Cap Everaldo José da Silva
Ex-Combatente da 2ª Guerra Mundial

1º RI – Regimento Infantaria – Regimento Sampaio
Rio de Janeiro - RJ

Natural de Niterói - RJ

UNIDADE:
I/1º Regimento de Infantaria.

POSTO OU GRADUAÇÃO:
Capitão. Retornando à Pátria, reintegrou-se nas fileiras do Exercito, nelas permanecendo
até ser transferido para a reserva no alto posto de General de Brigada.

CONDECORAÇÕES:
Medalha de Campanha
Medalha de Guerra
Cruz de Combate de 1ª Classe
Bronze Star
Mérito Militar
Mérito Naval
Pacificador e Militar de Ouro

Entrevistado por um membro da Diretoria da ANVEFEB/ Juiz de Fora


UM ACONTECIMENTO QUE FICOU GRAVADO EM SUA MEMÓRIA

Desde o dia em que o Major Duboc me convidou para uma entrevista na qual deveria dizer o fato que mais me impressionou na Campanha da Itália, comecei a pensar, a rever toda a minha participação na FEB; desde os primórdios da preparação, nos idos de 1943, no Regimento Sampaio, até o dia em que, de volta da Itália, cheguei a minha casa, no Rio de Janeiro, e pude, com emoção incontida, abraçar e beijar minha saudosa mãe, meus irmãos e demais parentes, que me aguardavam em festa, em meio a palavras e manifestações outras de forte emoção.

Repassei, então, toda uma jornada de 10 meses, entre os quais, sete sob forte tensão, face a face com os morteiros, artilharias alemãs e metralhadoras, as terríveis “Lourdinhas”, que fazia tremer o corajoso “pracinha” que se via envolvido sob suas malhas mortíferas.

Vi o dia do embarque no Gen. Mann, o momento da partida no porto do Rio de Janeiro, ao deixar Copacabana e a figura imponente do Cristo, no Corcovado, a abraçar ternamente àqueles cinco mil e poucos homens num gesto de ADEUS, ATÉ A VOLTA, á Vitória que seus filhos já levaram ao peito, pela certeza de que o BEM supera o MAL, a VERDADE vence a MENTIRA e o AMOR apaga o ódio.

Passei os dias de bordo, a vida em pleno oceano, a vida segura pelas adoções de medidas que prevenissem o perigo, a morte. Vi a chegada à Nápoles, a viagem nas barcaças – L.C. I – até LIVORNO e o acampamento em San Rossore (Pisa).
Tornei a admirar a TORRE DE PISA, o BATISTÉRIO; revi, os treinamentos em Filetole; fui até Pistóia – Porreta Terme, onde se achava, em novembro de 1944, o Q.G. da FEB; e revi todo o cerimonial da Guarda-de-Honra na visita que o Mar. ALEXANDER fez ao Mal. MASCARENHAS DE MORAES, o Comandante da Força Brasileira.

Lembrei-me de Sila, o povoado que vivia sob permanente fumaça mascarando dos observadores de Castelo, a ponte que durante meses constituiu o objetivo de fogos de inquietação, interdição para a artilharia inimiga.

Por fim chegamos a Gaggio Montano, aquele alto morro onde se incrustavam mansões de pedras misturadas a verdadeiras choupanas de pobres que não abandonaram a região por não terem para onde ir...e preferiam morrer ali mesmo, a receber em outros campos a morte que a guerra trazia de ameaça.

Passei pelos bombardeios de artilharia em Gaggio Montano e na noite de 28/29 de novembro, aproximei-me da base de partida para a 3ª investida que os aliados faziam sobre a famosa resistência alemã – MONTE CASTELO.

Vivi, sofri, vibrei os primeiros lances do ataque de 29 e cheguei a chorar pelos primeiros companheiros da 1ª Cia. que ficaram naquele dia para sempre na história de um ataque fracassado...Trago até agora – e permitam que os homenageies com uma continência saudosa – as figuras de MONÇORES e VALÉRIO, os dois Sargentos que tombaram no campo de luta.

Depois, em momentos distanciados, veio-me à memória a notícia do desfecho da Campanha do 11º R.I., à qual passara eu a posição de Guanela, fato que gerou certo constrangimento no seio da 1ª D.I.E., mas que foi colocado nas devidas dimensões e sanada qualquer repercussão negativa que poderia trazer ao moral da tropa.

