Apavorado, ele entrou embaixo de um galinheiro suspenso, gritando para um sargento pegar sua metralhadora.

Quando pôde sair, pegou o jeep e foi embora para a retaguarda. Deve ter morrido de medo.

Gatilho Agarrado

Em Collecchio, um grupo de combate com 13 homens, comandados pelo sargento Judson — cara muito engraçado — aproximou-se rastejando de um castelo muito arborizado. Na escuridão, o Judson chegou ao lado de um enorme alemão que estava de sentinela e disparou sua metralhadora a, no máximo, meio metro de distância. O alemão caiu e o sargento, abaixando-se, disparou ainda mais uns 30 tiros em sua cabeça. Quando o dia clareou, fomos ver o tal alemão com o crânio esfacelado, e a turma ficou gozando o sargento por dar-lhe tantos tiros. Respondeu-nos que o gatilho tinha agarrado e não poderia perder os tiros, por isso, aproveitou todos.

Munição no Escuro

Ainda em Collechio, à noite, o soldado Baianinho, a mando do tenente comandante do pelotão, foi informar ao comandante da companhia que a munição estava prestes a terminar. No trajeto, Baianinho foi atingido por uma granada de morteiro, e teve metade dos dentes e o lábio superior arrancados. Com a boca cheia de sangue e sem um pedaço, não pôde falar. Pegou um pedaço de papelão, e com um pauzinho molhado no sangue, escreveu a mensagem.

Neste momento, o capitão me chamou e disse que eu voltasse a São Paulo D'Enza, mais ou menos a 15 quilômetros, para buscar munição. Arranquei imediatamente, sem poder usar os faróis, totalmente no escuro e sozinho.

Lá chegando, encontrei alguns soldados que não puderam ir para a linha de frente. Chamando cinco deles, fomos arrombando portas, para encontrar o depósito. Ao localizá-lo, carregamos uma camioneta com 1500 quilos de munição.

Quando retornei, o capitão me felicitou e distribuiu a carga aos pelotões. Foi como jogar gasolina no fogo. A luta durou a noite toda. Pela manhã, a companhia tinha feito 405 prisioneiros, que foram colocados dentro de uma igreja.

O capitão pediu reforço ao comando superior, que mandou alguns tanques americanos, comandados por um filho de portugueses e mais o 6º RI Os combates continuaram por mais um dia e uma noite, até que os alemães mandaram dois oficiais superiores com a missão de negociar a rendição. Eles estavam com a 148ª Divisão de Infantaria e meia Divisão italiana.

A rendição foi aceita incondicionalmente, sendo suspenso o fogo. Começou em seguida a apresentação dos prisioneiros, mais de 14.000.

De lá, fomos para o norte, para interceptar uma companhia de blindados que fugia para a fronteira da França, mas, com a nossa presença, os blindados mudaram de rumo e nada aconteceu.

Cartas do Front

O Expedicionário João Batista Moreira, filho do Sr. Leontino Moreira e de D. Maria do Carmo Moreira, conta atualmente que com 22 anos de idade, tendo sido convocado em 1943, ocupando na FEB o posto de cabo. Residia nesta capital, à Rua Cambuquira, 584, sendo funcionário da Casa Maior. Do front italiano, o jovem combatente mineiro já dirigiu várias cartas a pessoas de sua família. A que abaixo transcrevemos foi endereçada ao seu progenitor. Está assim redigida:

"Caríssimo pai. Peço a sua benção. Que, ao receber esta, o senhor esteja em perfeito gozo de saúde, como todos aí de casa, é o que desejo, sinceramente. Eu, graças a Deus, como sempre, estou com muita saúde e cheio de disposição para enfrentar a situação presente. Aqui, tudo vai bem. A única coisa com que não me acostumo é viver longe da casa paterna; mas, tenho fé em Deus, será breve o nosso regresso, levando a vitória para o nosso Brasil.

Pai, como filho, peço que, se por acaso receber a notícia de que eu morri, e se o Brasil tiver de mandar mais tropas, que o senhor mande mais um de seus filhos, para esmagar o inimigo de nossa terra, aqui, na Europa. Temos de vencer definitivamente os nazistas, a fim de evitar para sempre que eles cometam novos atentados contra as outras nações.

