Sete
de Abril de 2006 |
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Os convidados vem chegando para mais um aniversário. Em 1960 foi inaugurado o Monumento Nacional aos Mortos da 2ª. Guerra Mundial. Singelo e artístico conjunto de granito abrigando mausoléu. 15 anos após o término do conflito recebeu 462 soldados brasileiros da FEB, sacrificados nos campos de batalha da Itália, enfim retornando ao solo pátrio trasladados do Cemitério Militar de Pistóia. Em navios mercantes e da Marinha do Brasil, mais de 1000 compatriotas foram vitimados em covardes torpedeamentos por submarinos nazistas. Apenas seus nomes estão eternamente gravados no mármore. Seu túmulo foi o mar. Subindo a escadaria a Chama Eterna se revela. Por coincidência, no dia de hoje as sinagogas recordam pela leitura da porção semanal da Torá a data em que Deus falou a Moises no Deserto do Sinai, instruindo-o para que o fogo no Altar do Tabernáculo queimasse permanentemente, e que transmitisse a Aron e seus filhos a missão de servirem como Cohanim (sacerdotes), reunindo o povo diante da tenda do tabernáculo. Mas na Cabalá está escrito que não existem coincidências. Outra prova de que Deus é brasileiro... O Grande Arquiteto do Universo assim quis. Que os nossos bravos soldados ficassem sob a guarda de uma chama que também queimasse para todo o sempre, e onde o povo igualmente se reunisse diante deste verdadeiro Tabernáculo da Pátria, onde o granito é que forma a tenda. Diante das paredes do Monumento, recobertas pelos nomes de centenas de heróis, ao longo dos anos se sucederam as presenças de tantos veteranos combatentes, brasileiros e das Nações Amigas. Mas desta vez estas paredes testemunham visitante diferente, mas que como os Pracinhas também foi jovem Soldado. Aleksander Henrik Laks tem orgulho em declarar-se brasileiro, apesar do nome. Por opção, adotou esta terra abençoada como Pátria, após salvar-se milagrosamente do inferno de Auschwitz, campo de concentração nazista, na Polônia que o viu nascer. Laks também foi um soldado embora jamais tivesse empunhado uma arma, quase criança tendo vestido uniforme apenas como trabalhador escravo, e mais tarde de prisioneiro. A coragem, a perseverança de um verdadeiro guerreiro o conduziu pelos caminhos do inferno, de onde somente escapou pela sua determinação de obedecer ao ultimo desejo do pai, que vivesse para contar e recontar aquela historia quase inacreditável.
A cerimônia está prestes a começar. O Administrador do Monumento, Coronel de Artilharia Amauri SANTOS DE OLIVEIRA, teve por feliz iniciativa comemorar os 46 anos do Monumento por um Culto Ecumênico abrangendo cinco das religiões prevalentes em nosso país. Os preletores pronunciam boas palavras, diante dos túmulos de valentes soldados. Sob as lápides, 13 deles jamais foram identificados. Em lugar do nome na pedra fria consta “Aqui Jaz um Herói da FEB. Deus sabe seu Nome”. Duas lápides estão em branco sobre túmulos vazios, de heróis desaparecidos cujos corpos jamais foram encontrados. O Rabino STAUBER recorda o quanto seus correligionários tanto devem aos soldados brasileiros que ali repousam, seguido pelas palavras do Comandante Capelão Católico BARBOSA, do 1°. DN, reverenciando os bravos pracinhas, lembra que aqueles que confiam no Senhor não se decepcionarão. O Capitão Capelão Evangélico XAVIER do CML faz uma elegia aos heróis que com suas vidas nos deram um legado de liberdade e democracia, seguido pelo Cel NASCIMENTO, representando a Cruzada Militar Espírita, evocando os que tombaram lutando, e diante dos quais estamos, admirando suas luzes irradiantes. O Cel OLIVEIRA, representante da Igreja Messiânica do Brasil finaliza com a lembrança do Marechal Mascarenhas, Comandante da FEB.
Os presentes se emocionam ouvindo a composição do genial Villa-Lobos, “Evocação aos Heróis da Pátria”. O Cel SANTOS DE OLIVEIRA ressalta o desejo de que o Onipotente preserve o Brasil dos horrores da guerra, embora estejamos sempre prontos para defender a Pátria, e convida os agraciados para receber diplomas de reconhecimento. Do mausoléu onde foi celebrado o Culto nos dirigimos para o pátio externo. Diante do bolo de aniversario com o emblema do Monumento, novas emoções, com a fala sentida da Major Elza Cansanção, veterana da Itália, que declara entre lágrimas o quanto a Pátria deve aos que estão ali em baixo. Como Ten Enf, ela e suas colegas enfrentaram os rigores da guerra para trazer alivio aos pracinhas que sofriam. As crianças da Escola Pública Tamandaré aguardam buliçosas o momento de partir o bolo, mas as palavras do Senhor Laks como por encanto fazem cair um silencio absoluto que corta abruptamente o burburinho da festa: “Sou um sobrevivente de uma das maiores tragédias que se abateu sobre a Humanidade”.
Novamente ele honra a determinação paterna, e encerra sua breve fala louvando o valor dos pracinhas que também participaram do esforço para libertá-lo, e a tantas outras vítimas do totalitarismo. A visão das crianças inocentes uniformizadas nos reforça a esperança de que um mundo melhor é possível. Diante do Gen Div Roberto Viana MACIEL dos Santos, Diretor de Assuntos Culturais do Exército, a Major Elza e o Sr Laks partem o bolo de aniversario. O capital simbólico da cena é por demais relevante. Um ato revelador da grandeza humana, reunindo duas personalidades marcantes que não mediram sacrifícios na luta que travaram, cada um à sua maneira, em lugares gelados e distantes. Jamais se viram antes, mas seis décadas depois se reúnem em uma terra abençoada, simbolizando a vitória dos melhores ideais da Humanidade. A festa vai terminando. Os convidados retornam às suas casas. No caminho para o estacionamento, um senhor idoso, roupas humildes, a barba por fazer. Teria sido um ex-combatente? Sempre aparecem veteranos quando há solenidades no Monumento. Às vezes se fazem presentes apenas à distância, às vezes alguém os reconhece como antigos heróis de cruentas batalhas. De repente ele desapareceu. Mas como, tão rápido?
O Todo Poderoso embala as almas dos que foram justos sobre a Terra, as protege, e às vezes permite que elas retornem a este Vale de Lágrimas, em fugaz descida. As nuvens brancas como flocos de algodão sobre os gramados verdes do Parque do Flamengo e o vento que sopra da baía evocam lembranças dos céus e dos mares desafiados pelos nossos valentes pracinhas. Saímos com uma certeza. Eles estiveram sim ali pelo alto observando, em jubilo pela recordação dos seus feitos heróicos. Enquanto os estudantes de todos os graus receberem por ensinamento a história das suas façanhas, enquanto historiadores descreverem as suas batalhas, enquanto forem lembrados em praça pública, em pensamento e orações, eles continuarão retornando. Portanto, recordemos sempre nossos heróicos Pracinhas.
"A melhor homenagem que lhes poderemos prestar será manter viva a sua memória de lutas, pelo Brasil e pela Liberdade Universal". |
FONTE:
Prof. Israel Blajberg
Da Associação dos Ex-Alunos CPOR / RJ, Integra a equipe
que levanta os Heróis Brasileiros Judeus da II Guerra Mundial.