O
Incitamento Inicial
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Cabo
João Batista Moreira |
Quando
chegaram as notícias do torpedeamento de navios brasileiros
em nossas águas, por submarinos alemães, o povo saiu
às ruas liderado pela comunidade universitária, formando
uma multidão que saiu quebrando todas as casas comerciais de
propriedade dos alemães, italianos e japoneses. Destruindo
tudo, pelo Brasil inteiro, pedindo discurso e exigindo a guerra, a
turba avançava. Até este momento, o presidente, simpático
aos alemães, estava sem uma posição definida.
Mas, com a revolta do povo, poucos dias depois, veio a declaração
de guerra.
A
quebradeira por aqui foi tão violenta, que foram destruídas
casas inteiras, com tudo dentro. E era muita gente envolvida. Mas
a polícia, parece que se recolheu, e não tomou providências
para proteger os imigrantes. Chegou a um ponto, que, na Casa Ermani,
na Rua São Paulo com Caetés, uma enorme casa de perfumes,
levaram até um burro, no qual deram um verdadeiro banho de
perfume e talco, gritando "Quebra, quebra, quebra..."
Mas, depois da declaração de guerra, e feita a convocação,
noventa por cento dos estudantes convocados, seja por influência
de parentes, amigos ou por outros modos, pediram baixa. Ficou apenas
o pessoal da massa, o operariado. Foi esta a representatividade que
atendeu ao chamado da pátria.
A
Convocação
Meu nome é João Batista Moreira. Mineiro de Contagem,
nasci em 1922. Já morando e trabalhando em Belo Horizonte,
fui convocado pelo Exército, para a guerra. Minha mãe
ligava o rádio todos os dias, na parte da manhã, para
ouvir a lista dos convocados. Ficava atenta, pois éramos oito
irmãos e estava preocupada que um de nós acabasse sendo
convocado. Quando é lá um belo dia, saiu o meu nome,
e ela veio correndo, muito séria, falar comigo.
Recebi a notícia com uma emoção positiva, porque,
desde que explodiu a guerra, tinha a impressão de que iria
participar dela e, vamos dizer a verdade, um pouco de vontade também.
Desde o dia em que recebi o chamado oficial e me apresentei, procurei
fazer o melhor, aprender o máximo, pois tinha convicção
de que aquilo ia me servir no futuro, em operações de
guerra. E aí, caprichava nas instruções e fui
sendo aprovado em tudo: exame médico, capacidade física
e outros. Dedicava-me não só à instrução
de armamento, como, também, à parte física, ao
futebol, bola militar, corrida.
Após alguns dias, também foi convocado meu irmão,
Alysson. Passado mais ou menos um mês, surgiu uma portaria do
Ministério da Guerra dispensando um em caso de dois irmãos
convocados. Deveria ser eu o dispensado, por ser o mais novo. Acontece
que notei que o Alysson estava muito desajeitado, para não
falar, com medo. Disse-lhe que poderia requerer sua dispensa, que
eu ficaria. Ele ficou chocado, mas, depois de três dias pensando,
resolveu pedir baixa. Ficou com peso na consciência e muito
preocupado, com medo que eu morresse.
Meu irmão mais velho, Sílvio, morava, nesta época,
em Governador Valadares. Era um bicho bravo. Sabendo que minha mãe
estava tristonha devido a minha convocação, enviou-lhe
uma carta em que, entre outras coisas, dizia: "Mãe, é
preferível beijar a fronte do filho herói, a abraçar
o peito do filho covarde".
Minha mãe ficou mais conformada, mas atravessou todo aquele
período em meio a muita angústia, tinha medo que eu
ficasse por lá.
Enfim, fui considerado normal, forte, saúde muito boa... Então,
fui seguindo, e não deu outra, deu para mim, mesmo!
Sangue
de Escorpião
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Cb
Moreira |
Aquele
foi um dia pesado. O quartel parece que estava impedido e eu estava
de sentinela no flanco esquerdo, na Rua Uberaba. Estando de guarda,
de acordo com as instruções militares, o soldado não
pode, de forma nenhuma, abandonar o seu posto. Ele só o abandona
ferido ou morto. E lá pela meia-noite, mais ou menos, eu estava
sozinho na minha guarita, quando senti uma fisgada forte, que, acabei
descobrindo, tinha sido provocada por uma picada de escorpião.
Estava doendo muito, muito mesmo, mas eu não podia abandonar
meu posto, e, nem me interessava ir para a enfermaria, que lá
não tinha nada, não tinha remédio nenhum. Então,
fazer o quê? Não obstante a dor, a inchação
e algumas manchas vermelhas no local, agüentei firme, sem falar
nada com ninguém.
Quando foi pela manhã, chegou-me uma convocação
para comparecer ao Hospital São José, logo em frente
ao quartel, para fazer uma doação de sangue a um parente
que lá estava, mal. Assim, nem tomei café; só
comuniquei ao oficial do dia e me dirigi para lá. Nesta época,
o serviço de transfusão de sangue estava em seus primórdios,
sendo tudo ainda muito precário. Ao chegar, encontrei mais
uns seis ou sete primos, todos homens fortes. Nós fomos mandados
para um laboratório, na Rua Carijós, onde tiraram uma
amostra do nosso sangue. Nesta época, a transfusão somente
era feita nos casos em que o doador e o receptor tivessem compatibilidade
sangüínea total. Aconteceu que, de todos, somente eu,
por ser Rh negativo, acabei considerado apropriado.
Fui mandado de volta ao hospital, com ordem de permanecer em jejum.
Estava sem comer, tinha passado a noite em claro devido à picada
do escorpião, não podia nem beber água, mas fui
agüentando. Lá pelas duas e pouco da tarde, chegou um
médico e me retirou mais uns 400 gramas de sangue. Acabou de
retirar a agulha e eu levantei da cama. Mas, rodou tudo e caí,
me levantando em seguida. Um irmão do doente, fazendeiro, muito
rico e muito feio, me encarou, falando:
— Isso é que é soldado que nós vamos mandar
para a guerra?
Eu, que já estava muito nervoso, virei-me para ele e respondi:
— Vou provar que soldado eu sou, e vou começar quebrando
a sua cara, aqui mesmo, dentro do hospital...
E ameacei partir para cima dele. Houve a pronta intervenção
dos demais e dali eu saí direto para a rua. Estava com 200
réis no bolso e uma idéia na cabeça: eu, que
nunca fui de beber, cheguei no primeiro bar que encontrei e pedi todo
o meu dinheiro em pinga. Achei que aquilo ia me animar. Botaram no
meu copo uma puxada boa, tomei aquilo... Imaginem só a minha
cabeça, eu sem dormir, debilitado, em jejum, eram umas três
da tarde.
Dali, como não tinha dinheiro para pegar o bonde, puxei a pé
para a minha casa, perto da igreja do Carlos Prates. O certo é
que gastei mais de hora e meia, andando. Ora sentava um pouco, ora
escorava numa árvore ou muro, mas, cheguei lá. Como,
pela doação de sangue, fui dispensado por dois dias
do quartel, eu tinha, além do restante daquele dia, uma terça
e uma quarta-feira inteiras, para descansar.
Era para fazer nova doação na quarta, à tarde.
Mas, nesse dia, pela manhã, minha mãe foi chamada na
porta de casa e logo depois entrou chorando:
— Fulano morreu!
Eu tive uma reação espontânea e exclamei:
— Graças a Deus, estou livre disso... Que beleza...!
Quase apanhei da minha mãe.
Ela
é Mais Homem
Alguns
soldados choravam de repente, sem razão aparente. Não
foram muitos, mas existiram. Na minha companhia teve um caso no qual
me envolvi. Aconteceu, com um ex-guarda civil, muito brigador, lutador
de luta-livre. Um certo dia, ao entrar no alojamento, encontrei-o
em prantos, chorando forte. Não agüentei e perguntei-lhe:
— Quem morreu? Sua mãe morreu?
— Não... mas, nós vamos para a guerra e vamos
todos morrer...— ele respondeu.
E recomeçou a chorar. Sacudi o soldado, falando:
— Vai para sua casa e veste esta farda na sua irmã, que
ela é mais homem do que você...! Você é
um covarde...!
Por ter simulado uma doença, este rapaz acabou por ser dispensado.
Depois que nós voltamos da Itália, notei que ele evitava
encontrar-se com os velhos camaradas. Quando via um de nós,
saía fora, tinha vergonha, por ter-se acovardado.
Garrafinha
Milagrosa
Na
noite anterior ao embarque para São João del-Rei, saiu
do quartel uma turma grande, rumo à cidade, fazendo bagunça
por onde passava. Bebendo, brigando, quebrando... A polícia
não tomou conhecimento, recolheu todo mundo e a P.E. não
tinha condição de coibir a arruaça, já
que no quartel só existia um velho caminhãozinho, sem
muita condição de rodagem.
Na
Av. Santos Dumont, um dos baderneiros gritou, de repente:
—
Olha lá...!, um Japonês...!
Logo, rodeado pela turma, caíram no coitado chuvas de pontapés,
pescoções e bordoadas, além de xingatório
pesado. Mas, quanto mais apanhava, mais o "japonês"
ria. Até que um dos recrutas perguntou:
—
E aí, Japonês? Você apanha e ainda acha graça?
— Vocês tá tudo inganado, né! Eu é
chinês...! Por isso, eu tá rindo, eu é chinês..!
Foi sua surpreendente resposta.
Pela manhã, às seis horas, saímos do quartel
rumo à estação do Carlos Prates. Os companheiros
que não iriam embarcar, foram também, fazendo questão
de carregar os nossos pertences pessoais. Encontramos uns 20 carros
da Central encostados, e a banda do Regimento, tocando sem parar um
dobrado de Batista de Melo. Mal acabava e recomeçava tudo de
novo, muito bonito. Eu pedi em casa que não aparecesse ninguém.
Havia mulheres desmaiando, noivas chorando, uma babel terrível...
Mas, enfim, embarcamos.
Já dentro do carro, na minha frente, sentou-se o meu amigo
Tião, de Sabará. Era um touro, grande, bom de bola.
De repente, deu nele uma crise de choro, soluçava que só
vendo... Como eu tinha levado uma garrafinha de guaraná, cheia
de cachaça (isso ainda vai servir para alguma coisa), dei-lhe
uma gravata com o braço esquerdo, levantei sua cabeça
e despejei todo o líquido goela abaixo. Ele bufou e esbravejou,
mas engoliu. Nem vi o trem arrancar da estação.
Embalado pela "garrafinha", lá pelo Barreiro, não
é que o Tião descobre um violão e começa
a puxar uma boa música? E, assim, na cantoria e na batucada,
chegamos a Barbacena. Ali, houve uma baldeação para
carros da Rede Mineira de Viação nos quais tomamos o
rumo de São João del-Rei.
Cobra
Noturna
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Talvés
seja no Capistrano (não se recorda) |
A
cidade de São João del-Rei é atravessada pelo
rio das Mortes. Naquele tempo, naquela região, havia por lá
um tipo de cobra, grande e inofensiva. Algumas moças do lugar
andavam com cobras nos braços, era um xodó danado. Mas,
a tropa ainda não conhecia aquilo. Já de noite, recolhidos
ao alojamento, grande, lotado de camas beliche, nos aparece um soldado
com uma das tais cobras enrolada no pescoço, dizendo que a
mesma era altamente venenosa, e coisa e tal, mas que não tinha
problema algum, que ele dominava a arte do encantamento das cobras.
A tropa, admirada, foi-se chegando
De repente, a luz se apaga e o dono da cobra logo dá o grito:
"Soltei a bicha...". Foi uma quebradeira só, todo
mundo pulando para cima das camas, uma gritaria infernal. Quando o
rapaz viu que a coisa estava ficando séria, gritou de novo:
"Peguei a bicha...". Quando a luz foi acesa o engraçadinho
teve de mudar de alojamento, a turma toda queria bater nele.
A cobra, claro, nunca saiu da sua mão.
E a Tropa Debandou
As
moças de São João del-Rei, quando percebiam a
aproximação de algum praça, saíam imediatamente
das salas e janelas e embrenhavam-se no interior das casas, porque
era cantada e piada, na certa.
Em um dia de folga, a turma estava fazendo bagunça e não
sabia que ali, em frente, era a residência do major Cândido,
que tinha o apelido de "Galo Cego", por que um de seus olhos
era meio fechado e, também, por ser muito bruto. Os arruaceiros,
uns 10 praças, estavam na maior baderna, quando da casa irrompeu
o major e deu voz de prisão para todos. Levando a turma para
o alpendre da casa, onde foram colocados em forma, posição
de sentido, mandou que aguardassem e entrou, queria buscar papel e
lápis para anotar nome e companhia de cada um. Mas, quando
retornou, não achou ninguém; a tropa debandou.
