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Natural
de São João del-Rei - MG
UNIDADE:
II/11º Regimento de Infantaria.
POSTO OU GRADUAÇÃO:
3º Sargento. Retornando ao Brasil, reintegrou-se às fileiras
do Exército,
nelas permanecendo até ser transferido para a reserva no posto
de Capitão.
CONDECORAÇÕES:
Medalhas de
Campanha
Medalha de Guerra
Cruz de Combate de 2ª Classe
Militar de Bronze
Militar de Prata
Marechal Mascarenhas de Moraes.
Entrevistado pelo aluno Antônio Januário de
Mota Gomes.
UM
ACONTECIMENTO QUE FICOU GRAVADO EM SUA MEMÓRIA
“Eu pertenci a 5ª Cia do 2º Batalhão do 11º
Regimento de Infantaria e com ela fiz toda a Campanha da Itália.
Tomei parte do ataque de 12 de dezembro de 1944 ao fatídico MONTE
CASTELO, e, depois desse ataque que não logrou êxito, as
tropas aliadas passaram a defensiva em virtude da violenta queda da
temperatura que chegou a mais ou menos 18 graus abaixo de zero. O solo
começou a ficar coberto por uma camada branca que fazia desaparecer
a terra, as obras de arte, escondendo as árvores, as casas transmudando,
assim, o panorama e dificultando nossa orientação. Abrigamo-nos,
então, nas casas de camponeses existentes na região de
Gaggio Montano-Mazzancana, que era o setor da nossa Força Expedicionária
a fim de esperar que o inverno terminasse e chegasse à primavera.
Passamos, então, a vigiar o inimigo e, de vez em quando, íamos
visitar a “terra de ninguém “com finalidade de manter
o contato e, se possível, fazer prisioneiros.
Assim, permanecemos durante cerca de 2 meses. O frio intenso prejudicava
muito nossas ações e o uniforme começou a aparecer
naquele campo todo branco. Passamos, então, a usar o uniforme,
uma capa branca para sair a patrulhar.
Quando o sol, vencendo as densas nuvens que impediam sua ação,
começou a dissolver o gelo que cobria a terra, fomos contemplados
com um período de descanso em Silas, que era uma cidade ou coisa
parecida, situada a margem da estrada que liga o norte ao sul do país.
Quem vinha do sul, para chegar a Silas, tinha que atravessar uma ponte
sobre o rio Silas que forra destruída pelos nazistas por ocasião
de sua retirada para o norte e reconstruída pela Engenharia Brasileira.
Continuava, entretanto, a ser batida pela artilharia inimiga que tinha
seus observatórios no maciço dominante de Monte Castelo,
razão porque foram instalados nas proximidades da ponte, geradores
de fumaça (fábrica de fumaça como eram apelidados)
com a finalidade de cegar os observatórios e permitir o tráfego
na ponte.
Foi durante esse “período de descanso” (entre aspas
mesmo) que aconteceu o fato que por muito tempo martelou o meu subconsciente.
Refiro-me a morte de um bravo companheiro que era muito estimado por
todos nós: o CABO SEVERINO.
Em frente ao edifício semidestruído onde estávamos
acantonados, foram aparecendo os elementos do meu Pelotão, “armados”
de suas marmitas para pegar o “boião”. Estava na
hora do almoço, mas, para receber a refeição, teríamos
que atravessar a chamada “Ponte da Fumaça”, que naquele
momento estava completamente desaparecida pela fumaça. Perto
de mim, “desarmado da marmita” estava o Cabo Severino. Perguntei-lhe
pela marmita e ele respondeu-me:
- Arriscar a vida por um almoço?... Acho que hoje não
vou almoçar. Como o senhor sabe, ando muito aborrecido. Estou
doido para que esta maldita guerra acabe para que possamos regressar.
Preciso casar-me para poder amparar meu velho pai.
Realmente o Cabo Severino andava muito aborrecido. Ele havia recebido
notícias do falecimento de sua genitora e isto tinha abalado
muito seu estado emocional. Tentei ajudá-lo orientando-o que
não era bom ficar sem se alimentar e procurei, com palavras,
suavizar um pouco a situação.
