3º Sgt Francisco Albino Moreira
Ex-Combatente da 2ª Guerra Mundial

11º Regimento de Infantaria - Regimento Tiradentes
São João del-Rei - MG

Natural de São João del-Rei - MG


UNIDADE:
II/11º Regimento de Infantaria.

POSTO OU GRADUAÇÃO:
3º Sargento. Retornando ao Brasil, reintegrou-se às fileiras do Exército,
nelas permanecendo até ser transferido para a reserva no posto de Capitão.

CONDECORAÇÕES:
Medalhas de Campanha
Medalha de Guerra
Cruz de Combate de 2ª Classe
Militar de Bronze
Militar de Prata
Marechal Mascarenhas de Moraes.

Entrevistado pelo aluno Antônio Januário de Mota Gomes.

UM ACONTECIMENTO QUE FICOU GRAVADO EM SUA MEMÓRIA


“Eu pertenci a 5ª Cia do 2º Batalhão do 11º Regimento de Infantaria e com ela fiz toda a Campanha da Itália. Tomei parte do ataque de 12 de dezembro de 1944 ao fatídico MONTE CASTELO, e, depois desse ataque que não logrou êxito, as tropas aliadas passaram a defensiva em virtude da violenta queda da temperatura que chegou a mais ou menos 18 graus abaixo de zero. O solo começou a ficar coberto por uma camada branca que fazia desaparecer a terra, as obras de arte, escondendo as árvores, as casas transmudando, assim, o panorama e dificultando nossa orientação. Abrigamo-nos, então, nas casas de camponeses existentes na região de Gaggio Montano-Mazzancana, que era o setor da nossa Força Expedicionária a fim de esperar que o inverno terminasse e chegasse à primavera. Passamos, então, a vigiar o inimigo e, de vez em quando, íamos visitar a “terra de ninguém “com finalidade de manter o contato e, se possível, fazer prisioneiros.

Assim, permanecemos durante cerca de 2 meses. O frio intenso prejudicava muito nossas ações e o uniforme começou a aparecer naquele campo todo branco. Passamos, então, a usar o uniforme, uma capa branca para sair a patrulhar.

Quando o sol, vencendo as densas nuvens que impediam sua ação, começou a dissolver o gelo que cobria a terra, fomos contemplados com um período de descanso em Silas, que era uma cidade ou coisa parecida, situada a margem da estrada que liga o norte ao sul do país.

Quem vinha do sul, para chegar a Silas, tinha que atravessar uma ponte sobre o rio Silas que forra destruída pelos nazistas por ocasião de sua retirada para o norte e reconstruída pela Engenharia Brasileira. Continuava, entretanto, a ser batida pela artilharia inimiga que tinha seus observatórios no maciço dominante de Monte Castelo, razão porque foram instalados nas proximidades da ponte, geradores de fumaça (fábrica de fumaça como eram apelidados) com a finalidade de cegar os observatórios e permitir o tráfego na ponte.

Foi durante esse “período de descanso” (entre aspas mesmo) que aconteceu o fato que por muito tempo martelou o meu subconsciente. Refiro-me a morte de um bravo companheiro que era muito estimado por todos nós: o CABO SEVERINO.

Em frente ao edifício semidestruído onde estávamos acantonados, foram aparecendo os elementos do meu Pelotão, “armados” de suas marmitas para pegar o “boião”. Estava na hora do almoço, mas, para receber a refeição, teríamos que atravessar a chamada “Ponte da Fumaça”, que naquele momento estava completamente desaparecida pela fumaça. Perto de mim, “desarmado da marmita” estava o Cabo Severino. Perguntei-lhe pela marmita e ele respondeu-me:

- Arriscar a vida por um almoço?... Acho que hoje não vou almoçar. Como o senhor sabe, ando muito aborrecido. Estou doido para que esta maldita guerra acabe para que possamos regressar. Preciso casar-me para poder amparar meu velho pai.

