Informativo da Aditância do Exército na Itália em Maio de 2005

“... e a cobra fumou!”

Editorial

Em setembro de 2004, lançamos “... e a cobra fumou!” com o objetivo de celebrar a participação da Força Expedicionária Brasileira na 2ª. Guerra Mundial, dando mais uma pequena contribuição para divulgar os seus feitos, já alvos de merecido espaço nos nossos principais meios de comunicação social, a exemplo do NE, da Revista Verde-Oliva e das páginas do Exército na Internet. Encerrado o Programa Comemorativo dos 60 Anos da Campanha da FEB na Itália, creio termos atingido o nosso objetivo. Nos últimos dez meses, foram lançadas 7 edições deste informativo, enviadas diretamente aos nossos públicos-alvos ou divulgadas na seção Panorama Internacional da página do CComSEx na Internet. Nesse período, foram destacados os principais acontecimentos ocorridos entre 2 de julho de 1944, data do embarque do 1º. escalão da FEB no Rio de Janeiro, até 8 de maio de 1945, dia da vitória aliada na Europa. Além disso, mereceram destaque os principais eventos dos quais esta Aditância participou ou promoveu, sempre com o foco na divulgação dos feitos dos nossos pracinhas, a exemplo da exposição de material na Semana da Pátria em 2004 e do lançamento do livro “Monumenti dedicati al soldato brasiliano” (Monumentos dedicados ao soldado brasileiro), de autoria de Fabio Gualandi. Por sinal, na presente edição, temos a satisfação de informar o lançamento de mais um livro italiano dedicado à FEB – confiram no final desta edição!


Continuaremos a divulgar as principais atividades desta AdiEx por meio do NE, da seção Panorama Internacional ou de outros meios de comunicação social do Exército Brasileiro.

Apresentamos os nossos agradecimentos a todos que, com suas palavras de apoio e sugestões, nos incentivaram na edição do informativo “... e a cobra fumou!”


Programa Comemorativo dos 60 Anos da Campanha da FEB na Itália


Em meados de junho de 2004, inspirados no itinerário percorrido pela Força Expedicionária Brasileira na sua campanha de 10 meses em solo italiano durante a 2ª. Guerra Mundial, começamos a esboçar um programa destinado a comemorar os 60 anos de uma das mais gloriosas páginas da história militar brasileira.


Não tínhamos, naquela altura, a noção exata da dimensão de tal empreendimento, que contou com o indispensável auxílio dos nossos colaboradores italianos mais próximos: Giovanni Sulla de Montese, Fábio Gualandi de Gaggio Montano e Mário Pereira, guardião do Monumento Votivo Militar Brasileiro de Pistóia, ex-cemitério da FEB. Com o Brasil, tornou-se intensa a troca de informações com o Estado-Maior, Secretaria-Geral e Gabinete do Comandante do Exército, além de associações de veteranos em Curitiba e Rio de Janeiro. Da mesma forma na Itália, com a Embaixada do Brasil em Roma e as nove prefeituras italianas envolvidas no projeto. Nos últimos meses, os reconhecimentos necessários e a preparação final passaram a absorver a maior parte da nossa atenção e esforços à medida que o evento se aproximava.

Hoje, algumas semanas após o encerramento das comemorações, temos a satisfação de constatar que o ponto alto das mesmas foi a grande participação popular em Stafoli, Porretta Terme, Pistóia, Montese, Gaggio Montano, Vergato, Collecchio e Fornovo di Taro, numa evidente demonstração do respeito e sentimento de gratidão ainda presentes nas comunidades por onde a Força Expedicionária Brasileira passou há mais de sessenta anos. Ressalte-se ainda o fato de que, além da comitiva oficial do Exército Brasileiro, cerca de 100 pessoas, entre elas 30 veteranos, vieram do Brasil acompanhados de familiares ou amigos, especialmente para as solenidades, em que pese as dificuldades de ordem financeira e a faixa etária dos ex-pracinhas, superior aos 80 anos.

