3º Sgt Gabriel Mendes da Cunha
Ex-Combatente da 2ª Guerra Mundial

Serviço de Intendência
Pelotão de Sepultamento

Natural de Palma - MG

UNIDADE:
SERVIÇO DE INTENDÊNCIA – Pelotão de Sepultamento

POSTO DE GRADUAÇÃO:
3º Sargento. Ao retornar ao Brasil reintegrou-se às fileiras do Exército,
permanecendo nela até ser transferido para a reserva no posto de Capitão.

CONDECORAÇÕES:
Medalhas de Campanha
Medalha de Guerra
Militar de Bronze
Militar de Prata


Entrevistado por um Membro da Diretoria de Anvfeb /JF


UM ACONTECIMENTO QUE FICOU GRAVADO EM SUA MEMÓRIA

Era princípio do ano de 1945, Em campanha, no campo de batalha da Itália, como componente do Pelotão de Sepultamento da Força Expedicionária Brasileira, vivia como os demais elementos do pelotão, um problema sério que ocasionou uma determinação de providências do Comandante da pequena Unidade, no sentido de que, com a colaboração de todos, déssemos fim aos constantes desaparecimentos de tábuas que se destinavam à confecção de cruzes das tumbas dos heróis.

Sabíamos que, se por ventura encontrássemos o autor ou autores dos furtos, teríamos que agir com a maior cautela e energia, uma vez que os ladrões, em época de guerra, sempre roubam dispostos a defenderem os seus pérfidos intentos até com a própria vida e, conseqüentemente, o fazem bem armados.

Como estávamos acantonados por meses num determinado lugar, tínhamos feito relação de amizade com famílias que residiam nas proximidades em cujas casas, fazíamos serões que às vezes se prolongavam por várias horas.

Retornando de um desses serões, já bem próximo da meia noite, com o céu encoberto, pouca visibilidade, lembrei-me que seria interessante unir o útil ao agradável. Passaria, pois, pelo cemitério e faria uma ligeira ronda. Tomei a estrada das candeias, na qual teria que forçosamente passar pelo cemitério civil e a Igreja de São Roque, que eram vizinhos do Cemitério brasileiro de Pistóia.

O vento soprava forte. Era um vento quente, prenúncio de um nevoeiro ainda àquela noite.

Tão logo cheguei da Igreja e do cemitério, comecei a ouvir nitidamente um barulho características do desempilhar de tábuas. Parei para certificar-me da exatidão do que estava ocorrendo. O barulho continuava com espaço matemático. Não tive dúvidas...Eram os ladrões!

Comecei a tramar como deveria proceder para surpreendê-los e subjugá-los, diminuindo assim, as possibilidades de um insucesso.

Empunhei meu revólver, abri vagarosamente o portão do cemitério e comecei a progredir quase de rastro por detrás das sepulturas.

As pilhas de tábuas encontravam-se por trás da barraca-necrotério, Em torno desta havíamos construído uma cerca de lona, com a finalidade de evitar que olhares curiosos nos perturbassem no trabalho de identificação dos cadáveres.

Tão logo me aproximei do lugar onde se encontravam os supostos ladrões, depois de um exaustivo exercício de rastejamento, verifiquei que não se tratava do que eu havia suposto, e sim do seguinte:

- a cerca de lona que não estava bem estendida, com o impulso que recebia do vento, chocava-se contra a pilha de tábuas, ocasionando o barulho que me fez suspeitar de que se tratasse de roubo.

Levantei-me e agradeci a Deus a maneira como terminou minha infrutífera caçada. Olhei meu relógio para ver as horas, a fim de que, no dia seguinte, pudesse relatar o ocorrido ao meu Comandante. Verifiquei, apavorado, que era exatamente meia noite.

Esta coincidência trouxe-me um medo tal que não senti na hora do maior perigo.

Dispus-me incontinente afastar-me daquele lugar e, para fazê-lo teria que passar pela barraca-necrotério.

Apesar da tensão nervosa, ao passar pela barraca entrei, a fim de verificar se havia chegado algum morto do front, o que felizmente não havia ocorrido.

Sempre empunhando o revólver, dirigi-me para o portão do cemitério, o dos fundos, para daí apanhar uma estreita viela situada entre a cerca mista (arame e cipreste) e uma vala de dreno do cemitério, onde corria água que foi aproveitada pelos empregados civis do cemitério para o plantio de agrião.

Mal havia percorrido uns vinte metros, apareceu-me como num golpe de magia, um enorme cão branco ou algo parecido. Apavorado, apontei o cano do revólver no dorso do animal e acionei a tecla do gatilho. O barulho da detonação ecoou no silêncio da noite e a suposta assombração enveredou-se pela cerca em direção ao cemitério, depois de soltar um tétrico uivo!
Como os elementos do Pelotão estavam de sobreaviso contra os ladrões vieram incontinente, todos bem armados. Ciente das ordens que eles haviam recebido e temeroso de ser confundido com o delinqüente deitei-me imediatamente na vala e comecei a gritar que não eram ladrões . Como não tínhamos senha na retaguarda, blasfemei por várias vezes, uma palavra que identifica em qualquer parte do mundo um brasileiro... Logo após ter sido sanada a dúvida, tiraram-me da vala...todo empastado de barro. Pediram-me explicações, mas, em virtude da hiper-tensão que me ocometia, foram incontinentemente negadas.