O Sr. não pode calcular o que é um país invadido! Eu tenho visto as conseqüências dessa triste realidade. É preferível, mil vezes, morrermos todos, a permitir que o inimigo pise em território brasileiro. Não se preocupe comigo, pois saberei defender-me. Sem mais, envio um forte abraço para o meu querido pai e outros tantos aí de casa.

Do filho e amigo,

(a) João Batista Moreira.

P.S. O Gastão e o Chiquito estão bons e enviam lembranças. Não estou precisando de nada".

Na Luta pela Liberdade

A chegada, aqui, no Brasil, foi emocionante, estávamos ansiosos para ver a nossa terra. No Rio de Janeiro, o povo todo na rua, foi uma recepção enorme. Nós entramos em forma para pegar o transporte para a Vila Militar, mas a multidão não deixou a tropa andar, todos procurando nos abraçar, beijar, puxar conversa. A gente não deu muita pelota, não.

Já na Vila Militar, enquanto se aguardava a baixa, o quartel ficava sempre lotado de civis, alguns procurando amigos e parentes, outros, amigos do alheio. Tinha muito, mas muito ladrão por ali, e andaram roubando de alguns o dinheirinho que recebemos, que tinha ficado guardado aqui, para nós. Como eu não tinha nenhum lugar para esconder os meus 14 contos, peguei o dinheiro e guardei dentro de uma botina muito velha, que joguei debaixo da cama. No meu dinheiro, não mexeram. Afinal, quem iria procurar dinheiro dentro de uma botina velha?

No dia em que fomos desmobilizados, colocaram quem queria dar baixa e ir para casa de um lado e os que queriam prosseguir com a vida militar do outro. Eu entrei na fila da baixa e, nesse momento, fui chamado pelo capitão Magalhães, que me falou:

— Moreira, você vai dar baixa? Você não gosta do Exército?

— Capitão, eu gosto, procurei fazer o melhor possível. Mas, lembro-me que, na véspera do embarque, aqui mesmo, o senhor disse que nós íamos nos bater pela liberdade, que era vencer ou morrer. Bem, nós já nos batemos, já vencemos e não morremos, então, eu quero a liberdade.

E, não se disse mais nada.

Fim da Linha

Quando cheguei na Rua Cambuquira, no Carlos Prates, de táxi, havia mais de duzentas pessoas a minha espera, gritando meu nome, batendo palmas, alguns perguntando uma coisa ou outra. Entre muitos amigos, lá estava meu tio Totonho, tipo alegre e interessante. Muito gordo, chegou, com toda a família, soltando bombas, todos gritando:

— Quero ver o defunto vivo... quero ver o defunto vivo.

Recordo-me, também, da presença de frei Zacarias, holandês, vigário da igreja do bairro, que chegou para mim e falou:

— Eu querria perguntarr um coisa prá zinhor... A soldado, na horra H do combate, lembra da religion?

— Frei, coisa nenhuma, soldado solta é palavrão atrás de palavrão e corre atrás do inimigo, para ficar livre dele logo... Quer é mandar bala nele, para não morrer. Assim é na guerra.

Nesse dia, ali terminou minha jornada.

11º Regimento de Infantaria

Relação das alterações do praça abaixo declarado durante o tempo em que serviu na 5ª Cia. deste Corpo.
Graduação: Cabo - Nº: 3063 - Nome: João Batista Moreira

Alterações:

Ano de 1944:

JULHO: A 20, suas alterações passaram a ser escrituradas pela Ajudância do Pessoal.

AGOSTO: A 3, deslocou-se com o R.I. por ordem da 1ª D.I.E. do Acantonamento para a região de "Recreio dos Bandeirantes", onde acampou às 16 h. A 5, regressou do acampamento.

SETEMBRO: A 21, foi público ter-se deslocado a 20 com o R.I. de ordem superior, do Acantonamento na Vila Militar (Morro do Capistrano), para bordo do Navio Norte-Americano A.P.116.