A delegação oficial do Exército Brasileiro foi chefiada pelo Gen Ex Ivan de Mendonça Bastos, Chefe do Departamento de Ensino e Pesquisa e integrada por quatro veteranos convidados pelo Comando do Exército: Gen Domingos Ventura, Presidente da Associação dos Ex-Combatentes, Cel Sérgio Pereira da Costa, Presidente da Associação Nacional dos Veteranos da FEB, Maj Ruy de Oliveira Fonseca e Ten Israel Rosenthal. Os Regimentos Tiradentes, Ipiranga e Sampaio, unidades que compuseram a 1ª. Divisão de Infantaria Expedicionária, foram representados pelos seus atuais comandantes, respectivamente, TC João Wayner da Costa Ribas, TC Antonio Carlos de Souza e TC Marcos Tadeu Barros de Oliveira.

A lamentar, a morte do veterano José Leski, de Curitiba, ocorrida quando o ex-pracinha -- após ter participado de toda a programação comemorativa dos 60 anos -- deslocava-se para Milão, onde embarcaria de regresso para o Brasil, ao fim de um passeio turístico pelo norte da Itália.

A esse bravo febiano, o nosso mais profundo respeito e admiração.


Percorrendo os caminhos da FEB, 60 anos depois

Em 4 dias, foram realizadas solenidades nas seguintes localidades, já citadas:
-Staffoli, local do 11º. Depósito de Pessoal durante a campanha da FEB e onde os pracinhas construíram uma rústica capela de pedras dedicada a Nossa Senhora, sinal da religiosidade do povo brasileiro, e que permanece intacta até os dias de hoje;

-Porretta Terme, local do QG da FEB entre novembro de 1944 e abril de 1945;

-Pistóia, local do ex-cemitério da FEB, hoje Monumento Votivo Militar Brasileiro;

-Montese, cidade liberada pela FEB em 14 de abril de 1945, após intensos combates urbanos, caracterizados pela feroz resistência alemã rua a rua, casa a casa;

-Gaggio Montano, município que abriga Monte Castelo, conquistado em 21 de fevereiro de 1945, após cinco tentativas aliadas, as três últimas empreendidas exclusivamente pela FEB, que obteve ali uma das suas mais sofridas vitórias;

-Vergato, município onde situa-se Castelnuovo, local da importante vitória obtida em 5 de março de 1945;

-Collecchio e Fornovo di Taro, municípios onde ocorreu o cerco e a rendição da 148ª. Divisão Alemã, um dos feitos da FEB de maior repercussão durante a sua vitoriosa campanha na Itália.

Percorreu-se, dessa forma, parte do itinerário que os nossos pracinhas traçaram entre 16 de julho de 1944, data do desembarque do 1º. Escalão da FEB em Nápoles, e 8 de maio de 1945, escrevendo uma das páginas mais gloriosas da história militar brasileira.

Abaixo, mais alguns destaques da programação em imagens:


Em Stafoli, veteranos revêem o local onde ficou instalado
o 11º. Depósito de Pessoal da FEB na Itália.


Em Porretta Terme, a prefeitura inaugurou uma placa em homenagem à FEB
junto ao monumento dedicado a seus cidadãos mortos durante a 2ª. Guerra Mundial.


Detalhe da placa inaugurada em Porretta Terme: “Aos gloriosos soldados da FEB
no 60º. Aniversário da sua participação na Campanha da Itália.
A população porretana reconhecida pela liberdade reconquistada”.


Crianças italianas de uma escola de Montese
entoam, em Português, a Canção do Expedicionário.


Em Montese, um tradicional cortejo cívico marcou as comemorações.
Após os estandartes, o Embaixador do Brasil na Itália, Sr Itamar Franco,
acompanhado pelo Chefe do DEP, Gen Ex Ivan de Mendonça Bastos.


Em Gaggio Montano, ao pé de Monte Castelo,
o Prefeito Bruno Gualandi saúda a delegação brasileira.


Em Vergato, onde, em 5 de março de 1945, registrou-se a vitória da FEB em Castelnuovo,
a delegação brasileira foi recebida pela comunidade ao som do Hino Nacional Brasileiro.