O "Galo Cego" esteve, também, envolvido em outro
caso famoso, envolvendo as gírias empregadas pela tropa. Depois
do final da guerra, durante uma visita do oficialato brasileiro ao
Papa, os oficiais estavam se apresentando ao Pontífice e tudo
corria bem, até que chegou a vez do Galo Cego, que foi logo
dizendo:
— Seu Papa, sou o major Cândido, comandante do 3º
Batalhão, do rabo...
Foi uma gozeira enorme, claro.
Bisturi
Velho
No
Rio de Janeiro, fui acometido de um tumor muito grande no ombro direito
e baixei ao Hospital Central do Exército - H.C.E.. Lá
chegando, com muita dor, não havia cama na enfermaria e aguardei
sentado no chão, sem nenhum atendimento. Depois, andando pelo
local, notei que havia um soldado agonizando; fiquei, então,
mais animado, sentei-me ao pé da sua cama e aguardei uma ou
duas horas, quando notei o mesmo dando o último suspiro e tombando
a cabeça de lado. Conferi com o dedo no seu olho e ele não
piscou. Fui chamar o sargento-enfermeiro comunicando a morte do soldado
e que a cama era minha. O sargento concordou, me acompanhou e retirou
o corpo. Não deixei a cama esfriar, deitei-me logo.
À tarde, procurei o sargento-enfermeiro pedindo que me rasgasse
o tumor. Ele informou que só tinha água oxigenada e
um bisturi velho. Corta assim mesmo — falei. O sargento chamou,
então, quatro soldados para me segurarem, o que recusei. Pegando
o velho bisturi, completamente cego, com muita grosseria, demorou
bastante a cortar, já que a pele estava muito grossa. Para
terminar, espetou o bico da seringa, lavando a ferida com água
oxigenada. A esta altura, eu já estava vendo estrelas, mas,
dali por diante, era só esperar a cicatrização.
Nesse dia, aconteceu um fato muito interessante: Havia desaparecido
uma irmã de caridade, assim como um sargento. Depois de muita
procura, foi encontrada toda a roupa da irmã e do sargento
junto ao muro. Fugiram...
Rebeldia
na Caserna
Eu
pertencia à Companhia de Petrechos Pesados, lotado no 2º
Batalhão, ou seja, nosso negócio eram as metralhadoras.
Lá no Morro do Capistrano, o rancho era feito por Companhia,
sendo que a comida dos oficiais era confeccionada separadamente da
nossa. Recordo-me que os ingredientes eram muito bons, mas a mão-de-obra
empregada era péssima. Eu nunca aceitei aquela humilhação,
e, um belo dia, combinei com os companheiros para rejeitarmos aquela
comida.
Na hora do rancho, eu formando na frente por causa da altura, quando
cheguei perto das panelas, virei para trás e falei: "Olhar
à direita (para as panelas), marmitas à esquerda! Ninguém
pega nada". Apenas os sargentos, que eram profissionais, pegaram
aquela comida.
Quando o tenente Dagmar, que era o oficial do dia e uma pessoa que
sempre olhava os demais com o semblante carregado, percebeu o que
se passava, botou a tropa em forma e meteu a bronca:
— Revoltosos, vão ser expulsos... Isso vai dar Conselho
de Guerra... Quem é o líder?.
Ninguém me apontou e a bronca prosseguiu, no mesmo tom:
— Vocês vão é comer capim, no front.
Aí, não agüentei mais e, perfilado, disse que discordava,
que no front haviam soldados com anos de frente e que, lá,
só morriam por combater o inimigo, nunca devido à comida
que ingeriam. Que, com uma comida como a nossa, já teriam morrido,
há muito tempo. Acabei preso.
O capitão Sabóia foi chamado e ouviu a representação
do tenente contra nós. Éramos uns 180 praças.
Cearense, ótima pessoa, o capitão balançou a
cabeça e dirigiu-se para a cozinha, onde entrou e permaneceu
por uns 10 minutos. Soubemos, depois, que ele, após provar
a comida, chamou o sargento Domingos, chefe dos cozinheiros, e deu-lhe
ordem para jogar fora toda a comida e preparar outra, decente, em
uma hora. E mais, concluída a refeição, todos
que ali trabalhavam, estavam presos.
Só sei que quando saiu da cozinha, tomou o comando da tropa,
gritando:
— Companhia, ao meu comando! Todos para o alojamento...
Uma hora depois, fomos chamados ao refeitório, para pegar a
nova comida, que estava ótima. E, nunca mais tivemos problemas
com nossas refeições...
O tenente Dagmar ficou tão desesperado, de raiva, que pediu
transferência da companhia.
Patrulha
em Bangu
Logo
depois da chegada ao Rio de um contingente de gaúchos, mais
de 400 homens, que não se misturaram com ninguém, ficando
só entre eles, me incluíram numa patrulha, de uns dez
homens, que se dirigiu para Bangu. Perambulando por lá, logo
vieram nos chamar, comunicando que havia um grupo fazendo muita bagunça
em um bar ali perto.
Os soldados eram, em sua maioria, os gaúchos recém-chegados
e mais alguns outros, poucos. O local estava em desordem completa.
Nós entramos em ação, querendo acabar com aquilo
na democracia. Porém, segura daqui, pede dali, a baderna não
parava de jeito nenhum. Foi aí que entrou no cabaré
um cabo do nosso regimento, o Camargo, capixaba, preto, grande atleta,
que, por estar vestido com nossa capa de chuva (não por acaso,
apelidada de "Deus-me-livre-de-chuva"), também portava
consigo um enorme facão de mato.
Quando ele nos viu naquela peleja com os gaúchos, a arma logo
passou para sua mão e ele foi direto para um cabideiro, lotado
de cabides de louça, que eram utilizados para pendurar os agasalhos
dos clientes. E quebrou todos, provocando um enorme barulho. Aí,
com o facão girando sobre a cabeça, avançou para
os gaúchos, gritando:
— É agora! Vou arrancar cabeça...
Aquilo foi tão inusitado que todos debandaram. Acabamos por
prender um único soldado, carioca, que era quem mais estava
insuflando a baderna. Com ele preso, pegamos o trem elétrico
e retornamos ao quartel. Durante o trajeto, o preso foi-se chegando
para perto da porta, até que em uma das paradas, quando a porta
começou a fechar, o safado pulou para fora e nós não
tivemos meios de recapturá-lo. Assim, sem o prisioneiro, a
patrulha entrou no quartel por volta das 3:00 horas da madrugada.
Logo depois, já no melhor dos sonos, começou uma barulheira
danada dentro do alojamento. Era um dos companheiros de patrulha,
pareceu-me que sonhou com a briga em Bangu, e, mesmo dormindo, de
travesseiro nas mãos, estava batendo em todo mundo. Tivemos
que acordar o soldado, para restaurar a normalidade.
Uma
Tocha do Rabo
Às
vezes, os soldados começavam a empregar determinada palavra
com um outro sentido, criando uma gíria, e aquilo pegava mesmo.
Um exemplo de gíria que pegou foi "a tocha", que
era usada quando se queria fazer um passeio, fora do quartel, para
qualquer lugar. Dizia-se: "Hoje, vou fazer a tocha até
o Parque Municipal". Outra gíria, muito empregada era
"Vem rolando". Para tudo que o sujeito queria ou desejava,
ele dizia: "Vem rolando...". Me lembro, também, de
"do rabo", uma gíria muito usada para elogiar, fosse
uma mulher bonita, um carro novo ou um comandante, tudo era "do
rabo".
O caso mais famoso envolvendo o uso das gírias do quartel ocorreu
no Rio de Janeiro, quando um pessoal do 6º RI, grupo grande,
uns 70 a 80 homens, todos da cidade de Caçapava-SP, desceu
certa sexta-feira à noite, rumo à Estação
Ferroviária, com a firme intenção de praticar
uma tocha rumo à cidade natal, sem pagar a passagem, é
claro. Lá chegando, foram ocupando seus lugares, espalhando-se
pelo trem. Não é que o chefe-do-trem, muito diplomaticamente,
propôs que a tropa se reunisse no último carro, onde
poderiam viajar entre camaradas e com muito mais conforto. Alegres,
desceram, todos, e se dirigiram para o último vagão.
Quando o trem partiu, o carro não se moveu. O esperto chefe-do-trem
havia desengatado o vagão do restante da composição
e, assim, deixou a turma, feito bobos, sentados por lá...
Na sexta-feira seguinte, um número ainda maior de soldados
naturais de Caçapava rumou para a Estação Ferroviária,
todos prometendo realizar uma tocha memorável. Esparramaram-se
pelo trem inteiro, em cada carro tinha uma boa turma. Assim que o
trem partiu, tomaram a composição. Entre os convocados,
havia elementos de todas as profissões e especialidades. Naquela
turma, havia, inclusive, um maquinista, que assumiu o controle da
locomotiva. Correndo muito, sem parar em nenhuma das estações
durante o percurso, obrigaram o chefe-do-trem a telegrafar, desesperado,
para pedir que os comboios vindos em sentido contrário dessem
passagem. O trem só se imobilizou em Caçapava, onde
todos os envolvidos foram presos e imediatamente devolvidos ao Rio
de Janeiro.
Pancadaria
em São Januário
Houve
um jogo de futebol, no campo do Vasco da Gama, entre as seleções
do Brasil e do Uruguai, exclusivamente para diversão da tropa.
Lá compareceram três Regimentos. Assim, o 1º, 6º
e 11º RI foram ocupando seus lugares nas arquibancadas, separados
por pequeno espaço onde se postaram os elementos da Polícia
do Exército.
Parece-me que o efetivo da PE era de um batalhão, o qual havia
sido formado aproveitando-se os quadros da guarda civil de São
Paulo. Mas, como os praças nunca se deram bem com a guarda
civil, os PE vieram para o jogo prepotentes, brutos e mal-educados,
julgando-se superiores a todos.
Enquanto estiveram chamando a atenção dos praças
do 1º e do 6º RI, nada de mais sério ocorreu, porém,
quando um policial, com o dedo em riste, chamou a atenção
de um segundo sargento do 11º RI, dizendo-lhe:
— Abotoe esta gola, você não conhece o regulamento...?
Após responder: — Conheço sim... — o sargento
pregou-lhe um soco no rosto, com o que, o PE caiu nocauteado.
Nesse momento, todo o Regimento partiu para o espancamento dos policiais.
Aparecendo o major comandante PE, gritando que parássemos com
aquela bagunça, recebeu de um praça um violento soco
que abriu-lhe o supercílio, fazendo com que, tonto, tivesse
de sentar-se nos degraus da arquibancada, com o rosto sangrando. Faltavam
quinze minutos para o jogo terminar, quando foi suspenso pelo árbitro,
já que a tropa, descendo para o gramado, foi arrancando cadeiras,
que passaram a ser o instrumento utilizado para o espancamento dos
policiais.
O presidente Getúlio Vargas e sua comitiva saíram do
estádio em desabalada carreira. Os elementos da Polícia
do Exército também fugiram, deixando para trás
seus companheiros feridos. Não havendo mais em quem bater,
a tropa dirigiu sua fúria para a Polícia Especial, os
chamados "Cabeças Vermelhas", devido ao gorro que
utilizavam:
— Agora é a Polícia Especial...!
Providencialmente, naquela hora, a banda começou a tocar o
Hino Nacional, com o que, a tropa inteira parou e entrou em forma,
como se nada tivesse acontecido. A Polícia Especial aproveitou
o momento e saiu em acelerado. Segundo informações,
naquele dia morreram três policiais dentro do campo.
No regresso, dentro do trem elétrico, foi descoberto um pobre
policial que estava de folga. Agarrado por alguns elementos, foi jogado
para fora do trem em alta velocidade, pela janela, aumentando, assim,
para quatro, o número de vítimas. Nunca mais o pessoal
envolvido neste episódio foi aceito pelo restante da tropa.
Parece-me que estes acontecimentos ajudaram a abreviar o nosso embarque
para o desconhecido.
Sapo
no Brejo
Dias
após o incidente no campo do Vasco com a polícia do
exército, compareceu ao quartel da Vila Militar o General Zenóbio
da Costa e alguns oficiais da polícia, com o objetivo de apresentarem-se
à tropa e acalmarem os ânimos. Com o Regimento em posição
de sentido, o Coronel Delmiro, comandante do 11º RI, apresentou
o General Zenóbio, que começou a discursar.
Mas, o 11º RI. tinha um assobio, imitando sapo no brejo, que
era emitido quando não estavam satisfeitos. Imediatamente,
começou um assobio curto, por parte de todos os praças,
forçando o general a parar de falar, enquanto os oficiais procuravam
identificar os culpados, o que era impossível, já que
os assobios só soavam onde eles não se encontravam.