Enfim, lembrei-me do dia 12 de dezembro e do dia 21 de fevereiro de 45, quando a responsabilidades da Nação sobre Castelo coube ao REGIMENTO SAMPAIO, em manobra frontal e ligação com a ação sobre DELA TORRACIA sobre a crista MAZANCANA – GORGOLESCO – BELVEDERE pela 10ª Divisão de Montanha.

Percorri, então. O itinerário realizado pela 1ª Cia. do Sampaio e vi-me, às 18 horas, no cimo do Castelo, com os pelotões AQUINO e OSWALDO, a comunicar, pelo código de então, prescrito pelo Batalhão – UM FOGUETE ÂMBAR – objetivo conquistado.

Cândido – soldado corneteiro – ao receber minha ordem para soltar o foguete, quase não teve tino para acender o pavio, tamanho era sua emoção. Foi necessário que outro homem, que estava a seu lado, o ajudasse.

Gravei, nesse momento, a emoção que o fato de haver determinado a solta do foguete m fez vibrar de modo diferente, bem mais intensamente do que todos os demais instantes que a memória me trouxe até ali. Mas prossegui em minhas recordações. Cheguei a Castel D’Alano, a Rigueti, a Zocca, a Piacensa, emocionei-me com os homens baixados nessas longas jornadas e cheguei a Francolise quando o mês de julho nos trouxe algum calor e o silêncio das armas substituídos por horas de lazer e de preparo para a volta.

Finalmente, lembrei-me das idas ao Teatro Real de Nápoles e do embarque de retorno ao Brasil no navio Mariposa, alegria incontida, ansiedade em todos os semblantes com a volta à Pátria.

E o Rio engalanado aguardando o 2º escalão que chefiava, veio-me de novo à memória e recordações inúmeras povoaram minha mente.

Mas...depois do FOGUETE ÂMBAR, nenhum outro fato me trouxe emoção mais forte do que aquele que vivi quando à frente da 1ª Cia. do 1º R.I., disse, através do código estabelecido, que atingira o objetivo prescrito, que ocupara CASTELO, que expulsara os alemães que defendiam aquela fortaleza, com metralhadoras e homens enterrados, a salvo de nossas armas, desde novembro, o mês fatídico que havia feito jorrar sangue brasileiro e roubara vidas que de tão distante se dispuseram a buscar a PAZ, a ORDEM INTERNACIONAL e resguardava a dignidade e a honra nacional brasileira.

Então, não há dúvida, meu caro companheiro Duboc, que o fato que deixou marca maior em meu espírito de soldado brasileiro, fora aquele momento em que determinei que o soldado Cãndido que soltasse o FOGUETE ÂMBAR, anunciando ao então Major UZEDA, comandante do 1º Batalhão, que CASTELO caíra, estava em mãos brasileiras, a despeito de tudo, não obstante o ingente sacrifício imolado em perdas de vidas preciosas dos “pracinhas” e seus aliados de guerra.

Aí está, pois, uma jornada de quase um ano descrita em poucas linhas, em que se procura pintar o quadro da guerra com letras apagadas de um profissional militar e amador sem brilho da arte de escrever.

E se não soubesse eu reunir estas linhas, diria com voz já cansada pelos anos a nossa HISTÓRIA que você pede para acrescentar à página da nossa História que você compõe para a eternidade da Pátria, com o mesmo amor a nossas coisas do jovem Capitão da década de 40.

Que sua HISTÓRIA, a HISTÓRIA DE PRACINHAS CONTADAS POR ELES MESMOS, acompanhe por todo tempo a Pátria querida por sua honra e integridade, tornaremos a arriscar nossas próprias vidas, se assim for preciso.

Juiz de Fora, outubro de 1982.
Gen. Bda. R.R. EVERALDO JOSÉ DA SILVA

N O T A S


JOSÉ DA COSTA VALÉRIO
2º Sargento - natural de Pitanguí, Estado de Minas Gerais.
Filho de Alberto Januário e de Maria da Costa Valério.


È considerado desaparecido desde 29 de novembro de 1944, na zona de operações. Foi agraciado com Medalhas de Campanha e Cruz de Combate de 2ª Classe.