Em Collecchio, o Gen Ex Bastos, juntamente com o Prefeito
Giuseppe Romanini, inaugura um novo monumento dedicado à FEB na Itália.


Detalhe do novo monumento construído no local onde foi assinada a
rendição da 148ª. Divisão Alemã à FEB em 29 de abril de 1945.


A partir da esquerda, os veteranos Maj Ruy, Cel Sérgio (Presidente da ANVFEB)
e o Ten Rosenthal na cerimônia de Neviano di Rossi.
À direita, o Sr Giovanni Sulla, trajando uniforme usado pela FEB.


Em Neviano di Rossi, crianças cercam o Maj Ruy de Oliveira Fonseca,
repetindo-se cenas ocorridas há 60 anos, na campanha da FEB na Itália,
narradas no seu livro “A outra face da glória”.


Lançado mais um livro na Itália dedicado à FEB

Foi lançado em Montese, durante o Programa Comemorativo dos 60 Anos da Campanha da Força Expedicionária Brasileira na Itália, o livro “Gli eroi venuti dal Brasile” (Os heróis vindos do Brasil), de autoria do Sr Giovanni Sulla e do Professor Ezio Trota. Trata-se de um rica compilação de fotografias históricas, a maioria pertencente à coleção particular do primeiro, concatenadas por meio do texto claro e objetivo do médico e historiador Ezio Trota.


Além das fotos, a reprodução de posters, propagandas de guerra, jornais, cartas e selos da época conduzem o leitor por todas as fases da participação da nossa Força Expedicionária na 2ª. Grande Guerra, constituindo-se em mais uma valiosa contribuição italiana no intuito de se preservar a gloriosa memória da FEB.


Capa do livro Gli eroi venuti dal Brasile.


Faz 60 anos...


Dos meses de abril e maio de 1945, destacamos os seguintes eventos:


- Abril (*):


No dia 8, a reunião no quartel-general do IV Corpo do Exército Norte-Americano, em Castelluccio, que definiu os planos para a ofensiva final aliada no Vale do Pó. Dela participaram o Comandante da FEB, Gen Mascarenhas de Morais, e seu Chefe da Seção de Operações, o Tenente-Coronel Castelo Branco;

- no dia 11, instalação do QG da FEB em Gaggio Montano;
- no dia 14, o ataque a Montese, consolidado no dia 18;
- a partir do dia 19, o aproveitamento do êxito e a perseguição ao inimigo, com as conquistas sucessivas de Zocca (dia 21) e Manaro-Vignola (dia 22, assinalando a entrada no Vale do Pó);
- nos dias 24 e 25, a transferência do QG avançado da FEB para Vignola e Montechio, respectivamente;
- no dia 27, a vitória de Collecchio e o cerco das tropas alemãs;
- no dia 28, o ataque a Fornovo di Taro e
- no dia 29, a rendição incondicional e aprisionamento da 148ª. Divisão Alemã, num total de 14.779 homens.
- Maio:
- no dia 2, o 11º. RI chega a Turim;
- no dia 8, a rendição incondicional das Forças do Eixo ao Comando Aliado e
- no dia 9, a batalha pela liberação de Praga, encerrando, na Europa, a 2ª. Guerra Mundial.
(*) Dados extraídos do livro “MEMÓRIAS”, do Mal Mascarenhas de Moraes)



Aditância do Exército na Itália - A Imprensa Noticiou
Gazzetta di Parma - 26 de Abril de 2005
Comoção e Gratidão ontem durante o 60º aniversário do mais importante
evento bélico da luta contra os nazi-fascistas "Os libertadores que vieram do Brasil"


Ontem em Collecchio e Fornovo os veteranos que combateram no cerco

Quando começou a Segunda Guerra Mundial, no Brasil alguém disse que seria mais fácil ver uma cobra fumar do que os brasileiros irem à Europa para combater. Depois, do país sul-americano partiram 25 mil homens, que desembarcaram na Itália em julho de 1944 e muito contribuíram para liberar nosso País. E o símbolo que a FEB (Força Expedicionária Brasileira) escolheu para empreender esta luta não poderia ter sido outro um cobra fumando. O mesmo símbolo que, ontem, exibiam com orgulho tantos veteranos brasileiros presentes em Collecchio e, posteriormente, em Fornovo, para comemorar, em 25 de Abril, o mais importante entre os episódios da guerra de Liberação na província de Parma: o cerco de Fornovo.