Assim, com 4.000 homens assobiando sem parar, o general, furioso,
foi embora. E, nunca mais voltou ao Regimento.
Telegrama
Repeteco
Chegou
um tempo em que ninguém era dispensado para ir em casa. Mas,
o soldado é um bicho terrível. Logo, alguém descobriu
que uma licença era concedida nos casos de falecimento na família
(pai, mãe ou irmão). Havia na companhia Canhão
Anti-Carro, um soldado, apelidado Meia-Noite, que escreveu para casa
pedindo que lhe fosse enviado um telegrama comunicando algum falecimento.
Assim que chegou o mesmo, com a cara mais triste do mundo, Meia-Noite
se apresentou ao capitão-comandante da companhia e entregou
o papel. Solidário com a morte de sua mãe, o capitão
deu-lhe os pêsames e autorizou, em seguida, sua dispensa, por
oito dias. Mais de mês depois do seu retorno, Meia-Noite recebe
outro telegrama de falecimento. Toda a cena se repetiu: ele fez uma
cara de enorme tristeza e se apresentou ao capitão, a quem
entregou o telegrama.
Só não esperava a reação imediata do capitão:
— O Pilantra!, pai você pode ter muitos, mas mãe,
é uma só. Mãe não morre duas vezes...
Te dei oito dias de dispensa, agora você vai ganhar é
oito dias de xadrez... Tá preso...
O que não faz um soldado por uma folga!
Rodeado
de Gente
Quando
Frei Orlando chegou ao 11º RI, 2º Batalhão, mostrou-se
uma pessoa muito culta, humilde, enfim, uma pessoa formidável.
Mas, enfrentou um sério problema: ninguém queria saber
nada de nenhuma religião. Quando ele celebrou a primeira missa
campal, lá no Rio de Janeiro, quase não havia ninguém.
A forma como ele conseguiu se aproximar, se enturmar e se fazer querido
e respeitado pelos soldados foi interessante: onde tinha uma turminha
conversando, ele chegava. Normalmente, eles debandavam de imediato.
Mas, o Frei chamava-os para trás, oferecia um cigarro, puxava
conversa... Todo mundo sem dinheiro, pegavam um cigarrinho aqui, outro
ali, e se deixavam ficar, proseando um pouco com o Frei. Rapidamente,
estava sempre rodeado de gente e suas missas admitiam quase que o
Regimento inteiro. Quando morreu, foi um grande pesar para toda a
tropa...
Rumo
à Itália
Já
em alto-mar, houve um treinamento da artilharia do navio. Um avião,
com um grande balão sendo rebocado por um longo cabo, passou
pelo navio. Quando o balão foi enquadrado, recebeu disparos
dos canhões de 105 mm e das metralhadoras antiaéreas
de bordo, quatro metralhadoras ponto 50, ligadas em série.
Com um homem fazendo a pontaria, eram necessários quatro municiadores.
O avião continuou em direção ao navio-escolta
brasileiro "Duque de Caxias", onde, com a primeira salva
de tiros, explodiram o balão. Foi um delírio para toda
a tropa...
A refeição era servida duas vezes ao dia. Os homens
tinham um cartão numerado, pendurado no pescoço, correspondendo
cada número a uma refeição. A perfuração
do cartão ocorria na entrada do refeitório, cuja fila
nunca acabava, persistindo durante as 24 horas do dia.
No convés do navio, foram espalhados diversos tambores de 200
litros, para recolher o que era vomitado, já que não
era permitido, por razão de segurança, vomitar pela
amurada. Todo mundo a bordo estava enjoado e, em volta de cada tambor,
sempre existia uma roda de homens vomitando ou esperando uma vaga
na beirada do mesmo. O cabo Vicente, com a boca cheia de vômito,
não conseguiu segurar-se e vomitou em rajada, sujando todo
mundo. Neste momento, chegou também o capitão Rodarte,
que tinha sido apelidado pela tropa como "Quem peidou aí?",
devido a sua maneira de andar, com o nariz empinado para cima, dizendo:
— Que porcaria. — e vomitou também, em cima de
todo mundo. Não deu tempo nem de dizer "porcaria",
de tão enjoado que ele estava.
Quanto às diversões a bordo, nossa preferida eram as
lutas de boxe, coordenadas por um sargento americano apelidado "Cachaça",
que era a única palavra em português que ele falava.
Às vezes, as lutas eram às cegas, com a platéia
tomando partido deste ou daquele lutador, orientando aos gritos. O
"Cachaça", para dificultar ainda mais, colocava uma
luva em um pedaço de pau e acertava os oponentes, de longe.
Entretanto, a diversão era pouca. Partíamos para a guerra...
Saraivada
de Palavrões
Recebemos
um livreto com instruções para o caso de torpedeamento
do navio. Lido e relido, concluí que, caso viesse a se concretizar,
ninguém se salvaria. Um belo dia, pela madrugada, ouvi o toque
da sirene de alarme indicando a aproximação de submarino
alemão. Veio, então, a ordem para entrarmos em forma
e nos prepararmos para abandonar o navio.
Eu, que estava deitado no beliche, imaginei: Morrer aqui ou na água,
prefiro aqui. Ocorreu, então, uma contagem dos homens e o tenente
deu pela minha falta. Veio ao meu beliche e perguntou-me se eu não
tinha ouvido a ordem. Eu respondi que sim, mas que preferia morrer
deitado, e dei um grito: "— Manda fogo, alemão!".
Recebi uma saraivada de palavrões como resposta, mas, o torpedo
não veio.
Escorregador
de Navio
Quando
fui promovido a cabo, acabei transferido da Companhia de Petrechos
Pesados para a 5ª. Lá chegando, tratei de me apresentar
ao sargenteante, 1º sargento Humberto, que, mal-humorado e nervoso,
me recebeu muito mal, gritando comigo. Como respondi no mesmo tom,
gritando também, acabou surgindo uma inimizade entre nós.
Na viagem para a Itália, a bordo do navio, o sargento Humberto
foi uma das pessoas que mais passou mal. Foi impressionante, ele quase
morreu, amarelou, vomitou uma semana inteira, sentado num cantinho
do alojamento, virou um caquinho. E eu, passeando para lá e
para cá, quando passava por ali ficava olhando para a cara
dele e pensava no escorregador do navio, que é por onde são
lançados ao mar, num grande caixão de ferro, aqueles
que, por qualquer motivo, vêm a falecer durante a viagem. E
pensava: "Vai conhecer o escorregador de perto, tomara...".
Mas, quis o destino que ambos chegássemos à Itália,
onde, com o desenrolar dos acontecimentos, a animosidade sumiu e acabamos
ficando muito amigos. Um belo dia, ele me diz:
— Sabe, Moreira, quando você se apresentou na companhia,
eu não fui com a sua cara...!"
Nem deixei ele acabar de falar:
— Pois é, `tamos pagos', que eu também não
fui com a sua e torci muito para você andar no escorregador
do navio...
Ele só riu e respondeu:
— Ô miserável, sô...!
Terra
Brasileira
Nós
já estávamos há mais de 10 dias viajando, só
sol, mar e algumas baleias. Cada um procurava alguma forma de se distrair,
para fazer passar o tempo mais rápido. Houve dois casos curiosos,
durante estes dias tediosos. No primeiro, de repente, gritos:
— Terra Brasileira...! Terra Brasileira...!
Todos correram para fora, procurando o horizonte. Mas, a verdade é
que um soldado havia levado consigo um bom punhado da nossa terra,
num embrulhinho. O desfecho deste episódio foi rápido,
muito rápido: cada qual pegou um pouquinho e acabamos com a
terra do embrulhinho.
Chorei
duas vezes
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Na
Itália - Cb Moreira abaixado |
Da
convocação à desmobilização, confesso
que chorei duas vezes. A segunda vez em que fui levado às lágrimas,
aconteceu ao ser desmobilizado, durante a despedida dos colegas e
companheiros, na certeza de que, muitos, não encontraria nunca
mais...
Quanto à primeira vez que chorei, aconteceu quando chegamos
ao porto de Nápoles, onde embarcamos nas pequenas barcaças
L.C.I., de desembarque, com capacidade para mais ou menos trinta a
quarenta homens. Totalmente fechadas, o destino de cada uma das aproximadamente
oitenta barcas era o porto de Livorno. Como o mar estava muito agitado,
as barcas pareciam caixas de fósforo na correnteza, jogando
demais, com a água passando por cima de nós, que, trancados,
só podíamos nos segurar para não cair. Os alemães,
quando tomaram conhecimento do desembarque do Regimento, lá
pelas dezoito horas, prepararam-nos uma recepção: um
bombardeio. Mas, o serviço de contra-informação
americano foi mais inteligente, fazendo com que o desembarque fosse
retardado para o amanhecer do dia seguinte. Ficamos parados no mar,
na escuridão, por várias horas.
Depois, a barca em que viajávamos ficou parada pertinho da
mureta de proteção de algumas casas, em cujo quintal
se viam diversas macieiras, carregadas de lindas maçãs,
vermelhinhas, de dar água na boca. Como a maçã,
no Brasil, era toda importada e quase não se comia, fiquei
com uma vontade enorme de provar algumas delas. Fiz gestos para um
italiano, em terra, propondo a troca de um maço de cigarros
por maçãs. Recebi umas dez, e comi logo umas seis de
uma vez, deliciosas. Mas, logo, com o reinício da viagem, fiquei
enjoado e acabei vomitando tudo o que havia comido.
Pudemos ver que Livorno era cercada por inúmeros balões
presos por cabos de aço, a dois mil metros de altura. Era uma
forma de impedir ou dificultar o bombardeio do local pelos aviões
inimigos. Ali chegamos, no início da manhã, sem nada
acontecer. Depois do desembarque, o Regimento foi formado e procedeu-se,
então, ao hasteamento da Bandeira Nacional. Ao som do Hino
Nacional, tocado pela banda do Regimento, olhando a Bandeira do meu
Brasil, não agüentei a emoção e chorei.
Mais
um Tenente...
Em
San Rossore, local para onde fomos levados para recuperação
da viagem e treinamento com novas armas, fomos instalados em uma espécie
de parque florestal, reserva de caça do Rei Vitor Emanuel.
Lá, havia uma enorme clareira, rodeada por uma capoeira fina.
Na parte inferior da mesma, havia uma praia onde a água do
mar morria sem nenhum obstáculo.
Temendo um desembarque no local, os alemães haviam minado toda
a extensão da praia e as duas laterais da clareira. Dos animais
ali mantidos, restavam apenas uns dez camelos, vagando pelo mato.
Logo que chegamos, à noite, ouvimos uma explosão muito
forte. Pela manhã, ficamos sabendo que um camelo fora morto
devido à explosão de uma mina. Curiosamente, as explosões
continuaram, e, a cada explosão, mais um camelo era encontrado
morto. Foi só questão de tempo. Rapidamente, a cada
detonação, o regimento inteiro berrava para a escuridão
da noite:
— Mais um camelo...!
O campo minado foi aproveitado para treinamento dos pelotões
de mina, um deles comandado pelo primeiro tenente Márcio Pinto,
de Belo Horizonte, muito bom jogador de futebol. Ao final de um dia
de treinamento, no final da tarde, já no meio do regresso ao
acampamento, o tenente Márcio lembrou-se de haver deixado um
determinado objeto no local da instrução. Mandando o
pelotão prosseguir, retornou para recuperar o objeto esquecido.
Com o cair da noite, acabou por errar a trilha de retorno, entrando
em marcha batida por um caminho ainda não liberado.
Uma vez mais, a tradicional explosão noturna foi ouvida. Anoiteceu
de vez e o tenente Márcio não apareceu. Pela manhã,
o pessoal do pelotão de mina encontrou o corpo, ou o que restou
dele: a cabeça, ligada a um dos braços. A partir daí,
sempre que ocorria uma explosão de mina, o Regimento inteiro
bradava em conjunto:
— Mais um tenente...!
"Recuperando"
as Perdas
Os
veículos que nós recebemos ao chegar na Itália
tinham a chave fixa na ignição. Rapidamente, perdemos
diversos deles. Na primeira semana, foram aproximadamente uns 10 carros.
Para impedir isto, para fazer com que todos os veículos fossem
bem guardados por seus motoristas, foi dada ordem para que, em se
achando um veículo abandonado, o mesmo fosse trazido para nossa
unidade. Quinze dias depois, além de termos "recuperado"
nossas perdas, tínhamos uns 30 carros a mais. "Acharam"
ambulância, blindados, caminhões. Bastava algum americano
se afastar alguns metros do seu carro que a gente subia nele e trazia
para a companhia. Não deu outra: suspenderam a ordem, senão
os gringos iriam ficar a pé.
