2º Sgt Aloísio Odemar Lopes
Ex-Combatente da 2ª Guerra Mundial

11º RI – Regimento Infantaria – Regimento Tiradentes
São João del-Rei - MG

Natural de Salvador - BA

UNIDADE:
III/11º Regimento de Infantaria.

POSTO OU GRADUAÇÃO:
2º Sargento. Foi Comissionado no Posto de 2° Tenente pelo Comandante da Força
Expedicionária Brasileira, no dia 14 de abril de 1945, por ter se conduzido de modo
excepcional nas ações de combate a que tomou parte, revelando elevada capacidade
de comando. Retornando ao Brasil, reintegrou-se às fileiras do Exército. Foi transferido
para a reserva no posto de Capitão. Faleceu em Juiz de Fora em abril/1973.

CONDECORAÇÕES:
Medalha de Campanha
Medalha de Guerra
Cruz de Combate de 1ª Classe.


“Evidentemente que o Capitão Aloísio Odemar Lopes não foi entrevistado. Ele já havia falecido quando foi realizado o trabalho. Mas o Major José da Fonseca e Silva, seu amigo pessoal e que foi seu instruído e companheiro durante a Campanha da FEB, se propôs a realizar uma pesquisa e apresentar um trabalho sobre seu tão estimado amigo.

Com a palavra, o Major R.R. – José da Fonseca e Silva.

Capitão R/1 ALOISIO ODEMAR LOPES – Eu o conheci em 1º de março de 1941, na Companhia de Metralhadoras do Batalhão do 12º Regimento de Infantaria, então aquartelado em Juiz de Fora, justamente quando ocorreu minha incorporação como recruta.

Aloísio era 2º Sargento e exercia a função de auxiliar do 2º Pelotão de Metralhadoras.

Como seu instrutor no pelotão, pude observar bem o seu impecável comportamento militar, digno dos melhores encômios. Como monitor que era, revelava um instrutor capaz; um formador de soldados, pois durante o nosso período de recruta a sua assistência era constante. O seu modo de corrigir e de chamar a nossa atenção para algum erro cometido tinha qualquer coisa de peculiar que procurei somar aos meus conhecimentos e praticá-los durante toda a minha vida profissional. Ele não feria a dignidade que cada homem tem dentro de si mesmo; não quebrava o brio do indivíduo e não exigia de seus subordinados o impossível. Quando em forma para a chamada, no inicio da jornada de trabalho, ele observava bem a postura de cada um dos elementos do Pelotão.

Com a relação de efetivo na mão, procedia a chamada e ia anotando o número dos displicentes, isto é, os que tinham “os quadris quebrados”, os que tinham “a mão apoiada na arma” em vez de segurá-la corretamente,; os que “murmuravam” alguma coisa com os companheiros ao lado, etc.etc...

- Tem gente errada em forma!...- dizia.

Ao mais briosos se arrumavam. Somente após a terceira advertência é que nomeava o infrator.

- Soldado Fulano, o senhor é o responsável pelo Pelotão ter sido advertido três vezes. Tome a posição de descansar correta!...Hoje o senhor não terá dispensa da revista – sentenciava e esta sentença era pra valer, pois o Comandante da Companhia o tinha em alta conta.

Homem de temperamento calmo, trabalhador, extremamente dedicado a seus deveres, organizado e organizador, não podia deixar de merecer de seus superiores estima e consideração.

Por seus colegas e subordinados era respeitado e muito estimado. Por nós, seus instruídos, uma pessoa que respeitávamos e admirávamos. O que tinha de exigente nas horas de trabalho e de instrução, constatava com a maneira e descontraída e as vezes até brincalhona das horas de folga e de lazer.

Na Itália, com a FEB, servimos juntos na mesma Companhia ( 9ª CIA. do III/11º RI). Ele 2º e eu 3º Sargento. Nossas relações passaram então, a ser mais amistosas e me foi possível conhecer melhor aquele que tinha como meu líder. Em plena Campanha, suas qualidades extraordinárias de combatente foi revelada o que não nos surpreendeu e sim confirmou o conceito em que era tido. Hábil patrulhador, corajoso e sumamente responsável, foram as qualidades que motivaram a sua promoção por bravura no Combate de Monte Castelo.