Realmente o Cabo Severino andava muito aborrecido. Ele havia recebido notícias do falecimento de sua genitora e isto tinha abalado muito seu estado emocional. Tentei ajudá-lo orientando-o que não era bom ficar sem se alimentar e procurei, com palavras, suavizar um pouco a situação.

Estava conversando com o Cabo Severino quando a artilharia inimiga começou a atirar sobre a região da ponte e o meu companheiro, “bronqueou “:

- Ta vendo!...Justamente nesta hora.

Esperei, onde estava, que o bombardeio acalmasse. Cabo Severino dali se afastou e não fiquei sabendo se ele tinha ido, ou não, apanhar a marmita. Eu não tinha pressa. Deixei o tempo passar e, quando senti que realmente o bombardeio havia cessado, respirei fundo e, de um lance, atravessei a ponte.

Do outro lado da ponte, num raio de 10 metros, descortinei um aglomerado de soldados. “Meti a cara da boleira” e vi um soldado estendido no chão, ferido, era o Cabo Severino.

Fiquei transtornado. Abaixei e peguei o corpo desfalecido do bravo companheiro em meus braços e pude ouvir o que ele dizia e constatar que suas preocupações, com relação a situação de seu velho pai, havia aumentado muito. Foi recolhido pelo pessoal do Posto de Saúde onde morreu.

Rapaz honesto, trabalhador, bom filho e leal amigo. Era um excelente companheiro e exercia o comando de um Grupo de Combate. Estava indicado para ser promovido a 3º Sargento.

Não almocei nesse dia...”

NOTA:


CABO JOAQUIM SEVERINO
Natural de Lavras MG


Filho de Severino Balbino e de Idalina de Jesus. Faleceu no dia 22 de janeiro, no Posto Médico.
Foi agraciado com a Medalha de Campanha – Sangue do Brasil e Cruz de Combate de 2ª Classe.

OUTRO ACONTECIMENTO QUE MERECE SER CONTADO:

“Durante o combate de Castelnuovo, cuja responsabilidade coube ao Regimento de São Paulo ( 6º RI ), a nossa Companhia (5ª Cia. de Fuzileiros do Regimento Tiradentes, que obedecia ao comando do bravo Capitão HENRIQUE CÉSAR CARDOSO, cumpriu a espinhosa missão de procurar atrair o inimigo de frente para permitir que o ataque fosse desencadeado pelos flancos.

No dia anterior ao ataque, deslocamo-nos à noite, para os arredores da cidade de Riola, situada nas proximidades da “barba dos tedescos”. Às 6 horas do dia D, foi dado início à manobra de nossa aproximação. Os alemães, donos das cristas dominantes, certamente assistiram atentamente o nosso deslocamento feito em colunas à margem da estrada, no sentido convergente às suas fortificações, mas, morteiros, esperavam a nossa aproximação.

Caminhando por aquele desnudo terreno, compreendemos que estávamos sendo observados e esperávamos a qualquer momento a reação da força contrária. Mesmo assim, caminhávamos resolutamente em direção aos nossos objetivos até quando, (nem é bom lembrar) despejaram sobre nós um tremendo bombardeio de artilharia, de fogos de morteiros seguido do metralhar das armas automáticas.

O impacto foi terrível e estabeleceu uma enorme confusão. Gritos entrecortados de dores chegaram aos nossos ouvidos, mas conseguimos dominar nossos nervos e enfrentar a dura situação. A luta ia ser árdua, titânica mesmo, porque o terreno sem vegetação, nenhuma segurança nos oferecia.

Vimos, então, que no meio àquela horrorosa confusão, sob uma avalanche de balas e de estilhaços de granadas, os nossos destemidos padioleiros se movimentando com suas macas procurando socorrer os companheiros não menos bravos e destemidos que contorciam em dores.

Nesse momento, meu Grupo de Combate procurou se abrigar junto a três montes de feno. Mas o inimigo compreendeu a nossa manobra e imediatamente dirigiu sobre os ditos montes vários granadas de morteiros com a finalidade de conseguir o nosso deslocamento para nos caçar com rajadas de metralhadoras e de fuzis.