Viagem
ao Front
Transportando
um capitão e dois tenentes, em um jeep, saí dirigindo,
logo após o café da manhã, rumo ao front. A estrada,
passando próximo ao topo das mais altas montanhas, tinha sido
feita de forma emergencial, coberta com cascalho grosso. Era grande
o movimento de tropas indo e vindo, e, também, de civis fugindo
da frente, com aquilo que podiam carregar, assim como trouxas, carneiros,
cavalos, carroças, etc.
A estrada era perigosíssima, mas os passageiros, a falar continuamente:
"— Olha o paisano, olha o tanque, olha o caminhão..."
— o tempo todo da viagem, até que me encheram tanto o
saco que explodi, parei o jeep, desci e disse aos tenentes:
— Os Srs. estão querendo sentar aqui? Os Srs. vêm
dando palpites o tempo todo. Podem pegar o volante que fico por aqui
e não dirijo mais. Não agüento mais! Vim aqui para
morrer! Pelas mãos de brasileiros ou alemães é
a mesma coisa...
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Cb
Moreira - 1º a esquerda |
Foi quando o capitão, amigo, me pediu calma. Um dos tenentes
quis falar alguma coisa e o capitão mandou que ele se calasse.
Foi quando eu comentei com o capitão que não se devia
confiar naqueles dois tenentes, que eles iriam se acovardar na linha
de frente, pois estavam mostrando muito medo de morrer.
Acalmados os ânimos e com o pedido do capitão, resolvi
continuar a viagem, com a ressalva de que não dessem palpites.
O restante da viagem, de mais ou menos uma hora, transcorreu inteiramente
em silêncio.
À tardinha, quase chegando ao acampamento, começou uma
tempestade. Como, normalmente, o jeep não tinha capota, ficando
a mesma guardada debaixo do banco do motorista, parei o veículo
para retirá-la, mas a mesma havia ficado no acampamento. Neste
momento, o tenente Rocha Loures quis reclamar, mas o capitão
novamente interferiu:
— Cala a boca, que estamos em guerra e somos superiores a tudo.
Chegando ao acampamento, ao final da viagem, mais ou menos às
dezenove horas, estávamos totalmente molhados. Fui a minha
barraca, bufando de raiva, troquei a roupa e, meia hora depois, já
à noite e sem comer desde cedo, fui chamado por um soldado
e ele dizia que o tenente estava me chamando. Eu disse a ele que não
iria.
Minutos depois, veio o soldado, novamente me chamando e respondi a
mesma coisa. Tornou a me procurar dizendo que o capitão estava
me chamando. Então, apanhei o meu fuzil, conferi as balas e
pensei: "Se me xingar, morre"!
Chegando à cozinha, o capitão disse que mandou me chamar
para tomar um chocolate com pão. Eu informei que já
estava alimentado e ele perguntou o que tinha comido. Respondi:
— Raiva! — Respondi!
Ele, bom amigo, me entregou um copo de chocolate e me acalmou. Passados
uns quinze dias, o tenente me procurou perguntando se eu estava com
raiva dele e eu respondi que não. Então, ele me entregou
uma metralhadora de mão e disse que íamos a Pisa para
um trabalho. Fomos e voltamos sem nenhum problema.
"Ó
o Bode!"
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Na
Itália - Cb Moreira o 2º da direita p/ esquerda |
Certo
dia, tive de ir à cidade de Pisa. Na volta, eram umas seis
horas da manhã, ao passar pelo posto avançado encontrei
a guarda, que era de quatro soldados e mais o tenente Elbert, do meu
pelotão, retornando ao acampamento. Havia uma ordem segundo
a qual o jeep só poderia transportar três passageiros.
O tenente disse que iriam todos naquele veículo. Eu informei
que só poderia levar três passageiros.
— Vamos todos, que é minha ordem! — foi sua resposta.
Porém, ainda antes de rodarmos, parou um jeep na minha frente,
com o coronel sub comandante, que tomou nota do número do veículo
e foi embora.
— "Ó o bode!" — eu disse ao tenente.
Lá pelas nove horas, apareceu um soldado dizendo que fosse
ao comando, que o coronel queria falar comigo. Comuniquei o fato ao
tenente e fui lá. Apresentei-me e ele indagou:
— Por ordem de quem você transportava cinco passageiros?
Em posição de sentido, respondi que a ordem era minha,
que os homens estavam deixando a guarda da noite anterior e que estavam
muito cansados. O coronel disse, então, que se a ordem era
minha, eu estava desrespeitando ordens superiores, e, por isso, eu
iria ficar preso por seis dias. Respondi que, em igual circunstância
voltaria a proceder da mesma maneira.
— E ficará preso até aprender a cumprir ordens
— ele respondeu.
De volta ao pelotão, o tenente me perguntou o que o coronel
queria. Eu contei-lhe a conversa e que ele tinha ordenado que eu pegasse
seis dias de cadeia. O tenente, então, perguntou por que eu
não tinha dito que foi dele a ordem de transporte irregular.
Respondi que esta pena, para mim, não valia nada, e para ele,
tenente de carreira, iria atrapalhar futuras promoções.
Agradeceu-me muito e acabamos ficando bons amigos.
Força
de Trabalho
Os
alemães usavam seus prisioneiros como força de trabalho.
Russos, franceses, italianos, tinham, inclusive, de combater e acompanhavam
as tropas, sob ameaça de morte. Um belo dia, nós aprisionamos
uns oito alemães e, entre eles, um lourinho, que imediatamente
se destacou, devido ao seu ar de felicidade e satisfação.
Perguntado, em italiano, sobre o que estava ocorrendo, informou que
era um prisioneiro russo, capturado pelos alemães e, contra
sua vontade, obrigado a combater ao lado deles. Após ser definitivamente
libertado, acabou recebendo um fuzil, que teve de ser retomado de
pronto por nossos homens, já que virou uma fera e queria porque
queria, bater e matar os prisioneiros restantes.
Bolsa
Completa
A
FEB estava subordinada ao V Exército Americano. Em um dos nossos
lados, no front, ficava a 10ª Divisão de Montanha. Já
no outro lado foi alocada a 92ª Divisão de Infantaria
Americana, formada única e exclusivamente por soldados negros.
Um certo dia, perto de Gagio Montano, encontrei um grupo desses soldados
negros, trocando o pneu furado de um jeep. Levantado o veículo,
não tinham chave de roda e vieram pedir emprestada a minha.
Eles trocaram o pneu, montaram no jeep e saíram chutados, gozando
minha cara e sem devolver a chave de roda. Só pensei: "Ah,
criolada, vocês ainda vão me pagar...".
Dias depois, nossas tropas chegaram juntas ao mesmo lugarejo onde,
logo em seguida, começamos a receber intenso bombardeio. Uma
das explosões arremessou um estilhaço contra meu jeep,
provocando um grande rombo no seu assoalho. Todos correram, buscando
melhor abrigo e, nesse momento, vi o jeep dos negros americanos, abandonado.
Aproveitei a deixa, fui até lá e peguei a bolsa de ferramentas,
completa. Quando o canhonaço melhorou, fomos cada qual para
o seu lado e eu comuniquei o ocorrido ao capitão Henrique,
que só comentou:
— Foi uma boa lição, fez muito bem...
Confusão
com a Senha
A
5ª Cia. foi designada para substituir um batalhão de negros
americanos, bons de bagunça e ruins de linha de frente. Com
a frente de batalha muito extensa, o capitão Henrique solicitou
ao Alto Comando, o reforço de duas seções de
metralhadoras pesadas. Cada seção possuía duas
peças que eram comandadas por um cabo. Todo o pessoal era do
1º RI, cariocas, portanto.
Questionados sobre as senhas a serem utilizadas, os cabos responsáveis
informaram que suas senhas seriam, Flamengo e Botafogo, respectivamente.
Em seguida, foram posicionados na frente de batalha. À noite,
sob lua clara, a seção Botafogo comunicou ao capitão
a aproximação de uma patrulha inimiga, informando também
que seriam entre doze e quinze homens.
O capitão mandou que esperassem a patrulha chegar um pouco
mais perto, encerrando o contato. Quando, alguns instantes depois,
tentou comunicar-se com o cabo comandante da seção,
o mesmo não atendeu ao chamado. Insistentemente, o capitão
começou a gritar:
— Alô, Botafogo...! Alô, Botafogo...!
Acabou sendo ouvido pelos praças, que gritaram para seus artilheiros:
— O capitão está ordenando: "Mete Fogo! Mete
Fogo..."!
Em instantes, toda a frente estava disparando suas armas, e quanto
mais o capitão gritava, mais tiros davam. Até que foi
enviado um mensageiro a pé, mandando suspender o fogo.
Foi lançado um very-light (dispositivo para iluminação
noturna, normalmente arremessado por morteiro a grande altura, onde
se abre então, um pequeno pára-quedas para retardar
a descida) que iluminou uma área de mais ou menos cem metros.
Constatou-se, então, que havia um único alemão
morto, tendo o restante da patrulha escapado, apesar do intenso tiroteio.
Foi enorme a confusão. Choveram telefonemas das demais companhias
e do batalhão, todos querendo saber sobre "o violento
ataque dos alemães".
É uma sorte a fartura de munição...
Lenha
Humana
A
10ª Divisão de Montanha era um pessoal altamente especializado
que servia ao nosso lado, no front. Homens de físico avantajado,
muito bem treinados, com armamento e equipamento mais leves, eram
uma Divisão de Elite, muito bem preparada, ao contrário
de seus compatriotas negros, nossos vizinhos do outro lado.
Nós ficamos na reserva quando a 10ª atacou perto de Pietra
Colore. A luta foi de uma enorme violência. Quando tudo terminou,
os dois lados retiraram-se para recompor as tropas.
Eu assisti, de perto, os caminhões americanos se retirando,
repletos de cadáveres, empilhados igual lenha. Foram, mais
ou menos, uns dois mil e quinhentos homens, de ambos os lados. Depois,
fui ao local da batalha, para olhar: o terreno estava todo destruído,
todas as árvores, desabadas.
Bomba
de Barro
A
bomba do canhão de 155 milímetros fazia um buraco de
aproximadamente um metro de largura, por metade disto de profundidade.
Um certo dia, retornando com o sargento Chitara de alguma missão,
ao passar por uma pracinha, recebemos bombardeio pesado. Encostei
em um barranco e ficamos por lá, quietos, esperando o movimento
passar. Porém, uma das granadas de 155 milímetros caiu
a uns 10 metros de nós. Com o barulho, o sargento quase entrou
para dentro do próprio capacete. Em mim, bateu um bolo de barro
na boca, que, com o impacto e num primeiro momento, me fizeram pensar:
"Arrebentaram minha boca...". Mas, era só barro.
Esta explosão também prejudicou, e prejudica até
hoje, meu tímpano do ouvido esquerdo.
Sangue
e Neve
Deslocamo-nos
para Gagio Montano. Junto ao pé do monte Castelo, a neve acumulada
já estava próxima dos oitenta centímetros e eu
seguia lentamente até a cozinha do acampamento. A estrada era
extremamente perigosa, batida pela artilharia alemã. Expliquei
ao Frei Orlando, que tinha pedido uma carona (o que era bom, pois
se eu fosse ferido, ele poderia me confessar), as instruções
sobre os bombardeios que estavam começando. Parando o veículo,
informei que as bombas que estavam passando por cima não eram
para nós e disse que, quando eu gritasse, era para se deitar
imediatamente. Minutos após, dei o grito e deitamos. A bomba
explodiu a poucos metros de nós, atingindo dois muares que
estavam amarrados, arrancando a cabeça de um e partindo o outro
ao meio. Do que arrancou a cabeça esguichava sangue, como uma
mangueira furada, fazendo um contraste bonito de sangue e neve.
— Olha que beleza! — disse ao frei.
—
Nossa Senhora! — ele respondeu, tampando os olhos.
Seguimos nosso caminho e ele, com muito medo, pedia para correr. Eu,
brincando, falava:
— Vamos é devagar, que não quero morrer correndo.
E terminamos a viagem sem nada acontecer.
Massa
na Boca
Os
partisans italianos, às vezes, apareciam e se ofereciam para
trabalhar junto às companhias. Um dia, surgiu entre nós
um italianinho, cuja família fora dizimada pelos alemães,
em Lago Bagio, sendo ele, o único sobrevivente. Louco por vingança,
ficou por ali, fazendo pequenos serviços. Perto de Pietra Colore,
em frente ao lugar em que acampamos, havia um terreno grande e limpo,
plano e descampado. Foi quando surgiu um alemão, perdido, andando
neste terreno, a uns 300 metros de nós. Um avião de
caça americano o avistou e metralhou antes que pudéssemos
fazer qualquer coisa. O soldado alemão ficou caído e
nós não tomamos mais conhecimento dele. Mas o italianinho,
correndo, foi até lá e encontrou o alemão agonizando,
deitado de costas. Não é que o rapaz tirou as próprias
calças e mandou massa na boca do outro? E voltou, pulando de
alegria:
— Tedesco non morrire, e io carcarre in boca. Estoi felice.