- A Revista Militar – “O SAMPAIO” - edição de 1º de setembro de 1947, publicou, com sua fotografia, um editorial dizendo “ninguém mais autorizado a falar sobre o 2º Sargento JOSÉ DA COSTA VALÉRIO, do que o seu antigo comandante nos campos de batalha da velha Europa, o Capitão EVERALDO JOSÉ DA SILVA, informando a seguir, que este oficial em recente cartadirigida ao Major EMANOEL DE ALMEIDA MORAIS, sem propósito de lisonja, assim traçou, para nosso orgulho de brasileiro e glória do REGIMENTO SAMPAIO, a trajetória heróica e imperecível do 2º Sargento VALÉRIO, na árdua missão de nossa Força Expedicionária:

“entre os heróis do SAMPAIO, figura um Segundo Sargento cujo corpo não foi encontrado ou identificado, sendo ate hoje considerado DESAPARECIDO. Isto oficialmente, pois para toda Companhia, não há dúvida de que ele “desapareceu” tombado por uma rajada de metralhadora inimiga, a 29 de novembro de 1944, quando da primeira vez que o Regimento se lançava a uma ação ofensiva, representado por seu Primeiro Batalhão. Chamava-se ele José da Costa Valério, filho de Alberto Januário Valério e de Maria da Costa Valério, natural do estado de Minas Gerais.

Jovem, forte, vibrátil e ardoroso como seus companheiros, trazia a fé dos irmãos de Tiradentes. Sereno e destemido, não viu o perigo quando foi atacar. Seu Pelotão foi incumbido de assaltar duas resistências que impediam a progressão da Companhia. Sua calma, ante a missão, enquanto se misturavam as explosões das granadas, o metralhar da velocíssima “lourdinhas”, aos gritos de dor dos companheiros que caíam, deixava transparecer a alma do soldado que avançava resoluto, ciente das Vitória, vendo acima de tudo, o DEVER para com a PÁTRIA.

Até a pouco tempo existia, na Primeira Companhia, um capacete com seu sangue. Um companheiro vira-o cair e guardava este capacete sujo de sangue do amigo como lembrança daquele que soubera ser um herói. Os que ficaram conservam e respeitam a memória dos verdadeiros bravos que se sacrificaram – aqueles que vira este tombar.

De volta ao Brasil, fui procurado pela noiva do Valério. Não acreditava, ela, que ele houvesse ficado sobre as pedregosas encostas do Espigão de C.Vitelino, no Castelo. Preferia aceitar uma doença grave que houvesse roubado a memória do noivo a considerá-lo DESAPARCIDO. Pungia vê-la buscar informações e sofria eu, muito mais quando lhe declarava a verdade – “seus companheiros viram, quando fuzilado por uma cerrada rajada cair por terra” – ao que respondia – “espero em Nossa Senhora.”

Várias vezes ela voltou ao Regimento, sempre com esperanças de novas informações do Quartel General. Parece que cansou seu acrisolado coração pois não mais nos procurou. Sua família vive ainda em Divinópolis, na nobre terra de Tiradentes, aguardando, talvez à volta do filho querido.



JORGE MONÇORES

3º Sargento, natural de São Mateus, Estado do Rio de Janeiro.
Filho de Guilherme Barbosa Monçores e de Maria das Dores Oliveira.

Faleceu em ação, no dia 29 de novembro de 1944, em Monte Castelo. Foi agraciado com as medalhas de Campanha, Sangue do Brasil e Cruz de Combate de 2ª Classe.


O General Everaldo, como Capitão, comandou a Primeira Companhia de Fuzileiros do Regimento Sampaio ( 1º R.I ) durante toda a Campanha da Itália. Sua Companhia, tendo a Pelotão do Tenente Aquino na vanguarda atingiu a crista do Monte Castelo por volta das 18 horas do dia 21 de fevereiro de 1945, quando já começava a escurecer em toda a região. É o que nos conta o Tenente MANOEL THOMAS CASTELO BRANCO em seu livro “O BRASIL NA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL” – (página 167)

FONTE:
Do livro "Histórias de Pracinhas" Contadas por eles mesmos
Autor: Vet Maj Álvaro Duboc Filho

Matéria gentilmente enviada por
Zenaide Duboc
Filha do Vet Maj. Álvaro Duboc Filho
(Colaboradora do site)