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Sr.
Giancarlo Macciantelli |
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Na primavera de 1945 eu tinha mais ou menos 14 anos. Na minha casa de verão na Rua Monsenhor Luigi Tanari, 08, em Gaggio Montano, perto da igreja, que geralmente era usada também antes da guerra como residência estiva da minha família, conheci, em fevereiro/março de 1945 o sargento Querino Bianco, pertencia ao 6º RI, São Paulo, que tinha a ordem de abrir, controlar, ler e censurar (apagando com um enorme lápis preto, progenitor do pincel) todas as frases ou palavras de relevância estratégica militar na correspondência dos militares brasileiros da F.E.B., que eram dirigidas aos próprios familiares no Brasil. No
portão externo em madeira da minha casa tinha um aviso bem grande
escrito em Inglês e Português: Lembro que no jornal “O Cruzeiro do Sul”, numa coluna da largura de metade da pagina logo embaixo do titulo do jornal, apareceu uma foto do sargento com um artigo referente ao fato que o mesmo sargento, além de cumprir o próprio dever, tinha aprendido a descascar batatas na cozinha da minha mãe; acho que aquele jornal tivesse uma data que podia ser entre a metade de fevereiro de 1945 e fim de março de 1945. nunca consegui procurar uma copia de tal jornal. Alguns meses antes, ou seja, na segunda quinzena de outubro de1944 e até o fim de janeiro de 1945, em Granaglione, na casa dos meus tios na qual nos aviamos abrigados – fugindo de Gaggio Montano só com a roupa que estávamos usando – após o excidio cumprido pelos soldados alemães, contra a população civil na área de Ronchidos de 28 setembro a 4 de outubro de 1944, conheci os primeiros soldados brasileiros, ente os quais João Alfredo de Oliveira (Rua Bona Punda nº. 294) que me contou ser filho do dono da Metalúrgica de Oliveira – acho que em São Paulo, e o soldado Waldemar Soares (Rua Antônio Januzzi n.º 07 Copacabana, Rio de Janeiro) estes militares pertenciam ao “2º Pelotão de Cavalaria Blindada, Esquadrão de Reconhecimento” chefiado pelo então Tenente Plínio Pitaluga. Obviamente alem de muitos soldados, alguns dos quais me deixavam cartão de visitas com escrito o prorpio nome e endereço no Brasil. Estes cartões foram guardados por muitos anos por mim, porem hoje estão quase totalmente extraviados. E nato, estamos falando do inverno de 1944/45, não me dava conta das motivações que levavam os soldados brasileiros a me entregar aqueles pedaços de papel, me parecia gentileza, quase um puxar troca de correspondência quando acabasse a guerra. Somente anos depois, crescendo, entendi que naqueles papeis estavam escritos os endereços residenciais das famílias deles, nas quais deveria enviar uma carta em caso que os soldados não tivessem voltado após as freqüentes ações de assalto às linhas alemãs. De fato estávamos muito perto da linha de combate. A respeito da relação com os brasileiros, posso afirmar em toda sinceridade, que pelo lado dos militares (chamados PRACINHAS) sempre foi marcado com grande senso de humanidade para com a população civil e de forma maior para conosco rapazes. Uma certa semelhança do idioma favoreceu os contatos, mesmo que no inicio todos estávamos um tanto receosos devido à propaganda fascista que traçava as tropas negras como de selvagem. Lembro quando chegaram a Granaglione, no pleno do inverno, com fardas verde-oliva e inadequada ao rigor do nosso clima, ainda por cima alguns deles vinham do interior do Brasil e nunca tinham visto a neve. Sofriam muito com aquele frio. Os acolhemos nas nossas pobres casas, deixávamos que sentassem mais perto da fogueira, tentávamos criar um ambiente familiar onde pudessem falar dos familiares e da Pátria, porém a SAUDADE era muito grande. Davam-nos de presente alguns chocolate e biscoitos, e nos percebíamos que também o RANCHO fornecido pelos USA (ração K) não lhe agradava