OUTUBRO: A 23, foi público ter acompanhado o R.I. que fazendo parte do Grupamento Gen. Falconière, deixou o Porto do Rio de Janeiro, no dia 22 de Setembro do corrente ano, a bordo do Transporte Americano "Gen. M.C. Meigs" com destino ao Teatro de Operações na Itália, onde já se encontrava o 1º Escalão da F.E.B., tendo chegado ao Porto de Nápoles, às 7:30 h do dia 6 do corrente. Foi feito o atracamento do referido Transporte às 10:00 h do dito dia, tendo o R.I. permanecido a bordo do mesmo até às 14:00 h do dia 9, quando se transportou para os barcos "L.C.I." da Marinha de Guerra Americana, que o conduziria ao Porto de Livorno. O movimento para Livorno foi iniciado às 8:10 h do dia 10, tendo o comboio atingido aquele Porto às 14:00 h do dia 11, onde atracou às 19:00 h. A tropa permaneceu a bordo dos referidos barcos até às 10:00 h do dia 12, quando foi conduzida para o local "Staging Area" (Vila Rossore) a oeste da cidade de Pisa, tendo acampado no mesmo dia e onde foi dissolvido o Grupamento Gen. Falconière. Passou a integrar o Grupamento Gen. Cordeiro. A 27, foi público fazer parte do V Exército Norte-Americano, desde a chegada a Livorno, na Itália, e ficar sob o controle de operações de IV Corpo.

NOVEMBRO: A 3, foi público ter sido extinto o Grupamento Gen. Cordeiro, constituído pelos elementos do 2o Escalão da 1a D.I.E., e em conseqüência o 11º R.I. passou a fazer parte da I.D.E./1 comandada pelo Exmo Sr. Gen. de Bda. Euclides Zenóbio da Costa. A 22, foi público ter-se deslocado a 20 para o estacionamento no povoado de Filetole. A 29, foi público ter sido arquivadas na S.G.M.G., sob o no 11478. A 30, foi público ter-se deslocado ontem, às 7:30 h, para a região de Lustrola.

DEZEMBRO: Sem alteração.

Ano de 1945:

JANEIRO: A 3, foi público ter o R.I. entrado em linha a 1º-XII-944, no setor oeste, sendo considerado em combate. A 27, foi elogiado individualmente pelo Cmt. da Cia., nos seguintes termos: "Na sua função, cumpriu integralmente suas missões com boa vontade e desprendimento, vencendo todas as dificuldades que lhe apresentou o rigor do frio e o inimigo, sempre vigilante".

FEVEREIRO: Sem alteração.

MARÇO: A 11, foi público ter-se deslocado a 4 para a região de Riola.

ABRIL: A 4, foi elogiado individualmente pelo Cmte. da Cia. nos seguintes termos: "Motorista trabalhador incansável, em todas as zonas de ação desta Sub-Unidade, não tem encontrado dificuldades nas estradas, que não tenha sabido vencer, levando a bom termo em estradas quase sempre batidas pelo inimigo, víveres e munição".
A 14, foi público ter-se deslocado a 11/3 de Riola, entrando em linha no sub-setor N. da 1a D.I.E.