Voltaram para a Itália justamente para refazer os mesmos caminhos percorridos entre 44 e 45, ajudando os Aliados a combater os nazi-fascistas. Ontem terminaram o roteiro em Collecchio e Fornovo, onde a delegação, chefiada pelo General-de-Exército Ivan de Mendonça Bastos, foi recebida com todas as honras pelo prefeito Giuseppe Romanini, pelo conselheiro regional Alfredo Peri (que fez o discurso oficial em ocasião do 25 de abril), pelo assessor provincial Ugo Danni e por uma multidão de habitantes de Collecchio que fizeram questão de receber quem, há sessenta anos atrás, deu uma contribuição determinante para a liberação do próprio país. Em frente do Município, hinos nacionais, discursos, troca de brindes, mas sobretudo muita comoção: gratidão por um lado, emoção e orgulho do outro.

Depois formou-se um cortejo escoltado por uns dez jeeps militares da época, colocadas à disposição pela associação de "Colecionadores de veículos militares históricos", onde figurantes vestiam as uniformes brasileiros originais da associação "Irmãos da Montanha". Em Pontescodogna, houve a inauguração de um marco comemorativo no lugar onde existia a casa em que foi assinada a rendição incondicional dos nazi-fascistas. Em seguida, o deslocamento para Fornovo, onde os pracinhas brasileiros receberam as boas vindas do prefeito Fiorenzo Bergamaschi e, também aqui, havia muita gente para expressar gratidão aos libertadores que vieram do novo mundo.

Falam os protagonistas provenientes além do oceano. "Em Collecchio, batalha rua a rua" Com a invejável idade de noventa anos, o major de infantaria Ruy Fonseca não hesitou um instante em viajar do Brasil para a Itália para comemorar os 60 anos da heróica expedição brasileira na Itália. Ele, que na época era recém viúvo, deixou dois filhos com os sogros para combater no nosso País com a FEB. Ontem, estava muito emocionado em rever os lugares onde combateu com seus homens. "Em Collecchio combatemos rua por rua, casa por casa. Atiramos com os lança-rojões, morteiros e metralhadoras e, depois, começamos a fazer prisioneiros. Cercamos os alemãs pela esquerda e o outro regimento pelo outro lado, até que levantaram a bandeira branca".

"O máximo respeito por todos os presos" Entre os combatentes brasileiros que naquele histórico abril de 1945 atuaram em Collecchio, estava também o Coronel Jairo Junqueira da Silva. E, também ele com oitenta e cinco anos, não podia deixar de participar da viagem da memória que induziu centenas de brasileiros a repercorrer, na península, as trilhas percorridas pelos soldados há sessenta anos atrás. Ontem em Collecchio, também ele relembrou as recordações daqueles dias de tormenta e de glórias. "Eu e meus homens fomos encarregados pela vigilância dos alemães aprisonados: dentro da igreja da cidade haviam mais de quatrocentos. Um dia chegou um "partigiano" que queria pegar um para fuzilá-lo, mas nós não deixamos: para nós eram prisoneiros de guerra e tinham que ser respeitados."