Sua promoção ao posto de 2º Tenente, durante a Campanha, pelo Comandante da FEB, retrata perfeitamente o homem, o soldado e o combatente que era. No diploma de CRUZ DE COMBATE 1ª CLASSE que lhe foi conferido, consta o seguinte:

“O PRESIDENTE DA REPÚBLICA DOS ESTADOS UNIDOS DO BRASIL, resolveu. De acordo com o Decreto de 14 de dezembro de 1945, conceder a CRUZ DE COMBATE DE PRIMEIRA CLASSE ao Tenente ALOISIO ODEMAR LOPES – O 2º Tenente Aloísio Odemar Lopes ( 2º Sargento Aux do Pel. Petrechos, na ocasião do fato), no ataque ao inimigo à posições de sua Cia, em Guanela (Itália), na noite de 2 para 3 de dezembro de 1944, quando comandava o Pel. De petrechos na ausência do oficial, assumiu a iniciativa de realizar uma intensa barragem de morteiros 60m/m à frente da Cia. Na madrugada do dia 29 de janeiro de 1945, revelou bravura pessoal e ação de comando, no aprisionamento de uma patrulha alemã que se infiltrava no dispositivo da Cia. No dia 8/03/45, revelou ainda bravura pessoa quando, à testa de uma patrulha, penetrou no dispositivo inimigo e incendiou duas casamatas do mesmo. Rio de Janeiro, 1º de fevereiro de 1946, 125 da Independência e 58 da Republica (a) Pedro Aurélio de Góes Monteiro – Ministro da Guerra.

Após o combate de Montese, ocorrido no período de 14 a 18 de abril de 1945, a companhia foi retirada da área de combate para se recompletar e descansar na região de Campo Del Sole.

Nesse local, reencontrei o meu distinto amigo. Não nos víamos desde a antevéspera do início do combate e não tínhamos notícias um do outro. Foi grande a minha alegria e se tornou maior ainda quando soube que ele havia sido promovido a 2º Tenente. Eu também havia sido promovido e a nossa satisfação foi imensa. Abraçamo-nos comovidos. Para mim, a sua merecida promoção foi um alívio porque, se ele não tivesse sido promovido, aquele encontro do RECRUTA com seu FORMADOR seria penosa para mim.

O que mais admirava no ALOISIO, não era a sua competência profissional nem a sua bravura pessoal comprovada durante a campanha, mas a sua abnegação e resistência ao sofrimento em situação adversa e desconfortante. Ele tinha razões de sobra para deixar o “front” e voltar para a casa, pois tinha úlcera no estômago. Tive conhecimento disso por acaso, num curto descanso da nossa Companhia em Gaggio Montano. Apanhávamos refeição na mesma fila do rancho e notei que ele pedia apenas uma concha de mingau de aveia.

Seguimos juntos para assentarmo-nos à sombra, num rodapé de uma casa. Nessa oportunidade comentei:

- Ao que parece, o Senhor não está com fome, meu Sargento.

- Olha Fonseca – disse o Aloísio. Desde que entramos em combate, talvez devido a este frio danado, tenho sentido uma dor no estômago que me atormenta. Mas olha bem,eu não quero baixar ao Hospital, porisso você fica proibido de comentar o assunto desta nossa conversa. Esse mingau de aveia é o único alimento que não me faz mal.

Doeu-me muito ter que manter a discrição determinada, mas eu não podia trair a confiança de tão querido e respeitável amigo...

Após regresso ao Brasil, fiz-lhe mais de uma visita e fiquei sabendo que após algumas tentativas não cirúrgicas de tratamento, ele havia sido operado. Retiraram-lhe dois terços do estômago.

Todos nós temos os nossos tipos inesquecíveis. Na vida militar, o ALOISIO, o bom baiano de Salvador (Peri-Peri), é para mim, o tipo inesquecível. Eu o admirava muito porque era valente como um tigre e manso como um cordeiro.”

FONTE:
Do livro "Histórias de Pracinhas" Contadas por eles mesmos
Autor: Vet Maj Álvaro Duboc Filho

Matéria gentilmente enviada por
Zenaide Duboc
Filha do Vet Maj. Álvaro Duboc Filho
(Colaboradora do site)