Estava conversando com o Cabo Severino quando a artilharia inimiga começou
a atirar sobre a região da ponte e o meu companheiro, “bronqueou
“:
- Ta vendo!...Justamente nesta hora.
Esperei, onde estava, que o bombardeio acalmasse. Cabo Severino dali
se afastou e não fiquei sabendo se ele tinha ido, ou não,
apanhar a marmita. Eu não tinha pressa. Deixei o tempo passar
e, quando senti que realmente o bombardeio havia cessado, respirei fundo
e, de um lance, atravessei a ponte.
Do outro lado da ponte, num raio de 10 metros, descortinei um aglomerado
de soldados. “Meti a cara da boleira” e vi um soldado estendido
no chão, ferido, era o Cabo Severino.
Fiquei transtornado. Abaixei e peguei o corpo desfalecido do bravo companheiro
em meus braços e pude ouvir o que ele dizia e constatar que suas
preocupações, com relação a situação
de seu velho pai, havia aumentado muito. Foi recolhido pelo pessoal
do Posto de Saúde onde morreu.
Rapaz honesto, trabalhador, bom filho e leal amigo. Era um excelente
companheiro e exercia o comando de um Grupo de Combate. Estava indicado
para ser promovido a 3º Sargento.
Não almocei nesse dia...”
NOTA:

CABO JOAQUIM SEVERINO
Natural de Lavras MG
Filho de Severino Balbino e de Idalina de Jesus. Faleceu no dia 22 de
janeiro, no Posto Médico.
Foi agraciado com a Medalha de Campanha – Sangue do Brasil e Cruz
de Combate de 2ª Classe.

OUTRO
ACONTECIMENTO QUE MERECE SER CONTADO:
“Durante
o combate de Castelnuovo, cuja responsabilidade coube ao Regimento de
São Paulo ( 6º RI ), a nossa Companhia (5ª Cia. de
Fuzileiros do Regimento Tiradentes, que obedecia ao comando do bravo
Capitão HENRIQUE CÉSAR CARDOSO, cumpriu a espinhosa missão
de procurar atrair o inimigo de frente para permitir que o ataque fosse
desencadeado pelos flancos.
No dia anterior ao ataque, deslocamo-nos à noite, para os arredores
da cidade de Riola, situada nas proximidades da “barba dos tedescos”.
Às 6 horas do dia D, foi dado início à manobra
de nossa aproximação. Os alemães, donos das cristas
dominantes, certamente assistiram atentamente o nosso deslocamento feito
em colunas à margem da estrada, no sentido convergente às
suas fortificações, mas, morteiros, esperavam a nossa
aproximação.
Caminhando por aquele desnudo terreno, compreendemos que estávamos
sendo observados e esperávamos a qualquer momento a reação
da força contrária. Mesmo assim, caminhávamos resolutamente
em direção aos nossos objetivos até quando, (nem
é bom lembrar) despejaram sobre nós um tremendo bombardeio
de artilharia, de fogos de morteiros seguido do metralhar das armas
automáticas.
O impacto foi terrível e estabeleceu uma enorme confusão.
Gritos entrecortados de dores chegaram aos nossos ouvidos, mas conseguimos
dominar nossos nervos e enfrentar a dura situação. A luta
ia ser árdua, titânica mesmo, porque o terreno sem vegetação,
nenhuma segurança nos oferecia.
Vimos, então, que no meio àquela horrorosa confusão,
sob uma avalanche de balas e de estilhaços de granadas, os nossos
destemidos padioleiros se movimentando com suas macas procurando socorrer
os companheiros não menos bravos e destemidos que contorciam
em dores.
Nesse momento, meu Grupo de Combate procurou se abrigar junto a três
montes de feno. Mas o inimigo compreendeu a nossa manobra e imediatamente
dirigiu sobre os ditos montes vários granadas de morteiros com
a finalidade de conseguir o nosso deslocamento para nos caçar
com rajadas de metralhadoras e de fuzis.