Fomos para o acantonamento que se situava a um trezentos metros do Campo Santo. Fiz minha higiene corporal e deitei-me. Durante a vigília resolvi que ao amanhecer verificaria o destino que havia tomado o “cão” ou o que fosse, como sejam, marca de sangue, rastros ou mesmo cadáver. Mal rompeu a aurora, dirigi-me para o cemitério. Ao chegar no local, verifiquei surpreso que nenhum dos vestígios tinham sido deixados... Apavorei-me mais ainda. Para mim, só podia ser mesmo assombração e, em conseqüência, passei a retornar mais cedo ao acantonamento e a evitar a estrada que passava pelo cemitério. Usava, então, a estrada que dava acesso, pela frente, a bela vivenda onde residíamos; entrada de casa senhorial, toda cercada de árvores frondosas e de plantações de oliveiras.

Com o passar do tempo, minha impressão foi diminuindo, motivo pelo qual fui alongando a hora de retornar ao acantonamento.
Qual não foi minha surpresa quando, numa noite de lua cheia, ao retornar bem tarde, usando ainda a estrada de acesso principal da vila, eis, pomposamente sentado no meio no meio da estrada, namorando ao luar, a fatídica assombração!...Estanquei-me e pensei com meus botões: - é hoje que esse bicho vai me pegar!!!

Atirar não era prudente, pois fatalmente, poderia se repetir à cena da vez anterior. Tentei afugentá-lo por meio de pedras, o que infelizmente produziu o efeito desejado. A coisa afastou-se vagarosamente em direção a plantação de oliveiras, sem dar muita atenção a quem o estava hostilizando.

Devido a saliência dos canteiros e ao meu pavor, pareceu-me que seu tamanho fosse de um cavalo e não de um cão lobo.
Não sei como, mas cheguei ao acantonamento com visível sinal de pavor e, meu companheiro de quarto não tardou a verificar, interpelando-me: - “O que há com você?”.

Relarei o acontecido com um certo embargo na voz ele pacientemente ouviu o meu relato e depois disse:

-“Você está nervoso!”

Perguntei-lhe, por que no dia do primeiro incidente, não tinha encontrado vestígios!

Explicou-me, então, com muita lógica: - “Primeiramente, você não viu manchas de sangue porque não o alvejou. Segundo, não o tendo alvejado, não poderia ter encontrado o cadáver e, finalmente, a questão do rastro, você sabe muito bem que, quando está para nevar, o terreno, por congelamento, torna-se sólido, de maneira que, nem os animais de grande porte deixam rastro.”

Concordei plenamente com a argumentação e recolhi-me ao leito.

No dia seguinte, levantei-me bem cedo e saí pelas redondezas com a finalidade de recrutar trabalhadores para abrir cerca de noventa sepulturas que se destinavam a heróis brasileiros, que estavam sepultados no Cemitério Militar Americano, de Vada e de Livorno que seriam transladados para o Cemitério brasileiro de Pistóia.

Depois de ter percorrido cerca de uns mil metros pela campanha, deparei com vários campônios trabalhando; caminhei na direção destes a fim de oferecer-lhe trabalho, que era bem remunerado.

Para minha surpresa, deitado junto a um monte de feno, estava um enorme cão branco a me olhar desconfiado: fitou-me e preguiçosamente pôs-se a dormir.

Perguntei aos homens quem era o dono do animal. Um deles respondeu-me: - É meu!, E antes que eu dissesse qualquer coisa, perguntou se eu queria o esquisito cão para mim!

Respondi-lhe negativamente. Todavia, intrigado, perguntei-lhe a razão do oferecimento e o cidadão, com todo aquele ar característico dos italianos disse: “É porque ele é o maior noitibó de toda a Itália e durante o dia só quer saber de comer e dormir”.

Agradeci-lhe a explicação, contratei os trabalhadores e retornei ao acantonamento. Ao chegar, procurei o meu amigo e disse-lhe que afinal tinha encontrado a tal assombração durante o dia e que se tratava de um animal tão preguiçoso a ponto de seu dono me ter oferecido graciosamente.

Meu interlocutor sorriu, fitou-me firmemente e disse:

- “EM CEMITÉRIO DE HERÓIS NÃO HÁ ASSOMBRAÇÃO!”

FONTE:
Do livro "Histórias de Pracinhas" Contadas por eles mesmos
Autor: Vet Maj Álvaro Duboc Filho

Matéria gentilmente enviada por
Zenaide Duboc
Filha do Vet Maj. Álvaro Duboc Filho
(Colaboradora do site)