O CERCO DE FORNOVO: sul-americanos e "partigiani" juntos: crônica de uma vitória. Nas primeiras horas de 25 de abril de 1945, três destacamentos da 31ª Brigada Garibaldi "Coppello", em marcha na direção de Parma, encontram na área de Vicofertile-Vignolante uma unidade alemã em recuo, que terá algumas mortes; na ação morre também um partigiano. De imediato se dá o alarme. Completam assim as fileiras o restante da 31ª Brigada "Coppelli", o batalhão "Bragazzi" da 12ª Garibaldi, a 135ª Garibaldi, a 78ª Sap e as brigadas "Silicato" e "Barbagatto". Estas tropas conseguem conter as forças inimigas, que estão se juntando em volta de Fornovo, até a noite de dia 26, quando, de modo decisivo, intervém a Força Expedicionária Brasileira (FEB). Os combates para rechaçar as tentativas inimigas de sair do cerco continuam até dia 29, dia no qual, em Pontescodogna, é assinada a rendição ao Gen Mascarenhas. O número dos nazi-fascistas capturados varia, conforme as estimativas, de 18 mil para 20 mil e inclui toda a 148º Divisão de Infantaria, e remanescentes da 90º Divisão Motorizada e da Divisão Itália.



"Il Giornale" - 24 de Abril de 2005 - Marco Lombardo.


A HISTÓRIA ESQUECIDA
OS BRASILEIROS QUE LIBERARAM O APENINO
FAZENDO A GUERRA NO RITMO DE SAMBA
A aventura esquisita dos 25 mil sul-americanos que lutaram
contra os nazistas nas montanhas entre a Emília e a Toscana


Este é um 25 de Abril um pouco esquisito, repleto de sabores antigos e de hinos militares no ritmo de samba. Este é um 25 de Abril diferente, vivido pela outra parte do mundo, mas com o coração e a mente nas montanhas italianas, aquelas do Apenino da Toscana e da Emília, há sessenta anos atrás. Esta é, também, a história de Cesarina e Maria, mas é também o fator humano que une países separados por milhares de quilômetros, mas unidos para sempre. Esta é História, lembrada em um pequeno museu de uma cidadezinha, em Montese, a história da FEB, a Força Expedicionária Brasileira, que poucos, hoje, lembram mas que permanece como uma parte de nossa Liberação.

Tudo teve início em 1942, quando o governo populista de Getulio Vargas decidiu que o Brasil estava defronte a uma mudança: os submarinos da Itália e da Alemanha tinham acabado de afundar mais de trinta navios da marinha sul-americana, com mais de mil mortos, enfim uma afronta a ser vingada. Antonio, que hoje vive em Montese, o bairro de Fortaleza criado após a guerra - depois desta história - no estado do Ceará, relembra quando tinha 16 anos: "Ingressar no Exército era o único modo para trabalhar. Quando tal situação se precipitou, era tarde demais para voltar atrás". Vargas decidiu ficar ao lado dos norte-americanos e organizou um batalhão de 25.334 soldados, a FEB. Um batalhão de gente que nunca tinha visto a guerra, nunca havia lutado. E que partia para defender um valor que não conhecia: a democracia.

Lembranças. Em 22 de agosto de 1942, a declaração de guerra ao Eixo; logo após, a partida: "Dirigimo-nos para Nápoles: na altura de Capri, as ondas do mar que batiam nas pedras formavam um arco-íris belíssimo. Era maravilhoso. Depois, chegamos ao porto e entendemos no que nos tínhamos metido. Tudo estava destruído". Lembranças. De Nápoles a viagem para a Toscana nos campos de adestramento dos EUA próximos de Pisa, incorporados ao 5º Exército (Norte-Americano), onde nos entregaram os armamentos e os uniformes. Partida de Camaiore, depois, os primeiros sucessos em Massarosa, a lenta progressão e a decisão de encarregar a FEB da missão de conquistar a vale do Alto Reno, de empurrar a Linha Gótica, até fragmentar as defesas dos alemãs. "Ninguém de nós sabia para onde estávamos indo. Muito cedo entendemos aonde tínhamos chegado".

