Cap Capelão Antônio Álvares da Silva
( Frei Orlando)
Ex-Combatente da 2ª Guerra Mundial

11º RI - Regimento Infantaria - Regimento Tiradentes
São João del-Rei - MG

Natural de Moravânia - (hoje Morada Nova de Minas)

Evidentemente o Capitão Capelão Militar Frei Orlando, não foi entrevistado por nós sobre um acontecimento ocorrido durante a Campanha da FEB, na Itália. Ele faleceu no Campo de Combate, cumprindo sua missão junto aos feridos. No Boletim do Exército de 2 de dezembro de 1946, conta o seguinte: “ Faleceu em conseqüência de arma de fogo (acidente), quando prestava assistência religiosa às tropas em posição no dia 20 de fevereiro de 1945, em DOCCE, (Itália). Foi agraciado com as Medalhas de Campanha e Sangue do Brasil.

Homenageando a memória desse bravo sacerdote que foi escolhido para Patrono do SERVIÇO RELIGIOSO DO EXÉRCITO, iniciamos este nosso despretensioso trabalho com a reprodução do que ele escreveu antes de morrer. Referimos a crônica “A GAITA DO VAGABUNDO”, que ele enviou por intermédio de seu irmão ao jornalista LUIZ MEDEIROS, e que foi publicada pelo referido jornalista na Revista SINGRA.


“A GAITA DO VAGABUNDO”

Numa tarde de rígido inverno, reunimo-nos na cozinha da casa onde estávamos acantonados. Ali era mais quente, pois se queimava bom pedaço de lenha na lareira.

Os soldados brasileiros, distinguindo-se dos demais, porque sempre andavam a cantar, divertiam-se com cânticos da Pátria longínqua. Brasileiros e italianos, reunidos ao redor do mesmo fogo benéfico, formavam um ambiente estranho para quem observa as circunstâncias que aí vemos. Por aqui, tudo é assim, não se compreendendo bem a situação em que nos lançou a guerra.

Brasileiros e italianos, à beira da lareira. Os brasileiros cantando para matar as saudades da terra de sol e de verduras, quente e rico. Quantas lembranças felizes deviam ter aqueles que cantavam!

Os italianos ouviam aquelas notas – ora alegres – ora melancólicos, pouco compreendendo o sentido das palavras. Fisionomias cansadas que traduziam a dor de quem vêem sua Pátria, outrora bela e atraente, reduzida às misérias de uma guerra brutal, provocada pelo seu próprio governo.

Os brasileiros cantam, saudosos. Ouviam-se os versos de “Saudades do Matão”. Depois se seguiram cantos carnavalescos e sambas ruidosos...

Parecia que tinham afastado para bem longe a saudade e o abafamento da guerra e, que a alegria se generalizava. Todos ajudavam, em coro, o “show” improvisado, Ninguém pensava que uma granada alemã, daquelas de que tinham ficado o rastro em todas as direções ao redor da casa, pudesse vir interromper a alegria.

Cantou-se alegremente, até quando, numa pausa, alguém se lembrou de pedir aos italianos presentes uma canção da Itália. Mas, como poderiam cantar aqueles desgraçados filhos de uma terra vendida?

O brasileiro canta para espantar as mágoas. Não sei se o italiano pensa também assim. Porém como nós, “quem canta seus males espanta”, insistiram com os presentes que cantassem alguma coisa para espantar os males.

Entre as pessoas que residiam – seus proprietários e refugiados – havia dois irmãos: XISTO E ROSA. Eram refugiados de uma localidade que estava sob constante bombardeio inimigo.

-Canta Rosa. Canta “uma cansone italiana”, pediam os soldados.

Rosa é uma senhorita de seus 20 anos. É bastante alta e magra, saindo fora do comum da estatura e corpulência das mulheres italianas. Seus cabelos são muito louros, como os daquelas bonecas que tantas vezes víamos nas mãos das crianças do Brasil. Olhos castanhos muito grandes, que embora cansados, ainda brilham entre escuras olheiras, sinais de noites tremendas passadas na zona de guerra. Seu rosto pálido conserva apenas vestígios dos outros tempos quando era rosado, estampando a saúde de moradoras de montanha.

Rosa fala ligeiro, porém um italiano, correto, bem diferente daquele que fala o camponês, que é difícil de entender. Como me contou, estudou num colégio de Bologna, pois o pai era proprietário de uma loja sortida, da qual restam apenas ruínas.

O pai – “tedeschi portare via” (os alemães levaram). Os irmãos lutaram contra os alemães no Exército Norte Americano. Aliás, Xisto nasceu na América do Norte, onde o pai fizera algumas economias. Voltará brevemente para lá e sente-se satisfeito por ir morar numa terra onde o homem pode viver livre...

-Rosa, canta-continuavam a insistir os brasileiros.
-Não, dizia Rosa, não posso cantar.
-Por que?
-Não estamos em guerra...
Coitada, devia estar pensando, com certeza, no pai, na casa destruída, nas privações, e em tudo quanto lhe causaram tantas tristezas...

Os soldados, porém continuavam a pedir que Rosa cantasse. E Rosa acabou cedendo aos pedidos, e cantando.

Voz educada e bela, como poucas vezes ouvimos nesta região. E cantou: “L’ORGANETTO DEL BAGABONDO” (A GAITA DO VAGABUNDO).

Senti, francamente, o trágico daquela reunião. A figura de Rosa cantando a vida dos vagabundos, “que sonha com tardes fagueiras, que não suspira por amor que não tem, porque vive dos clarões da lua, e sombra da sorte”.

Pareciam-me ver todo este infeliz povo da Itália, que se tornou vagabundo, levado pelo egoísmo de um individuo que pode ter seus méritos, mas que fez a infelicidade de uma Nação.

O povo italiano, que se fez vagabundo, como se vê por todas as estradas agora, ou nas ruas das cidades, onde, mal se para, se vê rodeado de crianças e mulheres, pedindo uma “acatoleta” (uma caixa de ração).

Com que tardes fagueiras pode sonhar? Sobretudo, agora que deve reconstruir cidades, e em muitas delas, quase casa por casa por casa?

O “vagabundo” que sonha com um amor que não tem? Como este povo digno de dó e compaixão, que teve seus amores, tem seus grandes cultos e seus ideais, que amor pode ele sonhar agora? Ele que também vive dos clarões da luz, porque não lhes resta senão a sua pálida lua que clareia os campos vazios...

E, no meio de tudo isto, parece ainda zombar da sorte, como Rosa, pois no meio da tremenda realidade da guerra, ainda tem coragem de cantar...

Gostei da música da canção, porém, naquela hora e naquele ambiente, parecia-me que a figura abatida da moça interpretava toda a desgraça e toda a miséria de uma guerra, que nós, brasileiros, não queremos. E a escolha que fez, no grande repertório de canções italianas, não foi bem feita por ela. O vagabundo que, pelo mundo afora, cantou tocando, sem sonho, sem amor, sem casa e sem dinheiro, é a figura do povo da cantora.

Realmente, Rosa não foi feliz na escolha, porém zombando da triste sorte ela trabalha para uma Pátria melhor-livre, pacífica e feliz, como deve ser futuramente a Itália.

FONTE:
Do livro "Histórias de Pracinhas" Contadas por eles mesmos
Autor: Vet Maj Álvaro Duboc Filho

Matéria gentilmente enviada por
Zenaide Duboc
Filha do Vet Maj. Álvaro Duboc Filho
(Colaboradora do site)