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Natural
de Palma - MG
UNIDADE:
SERVIÇO DE INTENDÊNCIA – Pelotão de Sepultamento
POSTO DE GRADUAÇÃO:
3º Sargento. Ao retornar ao Brasil reintegrou-se às fileiras
do Exército,
permanecendo nela até ser transferido para a reserva no posto
de Capitão.
CONDECORAÇÕES:
Medalhas de Campanha
Medalha de Guerra
Militar de Bronze
Militar de Prata
Entrevistado por um Membro da Diretoria de Anvfeb /JF
UM ACONTECIMENTO QUE FICOU GRAVADO EM SUA MEMÓRIA
Era
princípio do ano de 1945, Em campanha, no campo de batalha da
Itália, como componente do Pelotão de Sepultamento da
Força Expedicionária Brasileira, vivia como os demais
elementos do pelotão, um problema sério que ocasionou
uma determinação de providências do Comandante da
pequena Unidade, no sentido de que, com a colaboração
de todos, déssemos fim aos constantes desaparecimentos de tábuas
que se destinavam à confecção de cruzes das tumbas
dos heróis.
Sabíamos que, se por ventura encontrássemos o autor ou
autores dos furtos, teríamos que agir com a maior cautela e energia,
uma vez que os ladrões, em época de guerra, sempre roubam
dispostos a defenderem os seus pérfidos intentos até com
a própria vida e, conseqüentemente, o fazem bem armados.
Como estávamos acantonados por meses num determinado lugar, tínhamos
feito relação de amizade com famílias que residiam
nas proximidades em cujas casas, fazíamos serões que às
vezes se prolongavam por várias horas.
Retornando de um desses serões, já bem próximo
da meia noite, com o céu encoberto, pouca visibilidade, lembrei-me
que seria interessante unir o útil ao agradável. Passaria,
pois, pelo cemitério e faria uma ligeira ronda. Tomei a estrada
das candeias, na qual teria que forçosamente passar pelo cemitério
civil e a Igreja de São Roque, que eram vizinhos do Cemitério
brasileiro de Pistóia.
O vento soprava forte. Era um vento quente, prenúncio de um nevoeiro
ainda àquela noite.
Tão logo cheguei da Igreja e do cemitério, comecei a ouvir
nitidamente um barulho características do desempilhar de tábuas.
Parei para certificar-me da exatidão do que estava ocorrendo.
O barulho continuava com espaço matemático. Não
tive dúvidas...Eram os ladrões!
Comecei a tramar como deveria proceder para surpreendê-los e subjugá-los,
diminuindo assim, as possibilidades de um insucesso.
Empunhei meu revólver, abri vagarosamente o portão do
cemitério e comecei a progredir quase de rastro por detrás
das sepulturas.
As
pilhas de tábuas encontravam-se por trás da barraca-necrotério,
Em torno desta havíamos construído uma cerca de lona,
com a finalidade de evitar que olhares curiosos nos perturbassem no
trabalho de identificação dos cadáveres.
Tão logo me aproximei do lugar onde se encontravam os supostos
ladrões, depois de um exaustivo exercício de rastejamento,
verifiquei que não se tratava do que eu havia suposto, e sim
do seguinte:
- a cerca de lona que não estava bem estendida, com o impulso
que recebia do vento, chocava-se contra a pilha de tábuas, ocasionando
o barulho que me fez suspeitar de que se tratasse de roubo.
Levantei-me e agradeci a Deus a maneira como terminou minha infrutífera
caçada. Olhei meu relógio para ver as horas, a fim de
que, no dia seguinte, pudesse relatar o ocorrido ao meu Comandante.
Verifiquei, apavorado, que era exatamente meia noite.
Esta coincidência trouxe-me um medo tal que não senti na
hora do maior perigo.
Dispus-me incontinente afastar-me daquele lugar e, para fazê-lo
teria que passar pela barraca-necrotério.
Apesar da tensão nervosa, ao passar pela barraca entrei, a fim
de verificar se havia chegado algum morto do front, o que felizmente
não havia ocorrido.
Sempre empunhando o revólver, dirigi-me para o portão
do cemitério, o dos fundos, para daí apanhar uma estreita
viela situada entre a cerca mista (arame e cipreste) e uma vala de dreno
do cemitério, onde corria água que foi aproveitada pelos
empregados civis do cemitério para o plantio de agrião.
Mal havia percorrido uns vinte metros, apareceu-me como num golpe de
magia, um enorme cão branco ou algo parecido. Apavorado, apontei
o cano do revólver no dorso do animal e acionei a tecla do gatilho.
O barulho da detonação ecoou no silêncio da noite
e a suposta assombração enveredou-se pela cerca em direção
ao cemitério, depois de soltar um tétrico uivo!