A batalha foi terrível: "A guerra chegou de improviso e violenta - relembram naquela região -. Foi como uma tempestade de chuva com as deflagrações das bombas como trovões". Em Monte Castelo, os alemães fizeram recuar por quatro vezes os brasileiros, que começavam a conhecer o frio e o medo. As populações locais os tinham adotado, na cidade, lembram que eles "não eram como os alemães, que raptavam e matavam a sangue frio. Eles eram diferentes, nós davam comida, não se comportavam como um exército ocupante". Os italianos colaboravam, os brasileiros se tornavam de casa. Também Cesarina lembra os seis meses como refugiada em Porretta Terme: "Nos davam a sua comida, enlatados, mas para nós era um banquete. Me sentia como uma Rainha". O mingau, o fejão preto, coisas esquisitas. Também o cantor Francesco Guccini relembra disto no documentário "La sottile linea brasiliana"; ele, de Pavana, que nunca tinha visto aqueles esquisitos nabos vermelhos: "Era facinado pela aquela cor. Provei-os, e naturalmente, não gostei".

Criou-se uma espécie de irmandade. E, nesse tempo, a guerra, crua e sanguinária, "meses dentro uma trincheira sem ter condições de tomar um banho. E depois, as batalhas - conta Ruy -: um dia passou, rente a mim, um tiro e, ao mesmo tempo, uma granada explodiu acima da pedra que me protegia. A minha volta, o sangue de meus colegas, mas eu estava vivo. A guerra é questão de sorte, somente de sorte". A situação mudou após o inverno de 1944, depois daquele 24 de dezembro em que um jovem tenente brasileiro viu algo que não conhecia: "Havia aquela coisa branca que caía do céu, chamei meus colegas. O dia seguinte, Natal, era tudo branco, acolchoado, nos deixava sem palavras: uma cena que nunca irei esquecer. Eu tinha descoberto a neve". Dormiram por dias naquela neve "esperando que tudo acabasse". Depois, chegou a primavera e os Aliados mudaram de estratégia: abandonaram a estrada para Bolonha e pegaram aquela para Modena.

A vitória, finalmente, de Monte Castelo, conquistado em 21 de fevereiro de 1945. Depois Gaggio Montano, a Abetaia. E depois, os norte-americanos em Monte Belvedere com os brasileiros na conquista de Montese, o último baluarte alemão, a batalha mais dura. Em 19 de abril, às 9 horas , começaram os combates porta a porta: o rochedo, as casas, o centro, tudo era entulhos. Quatro dias, 39 mortos e 365 feridos; depois, a FEB tinha liberado a cidade e aberto o caminho para a vitória final. Porque depois o resto do caminho foi em descida, para Zocca, Vignola até Collecchio, Fornovo e Alessandria, o dia do término da guerra, o 2 de maio. Quatrocentos quilômetros de terra que custaram 465 mortos e 2.722 feridos. Vinte anos depois, Humberto Castelo Branco, um dos veteranos daquela batalha, tornou-se Presidente da República do Brasil. E sessenta anos depois, ontem, em Montese, aquela italiana, esta história um pouco esquecida foi celebrada com uma festa, contando com a presença de uma delegação brasileira chefiada pelo embaixador na Itália.

Agora, no bairro gêmeo do Ceará, os jovens não sabem e os velhos lembram com discrição: "Para eles entenderem o que é uma guerra, deveria ter uma aqui. É melhor que não o saibam nunca". Cesarina, no entanto, lá no Apenino prepara as "tigelle" (uma espécie de pão - tira-gosto) na pousada do filho Mario e da nora Chiara, cantando uma música brasileira, enquanto Maria - que morava uns cem quilômetros mais no vale - conta a sua vida na casa no Rio onde acaricia a mão do seu Arthur: "um dia meu pai me chamou: "Vem, estão aqui alguns soldados, falam um idioma que parece o linguajar de Genova". Olhei para um deles, era lindo, era ele". Não fui a única que foi embora. Porque aqueles da FEB, sepultados com os companheiros no cemitério, que se encontra ainda hoje em Pistóia, voltaram à Pátria como herois: os norte-americanos deram para eles de presente indústrias e maquinários portuários, os italianos, dezenas de moças para casar. Por isto, agora em Montese, aqui no Apenino e longe no Ceará, se comemora. Porque este 25 de abril, de qualquer lado o se olhe, faz parte de nossa História.


FONTE: Site oficial do Exército Brasileiro - www.exercito.gov.br