Morto
Minado
Existia
um pelotão de sepultamento na Divisão, que era encarregado
de recolher os cadáveres. Eles vinham e ensacavam o infeliz,
colocavam no caminhão e levavam para enterrar, pendurando uma
das plaquinhas de identificação na cruz. Mas, na frente
onde estávamos, em Pietra Colore, após o recolhimento
dos corpos, acabaram restando, ainda, uns quatro cadáveres.
Com o passar do tempo, já com alguns dias do falecimento, o
capitão me chamou e mandou que eu recolhesse os mesmos. Peguei
um padioleiro, Paraíba, e fomos até lá.
Mas, era necessário muito cuidado, pois os alemães costumavam
minar os mortos, que, quando iam ser removidos, provocavam a explosão
da mina. Por isso, propus ao Paraíba:
— Vamos amarrar este cabo de aço neles e arrastar. Se
explodir mina, estaremos longe.
Assim, quando chegamos lá, encostei o jeep e amarrei o cabo
no primeiro. Mas, quando puxei o carro, uma parte do corpo se soltou
da outra. Desisti e voltei ao capitão, a quem comuniquei que
o estado de decomposição dos corpos não permitia
que fossem recolhidos, sem risco, por pessoal não treinado.
O capitão, então, acabou solicitando o comparecimento,
novamente, do pelotão de sepultamento, para se encarregar dos
corpos.
Fuzilada
Ainda
em Gagio Montano, certa noite, mais ou menos às oito horas,
fui chamado pelo capitão Henrique, dizendo para eu escolher
três soldados de minha confiança e fosse na posição
do sargento Rabelo, buscar uma moça, que estava espionando
a nossa frente. Obviamente, ela não sabia que fora descoberta
e que seria presa. O capitão disse que tivesse todo o cuidado,
pois poderia encontrar patrulhas inimigas, uma vez que iria passar
pela terra de ninguém. Se houvesse encontro de patrulhas, a
primeira coisa a fazer era matá-la e pegar sua pasta, a qual
continha documentos de espionagem. Lá chegando, o sargento
Rabelo nos apresentou a uma bela moça, de nome Eva, e que deu
beijinhos em todos nós. Já sabendo que ela portava vários
documentos de espionagem em favor dos alemães, convidei-a a
voltar conosco. Coloquei um soldado dez metros à frente, outro
a cinco, ela na minha frente, a dois metros, e um soldado à
minha retaguarda, a cinco metros. Eu, com a arma engatilhada. Durante
o percurso de volta, um dos soldados propôs forçá-la,
com o que não concordei. Chegando a vinte metros do posto de
comando do capitão, ela se despediu, dizendo que iria para
a casa de uma tia. Convidei-a, então, para ir ao comando tomar
um leite quente, o que ela recusou.
Neste momento, tomei-lhe a pasta e informei que estava presa. Chegando
ao posto de comando, o capitão solicitou os serviços
de um intérprete e procedeu ao interrogatório. Confessando
que era espiã, foi então encaminhada ao comando americano,
juntamente com as anotações da pasta. Finalizando o
depoimento, o capitão inseriu um pedido onde solicitava o resultado
final daquele processo. Dois dia depois, chegou a resposta: Fuzilada.
Fiquei
para trás
 |
|
Cabo
Moreira e seu Jeep |
Fizemos
um deslocamento à noite, havia nevado e estava chovendo. As
poças de água no chão, se quebravam como se fossem
vidro, ao serem pisadas. Fui o último a sair, sozinho, com
o jeep e um reboque carregados de material. Sem poder ligar os faróis,
fiquei para trás e acabei caindo em um buraco. Assim, atrasei-me
ainda mais, liberando o veículo.
Recomeçando a rodar, logo em seguida encontrei um soldado caído
pelo caminho, semimorto. Agarrei o distinto e, sendo bastante forte,
acabei colocando-o sobre o reboque, onde amarrei suas pernas e braços
para que não caísse. Sem mais perda de tempo, toquei
para a frente.
Para conseguir chegar na posição a ser ocupada, tínhamos
que passar por um trecho de estrada asfaltada, com curvas em forma
de "S", muito bombardeada durante o dia pelos alemães,
que, do alto do Monte Castelo, controlavam a movimentação
da estrada. Toda a companhia passou bem pelo local, já que
ali chegaram pela madrugada.
Quando cheguei a mais ou menos dois quilômetros depois deste
local perigoso, fui interceptado pelo capitão Goulart que,
muito prepotente, gritou comigo:
— Isto são horas? Pode encostar, não vai continuar
a subir...!
Tentei explicar o que havia acontecido comigo, mas não adiantou.
Então, desamarrei o soldado desmaiado, que coloquei no chão,
e voltei a entrar no jeep, dizendo ao capitão:
— Fique com esta porcaria aí, que eu vou subir...!
Com ele ainda gritando comigo, acelerei o veículo e fui embora.
Chegando ao meu destino, imediatamente relatei o ocorrido ao meu capitão
que, após me elogiar, entrou em contato com o Goulart, dizendo-lhe
que não voltasse a interferir com seu pessoal.
Número
Pintado
 |
|
Cb
Moreira - 1º a esquerda |
Recebemos
um alerta de que dois alemães altos teriam matado dois oficiais
americanos e roubado seu jeep. Tendo vestido suas fardas, estes elementos
estavam com livre trânsito em todos os setores onde, além
de matar alguns soldados aliados, estavam colocando veneno nas marmitas
térmicas dos mesmos.
Com esta notícia na cabeça, saí com o sargento
Gustavo Pancrácio, da cozinha de Lago Bagio, com uma carga
noturna de comida para a 5ª Cia., já que a estrada era
muito batida pela artilharia alemã durante o dia. Mesmo na
escuridão, pude perceber que o motor do jeep estava superaquecido.
Constatando que a água do radiador estava congelada, disse
ao sargento que, ou ele ficava tomando conta do jeep ou voltava a
pé até a cozinha para buscar água fervendo, para
descongelarmos o radiador.
Tendo o sargento optado por ir buscar a água, olhei em volta
do local onde estacionamos. Na estrada deserta, a neve estava com
mais ou menos 40 cm. Havia apenas algumas árvores e uma pequena
mureta ao lado da pista, sob a luz intensa do luar. Posicionei-me,
imóvel, debaixo de uma das árvores, perto do carro.
Minutos depois, um outro jeep parou próximo ao meu e dele desceram
dois homens altos e fortes. Destravei meu fuzil pensando: "São
os alemães... Se ficarem um atrás do outro, pego os
dois com um tiro só...". Fazendo pontaria, fiquei aguardando
que mexessem nas marmitas.
Um dos soldados rodeou o jeep e, tendo observado o número pintado
no pára-choque, olhou para os lados e me chamou pelo nome:
— Ô Moreira!
Mandei que se identificassem. Falaram que eram da 4ª Cia. e estavam
perdidos.
— Cheguem mais perto, para vocês verem do que escaparam!
Foi pura
sorte.
Rádio
Berlim
É
com tristeza e vergonha que não podia deixar de relatar o fato
a seguir, nestes escritos. Estávamos em Gagio Montano, aos
pés do Monte Castello, que ainda se encontrava em poder dos
alemães. A temperatura beirava os 18 graus abaixo de zero e
a neve chegava aos oitenta centímetros de altura. Eram meses
sem notícias de casa e sem esperança de voltar ao Brasil.
Imobilizados pelas condições climáticas, ouvíamos
rádio. Lá pelas dez horas da manhã, todos os
dias, transmitia-se a música "Luar do Sertão",
na rádio Berlim. Terminada a música, os locutores (um
tenente brasileiro desertor e uma mulher catarinense, filha de alemães)
pegavam o microfone e falavam aos brasileiros, nos seguintes termos:
— Bom dia, brasileiros! Vocês estão aqui para ganhar
105 dólares. Fiquem sabendo que, neste momento, suas filhas,
noivas e esposas, estão nos braços dos americanos, em
Copacabana, ou nas suas camas. Fiquem sabendo que nenhum de vocês
voltará, pois aquele que resistir ao inverno, não resistirá
às balas dos soldados do glorioso exército de nosso
Hitler.
E emendavam, mandando um aviso aos soldados alemães:
— Atenção, soldados do III Reich: Aqui estão
os brasileiros, portadores de armas perigosíssimas, tais como
a sífilis e a tuberculose.
Terminada a guerra, foram presos pelas tropas russas e entregues às
autoridades brasileiras, visto ser o Brasil aliado, para julgamento.
Os traidores foram condenados a 30 anos de prisão. Porém,
passado pouco tempo, o Presidente Eurico Dutra entrou de licença
assumindo o seu vice, Nereu Ramos. Um de seus primeiros decretos foi
anistiar os dois.
No governo Juscelino, o traidor foi nomeado oficial de gabinete do
Ministro da Agricultura, Barros de Carvalho, com altíssimo
vencimento.
A nomeação provocou intensa reação dos
praças, sendo que, apenas o jornal "Estado de São
Paulo", noticiou a atitude dos colegas da FEB do Rio de Janeiro,
que reuniram várias medalhas e as colocaram em um penico, o
qual mandaram para o Sr. Presidente Juscelino, com uma carta explicando
que aquelas medalhas estavam colocadas em peitos errados, e que lhes
desse o destino que bem entendesse.
Sentinela
Aplicada
Em
Lago Bagio, estava alojado o comando da 5ª companhia sob a responsabilidade
do capitão Henrique, em um castelo velho e mal conservado,
com um porão na entrada, e uma escada à esquerda, onde
ficava um sentinela, pois era de fácil acesso ao comando e
o lugar era muito perigoso. Certa noite, o capitão e um sargento
saíram em vistoria da posição de um pelotão.
Pouco tempo depois, foi trocado o sentinela e o segundo não
foi avisado da saída do capitão e do sargento. Ao regressarem,
quando passaram pelo sentinela, este gritou:
— Alto.
Mas, ou o capitão não ouviu ou queria experimentar o
sentinela, que era o soldado Osvaldo Catalão. Muito bom soldado,
apontou a metralhadora de mão, mas, para sorte do capitão,
mudou de idéia e lançou uma granada sobre os dois, que,
sentindo o estalo da espoleta, deitaram-se imediatamente. A sorte
os protegeu novamente, pois a granada explodiu sobre um barranco de
70 centímetros e, por isso, não os aleijou. O capitão
deu um jeito, dizendo quem era. O soldado explicou que tinha ordenado:
Alto!
— Não me obedeceram, mandei fogo.
Osvaldo Catalão foi elogiado.
Sino
Inconveniente
Porreta
Terme, sede do nosso Alto Comando, era um lugar pequeno, com muitas
casas bonitas e banhos termais. Enquanto existiu por lá um
certo padre, aliado dos alemães, foi muito bombardeada. Sempre
que este padre via um aglomerado de soldados, o sino da igreja tocava
e logo em seguida a cidade sofria bombardeio pesado. Mas, foi apanhado
e, claro, recebeu "muito carinho" de nossa parte.
Foi durante uma dessas ocasiões de bombardeio, que cheguei
em Porreta Terme com o tenente Hélio, baiano, a quem fui buscar
para substituir o tenente Robson, que tinha sido ferido. Conosco,
veio de carona também um major, muito branco e muito arrumado,
que era da retaguarda. Eu não estava dirigindo, vim sentado
atrás, de lado. Quem estava ao volante era o capitão
Magalhães. Quando ele estacionou o veículo, os passageiros
desceram e começou o bombardeio. O major, sem saber o que fazer,
ficou dançando sozinho, pulando para lá e para cá.
A areia das explosões acabou pegando seu rosto, que ficou sangrando,
sem muita gravidade. Tão assustado estava, que não ouvia
ninguém, todos mandando que se deitasse.
Um grande estilhaço furou o pneu do jeep. Outro, atravessou
a lataria, acima do pneu, passou entre as minhas duas pernas e atravessou,
também, a lata do outro lado, onde caiu, cheio de fumaça,
no chão.
Porreta Terme era um lugar muito perigoso.
Majestade
e Pinto Gordo
Certo
dia, houve um ataque da 5ª Cia. mal planejado, às 7:00
horas da manhã. A companhia ficou detida em uma ravina até
a noite, sob rajadas de metralhadoras pesadas localizadas na parte
alta, além de bombardeada por morteiros. Neste lugar, ocorreram
algumas cenas interessantes, protagonizadas pelos companheiros da
companhia.