muito. Só depois de alguns tempos tiveram a própria comida nacional. Lembro que na hora do RANCHO em Granaglione, estava entre os soldados que comiam de pé ao ar livre, com uma panela na mão recolhendo as sobras da comida que os soldados generosamente deixavam cair nela. Com aquelas sobras, pelo menos uma vez por dia, jantava minha família que era de quatro pessoas. Alguns sargentos pretendiam – em troca – a conjugação de alguns verbos italianos. Assim ao ar livre e no frio entre bocados os suboficiais aprendiam as dificuldades dos verbos irregulares italianos. A população civil aguardava frente às cozinhas de campo militar de competir para aquilo que ficava no fundo das grandes caçarolas. Uma tarde, quase ao escurecer, em Granaglione, enquanto estava perto de um soldado brasileiro sentado sobre um cumulo de neve na beira da estrada, cada um de nos inserindo balas nos carregadores para o fuzil metralhador, com as mãos vermelha pelo frio, tirando também das fitas de 250 tiros os projetis com a ponta pintada em vermelho (traçantes) para trocá-las por projeteis com a ponta pintada de preto ou azul, em preparação de um ataque noturno, passou na nossa frente um grupo de oficiais, ente os quais o Gen. J. B. Mascarenhas de Moraes. O General, com pouco mais de um metro e sessenta o talvez menos – de óculos redondos – parou na minha frente, olhou para mim e falou algumas coisas com os outros oficiais depois foi embora. O soldado que estava comigo não se mexeu não levantou, não fez continência nenhuma, eu fui o único que ficou maravilhado, acostumado a ver a rígida disciplina alemã. Entre os oficiais que estavam juntos reconheci um Tenente do Regno D’Italia, Umberto II filho do Rei Vitorio Emanuele III. Durante o dia, com uma lata metálica de 25 litros, ia num chafariz perto pegar água para os serviços na cozinha brasileira. Eu também dava minha pequena contribuição. Não apenas tivemos a oportunidade, aproveitamos para uma noite, voltar de Granaglione para Gaggio Montano iludindo o controle da Policia Militar Norte Americana, cujo posto era na ponte de Silla. Eu e minha mãe estávamos deitados no caixão traseiro de um caminhão brasileiro, embaixo de uma montanha de cobertores de lã. Os policiais não perceberam a nossa presencia e foi assim que conseguimos furar o controle. Era o fim de janeiro de 1945. Em Gaggio Montano encontramos na nossa casa os soldados da F.E.B. Eu dava indicações para os observadores da artilharia das movimentações das tropas alemãs na área de Bombiana e Case Guanella. E os alemães comiam tiros de canhão. Um dia minha mãe quis preparar para os soldados que se encontravam na nossa casa um prato típico de Bolonha: “os Talharins”. Foi difícil procurar a farinha de trigo e ovos. Não conseguimos mesmo nada daquilo. Então minha mãe deu um jeito de fazer aquele prato com uma farinha branquíssima (talvez farinha de arroz, ou milho ou quem sabe) gema de ovo em pó. Para o molho não tínhamos nada mais que manteiga (e foi aquele negocio entre “burro”, manteiga e asno). Afinal nada daquele molho especial de carne. Meus talharins quentes foram temperados com manteiga, e um soldado que sentava do meu lado quis caprichar colocando em cima vinagre, estragando tudo, porem a fome era muita e rapidamente os pratos ficaram vazios. Antes da chegada das tropas brasileiras a nossa situação alimentar era muito precária. Escapamos da cidade de Bolonha, pois morávamos perto da estação ferroviária, alvo de vários bombardeios aéreo. Em Granaglione o único alimento era farinha de castanhas secadas e moídas ou a mesma castanha seca, até que tivemos isto, após foi fome. A lembrança da guerra deixou comigo um nojo para com as armas. Cada vez que volto em Gaggio Montano no verão e enxergo a crista de La Serra de Ronchidos, ou o topo do Monte Castelo emblema de heroísmo das Companhias comandadas pelos Capitães Everaldo José da Silva e Paulo