Imediatamente tomamos a iniciativa de sair a qualquer preço da
situação em que nos encontrávamos. Lembro-me que
dali saímos, homem a homem, rastejando, levantando, caindo e
miraculosamente alcançamos uma vala que foi a nossa salvação.
Creio que naquele momento, lembrei-me das quatro palavras clássicas
do Infante: - PARA ONDE VOU? - POR QUE VOU? – COMO VOU? –
QUANDO VOU?
Voltando ao conjunto (5ª Companhia), devo dizer que suportamos
durante horas e horas aquele massacre imposto pelo inimigo. De vez em
quando olhávamos para o céu, na esperança da chegada
de nossos aviões. Mas eles não apareceram. Viemos, a saber,
depois que no plano de ataque não estava prevista a sua participação.
A nossa artilharia, como sempre, com suas eficazes concentrações
sobre a região do inimigo, dificultava um pouco as ações
dos “tedescos” enquanto que as demais armas e serviços,
numa demonstração eloqüente de que “eram todos
por um” cooperavam para o êxito de nossa missão.
Os observadores avançados da artilharia que, a curta distância,
acompanhavam o desenrolar da luta, declararam estupefato que não
tinham palavras para descrever o quadro triste e doloroso daquele combate;
tinham, entretanto, palavras para dizer que ali havia ficado patenteado
o valor do soldado brasileiro através de sua coragem, sangue
frio, abnegação, espírito de luta e de sacrifício.
Com o entardecer, cessou em parte o bombardeio e o nosso comandante
de Companhia se aproveitou do momento para proceder a uma rápida
inspeção na tropa, verificando sumariamente que a companhia
estava com o efetivo muito reduzido em virtude das baixas havidas. Mesmo
assim e apesar de tudo, a brava companhia se manteve em ação
e, à noite, quando recebemos ordem de avançar ate as proximidades
das posições nazistas ninguém vacilou. O avanço
foi iniciado e as baixas aumentaram, tendo como causa as traiçoeiras
minas e armadilhas (booby traps).
Havíamos chegado a poucos metros do inimigo e estávamos
preparando o assalto às posições “tedescas”,
quando incendiaram, na região onde nos encontrávamos,
inúmeros montes de feno, ocasionando grande confusão e
uma certa dispersão da tropa que procurou se abrigar nas crateras
dos arrebentamentos das granadas de artilharia. Nossa situação
se tornou muito difícil porque o fogaréu iluminou região
onde estávamos e os alemães aproveitaram a claridade para
“varrer” a zona de ação com rajadas de armas
automáticas. Ficamos durante algum tempo, em nossos abrigos,
como se diz “sem poder respirar” até que, acabado
o fogo, a região escureceu novamente.
Estava começando a clarear o dia quando iniciamos os assaltos
às casamatas, o que foi feito com muito êxito. Apossamos
da zona de ação do inimigo, dominamos a situação,
procedemos a limpeza dos arredores e encaminhamos os prisioneiros para
os locais indicados.
Esta foi a contribuição da nossa 5ª Companhia de
Fuzileiros do 11º Regimento de Infantaria para a conquista de Castelnuovo,
no dia 5 de março de 1945
COMBATE VENCIDO E MISSÃO CUMPRIDA.
NOTA:
O Capitão R.R FRANCISCO ALBINO MOREIRA, realizou, em 1973, no
4º G.A.C. e 17ª Btl. Log. Uma palestra sobre a MISSÃO
ATRIBUÍDA a 5ª Cia. de Fuz. do 11º R.I., no Combate
a Castelnuovo. A revista VETERANO, edição 25 de setembro
de 1973, publicou integralmente a palestra.”
FONTE:
Do livro "Histórias de Pracinhas" Contadas por eles
mesmos
Autor: Vet Maj Álvaro Duboc Filho
Matéria
gentilmente enviada por
Zenaide Duboc
Filha do Vet Maj. Álvaro Duboc Filho
(Colaboradora do site)
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