Numa, o capitão Joaquim Quadros de Magalhães fez um
abrigo individual que lhe coube o corpo inteiro, com uma faca, em
cinco minutos. O aperto faz sapo pular.
O segundo fato curioso ocorreu com o soldado apelidado Majestade que,
dentro de seu abrigo individual, deitado de costas, acendeu o cachimbo
e, com o sabre na mão, chamou atenção do sargento
falando:
— Quer ver como eles estão bravos?
E elevava o capacete de aço na ponta do sabre. Os alemães
disparavam as metralhadoras, fazendo o capacete rodar enquanto o Majestade
morria de rir.
Um evento marcante aconteceu com o soldado Pinto Gordo, que teve a
sua perna decepada na altura do joelho, e atirada a mais de cinco
metros, por uma granada de morteiro. Nesse momento, o sargento Judson,
amigo do soldado, rastejou em meio ao tiroteio e apanhou a perna.
— Ô Pinto, ó, a sua perna! — voltou dizendo.
— Joga ela fora, ô sargento, ela não presta mais.
À noite, os alemães se retiraram. A companhia avançou
e fez alguns prisioneiros. O soldado Félix, filho de alemães,
entrou numa casinha velha e voltou com um alemão de mãos
para cima, dando-lhe tapas e pontapés e chamando-o de vagabundo.
Um
Dia Agitado
Num
lugarejo chamado Pietra Colore, estavam uns 15 homens numa casa, já
há vários dias. Lá, também estavam o proprietário,
seu filho grandalhão e duas filhas, sendo que uma delas estava
com uma grande úlcera na perna, de uns 10 centímetros,
em péssimo estado.
Os nossos enfermeiros vinham tratando a ferida, que estava melhorando
muito. O terreno era bastante grande, a estrada passava junto: um
beco calçado de pedras grandes e mal colocadas, impedindo a
passagem de qualquer carro. Os alemães fizeram uma incursão
por dentro do terreno em virtude de um ataque do regimento na madrugada
seguinte. Devido a este fato, fui encarregado de transportar munição
para a companhia.
Na segunda viagem ao depósito de munição, a 2
quilômetros da casa, com 250 quilos de carga, encontrei uma
cerca impedindo a passagem. Desci do jeep e, com o sabre que tinha
o corte de um facão, comecei a desmanchar a referida cerca.
Neste momento, apareceram os dois italianos, pai e filho, muito grandes
e muito fortes, com duas foices nas mãos, xingando e ameaçando.
Peguei meu fuzil, coloquei uma bala na agulha, apontei para eles e
disse no grito:
— Lancha fora os cortelos, manes na testa o morrire!
Eles jogaram fora as ferramentas e puseram as mãos na cabeça.
Mandei um soldado, que estava comigo, pegar o fuzil e escoltar os
dois até o comandante. Mas que mantivesse os italianos na frente,
a cinco metros. Caso eles se rebelassem, que matasse os dois. Chegando
ao comando, relatei o acontecido ao capitão, e ele deu-lhes
alguns tapas e ameaçou mandá-los para o campo de concentração,
como fascistas.
Gastão
e a Fossa
Na
terceira viagem, como eu passava no alto de um morro e os alemães
estavam do outro lado da ravina, dava para vê-los em movimento,
a uma distância de menos de seiscentos metros.
Convidei o Gastão, padioleiro, para ir comigo, para que pudesse
observá-los. Chegando no topo do morro, num lugar limpo, eu
os mostrei para ele. Próximo a nós, havia um agrupamento
de três casas grandes, destelhadas e com algumas paredes arrebentadas.
Neste ponto, haviam estado alojados anteriormente 40 homens de meu
pelotão, por uns 20 dias. Em situações como esta,
é feita uma vala sanitária coletiva.
Quando atingimos o ponto junto às casas, os alemães
começaram a nos bombardear com morteiros e o Gastão
ficou apavorado e ameaçou saltar do jeep. Eu, apontando um
barranco próximo como o lugar mais seguro, disse que seria
perigoso descer. Mas ele não me ouviu, pulou e correu diretamente
para uma das casas. Como caíram vários morteiros próximos,
ele, com medo do fogo da explosão, correu e deitou-se dentro
da vala sanitária.
Parei o carro e joguei-me ao chão, protegido de um lado pelo
barranco e do outro pelo jeep. Passados alguns minutos, parou o bombardeio
e fui chamar o companheiro, pensando que estivesse morto ou ferido.
Encontrei-o inteiro, mas o Gastão se encontrava ainda deitado
na vala sanitária.
Comigo rindo muito, falando o tempo todo que ele estava todo sujo
de bosta, voltamos para o jeep. Depois que descarreguei, retornei
ao acampamento onde ele estava baseado, quando pôde tomar banho
e jogar fora a roupa imunda.
O
Partisan e a Pedra
Na
quarta viagem, quando descia, alguém me gritou. Vi logo que
era o Frei Orlando, querendo saber para onde iria, pedindo uma carona.
Entrou no jeep e foi logo perguntando o que eu iria fazer lá
em Docce, que era o lugarejo onde estava o depósito de munição.
Respondi que estávamos transportando chocolate, para o baile
da madrugada. Ele informou que estava percorrendo as companhias, preparando
as tropas para a luta.
Chegamos em Docce, onde ele desceu me dizendo que iria primeiro até
a quarta companhia, que estava sendo atacada e onde já havia
mortos e feridos. Neste momento, um jeep, com um capitão, um
cabo, e um partigiani (patriota da resistência italiana) passou
por nós a caminho da quarta companhia e o frei fez sinal de
parada, me agradecendo e correndo para a nova carona. Eu andei mais
uns trinta metros e fui pegar minha carga. Poucos instantes depois,
ouvi um tiro, mas não tomei conhecimento. Vi uma pessoa sendo
carregada, também não liguei. Mas, durante o carregamento
do jeep, acabei perguntando a um colega que passava o que tinha acontecido
e ele contou-me que o jeep onde estava o Frei Orlando tinha agarrado
uma das rodas em uma pedra, e que o partigiani, com o cabo da arma
bateu com a mesma na pedra, procurando soltar a roda. A arma disparou
e atingiu o frei no peito. Soube que ele colocou a mão na ferida
e disse que não tinha jeito. Ao lhe ser retirada a mão
direta do bolso, ela segurava um terço. Chegando à companhia,
relatei o acontecido para o capitão Magalhães, que deixou
uma lágrima rolar dizendo que havia sido uma grande perda para
o batalhão.
A
Queda na Chuvarada
Nós,
brasileiros, povo religioso, chegamos na Itália com total respeito
pelos lugares santos. O inimigo não tardou a perceber tal fato,
e dele tirou vantagem, passando a tomar posição nas
igrejas e cemitérios, territórios que nossa tropa, habitualmente,
evitava atacar. Devido a esta atitude dos alemães, não
tivemos alternativa e começamos a mandar bala também
naqueles lugares...
Em
Collecchio, aprisionamos mais de 400 homens dentro de uma igreja,
alguns deles italianos, facistas, que, quando foram descobertos pelos
alemães, só pararam de apanhar quando nossa tropa, finalmente,
interferiu.
Já em Santa Maria, encontramos uma igrejinha, uma capela, que
possuía um Cristo na Cruz, em tamanho natural. Esta igrejinha
veio abaixo, após um bombardeio e aquele Cristo ficou lá,
de pé, sozinho, sem cabeça, desmembrado.
Engatilhar
de Metralhadora
Deslocamo-nos
ainda mais para o norte, chegando ao rio Pó à tardinha,
na cidade de Cremona, muito antiga, com ruas muito estreitas e calçamento
muito ruim. Fomos para um quartel abandonado. Voltei para buscar o
resto do material que ficara à margem do rio por ocasião
do desembarque, mas, na noite muito escura (e não se podia
usar farol), perdi-me nas ruelas e parei para conseguir orientação.
Como não se encontrava ninguém na rua, acabei parado
na escuridão, até que ouvi o engatilhar de metralhadora
e uma voz me mandando colocar as mãos na cabeça. Falei
apenas: "Brasiliano". Eram dois partigianos italianos, que
me abraçaram dizendo: "Brasiliano salvatore...".
Enquanto um ficou tomando conta do jeep, o outro conduziu-me ao interior
de um velho casarão mal arrumado. Descemos uma escadinha e
lá estavam uns 15 partigianos reunidos. Todos vieram me abraçar
e beijar, um me presenteou com um canivete "recordo de Cremona"
e outro me deu queijo e um pedaço de salame. O chefe abriu
uma porta que estava fechada a cadeado, onde havia presos fascistas
amarrados. Convidado para assistir ao fuzilamento no dia seguinte,
às 10 horas da manhã, prometi que iria, mas partimos
às seis horas e perdi a execução.
"Brasiliano
Libertatore"
Certo
dia, depois de uma viagem de 15 quilômetros por uma estrada
com mais de um palmo de poeira, chegamos a uma pequena cidade. O povo
voltava do cemitério, vindo do enterro do único médico
do lugar, adorado por todos. Os alemães o prenderam, amarraram
a um poste e, treinando tiro ao alvo, às gargalhadas, deram
mais de 50 tiros no infeliz. Com a nossa aproximação,
fugiram. Os moradores nos receberam chorando e gritando: "Brasiliano
libertatore". Beijaram-nos, limpando a poeira dos nossos rostos
e braços. Mal começamos a nos organizar para o pernoite,
chegaram dois italianos correndo, informando que os alemães
ainda estavam na cidade. Foram organizados vários grupos de
combate de treze homens e saímos vistoriando todas a casas.
O meu grupo, comandado pelo sargento Osvaldo Matuk, um paulista, chegou
a um cemitério, que vistoriamos sem encontrar nada. Demos busca,
também, em uma igreja, sem sucesso. Foi quando apareceu um
italiano meio velho e com muito medo, que nos indicou um abrigo antiaéreo
fechado com portões de grade, deixando só uma abertura
de 60 centímetros na parte alta. Atrás, havia uma pilha
de fardos de feno. Com o italiano dizendo que os alemães estavam
lá dentro, eu falei ao sargento para entrarmos lá, mas
ele disse que não iria de jeito nenhum. Eu insisti com ele,
que nós não poderíamos afinar, para irmos lá
dentro. Permanecendo o impasse, pedi para ele me dar cobertura, que
eu iria entrar. Peguei a lanterna, pois, na parte interna, estava
muito escuro. Subi pela grade e saltei lá dentro, com a lanterna
acima da cabeça e uma granada na outra mão. A distância
do portão até o fundo era de mais ou menos oito metros.
Passeei o foco da lanterna pelo prédio, não tinha nada,
sendo que o abrigo continuava para a esquerda, em forma de "L".
Deitado, mirei o foco da lanterna no local e enxerguei alguns montes
de material, mas pessoas, não havia. Encontrei neste abrigo
várias marmitas com comida ainda quente. Imagino que, no máximo
uns vinte minutos antes, os alemães teriam se retirado dali.
Neste momento, ouvimos alguns tiros pouco abaixo. Nossos companheiros
prenderam um major e onze praças. Quando chegaram com os prisioneiros
no vilarejo, o povo se reuniu com foices, paus e pedras e queriam
a todo custo fazer justiça com as próprias mãos.
Os prisioneiros foram imediatamente levados para o campo de concentração.
Facas
tortas e Orelhas
Havia
na Itália a tropa hindu, um pessoal magro, moreno puri, com
o cabelo muito liso, bigode de ponta fina e turbante. Totalmente desorganizados,
seu acampamento mais parecia um curral cheio de bois, com sujeira
por todos os lados. Não tendo organização militar,
agiam em bandos, da seguinte forma: sem roupas, passavam um repelente
contra mosquitos e, com facas tortas e muito afiadas, aproveitavam
a noite escura caindo neve e atacavam acampamentos ou alojamentos
alemães, sangrando os que podiam e cortando suas orelhas que
eram entregues aos americanos, os quais pagavam um dólar por
orelha. Mas, começaram a cortar as duas e os americanos passaram
a remunerar só pela orelha direita.
Ataque
ao Castelo: 12 de dezembro.
Na
tática de combate daquela época, a artilharia vai disparando
a mais ou menos quatrocentos metros adiante dos homens da frente,
mas, ocorreu um erro dos artilheiros ou do pelotão, que avançou
muito além do combinado. Nesta situação, os homens
ficaram no fogo cruzado de nossa artilharia e das metralhadoras inimigas.
Pelo telefone de campanha, o sargento Assunção comunicou-se
com o capitão, sobre os disparos de oito tanques americanos
que estavam a duzentos metros de distância do comando. Neste
momento, me chamou o capitão e falou:
— Moreira, você vai morrer ou salvar o pelotão
do Assunção.