de Carvalho respectivamente do 1º Btl do Major Olívio Gondim de Uzeda e 3º Btl do Maj. Franklin Rodrigues de Moraes do 1º RI não posso esquecer o sacrifício de centenas de vidas humanas, civis e militares. Conheço as motivações que levaram o Brasil a participar da guerra contra o nazi-fascismo pois tenho muitas das publicações militares brasileiras. Também estou ciente da inicial oposição de parte da população civil brasileira de origem alemã e das pressões políticas ao Governo do Presidente Getulio Vargas para não aceitar o convite dos USA de colaborar com os aliados. Lembro de uma vez que começou a circular entre os PRACINHAS um conto de que um brasileiro (talvez oficial) após se disfarçar na neve com um lençol branco conseguiu chegar perto de um bunker cravado na encosta de um monte. Pela janela saia a cano de uma metralhadora alemã (chamada LURDINHA pelos brasileiros) disparando em direção dos soldados atrapalhando a progressão deles. Este brasileiro aguardou que os alemães tivessem que substituir o carregador da metralhadora, pegou-os com as mãos protegidas por luvas muito espessa – pelo cano ardente e o puxou fora da janela enquanto com a outra jogava abrigo adentro uma bomba de mão com conseqüências facilmente imagináveis. Outro fato aconteceu perto da minha casa. Um pequeno grupo estava alojado numa casa ali perto. Eram comandados por um oficial alto grande loiro, filho de emigrantes alemães; conhecia-o, pois vinha comer em casa porem agora esqueci o nome. Um dia chegou da vizinha linha de tiro um jipe com reboque dirigido por um soldado. O motorista desceu do jipe e foi se apresentar ao oficial. Da casa saíram dois soldados falando baixo e muito triste. Entendi que aqueles sacos no reboque eram de soldados que até o dia anterior estavam conosco e que pereceram num campo minado. Começaram divagar a abertura dos sacos tirando as roupas e coisas pessoais deles. Os objetos foram recolhidos num pequeno cumulo e catalogados para depois ser enviados ao Brasil para as famílias dos falecidos. Junto a meu amigo, olhava aquele triste fato, observando as fotos que saiam das carteiras e outros pertences pessoais. Tentávamos reconhecer quem podia ser os falecidos. Estava ajoelhado no chão. De repente foi tirada de um saco uma farda toda embrulhada com vários buracos. Ao desembrulhar a blusa caiu dela uma bomba de mão (granada). Talvez os estilhaços tivessem tirado a primeira segura (o anel de segurança). A bomba caiu no chão e começou a rolar na frente dos nossos pés, e enquanto isto pude ver a segunda que pulava. Dentro de alguns instantes iria estourar. Meu amigo e eu nos abrigamos rapidamente atras de uma parede ali perto. Meu amigo estava enovelado no chão com as mãos nos ouvidos. A minha curiosidade foi maior que o medo e pus cabeça afora para ver o que acontecia, e vi uma cena que nunca vou esquecer: enquanto os três soldados se jogavam no chão gritando A MINA o oficial (um tenente) foi pegar a bomba e a jogou longe no ar, depois ele também se jogou no chão. A bomba explodiu no ar com um relâmpago e um barulho enorme. Os estilhaços voaram para todos os lados. Ninguém se machucou. Os três soldados levantaram com os rostos brancos como mortos e, coisa que nunca vi fazer, os soldados brasileiros, se colocaram na posição de sentido na frente do tenente que nos havia salvado a vida. O tenente também fez continência e depois voltou a cumprir o penoso papel para informar as famílias daqueles soldados tombados pela libertação do meu País. Nesta altura a minha tensão nervosa desmaiou. Periodicamente, cerca a cada três anos os ex-combatentes da F.E.B. voltam nestes lugares do nosso Apenino com os próprios familiares, numa manifestação de amor para com a população civil desta área que os acolheu com tanto calor humano.
FONTE: TRADUÇÃO: Página Principal - www.anvfeb.com.br
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