MAIO: A 13, foi elogiado individualmente pelo Cmt. da Cia. nos seguintes termos: "Cabo motorista tem desempenhado suas funções com muito acerto e eficiência. Zeloso com sua viatura, possuidor de perfeito conhecimento de sua especialidade, destemido e audaz, tem facilitado muito o abastecimento de sua Sub-Unidade. Nunca hesitou em trafegar por estradas batidas pelo inimigo, desde que fosse necessário. Noite e dia sempre pronto a cumprir qualquer ordem recebida, o Cabo Moreira tornou-se digno de meus louvores pelas suas qualidades, iniciativa, coragem e nítida compreensão de seus deveres".
A 13, foi público a seguinte ordem do dia 2 do corrente do Exmo. Sr. H. R. Alexander, Field Marechal, supremo Cmt. Aliado no Teatro de Operações no Mediterrâneo: "Soldados, Marinheiros e Aviadores das forças aliadas: Depois de quase dois anos de uma luta contínua e dura que começou na Sicília, no verão de 1943, eis-nos hoje como vencedores da campanha da Itália. Conquistastes uma vitória que terminou com a completa desintegração das forças armadas alemãs no Mediterrâneo. Limpando a Itália do último agressor nazista, libertastes um país de mais de 40 milhões de habitantes. Hoje, os remanescentes de um orgulhoso Exército, cerca de um milhão de homens completamente armados e equipados, depuseram suas armas a vós. Podeis estar orgulhosos desta campanha vitoriosa que viverá na História como um dos maiores sucessos já alcançados. Por este magnífico triunfo, todos os louvores são poucos para vós, soldados, marinheiros, aviadores e operários das forças unidas na Itália. Minha gratidão e admiração não tem limites e é apenas igualada pelo orgulho que sinto em ser o vosso Cmt. em Chefe" (Elogio Coletivo).
A 15, foi elogiado individualmente pelo Cmt. da Cia. nos seguintes termos: "Louvo-o pela maneira correta com que agiu no combate em Collecchio, concorrendo para o bom êxito da Cia.".
A 19, foi público a seguinte mensagem de S. M. George VI ao Sr. Marechal H. R. Alexander: "Para vós e todos os que estão sob vosso Cmdo. envio minhas sinceras congratulações pela esmagadora vitória com que conseguistes finalizar tão triunfantemente a longa e árdua campanha da Itália" (Elogio Coletivo).

JUNHO: A 13 e a 26, vide elogios ficha anexa.
A 28, foi público ter sido proposto pelo Cmdo. do R.I. para ser condecorado com a medalha "CRUZ DE COMBATE DE 1ª CLASSE".
A 29, foi público ter deslocado de Alessandria em caminhões e via férrea, via Bologna, para Francolise, onde acampou a 21.
A 30, foi público ter recebido o título de membro honorário do IV Corpo. Na mesma data, vide elogio ficha anexa. Ainda a 30, foi elogiado individualmente pelo Cmt. da Cia. nos seguintes termos: "Foi notável a ação deste auxiliar, que foi incansável, correspondendo a todos os esforços que dele se exigiu como motorista de suas viaturas da Cia. de Fuzileiros. Interessado na manutenção de seu carro, sempre se apresentou em condições quando pedido, enfrentando as intempéries e os bombardeios inimigos para atender ao suprimento da Cia. Louvo-o e agradeço pelas suas qualidades e pelo muito que fez por esta Sub-Unidade".

JULHO: A 2, foi público ter sido desligado do V Exército Norte-Americano e do IV Corpo em 19-VI-945.

AGOSTO: A 16, foi tornado sem efeito o seu desligamento do V Exército Norte-Americano...

Este relato foi o que consegui recordar depois de mais de sessenta e quatro anos do acontecido. Aqui, existem várias omissões, mas, aumento ou mentira, não. Acredite se quiser, pois sessenta e quatro anos são suficientes para apagar a memória humana.

"Avante Soldados, Marchemos...
A Vida Não Vale Sem Glória...
Se For Preciso Morrer, Morreremos,
Pelo Brasil, Pela Vitória..."

Cabo João Batista Moreira
5ª Cia. - 11º RI - Força Expedicionária Brasileira na Itália.


ACERVO FOTOGRÁFICO

Cb Moreira
Cb Moreira sentado a direita
e
Cb Moreira ao centro Cb Moreira a direita Cb Moreira a esquerda
d d
Cb Moreira avançando o Rancho - 2º da esq. p/ dir. na parte inferior
Cb Moreira ao volante de seu Jeep
Em Alessandria - Itália
Em Alessandria - Itália
Em Alessandria - Itália
Em Alessandria - Itália
OH! ... Vidão
Em Alessandria - Itália
No Navio
Cb Moreira ao volante de seu Jeep
Em algum lugar da Itália
Em algum lugar da Itália 
Em Alessandria - Itália
 

FONTE:
Matéria e fotografias gentilmente enviadas pelo jovem
Pedro Lages,
neto do Veterano Cb João Batista Moreira.