Como os elementos do Pelotão estavam de sobreaviso contra os
ladrões vieram incontinente, todos bem armados. Ciente das ordens
que eles haviam recebido e temeroso de ser confundido com o delinqüente
deitei-me imediatamente na vala e comecei a gritar que não eram
ladrões . Como não tínhamos senha na retaguarda,
blasfemei por várias vezes, uma palavra que identifica em qualquer
parte do mundo um brasileiro... Logo após ter sido sanada a dúvida,
tiraram-me da vala...todo empastado de barro. Pediram-me explicações,
mas, em virtude da hiper-tensão que me ocometia, foram incontinentemente
negadas.
Fomos
para o acantonamento que se situava a um trezentos metros do Campo Santo.
Fiz minha higiene corporal e deitei-me. Durante a vigília resolvi
que ao amanhecer verificaria o destino que havia tomado o “cão”
ou o que fosse, como sejam, marca de sangue, rastros ou mesmo cadáver.
Mal rompeu a aurora, dirigi-me para o cemitério. Ao chegar no
local, verifiquei surpreso que nenhum dos vestígios tinham sido
deixados... Apavorei-me mais ainda. Para mim, só podia ser mesmo
assombração e, em conseqüência, passei a retornar
mais cedo ao acantonamento e a evitar a estrada que passava pelo cemitério.
Usava, então, a estrada que dava acesso, pela frente, a bela
vivenda onde residíamos; entrada de casa senhorial, toda cercada
de árvores frondosas e de plantações de oliveiras.
Com o passar do tempo, minha impressão foi diminuindo, motivo
pelo qual fui alongando a hora de retornar ao acantonamento.
Qual não foi minha surpresa quando, numa noite de lua cheia,
ao retornar bem tarde, usando ainda a estrada de acesso principal da
vila, eis, pomposamente sentado no meio no meio da estrada, namorando
ao luar, a fatídica assombração!...Estanquei-me
e pensei com meus botões: - é hoje que esse bicho vai
me pegar!!!
Atirar não era prudente, pois fatalmente, poderia se repetir
à cena da vez anterior. Tentei afugentá-lo por meio de
pedras, o que infelizmente produziu o efeito desejado. A coisa afastou-se
vagarosamente em direção a plantação de
oliveiras, sem dar muita atenção a quem o estava hostilizando.
Devido a saliência dos canteiros e ao meu pavor, pareceu-me que
seu tamanho fosse de um cavalo e não de um cão lobo.
Não sei como, mas cheguei ao acantonamento com visível
sinal de pavor e, meu companheiro de quarto não tardou a verificar,
interpelando-me: - “O que há com você?”.
Relarei o acontecido com um certo embargo na voz ele pacientemente ouviu
o meu relato e depois disse:
-“Você está nervoso!”
Perguntei-lhe, por que no dia do primeiro incidente, não tinha
encontrado vestígios!
Explicou-me, então, com muita lógica: - “Primeiramente,
você não viu manchas de sangue porque não o alvejou.
Segundo, não o tendo alvejado, não poderia ter encontrado
o cadáver e, finalmente, a questão do rastro, você
sabe muito bem que, quando está para nevar, o terreno, por congelamento,
torna-se sólido, de maneira que, nem os animais de grande porte
deixam rastro.”
Concordei plenamente com a argumentação e recolhi-me ao
leito.
No dia seguinte, levantei-me bem cedo e saí pelas redondezas
com a finalidade de recrutar trabalhadores para abrir cerca de noventa
sepulturas que se destinavam a heróis brasileiros, que estavam
sepultados no Cemitério Militar Americano, de Vada e de Livorno
que seriam transladados para o Cemitério brasileiro de Pistóia.
Depois de ter percorrido cerca de uns mil metros pela campanha, deparei
com vários campônios trabalhando; caminhei na direção
destes a fim de oferecer-lhe trabalho, que era bem remunerado.
Para minha surpresa, deitado junto a um monte de feno, estava um enorme
cão branco a me olhar desconfiado: fitou-me e preguiçosamente
pôs-se a dormir.
Perguntei aos homens quem era o dono do animal. Um deles respondeu-me:
- É meu!, E antes que eu dissesse qualquer coisa, perguntou se
eu queria o esquisito cão para mim!
Respondi-lhe negativamente. Todavia, intrigado, perguntei-lhe a razão
do oferecimento e o cidadão, com todo aquele ar característico
dos italianos disse: “É porque ele é o maior noitibó
de toda a Itália e durante o dia só quer saber de comer
e dormir”.
Agradeci-lhe a explicação, contratei os trabalhadores
e retornei ao acantonamento. Ao chegar, procurei o meu amigo e disse-lhe
que afinal tinha encontrado a tal assombração durante
o dia e que se tratava de um animal tão preguiçoso a ponto
de seu dono me ter oferecido graciosamente.
Meu interlocutor sorriu, fitou-me firmemente e disse:
-
“EM CEMITÉRIO DE HERÓIS NÃO HÁ ASSOMBRAÇÃO!”
FONTE:
Do livro "Histórias de Pracinhas" Contadas por eles
mesmos
Autor: Vet Maj Álvaro Duboc Filho
Matéria
gentilmente enviada por
Zenaide Duboc
Filha do Vet Maj. Álvaro Duboc Filho
(Colaboradora do site)
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