Ele disse-me que eu iria levar uma mensagem aos tanques, mas que a
praça estava sendo bombardeada sem parar. Eu respondi calmamente
que, salvando o pelotão, é o que importava. Desci correndo,
parei antes da praça que estava sendo bombardeada, e, conforme
instruções recebidas de como proceder nestes casos,
parei para decidir para onde ir, como ir, por onde ir, quando ir...
Pensei e corri sob intenso bombardeio. Como onde cai uma granada de
artilharia não cai outra no mesmo lugar, fui aproveitando cada
cratera, ainda saindo fumaça, até chegar aos americanos
que estavam morrendo de rir do meu aperto. Entreguei o recado e fiquei
perto dos tanques até dar uma trégua, quando voltei
correndo, sujo de barro, mas satisfeito, pelo cumprimento da missão.
Apresentei-me ao capitão e ele agradeceu.
Minutos depois, outro telefonema dizia que a situação
continuava a mesma. Os americanos não entenderam o inglês
do capitão. Foi, então, redigida outra mensagem. O capitão
entregou-a a mim, comentando que, daquela vez eu não escaparia.
Eu respondi que qualquer coisa estava boa. Refiz o percurso e nada
me aconteceu. A artilharia alemã não disparou. Por essa
e por outras, o capitão recomendou-me ao Alto Comando para
receber a condecoração da Cruz de Combate 1ª Classe.
Cabeças
Misturadas
Depois
do ataque ao monte Castelo, voltamos para um lugar chamado Sila, onde
ficamos alguns dias, pois, perdemos gente e material e precisávamos
recompor a tropa. Em um destes dias, o tenente Garcia me pediu para
levá-lo a Porreta Terme, para tomar um banho. Eu disse a ele
que tinha ordem para estar de volta às 16:00 h, pois o capitão
precisaria de mim. Assim combinados, lá fomos nós, mais
ou menos oito quilômetros de estrada.
Quando faltavam 10 minutos para as 16:00 h, vendo que o tenente continuava
a bater papo, eu pedi licença e disse a ele que tinha de estar
de volta às 16:00 h e que faltavam dez minutos. O tenente,
com uma cara muito ruim, entrou no jeep juntamente com um sargento.
Na estrada, de dedo em riste, disse para mim que era meu superior,
que era quem mandava, berrando comigo. Neste momento, parei o jeep,
apanhando uma granada de mão. Enfiando o dedo no grampo de
segurança, encostei a granada entre as nossas cabeças
e disse que, se ele falasse mais alguma coisa, nossas cabeças
iam se misturar. Que ele tinha prendido e mandado de volta para o
Brasil o Antônio Nemízio, mas ele era paulista e, eu,
mineiro, e que eu o matava.
Ao chegarmos, fui procurar o datilógrafo da companhia e lhe
pedi que, se o tenente Garcia desse parte de mim, me informasse, que
eu resolveria. Mas, ele ficou caladinho e nós dois com a cara
torcida um para o outro.
Saudade
de Dirigir
Eu
saí a serviço e levei comigo o cabo Clodoaldo, pernambucano,
bom amigo. Já na estrada, no meio do mato, disse-me que estava
com saudade de dirigir, e deixei que tomasse a direção
do jeep.
Mal começamos a rodar e o carro capotou. Ficamos, os dois,
espremidos lá embaixo, até que alguns companheiros passaram
e levantaram o veículo.
O pára-brisa, que era de encaixe e andava ensacado com uma
lona, para não dar reflexo, quebrou-se todo e lá mesmo,
o joguei fora. Rodei com o jeep, por um bom tempo, sem pára-brisa,
porém, certo dia, já em Montese e de noite, chegou ao
acampamento um carro igual ao meu, transportando dois oficiais de
ligação entre o exército brasileiro e o americano.
Eu vim olhando, olhando e, rápido, peguei o pára-brisa
deles e encaixei no meu carro. Não demorou muito, os oficiais
voltaram e, sem darem pela falta do equipamento, partiram.
Salada
de Frutas
Em
Montese, ficamos na reserva, enquanto outra companhia atacava porque,
quando terminou o combate anterior, tínhamos perdido vários
companheiros. Após descansar, continuamos para a frente. Quando
chegamos em Montese, lá pelas 17 horas, um padioleiro me disse
que estavam com um tenente de minha companhia ferido no jeep-ambulância
e fui verificar quem era. Encontrei o tenente Robson, com um corte
atravessado nas nádegas até o osso. Eu perguntei se
estava doendo muito e ele me respondeu que não, mas que estava
morrendo de fome, pois estava só com o café da manhã.
Caminhei até meu veículo e peguei uma lata de salada
de frutas de um quilo, de ótima qualidade. Abri com o sabre
e apanhei uma colher. Ele se encontrava amarrado à padiola
de barriga para baixo, então tive de ir colocando a salada
na boca dele. Comeu tudo e me disse:
— Obrigado Moreira, agora eu estou bom.
Plantação
de Feijão
Pela
manhã, o capitão Magalhães e eu fomos nos juntar
à companhia, em Montese. Ainda por serem recolhidos, encontravam-se
vários cadáveres, já em avançado estado
de decomposição. Pouco adiante de Montese, em uma estradinha
de terra, parei, e disse ao capitão que parecia que haviam
plantado feijão naquele lugar.
— Não é isto não, é mina! —
falou o capitão.
Eu ponderei ao capitão para ficar ali, que eu ia passar sozinho.
— Toca! — ele respondeu.
Insisti para que me deixasse passar sozinho. Se eu morresse, morria
um cabo e não faria falta, pois o RI tinha muitos, mas, oficiais,
poucos. Ele respondeu para eu tocar, que era ordem dele, que tínhamos
vindo juntos até ali e, se morrêssemos, morreríamos
juntos. Pensei comigo mesmo: "Aqui é na sorte". Arranquei
e não explodiu nenhuma mina, mas, tendo rodado uns oitenta
metros, ouvimos uma explosão naquele ponto. Paramos, e voltamos
a pé para verificar o que tinha acontecido. Encontramos um
jeep que trazia três soldados récem-recuperados do hospital,
porém, agora, todos em pedaços. O cabo-motorista tinha
sido atirado a mais ou menos seis metros de distância. Estava
inerte e com muito sangue no rosto. Olhamos um para o outro e comentamos:
— Vamos embora, que estão todos mortos.
Porém, quando acabou a guerra, soube que o motorista não
havia falecido. Tinha desmaiado, ficado semimorto. Deu uma declaração
ao jornal agradecendo a uma santa o milagre de estar vivo. Apenas,
ficou completamente surdo.
Santos
de Capacete
Continuando
a nossa marcha para a frente, chegamos ao norte da Itália.
Fomos pernoitar em uma igreja grande e muito bonita. Naquele tempo,
as igrejas tinham em seu interior imagens do tamanho de um homem.
Achando engraçado, fui ver todos os santos. Tinham capacetes
de aço, e fuzil ou metralhadora pendurados no pescoço.
Na sacristia, três muares amarrados.
Chegamos a uma pequena cidade, denominada São Paulo D'Enza,
quando deram a falsa notícia do término da guerra. Os
Italianos, festejando o "finito de la guerra", apareceram
com vários garrafões de vinho. Os soldados disparavam
suas armas para o ar, bebendo muito vinho.
Ouvi o capitão Magalhães comentar, em meio à
festividade, que a Inteligência tinha informado que havia um
grupo de uns 200 alemães com intenção de se renderem.
Foi quando chegaram os Generais Mascarenhas de Moraes e Zenóbio
da Costa, com cinco caminhões vazios, convocando o capitão
comandante, urgentíssimo. O general Mascarenhas comunicou-lhe
que teria 5 minutos para embarcar a companhia, pronta para o combate.
Durante a viagem, os praças, que ainda estavam de ressaca,
foram todos cantando e batucando.
Generais na frente de batalha? Só pude concluir que os mesmos
haviam decidido colher os "louros" da captura. Chegamos
a Collechio à tardinha. Cidade pequena, mas boa, a companhia
entrou na linha de combate. Porém, ao invés de rendição,
o que os generais encontraram foi o fogo do inimigo.
Eu me encontrava junto de um barracão, com meu fuzil encostado
na parede quando apareceu o general Mascarenhas e me deu uma ordem
direta, para que ficasse com a minha arma na mão. A noite chegou
junto com uma chuva fria e um tiroteio cada vez maior.
Vi o General Zenóbio pegando um padre pelo peito e, apontando
para a igreja, dizer-lhe que, se tivesse alemão lá dentro,
ele o arrebentava.
— Cosa dire! — respondia o padre, não entendendo
nada.
Minutos depois, ouviu-se uma rajada de metralhadora inimiga contra
alguns galhos de árvore, perto do General Zenóbio.
Apavorado, ele entrou embaixo de um galinheiro suspenso, gritando
para um sargento pegar sua metralhadora.
Quando pôde
sair, pegou o jeep e foi embora para a retaguarda. Deve ter morrido
de medo.
Gatilho
Agarrado
Em
Collecchio, um grupo de combate com 13 homens, comandados pelo sargento
Judson — cara muito engraçado — aproximou-se rastejando
de um castelo muito arborizado. Na escuridão, o Judson chegou
ao lado de um enorme alemão que estava de sentinela e disparou
sua metralhadora a, no máximo, meio metro de distância.
O alemão caiu e o sargento, abaixando-se, disparou ainda mais
uns 30 tiros em sua cabeça. Quando o dia clareou, fomos ver
o tal alemão com o crânio esfacelado, e a turma ficou
gozando o sargento por dar-lhe tantos tiros. Respondeu-nos que o gatilho
tinha agarrado e não poderia perder os tiros, por isso, aproveitou
todos.
Munição
no Escuro
Ainda
em Collechio, à noite, o soldado Baianinho, a mando do tenente
comandante do pelotão, foi informar ao comandante da companhia
que a munição estava prestes a terminar. No trajeto,
Baianinho foi atingido por uma granada de morteiro, e teve metade
dos dentes e o lábio superior arrancados. Com a boca cheia
de sangue e sem um pedaço, não pôde falar. Pegou
um pedaço de papelão, e com um pauzinho molhado no sangue,
escreveu a mensagem.
Neste momento, o capitão me chamou e disse que eu voltasse
a São Paulo D'Enza, mais ou menos a 15 quilômetros, para
buscar munição. Arranquei imediatamente, sem poder usar
os faróis, totalmente no escuro e sozinho.
Lá chegando, encontrei alguns soldados que não puderam
ir para a linha de frente. Chamando cinco deles, fomos arrombando
portas, para encontrar o depósito. Ao localizá-lo, carregamos
uma camioneta com 1500 quilos de munição.
Quando retornei, o capitão me felicitou e distribuiu a carga
aos pelotões. Foi como jogar gasolina no fogo. A luta durou
a noite toda. Pela manhã, a companhia tinha feito 405 prisioneiros,
que foram colocados dentro de uma igreja.
O capitão pediu reforço ao comando superior, que mandou
alguns tanques americanos, comandados por um filho de portugueses
e mais o 6º RI Os combates continuaram por mais um dia e uma
noite, até que os alemães mandaram dois oficiais superiores
com a missão de negociar a rendição. Eles estavam
com a 148ª Divisão de Infantaria e meia Divisão
italiana.
A rendição foi aceita incondicionalmente, sendo suspenso
o fogo. Começou em seguida a apresentação dos
prisioneiros, mais de 14.000.
De lá, fomos para o norte, para interceptar uma companhia de
blindados que fugia para a fronteira da França, mas, com a
nossa presença, os blindados mudaram de rumo e nada aconteceu.
Cartas
do Front
O
Expedicionário João Batista Moreira, filho do Sr. Leontino
Moreira e de D. Maria do Carmo Moreira, conta atualmente que com 22
anos de idade, tendo sido convocado em 1943, ocupando na FEB o posto
de cabo. Residia nesta capital, à Rua Cambuquira, 584, sendo
funcionário da Casa Maior. Do front italiano, o jovem combatente
mineiro já dirigiu várias cartas a pessoas de sua família.
A que abaixo transcrevemos foi endereçada ao seu progenitor.
Está assim redigida:
"Caríssimo
pai. Peço a sua benção. Que, ao receber
esta, o senhor esteja em perfeito gozo de saúde, como
todos aí de casa, é o que desejo, sinceramente.
Eu, graças a Deus, como sempre, estou com muita saúde
e cheio de disposição para enfrentar a situação
presente. Aqui, tudo vai bem. A única coisa com que não
me acostumo é viver longe da casa paterna; mas, tenho
fé em Deus, será breve o nosso regresso, levando
a vitória para o nosso Brasil.