Imediatamente tomamos a iniciativa de sair a qualquer preço da situação em que nos encontrávamos. Lembro-me que dali saímos, homem a homem, rastejando, levantando, caindo e miraculosamente alcançamos uma vala que foi a nossa salvação. Creio que naquele momento, lembrei-me das quatro palavras clássicas do Infante: - PARA ONDE VOU? - POR QUE VOU? – COMO VOU? – QUANDO VOU?

Voltando ao conjunto (5ª Companhia), devo dizer que suportamos durante horas e horas aquele massacre imposto pelo inimigo. De vez em quando olhávamos para o céu, na esperança da chegada de nossos aviões. Mas eles não apareceram. Viemos, a saber, depois que no plano de ataque não estava prevista a sua participação. A nossa artilharia, como sempre, com suas eficazes concentrações sobre a região do inimigo, dificultava um pouco as ações dos “tedescos” enquanto que as demais armas e serviços, numa demonstração eloqüente de que “eram todos por um” cooperavam para o êxito de nossa missão. Os observadores avançados da artilharia que, a curta distância, acompanhavam o desenrolar da luta, declararam estupefato que não tinham palavras para descrever o quadro triste e doloroso daquele combate; tinham, entretanto, palavras para dizer que ali havia ficado patenteado o valor do soldado brasileiro através de sua coragem, sangue frio, abnegação, espírito de luta e de sacrifício.

Com o entardecer, cessou em parte o bombardeio e o nosso comandante de Companhia se aproveitou do momento para proceder a uma rápida inspeção na tropa, verificando sumariamente que a companhia estava com o efetivo muito reduzido em virtude das baixas havidas. Mesmo assim e apesar de tudo, a brava companhia se manteve em ação e, à noite, quando recebemos ordem de avançar ate as proximidades das posições nazistas ninguém vacilou. O avanço foi iniciado e as baixas aumentaram, tendo como causa as traiçoeiras minas e armadilhas (booby traps).

Havíamos chegado a poucos metros do inimigo e estávamos preparando o assalto às posições “tedescas”, quando incendiaram, na região onde nos encontrávamos, inúmeros montes de feno, ocasionando grande confusão e uma certa dispersão da tropa que procurou se abrigar nas crateras dos arrebentamentos das granadas de artilharia. Nossa situação se tornou muito difícil porque o fogaréu iluminou região onde estávamos e os alemães aproveitaram a claridade para “varrer” a zona de ação com rajadas de armas automáticas. Ficamos durante algum tempo, em nossos abrigos, como se diz “sem poder respirar” até que, acabado o fogo, a região escureceu novamente.

Estava começando a clarear o dia quando iniciamos os assaltos às casamatas, o que foi feito com muito êxito. Apossamos da zona de ação do inimigo, dominamos a situação, procedemos a limpeza dos arredores e encaminhamos os prisioneiros para os locais indicados.

Esta foi a contribuição da nossa 5ª Companhia de Fuzileiros do 11º Regimento de Infantaria para a conquista de Castelnuovo, no dia 5 de março de 1945

COMBATE VENCIDO E MISSÃO CUMPRIDA.

NOTA: O Capitão R.R FRANCISCO ALBINO MOREIRA, realizou, em 1973, no 4º G.A.C. e 17ª Btl. Log. Uma palestra sobre a MISSÃO ATRIBUÍDA a 5ª Cia. de Fuz. do 11º R.I., no Combate a Castelnuovo. A revista VETERANO, edição 25 de setembro de 1973, publicou integralmente a palestra.”

FONTE:
Do livro "Histórias de Pracinhas" Contadas por eles mesmos
Autor: Vet Maj Álvaro Duboc Filho

Matéria gentilmente enviada por
Zenaide Duboc
Filha do Vet Maj. Álvaro Duboc Filho
(Colaboradora do site)