Pai, como filho, peço que, se por acaso receber a notícia
de que eu morri, e se o Brasil tiver de mandar mais tropas,
que o senhor mande mais um de seus filhos, para esmagar o inimigo
de nossa terra, aqui, na Europa. Temos de vencer definitivamente
os nazistas, a fim de evitar para sempre que eles cometam novos
atentados contra as outras nações.
O Sr. não pode calcular o que é um país
invadido! Eu tenho visto as conseqüências dessa triste
realidade. É preferível, mil vezes, morrermos
todos, a permitir que o inimigo pise em território brasileiro.
Não se preocupe comigo, pois saberei defender-me. Sem
mais, envio um forte abraço para o meu querido pai e
outros tantos aí de casa.
Do filho e amigo,
(a) João Batista Moreira.
P.S.
O Gastão e o Chiquito estão bons e enviam lembranças.
Não estou precisando de nada". |
Na
Luta pela Liberdade
 |
A
chegada, aqui, no Brasil, foi emocionante, estávamos ansiosos
para ver a nossa terra. No Rio de Janeiro, o povo todo na rua, foi
uma recepção enorme. Nós entramos em forma para
pegar o transporte para a Vila Militar, mas a multidão não
deixou a tropa andar, todos procurando nos abraçar, beijar,
puxar conversa. A gente não deu muita pelota, não.
Já na Vila Militar, enquanto se aguardava a baixa, o quartel
ficava sempre lotado de civis, alguns procurando amigos e parentes,
outros, amigos do alheio. Tinha muito, mas muito ladrão por
ali, e andaram roubando de alguns o dinheirinho que recebemos, que
tinha ficado guardado aqui, para nós. Como eu não tinha
nenhum lugar para esconder os meus 14 contos, peguei o dinheiro e
guardei dentro de uma botina muito velha, que joguei debaixo da cama.
No meu dinheiro, não mexeram. Afinal, quem iria procurar dinheiro
dentro de uma botina velha?
No dia em que fomos desmobilizados, colocaram quem queria dar baixa
e ir para casa de um lado e os que queriam prosseguir com a vida militar
do outro. Eu entrei na fila da baixa e, nesse momento, fui chamado
pelo capitão Magalhães, que me falou:
— Moreira, você vai dar baixa? Você não gosta
do Exército?
— Capitão, eu gosto, procurei fazer o melhor possível.
Mas, lembro-me que, na véspera do embarque, aqui mesmo, o senhor
disse que nós íamos nos bater pela liberdade, que era
vencer ou morrer. Bem, nós já nos batemos, já
vencemos e não morremos, então, eu quero a liberdade.
E, não se disse mais nada.
Fim
da Linha
Quando
cheguei na Rua Cambuquira, no Carlos Prates, de táxi, havia
mais de duzentas pessoas a minha espera, gritando meu nome, batendo
palmas, alguns perguntando uma coisa ou outra. Entre muitos amigos,
lá estava meu tio Totonho, tipo alegre e interessante. Muito
gordo, chegou, com toda a família, soltando bombas, todos gritando:
— Quero ver o defunto vivo... quero ver o defunto vivo.
Recordo-me, também, da presença de frei Zacarias, holandês,
vigário da igreja do bairro, que chegou para mim e falou:
— Eu querria perguntarr um coisa prá zinhor... A soldado,
na horra H do combate, lembra da religion?
— Frei, coisa nenhuma, soldado solta é palavrão
atrás de palavrão e corre atrás do inimigo, para
ficar livre dele logo... Quer é mandar bala nele, para não
morrer. Assim é na guerra.
Nesse dia, ali terminou minha jornada.
11º
Regimento de Infantaria
Relação
das alterações do praça abaixo declarado durante
o tempo em que serviu na 5ª Cia. deste Corpo.
Graduação: Cabo - Nº: 3063 - Nome: João
Batista Moreira
Alterações:
Ano de 1944:
JULHO: A 20, suas alterações passaram
a ser escrituradas pela Ajudância do Pessoal.
AGOSTO: A 3, deslocou-se com o R.I. por ordem da
1ª D.I.E. do Acantonamento para a região de "Recreio
dos Bandeirantes", onde acampou às 16 h. A 5, regressou
do acampamento.
SETEMBRO: A 21, foi público ter-se deslocado
a 20 com o R.I. de ordem superior, do Acantonamento na Vila Militar
(Morro do Capistrano), para bordo do Navio Norte-Americano A.P.116.
OUTUBRO: A 23, foi público ter acompanhado
o R.I. que fazendo parte do Grupamento Gen. Falconière, deixou
o Porto do Rio de Janeiro, no dia 22 de Setembro do corrente ano,
a bordo do Transporte Americano "Gen. M.C. Meigs" com destino
ao Teatro de Operações na Itália, onde já
se encontrava o 1º Escalão da F.E.B., tendo chegado ao
Porto de Nápoles, às 7:30 h do dia 6 do corrente. Foi
feito o atracamento do referido Transporte às 10:00 h do dito
dia, tendo o R.I. permanecido a bordo do mesmo até às
14:00 h do dia 9, quando se transportou para os barcos "L.C.I."
da Marinha de Guerra Americana, que o conduziria ao Porto de Livorno.
O movimento para Livorno foi iniciado às 8:10 h do dia 10,
tendo o comboio atingido aquele Porto às 14:00 h do dia 11,
onde atracou às 19:00 h. A tropa permaneceu a bordo dos referidos
barcos até às 10:00 h do dia 12, quando foi conduzida
para o local "Staging Area" (Vila Rossore) a oeste da cidade
de Pisa, tendo acampado no mesmo dia e onde foi dissolvido o Grupamento
Gen. Falconière. Passou a integrar o Grupamento Gen. Cordeiro.
A 27, foi público fazer parte do V Exército Norte-Americano,
desde a chegada a Livorno, na Itália, e ficar sob o controle
de operações de IV Corpo.
NOVEMBRO: A 3, foi público ter sido extinto
o Grupamento Gen. Cordeiro, constituído pelos elementos do
2o Escalão da 1a D.I.E., e em conseqüência o 11º
R.I. passou a fazer parte da I.D.E./1 comandada pelo Exmo Sr. Gen.
de Bda. Euclides Zenóbio da Costa. A 22, foi público
ter-se deslocado a 20 para o estacionamento no povoado de Filetole.
A 29, foi público ter sido arquivadas na S.G.M.G., sob o no
11478. A 30, foi público ter-se deslocado ontem, às
7:30 h, para a região de Lustrola.
DEZEMBRO: Sem alteração.
Ano de 1945:
JANEIRO: A 3, foi público ter o R.I. entrado
em linha a 1º-XII-944, no setor oeste, sendo considerado em combate.
A 27, foi elogiado individualmente pelo Cmt. da Cia., nos seguintes
termos: "Na sua função, cumpriu integralmente suas
missões com boa vontade e desprendimento, vencendo todas as
dificuldades que lhe apresentou o rigor do frio e o inimigo, sempre
vigilante".
FEVEREIRO: Sem alteração.
MARÇO: A 11, foi público ter-se deslocado
a 4 para a região de Riola.
ABRIL: A 4, foi elogiado individualmente pelo Cmte.
da Cia. nos seguintes termos: "Motorista trabalhador incansável,
em todas as zonas de ação desta Sub-Unidade, não
tem encontrado dificuldades nas estradas, que não tenha sabido
vencer, levando a bom termo em estradas quase sempre batidas pelo
inimigo, víveres e munição".
A 14, foi público ter-se deslocado a 11/3 de Riola, entrando
em linha no sub-setor N. da 1a D.I.E.
MAIO: A 13, foi elogiado individualmente pelo Cmt.
da Cia. nos seguintes termos: "Cabo motorista tem
desempenhado suas funções com muito acerto e eficiência.
Zeloso com sua viatura, possuidor de perfeito conhecimento de sua
especialidade, destemido e audaz, tem facilitado muito o abastecimento
de sua Sub-Unidade. Nunca hesitou em trafegar por estradas batidas
pelo inimigo, desde que fosse necessário. Noite e dia sempre
pronto a cumprir qualquer ordem recebida, o Cabo Moreira tornou-se
digno de meus louvores pelas suas qualidades, iniciativa, coragem
e nítida compreensão de seus deveres".
A 13, foi público a seguinte ordem do dia 2 do corrente do
Exmo. Sr. H. R. Alexander, Field Marechal, supremo Cmt. Aliado no
Teatro de Operações no Mediterrâneo: "Soldados,
Marinheiros e Aviadores das forças aliadas: Depois de quase
dois anos de uma luta contínua e dura que começou na
Sicília, no verão de 1943, eis-nos hoje como vencedores
da campanha da Itália. Conquistastes uma vitória que
terminou com a completa desintegração das forças
armadas alemãs no Mediterrâneo. Limpando a Itália
do último agressor nazista, libertastes um país de mais
de 40 milhões de habitantes. Hoje, os remanescentes de um orgulhoso
Exército, cerca de um milhão de homens completamente
armados e equipados, depuseram suas armas a vós. Podeis estar
orgulhosos desta campanha vitoriosa que viverá na História
como um dos maiores sucessos já alcançados. Por este
magnífico triunfo, todos os louvores são poucos para
vós, soldados, marinheiros, aviadores e operários das
forças unidas na Itália. Minha gratidão e admiração
não tem limites e é apenas igualada pelo orgulho que
sinto em ser o vosso Cmt. em Chefe" (Elogio Coletivo).
A 15, foi elogiado individualmente pelo Cmt. da Cia. nos seguintes
termos: "Louvo-o pela maneira correta com que agiu no combate
em Collecchio, concorrendo para o bom êxito da Cia.".
A 19, foi público a seguinte mensagem de S. M. George VI ao
Sr. Marechal H. R. Alexander: "Para vós e todos os que
estão sob vosso Cmdo. envio minhas sinceras congratulações
pela esmagadora vitória com que conseguistes finalizar tão
triunfantemente a longa e árdua campanha da Itália"
(Elogio Coletivo).
JUNHO: A 13 e a 26, vide elogios ficha anexa.
A 28, foi público ter sido proposto pelo Cmdo. do R.I. para
ser condecorado com a medalha "CRUZ DE COMBATE DE
1ª CLASSE".
A 29, foi público ter deslocado de Alessandria em caminhões
e via férrea, via Bologna, para Francolise, onde acampou a
21.
A 30, foi público ter recebido o título de membro honorário
do IV Corpo. Na mesma data, vide elogio ficha anexa. Ainda a 30, foi
elogiado individualmente pelo Cmt. da Cia. nos seguintes termos: "Foi
notável a ação deste auxiliar, que foi incansável,
correspondendo a todos os esforços que dele se exigiu como
motorista de suas viaturas da Cia. de Fuzileiros. Interessado na manutenção
de seu carro, sempre se apresentou em condições quando
pedido, enfrentando as intempéries e os bombardeios inimigos
para atender ao suprimento da Cia. Louvo-o e agradeço pelas
suas qualidades e pelo muito que fez por esta Sub-Unidade".
JULHO: A 2, foi público ter sido desligado
do V Exército Norte-Americano e do IV Corpo em 19-VI-945.
AGOSTO: A 16, foi tornado sem efeito o seu desligamento
do V Exército Norte-Americano...
Este relato foi o que consegui recordar depois de mais de sessenta
e quatro anos do acontecido. Aqui, existem várias omissões,
mas, aumento ou mentira, não. Acredite se quiser, pois sessenta
e quatro anos são suficientes para apagar a memória
humana.
"Avante
Soldados, Marchemos...
A Vida Não Vale Sem Glória...
Se For Preciso Morrer, Morreremos,
Pelo Brasil, Pela Vitória..."
Cabo
João Batista Moreira
5ª Cia. - 11º RI - Força Expedicionária Brasileira
na Itália.
ACERVO FOTOGRÁFICO
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Moreira |
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Moreira sentado a direita |
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Moreira ao centro |
Cb Moreira
a direita |
Cb Moreira
a esquerda |
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d |
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| Cb
Moreira avançando o Rancho - 2º da esq. p/ dir.
na parte inferior |
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| Cb
Moreira ao volante de seu Jeep |
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| Em
Alessandria - Itália |
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| Em
Alessandria - Itália |
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| Em
Alessandria - Itália |
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| Em
Alessandria - Itália |
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| OH!
... Vidão |
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| Em
Alessandria - Itália |
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| No
Navio |
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| Cb
Moreira ao volante de seu Jeep |
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| Em
algum lugar da Itália |
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| Em
algum lugar da Itália |
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| Em
Alessandria - Itália |
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FONTE:
Matéria e fotografias
gentilmente enviadas pelo
jovem
Pedro Lages,
neto do Veterano Cb João Batista Moreira.